sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O Faraó Monista

Pode-se viver uma vida inteira e jamais chegar a uma visão mais profunda da realidade. Pode-se mesmo viver várias vidas e ainda assim não se atingir uma visão da fenomenologia universal verdadeiramente digna - das necessidades de nossos tempos. A Verdade, para a imensa maioria da humanidade, atinge-se gradativamente, caminhando aos poucos, passo-a-passo, com experiências variadas e repetitivas. É a técnica dos automatismos*. Para alguns, mais à frente, há saltos quânticos que apenas parecem surgir repentinamente devido a não-observação da maturação interior, feita durante longo período de tempo, de forma orientada, a qualquer custo. O que ocorre então? Há o surto de gênios, governantes, místicos que, cada qual a seu modo, transbordam seu ser de uma vivência diversa. Vivência que se prolifera sem necessidade (ou preocupação) de propaganda. 

As maiores verdades, universais, inclusivas, já foram compiladas há muito tempo. Você pode chegar a formular ideias fantásticas, exprimir frases inesquecíveis, praticar atitudes revolucionárias. Mas perceberá que, há muito tempo, essas ideias já foram lançadas - quiçá até de forma mais criativa; que essas frases já foram ditas, reunidas, ordenadas e compiladas em obras Sagradas do mais alto valor metafísico (Bhagavad Gita, Evangelho, Tao Te Ching); e que essas atitudes foram praticadas até suas últimas consequências por seres iluminados, cada qual no seu nível, nos mais diversos campos. A única originalidade - se é que assim podemos denominar - consiste em atualizar esse oceano sagrado à sociedade atual, seja no campo da compilação e vivência individual conceptual (Ubaldi, T. de Chardin,...) ou na atitude política mística (Gandhi, Abbé Pierre,...). Trata-se de trabalho titânico face às impiedosas obrigações que o mundo nos impõe desde o berço. Obrigações em larga medida sem um fundamento. Atos repassados geração à geração, sem o menor questionamento. Internalizados ao sistema de crenças e valores sem muita resistência. E assim vive-se a morte contínua do corpo sem construir a vida eterna do espírito. Mas isso está prestes a mudar, e o momento histórico atual tem oferece todas as condições para uma mudança radical na forma de concebermos a vida.

Akenáton o Faraó monista.
Reinou de 1352 a 1336 a.C.
Cada vez me impressiono menos com as coisas do mundo. Mas não há motivos para preocupação. Trata-se de algo mui diverso de um sintoma depressivo. Ao contrário: o tempo que permaneço sozinho, ou a falta de atenção que me é dada em certas ocasiões, em nada abala o meu impeto interior em levar a cabo as minhas atividades, sejam elas referente à minha pesquisa, ao meu trabalho, aos meus textos, aos meus projetos e à minha vida pessoal. É uma desconexão apenas em superfície - pois na profundidade trata-se de uma conexão forte. 

Percebo que o tempo que tenho livre é utilíssimo. O tédio que assoma (e assombra) aqueles que tem tempo suficiente para se entediar mas não o suficiente para gozar inexiste em meu cotidiano. Antes ele é oportunidade de dar avanços frutíferos em minhas pesquisas pessoais (do espírito e do mundo) e me exercitar, contemplar, assistir filmes, ouvir música e dialogar com amigos e família - um círculo muito pequeno, mas aberto. Essa necessidade de sempre iniciar e manter assunto pelo simples imperativo da conveniência e sociabilidade** é o que reforça o lugar-comum e gera desperdício de tempo e conhecimento. A preocupação com a horizontalidade social é tamanha que nada (ou pouco) de trabalho, em substância, é realizado na verticalidade do sentimento, gerando nada mais do que uma "realidade" em constante ruptura e subsequentes conflitos (internos e externos, intensos e extensos). Dizer isso, mesmo que delicadamente e ponderadamente, deve trazer interpretações distorcidas, gerando rancores num mundo já pleno destes. Por esse motivo aqui é o único espaço para isso - aberto, dificilmente acessível, pois há uma dupla muralha: a da concentração na leitura carregada de terminologia difícil, e da compreensão da realidade espiritual.  Quando se percebe o poder da Realidade (a intangível), a autonomia passa a ser uma postura natural do ser. Isso não necessariamente indica em que ponto ele está, e sim a sua orientação à meta comum - o Absoluto, para se integrar ao Sistema***. 

Há algumas semanas, nesse tempo livre, assisti um filme clássico (1954) intitulado "O Egípcio" [1]. Ao contrário dos épicos Ben-Hur, Os Dez Mandamentos e Lawrence da Arábia, o filme não cativa pelo tipo de produção. A música não se compara; o elenco não é formidável; o roteiro não se desenvolve plenamente. E, até certo ponto, chega-se a criar um desdém pelo filme. Em especial por Sinuhe, protagonista da história, médico, em busca de algo que nem imagina o que é. Essa busca é permeada de desespero, ódio, riqueza, pobreza. Desilusão odiosa que acaba gerando exclusão à força. E depois, quando tem-se um panorama geral e uma visão mística, desprendimento glorioso e exclusão natural - para uma inclusão, em outro campo...no reino de uma consciência iluminada...

Sinue e Akhenaton - transbordar do infinito pelo
canal finito.
Sinuhe, o médico, é personagem fictício - pelo que se sabe. O faraó Aquenáton [2], por outro lado, existiu - apesar de todo esforço da alta cúpula dos sacerdotes em eliminar por completo sua história, legado e essência. Trata-se de um dos personagens mais enigmáticos da História. Duplo vértice de seus tempos: da consciência universal e do poder global. O primeiro ser, pelo que se tem notícia, altamente consciente e com poder no mundo. O faraó monista [3]. Ou, do ponto de vista do mundo: o faraó rebelde [4].

A história de Sinue é apenas contexto para a circulação de uma corrente de pensamento das mais altas esferas. A consciência monista, como a de Cristo, 13 séculos antes da aparição deste. Não se trata de redefinir o "fundador" do cristianismo - mesmo porque Cristo nunca se considerou fundador de nada (gênese de instituições humanas, atrasadas para os verdadeiros místicos), mas "apenas" despertador de consciências. Trata-se de revelar que surgiu neste globo um ser humano advindo das mais altas esferas, como a mais alta autoridade, que foi ganhando consciência à medida que sua vida se desenrolou. Isso influenciou profundamente, por um curto período - no qual foi Faraó - o mundo. Mundo este que, da parte de seus mandantes, se sentiram abalados até a medula - e por isso acabaram por eliminar aquele que jamais poderia sê-lo. Estamos diante de um abismo capaz de destroçar as mentalidades de superfície. Apenas quem deseja atingir uma verdade mais vasta pode embarcar nessa viagem - que é a jornada multimilenar da humanidade rumo à consciência suprema [5].

