terça-feira, 19 de setembro de 2017

Ensaio sobre Espaço, Tempo e Consciência - e seus desdobramentos

O tempo é percebido de forma distinta por cada um de nós. E mesmo para um mesmo indivíduo, o desdobrar dos momentos pode ser vivenciado conforme o tipo de experiência (atividade) que ele estiver realizando. E essa percepção, a meu ver, diz muito a respeito do grau de consciência em que cada um se encontra.

A percepção do tempo se altera à medida que somos capazes de pensá-lo. E também de senti-lo. É notório constatar que, quando estamos com imersão total numa atividade, todas percepções relacionadas a medições de tempo parecem desaparecer em nosso interior. Quando isso ocorre a mente fica livre de pensamentos relacionados ao tempo - quanto tempo tenho, qual o prazo, que horas é o almoço, o que farei amanhã, como pude fazer aquilo ontem, etc. A liberdade de pensamento não mais fica restrita ao tempo - apesar de nosso organismo físico estar obedecendo às suas leis. Isso amplia a atuação no mundo concreto.

Vejamos um exemplo que o Cinema nos traz.

No filme Gattaca (1997) a história se passa num futuro próximo, no qual é possível projetar geneticamente os descendentes. Nesse filme haviam dois irmãos, um deles geneticamente otimizado (projetado), outro não (natural). Ambos tinham o costume de realizar competições no mar: o que nadasse mais longe mar adentro venceria a competição. É claro que o irmão geneticamente selecionado sempre ganhava essas competições.

Gattaca (1997) - alguns esboços do monumental sistema
apresentado e sistematizado em A Grande Síntese.
No entanto, lá pelo fim do filme, quando ambos nadam, num dia chuvoso e trovejante, ocorre o inesperado: o irmão "inapto" vence por ampla margem. Nada muito além do esperado - pelo irmão e por ele mesmo. "O que ocorreu?", o outro pergunta. "Como você venceu? Qual foi o truque?" se indaga o irmão selecionado. E o outro simplesmente responde: "Eu nunca pensei na volta." Transcender paradigmas...

Era lógico que, nadando mar adentro até um ponto, alguém saiba que o tanto que se avançar para dentro deverá ser o mesmo tanto que deverá ser recuado para retornar à praia. Trata-se de um cálculo de segurança, natural a todo ser humano racional. No entanto, essa racionalidade - muito importante para nossa sobrevivência e desenvolvimento - se torna restrita a partir do ponto em que você se vê diante da necessidade de, num dado momento de sua vida, ir além das suas capacidades humanas. para captar um novo conceito, criar um novo sistema ou construir uma nova máquina. Para superar isso foi necessário esquecer a mente da segurança sistematizadora e abraçar o sentimento libertador da intuição. Intuição esta que não nega a mente, mas apenas supera-a em certos momentos críticos. 

A partir do momento em que a dimensão espaço-tempo deixa de dominar o campo psíquico por completo, as barreiras das restrições mentais esvanecem e os caminhos para a realização dos objetivos utópicos começam a se delinear. Eis que na materialidade do mundo avança-se um pouco mais, contra todas expectativas do cálculo, da genética, das projeções. E assim a razão se espanta e inicia a sondar o fenômeno. "O que ocorreu?", "Como?", "O que não considerei no meu modelo?". E assim se vê forçada a reconstruir seus métodos até ao ponto de refazer hipóteses e até mesmo questionar seus fundamentos. Os axiomas são abalados e adentra-se no imponderável. A Ciência chega às portas do Espírito. As Humanidades se incorporam de forma cada vez mais sólida na Ciência. A concepção de dilata. A Filosofia se renova, excluindo seus excessivos sistemas, teorias e formalismos. A Religião se desnuda e encontra um laboratório que a conecta à vida das pessoas. Força e fé.

Espaço e tempo, antes considerados dimensões desacopladas, se fundem com a Teoria da Relatividade (Einstein) no século XX. As implicações são muito mais metafísicas do que físicas. O mundo começa a perceber o que significa de fato a curvatura do espaço-tempo. A dimensão "tempo" deixa de ser absoluta, revelando ser apenas um aspecto de nosso universo decaído. Aspecto que dita o ritmo de transformismo da matéria e dos seres, no qual tudo que existe nasce e morre: lógica econômicas, sistemas políticos, ideias, idiomas, pessoas, animais, plantas, planetas, estrelas, galáxias,...