É pouco explorada o desenvolvimento da personalidade do faraó ao longo de sua vida. Seu personagem aparece pouco. Dessas cenas, pode-se perceber difusamente como evoluiu sua visão da Divindade e do Universo. Mas na cena de sua morte, antes de ceder, profere as palavras mais poderosas jamais ditas num palácio. Palavras breves, mas que dizem muito. Infinitamente mais do que todos outros dizem (e compreendem...). Aí vemos que, no leito de morte, havia atingido a consciência de um Deus não apenas único, mas que é e não é a própria criação, estando além de todo Universo físico (espaço-tempo), englobando-o com o seu simples ato de pensar (espírito).

Ele (Akhenaton) inicia sua vida como monoteísta, adorando um único Deus, que considerava como sendo o Sol (Áton). Visão antropomórfica, mas muito à frente do politeísmo praticado na época, com mais de dois mil deuses, cada qual fonte de domínio de poucos sobre muitas almas, mentes e corpos. Parece que 17 anos de reinado e incompreensão trouxe um despertar imenso a esse homem. Em tal ponto que, ao findar sua breve vida, sua concepção de Deus atinge um vértice que até hoje quem a possui continua sendo considerado progressista. Isso é, para quem compreende do que se trata, algo assombroso.

Toda nossa vida é guiada por um princípio fundamental próprio, subjetivo, que nada mais é do que a nossa capacidade de compreender a Verdade (Absoluta), situada fora de nosso plano - mas que o domina e guia por completo, majestosamente. Esse princípio evolui no tempo universal, "espaço" no qual se dão as experiência bio-psíquicas. Experiências cada vez mais sutis, adequadas à nossa sensibilidade espiritual. 

Assistir o filme. Revê-lo. Pesquisar sobre seus personagens. Sentir os ciclos históricos, com seus personagens revolucionários. Elaborar ensaio sobre. Tudo isso é parte de uma jornada longa e sofrida, bela e intensa, que deve se ordenar harmonicamente consigo mesma - para depois se irmanar com outros caminhos, igualmente sedentos daquilo que saciará a sede eternamente. E assim, uns poucos seres, formando uma massa crítica [6] altamente consciente, terá a oportunidade de forjar o destino de toda a espécie, toda a vida, todo o planeta, todas as religiões, filosofias e ciências, orientando-as, formando um ambiente verdadeiramente colaborativo - que atualmente só existe no discurso.

Amém.

Referências

[1] https://www.youtube.com/watch?v=6QGrqYm4GVs
[2] http://www.bbc.com/portuguese/geral-40602931
[3] https://en.wikipedia.org/wiki/Akhenaten
[4] https://www.youtube.com/watch?v=hPlHwTXi7tk
[5] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/11/um-ciclo-duas-fases-piramide-expansiva.html
[6] Referência a futuro ensaio.

Observações
* Modo de se construir os instintos (subconsciente), desde o nível biológico até o puro psiquismo.
** Já diferenciei "sociabilidade" e "sensibilidade social" em outro ensaio, revelando que ambos são, geralmente (não totalmente), inversamente proporcionais. Link: http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/02/sensibilidade-social-versus.html
*** Para mais detalhes deve-se estudar as obras fundamentais de Ubaldi, em particular, A Grande Sìntese, O Sistema, Queda e Salvação, Deus e Universo. 

sábado, 11 de novembro de 2017

Silêncio e Solidão

O mundo moderno está imerso num oceano de sons que não se harmonizam. Ao invés de uma sociedade unitária polifônica, um amontoado de sons que se interferem reciprocamente, gerando um caos multivariado em sua forma. Decorre daí um desperdício de tempo e recursos que torna a vida desgastante, extraindo até o último centil de energia - até daqueles que buscam harmonização. Vive-se o cotidiano de choques, permeado de inúmeros problemas que poderiam ser resolvidos bastasse todos adotassem os mesmos princípios fundamentais, fincados no íntimo de cada alma. 

Das premissas estabelecidas poder-se-à seguir o curso, construindo, desmontando e reconstruindo nossos sistemas - de valores, culturais, econômicos, políticos, tecnológicos,... - de acordo com os anseios da alma humana. Estabelecer-se-ia a harmonia entre os anseios espirituais do universo interior com as necessidades materiais (reais) do mundo exterior. As barreiras causadas pela ilusão tendem a se tornar mais transparentes. A opacidade da ignorância derrete com o calor da consciência. E com isso a luz se torna mais visível, atingindo mais almas com maior intensidade. Como ativar essa geração de calor?

Aqueles que mais refletem menos falam. Quando falam, muito dizem
Aqueles que menos refletem mais falam. Quando falam, pouco ou nada dizem.

Refletir não é pensar analiticamente - apesar de ambos poderem se relacionar. Trata-se de sintonia entre sentimento e pensamento. É um não-pensar, superando a barreira do puro pensamento humano, analítico, para adentrar no pleno pensamento total, sintético. Esse é o destino que a evolução nos reserva. Glorioso destino. Mais cedo para alguns, mais tarde para outros. O processo depende da vontade de cada um. Sua determinação (libertação de vícios desgastantes); sua compreensão da realidade (abordagens variadas); sua capacidade de atuar considerando o longo prazo (paciência e construção); sua disposição a evoluir (aprofundar conceitos). Todo esse trabalho é um não-trabalho do ponto de vista terreno. Uma perda de tempo. Para muitos, entrar num estado de sintonia com algo mais profundo se traduz em doença, loucura, raiva, rancor. Faz-se de tudo para atrair o elemento para perto. Torná-lo mais "participativo". Deseja-se não apenas ouvir, mas ouvir o que lhe agrade, no momento "certo". Estamos diante da psicologia no Anti-Sistema, da qual todos devemos fazer um esforço titânico para superar. Nada é mais árduo do que essa superação. Os atordoantes processos intelectivos da ciência, da técnica, dos sistemas humanos, nada mais são do que aspectos de superfície comparados aos fenômenos da natureza humana, ainda pouquíssimo abordados pelas instituições. 

Alegoria da experiência pela qual o autor passou. O cenário é
ilusório, imposto pelo mundo. Superá-lo implica em antes
sentir as forças do imponderável agindo. Consciência tranquila
é fundamental.
A constatação deve ser contínua, assim como a retenção das experiências substanciais. Assim é possível traçar com exatidão a sua verdadeira trajetória - e descobrir o verdadeiro significado de cada vida que cruzou com a sua, cada evento que lhe golpeou, cada sentimento despertado. Tudo neste mundo começa a parecer menos importante por estar mergulhado numa ordem divina, que martela continuamente nas almas sensíveis. Mas não se abandona o mundo. Vive-se nele, mas de outra forma. Forma estranha, forma sem sentido...

significa fidelizar, no sentido de entrar em sintonia. Com uma fonte, que emite antes do advento do espaço-tempo, e após a extinção deste. Uma fonte situada em outro plano, além do espaço e do tempo, no campo do super-concebível para a imensa maioria. Criar um ambiente para receber inspiração implica em silenciar sua boca e mente, mergulhando em regiões desconhecidas. A solidão vem junto, como parceira inseparável. Pois quem é silencioso afasta os sedentos por barulho, por fofocas, por piadas, pelo burburinho, pelos processos sistemáticos. A simples atitude gera o ambiente. 

Pessoas que encontram força e inspiração no silêncio e solidão já compreenderam a finalidade da sua existência. A sua consciência já é monista, buscando além das palavras - penetra-se nos conceitos contidos em cada vocábulo, cada frase, cada vida, cada teoria, cada som, gesto, toque. A forma dá lugar à substância. 

No início da Grande Síntese, no capítulo I (Ciência e Razão), a Sua Voz deixa claro:

"Ouvi-me, pois. A razão por vós utilizada é um instrumento que possuís para prover o essencial, as necessidades mais externas da vida: conservação do indivíduo e da espécie. Quando lançais este instrumento no grande mar do conhecimento, ele se perde, porque, neste campo, os sentidos (que muito servem para vossas necessidades imediatas) somente esfloram a superfície das coisas, e sua incapacidade absoluta de penetrar a essência vós a sentis. A observação e a experiência, de fato, deram-vos apenas resultados exteriores de índole prática, mas a realidade profunda vos escapa, porque o uso dos sentidos como instrumento de pesquisa, embora ajudado por meios adequados, vos fará permanecer sempre na superfície, fechando-vos o caminho do progresso."
(grifos meus)

Continuando, no capítulo II (Intuição), revela-se gradativamente o que ela quer dizer com "a realidade profunda vos escapa":

"Deixareis de lado, para uso da vida prática, vossa psique exterior e de superfície, a razão, pois só com a psique interior, que está na profundeza de vosso ser, podereis compreender a realidade mais verdadeira, que se encontra na profundeza das coisas. Esta é a única estrada que conduz ao conhecimento do Absoluto. Só entre semelhantes é possível a comunicação; para compreender o mistério que existe nas coisas, deveis saber descer no mistério que está em vós."
(grifos meus)

E no capítulo VI (Monismo), após o trabalho anterior, Sua Voz vai pontualmente ao significado da obra que se inicia - um verdadeiro tratado da fenomenologia universal:

"Farei desse mundo, que pode parecer caótico a vossas mentes, um organismo completo e perfeito. A complexidade que vos desanima será reconduzida e reduzida a um conceito central único e simples, a uma lei única, que dirige tudo.

A isto podeis chamar de monismo. Atentai mais aos conceitos que às palavras. Por vezes a ciência acreditou ter descoberto e criado um conceito novo, só porque inventou uma palavra. E o conceito é este: como do politeísmo passastes ao monoteísmo, isto é, à fé num só Deus (mas sempre antropomórfico, pois realiza uma criação fora de si), agora passais ao monismo, isto é, ao conceito de um Deus que é a criação. Lede mais, antes de julgar. Farei que lampeje em vossas mentes um Deus ainda maior que tudo o que pudestes conceber. Do politeísmo ao monoteísmo e ao monismo, dilata-se vossa concepção de Divindade. Este tratado, pois, é o hino de Sua glória."
(grifos meus)

A alma é capturada pelas palavras, transbordantes de significado (para os que buscam conscientemente) e mistério (para os que buscam inconscientemente). Ainda são poucos estes. Muitos, se percorressem as páginas, veriam apenas palavras bem colocadas - ou incompreensíveis. São os céticos, negadores ou (pior) zombadores, dos quais o nosso mundo está repleto. Não falo isso para menosprezar, ofender ou me elevar. Apenas constato que a assimilação desses conceitos podem trazer a revolução mais efetiva e portanto sustentável na humanidade. Em todos os níveis e esferas. A vida assim me demonstrou, através de experiência concreta, impossível de negar. Diante do desconhecido que lhe salva só resta à alma gratidão e profundo senso de dever perante a lei única que rege tudo e todos.

É mister ser sincero, mesmo que isto implique em adotar palavras fortes e desagradar muitos. Não se busca flores e reconhecimentos - tão comuns nas instituições, de todos tipos. O ímpeto é um só: se aproximar gradativamente do Absoluto (atração). E com isso transmitir uma experiência profunda para aqueles já dispostos (dever). Deve-se buscar experiências com qualidade cada vez maior. Por isso esse blog, para quem o acompanha, só deve servir até o ponto em que a pessoa seja capaz de continuar seguindo por conta própria - chegando às grandes almas, com suas grandes obras.

Nada é mais libertador do que a sensação de paz por ter sintonizado a sua vontade com a vontade divina. Todas as forças negativas do mundo irão se afastar gradativamente. E as forças da vida, que visam a evolução, sempre irão garantir o melhor para sua jornada. Jornada de silêncio e solidão, que é cada vez mais intensa interiormente e pacífica exteriormente. 

sábado, 4 de novembro de 2017

A Questão Econômico-Social parte da Consciência - e não da mente

Por mais interessante que pareça para os entusiastas bem intencionados, existem muitas armadilhas em certos tipos de ideias. Armadilhas que podem não se revelar no aspecto central da ideia, mas que, devido à sua solução superficial, não é capaz de solucionar problemas fundamentais humanos. 