A partir do momento que se atinge a intuição plena, libertamo-nos das barreiras espaço-temporais. A síntese é realizada não na base da sequência, e sim na da simultaneidade. Tempo é a dimensão característica da substância na forma energia; assim como espaço é a dimensão característica da substância na forma matéria. A consciência é a dimensão psíquica da substância na forma espírito. Nessa dimensão inicia-se o processo de superar aquelas precedentes (espaço-tempo). Por exemplo: podemos conceber mentalmente passado, presente e futuro, prevendo e recordando ações no tempo. Ou seja, superamos o tempo com a mente. Podemos abraçar o universo conceptualmente - mas não materialmente. Estamos limitados apenas pelas barreiras das dimensões que julgamos existirem permanentemente e serem únicas. 

"Assim como são infinitas as fases evolutivas, também são infinitas as respectivas dimensões. Eis como nosso olhar pode superar o tempo e o espaço, que são apenas duas dimensões contíguas dentre as infinitas dimensões sucessivas."
A Grande Síntese - Cap. 36. Gênese do Espaço e do Tempo

É necessário destacar a existência de dois tempos: o do devenir fenomênico (absoluto) e o sequencial (relativo).

A Figura 4 do texto de 25/08 ("Emborcamento do Rumo Natural") mostra o desenvolvimento das dimensões numa forma simplificada. Nele, vemos a gênese e conclusão da dimensão "tempo". No entanto, o devenir vai do abismo no infinito negativo à plenitude do infinito positivo, sendo portanto algo diferente daquilo que estamos habituados a denominar como tempo. É imensurável para nossa concepção, mas permeia todas dimensões. Logo, o "tempo" no diagrama deve ser lido de forma diversa, mais ampla, não-mensurável. Como uma progressão.

O tempo sequencial do nosso universo relativo é capturável pelos nossos sentidos. O devenir fenomênico que engloba nosso universo - e vai muito aquém e além - não é capturável (ainda) pelos nossos sentidos. Também não é compreendido. Logo, a mente hodierna considera esses conceitos como tergiversações filosóficas divertidas sem nenhum implicação na vida cotidiana. No entanto, - e isso será constatado futuramente - será no momento em que todos nossos sistemas ruírem e nosso desespero beirar o abismo da inexistência que mais afoitamente nos voltaremos para esses conceitos, únicos que contém as chaves para as libertadoras dimensões superiores. Muitos sábios vêm trazendo esses conceitos, de forma cada vez mais elaborada (Baghavad Gita de Krishna, Tao Te Ching de Lao Tsé, Evangelho de Cristo, Pascal, Spinoza, Rohden, Bergson, T. de Chardin, Ubaldi,...), adaptada aos nossos tempos, necessidades e desafios.

"Nas fases inferiores, o tempo só existe em sentido mais amplo, entendido como ritmo do devenir, propriedade de todos os fenômenos, e não como consciência do transformismo, propriedade das forças. Facilmente compreendeis a revolução que trazem esses conceitos em vossa ordem habitual de ideias."
A Grande Síntese - Cap. 37. Consciência e Superconsciência. Sucessão dos Sistemas Tridimensionais.

Leia-se "fases inferiores" como aquelas precedentes à existência do tempo. É de fato muito difícil compreender isso, uma vez que antecedência nos remete diretamente à ideia de tempo - nosso tempo sequencial.

"Ao deslocar-se no tempo, o fenômeno adquire em β uma consciência própria, linear, a primeira dimensão conceptual."
A Grande Síntese - idem

O movimento é o que os nossos sentidos captam na dimensão tempo. O volume se desloca com o desdobramento da substância em sua forma β (energia) . 

"Em α, estamos na fase subumana e humana de consciência mais completa, onde temos a segunda dimensão conceptual, correspondente à superfície no sistema espacial. Assim como da linha se passa à superfície, com deslocamentos em novas direções extra-lineares, também a consciência humana, por deslocamentos semelhantes, invade o devenir de outros fenômenos, diferencia-se deles, aprende a dizer “eu” e a perceber a própria individualidade distinta das outras, dobra-se sobre o ambiente, projeta-se para fora (a nova dimensão), observa e julga. Essa projeção para fora, característica da segunda dimensão, é alcançada por meio dos sentidos, que, na primeira dimensão, eram desconhecidos."
A Grande Síntese - idem

No tempo a matéria é animada. Posteriormente a vida emerge. Uma forma de energia degradada (eletricidade) entra em contato com elementos químicos específicos (H,N,C,O). Condições atmosféricas especiais farão surgir os primeiros seres unicelulares. A partir daí a vida de desdobra cada vez mais - assim como a matéria e a energia o fizeram.