Nos últimos meses li alguns artigos sobre o conceito de Renda Básica Universal (RBU). Me pareceu bem interessante. Primeiro porque, de fato, ao que tudo indica, é um programa viável*. E é realmente bem-intencionado: livrar as pessoas de ocupações desagradáveis, insalubres, que não adicionam nada de substancial à cultura, à ciência, ao meio ambiente, à consciência. E por vezes nem são economicamente interessantes. 

Quantas pessoas, nesse exato momento, estão em milhares e milhares de lojas de artigos de luxo ou bugigangas, cumprindo uma função, à espera do fim do dia para poder fazer o que lhes apetece? Estão lá porque necessitam de uma ocupação. As causas podem variar, mas destaco as principais: 

(a) necessidade de pagar contas / sustentar família; 
(b) adquirir experiência para galgar algo melhor futuramente; 
(c) foi lhes imposto que deve-se aceitar qualquer coisa, o mais cedo possível - pois outra oportunidade pode não vir e o futuro tende a ser pior. 

As três se relacionam e podem gerar outros motivos. Mas o ponto central é saber se os empregos disponíveis gerados pelo sistema atual, centrado numa lógica econômica férrea, que se calca numa natureza humana supostamente inalterável (apenas controlável), estão de fato auxiliando a nossa espécie a se tornar melhor em todos aspectos. Eu diria que sim, se muitos fizessem uso da dor impingida diariamente pelas incompreensões e humilhações - de todos tipos - para gerar novas concepções, elaborar ideias, aumentar a confiança em seus discursos e buscar construir sínteses  mentais poderosas, passando a orientar melhor a própria vida. No entanto, pouquíssimos ainda o fazem. Estamos diante de proporções que beiram o milésimo na melhor das hipóteses. Os exemplos realmente formidáveis estão no grupo do milionésimo. Dessa forma, o progresso ainda é lento.

Por outro lado temos aqueles com poder. Estes, com suas emissoras de TV e rádio; com seus jornais e revistas; com seu dinheiro e terras; com suas empresas e bancos, poderiam, caso se associassem em comum acordo, conduzir o mundo para caminhos mais honestos, menos procrastinadores - e consequentemente com menos conflitos psicológicos, econômicos e bélicos. Mas isso não ocorre. O que vemos é: aqueles que detêm o poder se corrompem pelo mesmo, passando a ser servos da matéria. Alguns em níveis baixos (reality shows de celebridades, por exemplo). Outros em níveis mais sofisticados (criação de empresas para suprir buracos no mercado, como planos de saúde, por exemplo). No entanto, tanto um quanto o outro são ocupações que se aproveitam do estado calamitoso da espécie, imersa no torvelinho das sensações superficiais e ocupações repetitivas. 

Àquele que mais possui mais será cobrado. Quem teve estudo, cursou excelentes universidades, teve tempo livre para se capacitar e fazer o que gosta, possui uma estrutura familiar sólida, saúde (e acesso a ela!), entre outros privilégios**, tem a obrigação de construir um organismo supra-nacional capaz de conduzir não apenas a nação, mas toda a humanidade, ao lado de todas formas de vida, e todo ambiente terrestre, a um estado de consciência e harmonia mais elevado. Se isso não é feito, a culpa recai sobre quem mais teve. Os que menos possuem tem culpa, pois em qualquer posição é ´possível fazer algo de positivo. No entanto, os maiores culpados são aqueles que não o fazem tendo todas condições.

Por que isso ocorre? 

Os instintos são muito fortes. O ser humano, com o despertar da razão, se elevou acima do animal no nível psíquico - mas permaneceu exatamente igual no nível biofísico. Este sempre puxa a mente para torná-la nada mais do que um acessório cuja função é servir da melhor forma. Servir a natureza inferior, mas jamais transformá-la através da superação. Esse é o grande dilema. E quanto mais se tem (corpo belo, saúde, "amigos", acesso a bens e serviços, empregos bem remunerados, parceiros belos,...) e se ouve apenas o que se deseja, mais forte é o campo magnético que arrasta a alma para o inferno do relativo, segregando e repetindo verdades relativas de forma cada vez mais intensa, mais violenta. Eis porque tornar-se rico, belo e inteligente é o maior dos desafios - e quase sempre, o pior castigo. Não e usa a matéria para elevar o espírito. Se reproduz a matéria e usa-se o espírito a seu favor, puxando-o para baixo. Degradação é o processo. Dor é o destino. Até quando, não se sabe...

Voltando à RBU. Decidi escrever sobre ela porque li um artigo [1] que coloca justamente a questão: seria ela, de fato, a solução? E aí é preciso tomar muito cuidado.

Quando me ponho em posição cética diante de questões desse tipo, não o faço porque quero manter o estado das coisas. É óbvio que libertar o ser humano de ocupações destituídas de sentidos - que inclusive degradam a pessoa no consumo conspícuo e destroem o ambiente - é ótimo. Nisso a RBU tem meu apoio. Mas pergunta-se: será que isso iria resolver o problema da desigualdade (de oportunidades, de renda, de acesso a bens fundamentais, à cultura, etc)? Será que isso acabaria com os monopólios das mega-corporações? Será que isso reorientaria as pessoas, tornando-as partícipes de um movimento muito maior, para construírem a si mesmas, fazendo-as superarem certos instintos? No artigo supracitado o autor desenvolve esses temas, mostrando que o buraco deve ser mais no fundo. E aí me convenço cada vez mais que ler e estudar coisas do mundo, - por mais sofisticadas que sejam - vindo de fontes de estudiosos bem-intencionados, pode ser uma armadilha de forças invisíveis para continuar reproduzindo a lógica de exploração - de outra forma.

Eu já achava estranho quando Scott Santens, grande entusiasta e estudioso da implementação da RBU, atestava que "o rico não ficaria menos rico" e "todos teriam um mínimo de renda". E percebi, pelos gráficos e números apresentados, que a diferença continuaria. O princípio novamente pode ser bom: não-agressão a um conceito fortemente arraigado no subconsciente da imensa maioria - jamais impedir que alguém possa ficar rico atuando pelas regras "legais" vigentes. Mas às vezes é necessário admitir que, sem uma redistribuição dos recursos, a pobreza é absoluta. 

A diferença entre quem tem e quem pouco tem (e não tem) está apenas no tipo de miséria: os pobres se digladiam para subirem e praticarem o que a classe média possui. Esta se sufoca para reproduzir patrimônio e se reafirmar. E os ricos planejam como farão para manter o domínio. Mas todos são miseráveis. Quem tem tem pavor de perder. Quem não tem quer ansiosamente ter, para se apavorar em sustentar aquilo. Há casos em que a miséria interior é tão grande diante das maiores satisfações exteriores, que ocorre uma ruptura, e gera-se novos conceitos de vida. Assim nascem os santos, os místicos e os gênios. 

"Having a collective conversation about basic income without talking about income inequality is dangerous. If you want to talk about social injustice, you must eradicate income inequality that threatens capitalism, democracy and human rights themselves." [1]

A RBU não é mais geral do que a democracia e direitos humanos. Ela é, por excelência, algo do domínio econômico. Justamente por isso não tem a potência de transformar a humanidade efetivamente. Ela poderá ser uma consequência de um despertar interior, que levará a uma reforma nas ciências humanas aplicadas (política e sociedade, psicologia profunda), que por sua vez irá elaborar uma ferramenta do tipo. Mas ela como item fundamental, acionador de outras virtudes, não é possível.

Apenas das concepções metafísicas pode brotar uma existência física agradável - ou não. É nesse campo que devemos atuar. É questão de orientação.

O gráfico abaixo [1] revela que a porcentagem da renda nacional indo para o 1% mais rico aumentou em todos países pesquisados. Nesse ponto é de se perguntar como uma distribuição iria auxiliar a desmontar relações de poder que são extremamente violentas - especialmente no campo psicológico e econômico.

"Would a $1,000 make much of a difference to our spirit and sense of empowerment? Or is receiving a UBI like accepting an NDA to remove ourselves from all serious discussion of social inequality in the future?" [1]

A implementação da RBU pode "aliviar" as pessoas de continuarem debates, questionamentos e estudo em torno na desigualdade (de todos os tipos). Isso é passado como algo bom por muitos. Se sabem ou não da questão fundamental, não sei. Mas é bom começarmos a ir mais à fundo nas ideias para não corrermos o risco de cair em - mais uma - armadilha de nossa mente. 

Parafraseando Rohden, 

"Deseja-se um novo início - não um velho continuísmo."

E o autor continua:

"We know that millions of jobs will be lost due to automation, but we don’t know what the solution is. We aren’t just not preparing for a world governed by Artificial Intelligence, we are creating the economic systems that might imprison us further, under the guise of social justice."

Entre outras questões, eu poderia perguntar:
  • Como ficaria a questão da saúde? Eu não seria capaz de pagar um convênio de qualquer forma. Logo, não se toca em pontos nevrálgicos;
  • Aqueles que ganham relativamente bem e/ou precisam sustentar família não teriam tanta liberdade a mais com a RBU, e considerarmos que para empregos "melhores" ela representa uma fração dos ganhos (10~15%);
  • A questão ambiental seria melhorada? A poluição atmosférica, os carros ineficientes, a alimentação industrializada e pesada, o consumo excessivo de energia, a extinção de espécies de grande importância para nossa alimentação (ex: abelhas)...como ficariam? A RBU toca nesses pontos?;
  • As pessoas buscariam cultura - ou apenas entretenimento?
Dessa forma busco me redefinir e voltar solidamente ao terreno dos grandes conceitos, situados no imponderável, muito mais capazes de gerar uma ideia nova.

Continuo mais mergulhado na Grande Sìntese, na Gita e conceitos de Ubaldi, e Rohden, cuja abordagem nos indica o caminho que levará à transformação.


Observações:
* Já existem projetos piloto aplicados em várias localidades do mundo. A Finlândia iniciou um programa do tipo com um número de pessoas; a Nigéria teve uma experiência bem-sucedida; o Alasca possui uma estrutura do tipo; e vários programas governamentais aplicaram parcialmente esse princípio com muito sucesso em erradicar a pobreza extrema - como o Bolsa Família. 
** estes deveriam ser direitos humanos fundamentais, conforme declarado pela própria ONU há mais de 6 décadas.

Referências
[1]https://medium.com/@Michael_Spencer/is-universal-basic-income-really-a-solution-c0d6d95f100e

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Absoluto e relativo

A lógica é algo relativo e (portanto) progressivo no tempo. Ela também é relativa à cultura e ao local*. Tem-se assim algo que tende a um destino, e por isso está sempre se expandindo, se sofisticando, se refazendo

À medida que escalamos a montanha evolutiva, a visão se torna mais completa, as experiências ganham novos significados - especialmente as de dor. Mas essa visão só poderá ser compreendida com um mínimo de sabedoria. Algo que vá além das obviedades estatísticas e das falas com verniz de cultura. É questão de ter impresso na alma a experiência íntima do que significa dilatar a consciência.

Muitos negam a existência do absoluto por questões históricas. A multimilenar vivência da humanidade, com suas civilizações politeístas da Antiguidade e sua fé monoteísta da Idade Média, deixou impresso no subconsciente humano algo atávico, que absorveu todas as experiências ruins de uma sociedade centrada na religião, no misticismo, na crença, no sentimento, e reproduziu-as na memória, de forma a tornar os gritos de desespero de eras passadas em ecos infindáveis. Ecos que  se espalham como fogo em floresta seca assim que se ouve algum tipo de afirmação que parece (parece) invocar todos os costumes e mentalidades de uma era desprezada - com a falsa impressão de superação. Assim que se questiona a razão e - com ela - a questão do relativismo. 

Teoria da Queda. O volume é - como
todos outros - resultado da vida do autor,
que o foi não apenas de livros, mas sim
de seu próprio destino. 
É impressionante, mas muitos de nós não nos damos conta de que, aplicando os próprios métodos lógicos da mente racional-analítica, desnudamos o mito de que "tudo é relativo". Um vídeo visto recentemente pode esclarecer isso de forma cristalina [1]. Vejamos com a fria mente racional o que ela própria afirma (em muitos casos): toda verdade é relativa. O que nos leva a concluir que não há verdade absoluta. Mas isso torna a afirmação "toda verdade é relativa" uma negação de si mesma, uma vez que ela deve ser relativa também. Vence-se (digamos assim) a ganância da razão com suas próprias ferramentas. E é assim que opera o intelecto luciférico - se não foi guiado por uma inteligência superior, de outro plano. Inteligência em seu sentido lato, mais abrangente do que se pode conceber.