O tempo corroído pelo seu próprio desenvolvimento.
A racionalidade extinta pela sua própria expansão.
Mas conquistaremos novas dimensões.
A intuição nos levará ao monismo vivenciado.
Com a consciência o ser humano concebe o devenir dos outros fenômenos. Supera o tempo conceptualmente, no pensamento. Mas ainda não completamente, pois seu corpo físico está sujeito às leis da energia e matéria - ambas sujeitas ao tempo. É nesse nível que nós aprendemos a nos diferenciar e consequentemente observar a nós mesmos e aos outros (exteriormente). É a gênese do intelecto luciférico, cuja marcha solitária dá sinais de desgaste. Uma marcha colocada a todo vapor a partir do século XVI. Uma marcha restrita a sua própria lógica, solitária. Negadora de qualquer fenômeno acima, subjugadora de qualquer fenômeno abaixo. E assim o século XX nos brinda com o monismo ubaldiano, acompanhado de outras almas que plantaram as sementes da nova humanidade. Resta ao século XXI iniciar a assimilação e implementação dos conceitos...

"Em +x aparece a terceira manifestação da dimensão conceptual, que completa o sistema, correspondendo ao volume. A consciência, que não tem dimensão na matéria (o volume é a dimensão espacial completa, mas, diante do sistema sucessivo, é uma não-dimensão, o ponto), assume no campo das forças a dimensão linear; alcança no campo da vida a dimensão superfície; adquire no campo absolutamente abstrato do puro espírito a dimensão de volume. As limitações de vosso concebível me impedem de prosseguir até aos sistemas sucessivos, cada vez mais espirituais e rarefeitos, que se estendem ao infinito. Em vez disso, expliquemos as características da segunda dimensão (consciência) em relação às da terceira (superconsciência)."
A Grande Síntese 

Sua Voz (entidade do Alto captada por Ubaldi em sua mediunidade ultrafânica) faz uma analogia entre as três dimensões materiais (linha, superfície, volume) e as três sucessivas dimensões conceptuais (tempo, consciência, super-consciência). Quando afirma-se que o tempo é uma não-dimensão no sistema espacial (ponto) significa que a trindade espacial é incapaz de identificar o início da próxima. Trata-se de evolução de dimensões por tríades, formando um acorde [1]. 

Segue-se no livro a diferenciação entre consciência (razão) e super-consciência (intuição):
  
"Da mesma forma que a superfície absorve a linha, a consciência absorve o tempo e o domina; enquanto as forças precisam do tempo, o pensamento o supera. Na passagem da fase β à fase α, a dimensão tempo tende a se desvanecer, pois, embora subsistindo, é tanta a sua aceleração de ritmo (onda), que vos pareceria quase sumir na nova dimensão. Com efeito, quanto mais baixa e material, tanto mais lenta e semelhante a β é a consciência; quanto mais concreto o pensamento, mais denso é o ritmo e mais vagarosa a onda. O pensamento implica tempo somente enquanto e na medida em que ainda é energia. Quanto mais cerebral, racional e analítico, tanto menos abstrato, intuitivo e sintético é o pensamento. Neste segundo sistema tridimensional, assistis a uma aceleração contínua de ritmo. Nessa aceleração, o tempo é gradualmente absorvido. Por sua vez, a superconsciência domina e absorve a consciência, tal como o volume o fez com a superfície."
A Grande Síntese 

O ritmo se acelera significa que a intensidade com a qual eu me envolvo num processo de construção (conceptual, que pode envolver materialidade, mas conduzida pelo psiquismo) atinge um grau de abstração tão elevado que as faculdades da mente ligadas ao cerebralismo puro são incapazes de acompanhar os conceitos sendo absorvidos. Sendo assim o tempo não consegue acessar (influenciar) essa zona com o peso habitual. Zona em que a mente adentra-se em grande porcentagem. Essas inúmeras gradações num contínuo permeiam a região que é denominada pelos psicanalistas de consciente (razão) - relativa a cada ser humano. O início da travessia marca o início da consciência. O fim dela é sua superação completa, na super-consciência. Nesse (longo) intervalo - a Jornada Multimilenar da humanidade terrestre - vamos sempre aprendendo a subir na consciência, conseguindo fazer uso em pequeníssimas doses da fase seguinte (intuição). Essa travessia foi vislumbrada [2] e sistematizada-exemplificada [3] em ensaios anteriores.

Dessa forma, explica-se como é possível iniciar a conquista da eternidade (superação do tempo) com nossos recursos limitados. Recursos que contêm em germe as dimensões superiores. Basta para isso desdobrar aquilo já presente no íntimo.

No íntimo...

Observações
[1] na música, o acorde é um conjunto de três ou mais notas que se ouve como se estivessem soando simultaneamente. assim como o volume (espaço) contém simultaneamente as dimensões superfície e linha, além de si mesmo.
[2] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/11/um-ciclo-duas-fases-piramide-expansiva.html
[3] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo.html
   





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