É fato que a relatividade existe em nosso universo material. No entanto, isso não a torna absoluta. Da mesma forma, é verdade que 50 milênios antes de Cristo (por exemplo) nossa espécie vivia em cavernas, vivia de caça, morria cedo, era refém das intempéries da natureza e não possuía nem sequer noção de associações baseadas mais no comércio e produção (força econômica) do que na agressão física do mais forte pelo mais fraco (força bélica). No entanto, isso não significa que não existia a possibilidade das pessoas se organizarem, criarem leis que garantissem um mínimo de justiça, de proteção; que poderiam ser criadas instituições econômicas, tecnológicas, políticas, entre tantas outras. Tudo estava presente em estado latente. Mas o grau de consciência impossibilitava a implementação de uma organização mais colaborativa

Muitos negarão a existência do absoluto afirmando do perigo que representaria se tal mentalidade começasse a ser admitida pelo íntimo coletivo da humanidade. Alguns começariam a vestir suas afirmações (relativas) com ares de absoluto, apoiados na disseminação dessa nova mentalidade. Seria semelhante à era medieval, a idade da fé. Até esse ponto está tudo correto (e eu concordo). Mas aí não foi ponderado um elemento essencial: a evolução. O conceito de Deus é relativo e progressivo no tempo. Quanto mais próximo de Deus, mais sabiamente usa-se as afirmações sagradas. Porque conhece-se melhor a Sua Lei.

Apontar para o Absoluto, sentindo seu domínio sobre todos os destinos do Universo, do átomo ao conglomerado de galáxias; da ameba ao super-homem; do abecedário às produções literárias sublimes da ciência, da filosofia, da arte, da religião; etc, é um despertar intenso para uma realidade que está oculta à mente racional, que disseca a realidade, criando fronteiras e limites - pois ela própria é limitada. Não significa vestir sua verdade de absoluto, mas orientá-la da melhor forma possível para o infinito e eterno, tornando-a artífice da evolução individual, que fatalmente transborda em irradiação virtuosa que desperta partículas do coletivo igualmente sedentas por algo a mais - algo jamais apresentado pelo mundo, algo que nunca é demais...pois não é limitado. Estamos diante de uma das maiores questões da civilização - que pode transformá-lá, pela primeira vez, de forma efetiva, em algo substancialmente mais depurado. É o grau de consciência intuitivo-sintético, que vê a Verdade em breve visão. Breve mas suficiente para magnetizar o ser num amplexo de amor indescritível para o vocabulário hodierno. 

Reflitamos um pouco.

Quando uma criança ganha um novo brinquedo, seu ânimo é muito grande - por vezes exagerado - e os primeiros momentos com sua nova distração são intensos. Nada no mundo será capaz de afastá-la de suas atividades envolvendo o novo objeto. Ela, que nunca o teve, acredita - naquele instante- que jamais será tão feliz quanto naquele momento - e jamais será tão infeliz caso lhe tirem aquilo no mesmo instante. Mas só se passa o pensamento positivo na cabeça do pequeno. Á medida que o tempo passa, o brinquedo começa a não parecer mais tão interessante. Brinca-se com ele, mas sem o mesmo ânimo. Passado mais um tempo vê-lo se torna algo enjoativo, e nesse momento deseja-se algo diferente. No caso de um adulto a experiência é semelhante. Apenas a escala de tempo é maior. E o que se almeja tem alguma utilidade. No entanto a experiência (o seu fim) pode ser tornar mais violento, especialmente no mundo das instituições humanas, nas organizações e nações. Corre-se atrás de ilusões. Morre-se por ilusões. Desvia-se o rumo traçado em busca dessas ilusões. A Bhagavad Gita o revela. O ponto é o seguinte: quanto mais completo é algo, maior seu magnetismo à medida que o tempo passa.

Grandes obras, grandes projetos de vida, trabalhos inundados de significado, relações integrais, com diálogo, sinceridade, afetividade, respeito, esforço físico, mental e espiritual, tem alicerce que garante a propagação muito além do prazo estipulado pela mente humana, que só crê nas limitações dos instintos por acumular (e re-acumular) aspectos negativos de experiências diversas. Muitos desses aspectos são negativos sim...na superfície. Apenas uma leitura mais profunda da realidade já preenche a nossa alma de paz. Porque traz compreensão dos fenômenos. Dá-lhes significado ímpar. 

Quem se sente mais próximo do Absoluto deixa de se atrair por uma miríade de coisas que antes lhe eram imprescindíveis. É tão simples (de compreender) e tão difícil (de descrever). É uma realidade concretizável tão próxima - para os empenhados em se transformar - e tão distante - para os desesperados em se garantir. Muitas tarefas fazemos por medo, por seguir uma tendência coletiva instintivamente, sem jamais nos perguntar o porquê. Às vezes, sem fazer um exame de consciência [2]. Fazer por temor indica que precisamos de um agente externo impiedoso e poderoso, onisciente, onipresente e onipotente. O Deus do monoteísmo. E indica também que somos imperfeitos permanentemente - com a necessidade de sempre sermos movidos por castigos e recompensas. Essa concepção é superada por completo com o monismo. Passa-se a obediência da Lei de modo natural. Algumas atividades do mundo se preservam (ex: trabalho com algum significado), e se tornam mais intensas em significado; enquanto outras (ex: comer em excesso, compras desnecessárias, sociabilização superficial,...) se reduzem vertiginosamente - e até se extinguem. Resultado dessa transição íntima só pode ser mais tempo livre (disponibilidade) e energia disponível (vigor) por libertação de "obrigações", antes necessárias, agora desgastantes. Caminha-se para o necessário. O essencial. E assim coloca-se tudo da dimensão espaço-tempo à serviço dessa nova concepção do Todo - inclusive da própria vida. Transformação completa. 

Diagrama extraído de [4]. Sintetiza muito bem o conceito
por trás da Obra de Ubaldi. E destaca o papel de Jesus
Cristo: revelar o Absoluto para os relativos sedentos
de salvação.
Quando se sente o Absoluto, cada gesto, cada pensamento, cada instante, cada quantidade energética, cada recurso monetário,...cada coisa do mundo deve ser dotado de sentido. Fama, riqueza, prazer passam a ser vistos como agentes ilusórios que atormentam a mente incessantemente e, se alcançados, logo se desvanecem, deixando de herança um vazio desolador que queima a alma. Esta por sua vez se desespera e corre atrás de outras ilusões, com outras formas, repetidas vezes,...E assim as experiências se acumulam. 

Quem encontrou não busca mais. Sente no íntimo uma alegria. Traz serenidade no olhar, na fala, nos gestos. Cumpre suas atividades alegremente. Se enriqueceu ao se libertar dos desejos. Quem não encontrou vive no torvelinho das sensações, na imposição das obrigações, na desobediência às leis da vida. Aquele que encontrou se pauta pela seletividade consciente; quem está em busca, está na se expandindo inconscientemente [3]. Quanto mais cedo for o despertar, mais plena será a jornada - rumo ao Absoluto.

Algumas analogias podem facilitar a visão:

"O Pai está em mim, e eu estou no Pai. Mas o Pai é maior do que eu sou."
Jesus, o Cristo.

"O Absoluto está no relativo, e este está no Absoluto. Mas o Absoluto é mais do que o relativo."

"Deus está no diabo e o diabo está em Deus. Mas Deus é (muito) mais do que o diabo."

Para compreendê-las, apenas o estudo profundo da Obra completa. Feliz ou infelizmente. 

Na pobreza dessas (minhas) palavras, findo com palavras muito mais poderosas, que podem despertar alguns:

"É a evolução do espírito que traça e supera os limites do conhecimento, situando-o diversamente em seu progredir, até ao ponto no qual a unificação com a fonte de emanação, que encontramos no vértice do fenômeno místico, torna-se também unificação, numa única verdade humanamente absoluta, dos divergentes aspectos sob os quais se contempla o relativo. Assim, às diferentes fases da evolução espiritual correspondem diversos graus de conhecimento e diferentes aproximações de revelação da verdade."

Ascese Mística - Pietro Ubaldi


Observações
* Cultura e local podem estar relacionados profundamente. Porém isso não significa que são a mesma coisa. Uma cultura pode estar localizada em múltiplos ambientes que combinem certas condições.

Referências
[1] https://www.youtube.com/watch?v=k8wDpq6P9fw
[2] Hannah Arendt esmiúça essa questão em suas observasões sobre a Banalidade do Mal.
[3] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/11/um-ciclo-duas-fases-piramide-expansiva.html
[4] https://www.linkedin.com/pulse/da-queda-%C3%A0-salva%C3%A7%C3%A3o-fernando-passos

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Tudo posso. Nada quero. Pois sei que tudo devo.

A maior liberdade que há é aquela de obediência aos princípios superiores por livre convicção. 
A maior escravidão que há é aquela de livremente buscar a satisfação dos instintos. 

Assim afirma a vida ao longo dos milênios e eras, tecendo um mosaico cada vez mais cristalino sobre a finalidade da existência humana. Assim concluem aqueles que viveram a sofreram, compreenderam e caminharam, buscaram e encontraram. Cada qual recebendo sua dose particular, necessária, para chegar a tal estado. 

A questão do conhecimento substancial é diferente daquela do conhecimento superficial, da forma. Para atingi-lo de forma realmente eficaz, tornando nossa vida mais plena e orientada para uma meta sólida, - porém abstrata - deve-se viver com intensidade suficiente na interioridade. Os efeitos externos podem não dizer muita coisa das pessoas. Pois há muitos efeitos semelhantes que podem ter gênese em causas radicalmente distintas; ao passo que isso dificilmente se dá com causas semelhantes. Quanto mais centrado (profundo) um fundamento, um princípio que move alguém, maior será a identificação com outro alguém movido pelo mesmo conceito. Mesmo que a forma de atuação seja, na superfície, muito diferente. Porque se trata acima de tudo de um conceito de vida. Quem se firma na causa para gerar seus efeitos age de forma diametralmente oposta àqueles que se afincam nos efeitos para reproduzi-los. O primeiro possui mais riqueza por estar próxima à Fonte. O segundo necessita reproduzir efeitos através de repetições diversificadas no estilo, no tempo e no espaço para sustentar o que julga ser a finalidade da existência.

Quem tem poder nada quer. Pois já (sabe que) possui domínio sobre seus sentidos e sua mente. Possuir esse domínio sobre suas posses psíquicas e físicas é orientação suprema no longo prazo - apesar de prováveis dificuldades e sofrimentos no curto e médio prazo. É saber usar o disponível, o temporário, o perecível, o relativo. Transforma-se a substância em algo mais transparente. A forma se purifica. A mente fica leve de pensamentos vazios. Os sentidos se concentram nas atividades. Foco e intensidade.

Não querer. Princípio de desapego. Já se tem tudo. Basta desenvolvê-lo. Um princípio no campo da consciência, nutrido com suficiente esforço, impulsionado com vontade intensa, se propagará cedo ou tarde, gerando obras concretas que caminham por conta própria. Sementes que se espalham por todos os cantos do tempo, do espaço e do espírito. A eficiência atinge o vértice, englobando mais do que simplesmente um balanço do que se conhece. Plasma-se o organismo, com reações fortes, apontando para doenças e fraquezas. É o caso do Padre Pio de Pietrelcina, com saúde frágil desde tenra idade - mas com um ímpeto que o levou a realizar obras que nem o mais viril, saudável e rico homem do mundo conseguiria fazer. Trata-se evidentemente de forças que estejam em outras dimensões...A História nos mostra incontáveis exemplos.

Dever é o real trabalho. Não-alienado. Não-exaustivo. Aquele que consome o indivíduo mas não passa tal sensação. O espírito voa livremente em planos estratosféricos, puxando o pobre corpo aos limites. Após a viagem, a recaída. Ubaldi retrata esses exemplos, com rigor extremo, de forma sistematizada e ordenada, nos volumes Noúres e Ascese Mística.

Senso de dever é a orientação suprema que falta à humanidade. Não aquele dever de cumprir com obrigações supérfluas as quais nos prendemos a nível instintivo (checar emails, participar de reuniões, criar e reproduzir formalismos e cultos de todos tipos, buscar distrações, entretenimento, se socializar sem desenvolver a sensibilidade social, entre tantas outras divergências engessantes...). Trata-se de um dever que nasce do íntimo e nos conduz. Não sabemos explicá-lo. Mas sentimo-lo. Nossa atitude é moldada por ele. Nossas ações. Nosso silêncio. É a construção de pilares diversos, sustentados por terreno intangível, inexplorado, temido...

Tudo poder,
Nada querer, 
Por tudo dever.

O mundo nos passa uma visão distorcida desse princípio. Nos comerciais, na lógica econômica, no que se espalha,..tudo que se vê, ouve e lê indica que nossa potência (poder) é limitada e (des) orientada para alimentar os excessos - que geram carências, que levam a desequilíbrios. Logo, não se pode...

Sentindo que de fato não podemos (nos transformar) ansiamos por tudo querer, e assim corremos e agredimos, desesperados em tirar o nosso quinhão de qualquer situação, por qualquer motivo. A racionalidade despertou para cumprir essa função*. Essa incessante busca exterior, seja nas sensações, seja no eruditismo exacerbado, seja na busca pela visibilidade social (nos meios abastados e poderosos), seja no desespero do "ganho" de tempo ou nas posses,...tudo denota uma necessidade de preenchimento interior. Ela só será saciada com o conteúdo adequado. Imaterial. Profundo. Uma catarse. Experiência interior, cujo caso mais extremo, vértice da paixão divina, é o místico. Melhor ainda quando se une o misticismo intenso com a inteligência profunda, gerando a personalidade capaz de penetrar nos mistérios da vida sem medo.

Por fim, o dever...

Quantas vezes julgamos não dever nada (reparar uma injustiça, um xingo, uma violação de diretos,...) devido ao orgulho. Porque aceitar o dever implica necessariamente em estar livre do querer. E para estar liberto dessa chaga multimilenar (querer mais e mais e mais), nada melhor do que enriquecer...no espírito.


Comentários

* Falei sobre isso num ensaio anterior
 http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/10/racionalismo-em-cheque.html


domingo, 8 de outubro de 2017

A Grande Síntese - Um relato íntimo

"Ao finalizar a leitura de  A GRANDE SÍNTESE, temos a impressão de haver lido, ressurgido no século XX, um dos grandes profetas bíblicos. Igualá-la é difícil; superá-la, impossível; negá-la, absurdo; discuti-la, loucura. Mas aceitá-la e  senti-la é prova de que, em nós, há uma centelha da divindade. Merece, realmente, ser encadernada no mesmo volume que o Novo Testamento, como coroamento das obras dos grandes e primeiros apóstolos. A força e a segurança fazem desta Grande Síntese uma continuação natural das Epístolas e do Apocalipse, nada ficando a dever a elas."

Carlos Torres Pastorino — Escritor e Titular de Latim e Grego  da Universidade Federal de Brasília.

"A GRANDE SÍNTESE é a semente do carvalho para o abrigo do futuro. É o divino trigo lançado com “imensa antecipação” no campo do mundo, oferecendo à humanidade o alimento conceptual dos mais nobres e elevados princípios. É uma visão sublime de sabedoria e de amor, excelsa sinfonia dos séculos futuros. Bênção para a humanidade de hoje e código para a humanidade de amanhã. 

Clóvis Tavares — Escritor e Titular de Direito Internacional  Público da Faculdade de Direito de Campos."

Muito além do espaço-tempo...
Muito além do que julgamos além...
"Debalde vínhamos peregrinando através dos livros em busca de uma concepção do mundo que nos satisfizesse, pela universalidade de seus fundamentos, a natural ansiedade de síntese e unificação do conhecimento. Movido por esse desejo, perlustramos os grandes monumentos da sabedoria de todos os tempos, desde as velhas doutrinas consubstanciadas na metafísica chinesa do Y-King até as modernas aquisições do relativismo einsteiniano. Examinamos o hinduísmo, nas expressões luminosas de seus mais eminentes mestres; estudamos o idealismo de Platão, o peripatetismo de Aristóteles, o racionalismo de Descartes, o criticismo de Kant, o panteísmo de Spinosa, o monadismo de Leibniz, o ocasionalismo de Malebranche, o epifenomenismo de Hume, o voluntarismo de Schopenhauer, o solipsismo de Bekerley, o transformismo de Darwin, o evolucionismo de Spencer, o positivismo de Comte, o pragmatismo de James, o monismo de Haeckel, o intuicionismo de Bergson, o panpsiquismo de Farias Brito, para, ao fim, sentirmo-nos tão vazios como dantes. (...) Acabávamos de ler Carrel, quando surgiu nas livrarias a versão brasileira de A GRANDE SÍNTESE. Atraído pelo título, percorremos-lhe o índice e, imediatamente, sentimo-nos assaltados do desejo de lê-la. (...) Sem embargo de seu caráter estritamente lógico e rigorosamente científico, A GRANDE SÍNTESE não é uma obra resultante de lucubrações intelectuais, nem de dados experimentais. É uma revelação surpreendente, de origem supranormal, por isso que foi dada ao mundo exclusivamente pelas vias da intuição. Serviu-lhe de instrumento, no processo de sua elaboração, o iluminado místico da Úmbria, Prof. Pietro Ubaldi."

Rubens C. Romanelli — Escritor, doutor em Letras e Titular da Cadeira de Língua Latina da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais. 

"Para  quem conhece, como o Autor, pouco ou nada de química, A GRANDE SÍNTESE é verdadeiramente surpreendente, porque os conceitos nela emitidos são realmente científicos e, portanto, de um profundo conhecedor de química."

Prof. Stoppoloni — Titular de Anatomia Descritiva, Histologia e Embriologia, da Universidade de Camerino, Itália. 

[alguns relatos de quem leu, estudou e sentiu a Obra do professor da Umbria]
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A Grande Síntese é indefinível se se desejar realmente defini-lá sem diminuir sua grandeza. Chega-se a um ponto em que é melhor ficar quieto, deixando definições em suspenso, no vazio. Nada pode fazer jus a algo que está muito além das capacidades do ser humano atual. Ser infantil, diminuto. Limitado pela sua crença na limitação - imposta pela razão. Depois de ler A Síntese pela 1ª vez, fui invadido pelo sentimento de pequenez diante de uma verdade indefinível, que arrastou meu espírito para vértices do pensamento e de paixão, queimando toda forma inútil para revelar a substância. "Isso não foi escrito por um ser deste mundo..." foi a primeiríssima sensação que permeou todo meu organismo físico, psique e espírito, ao terminar de ler o capítulo final, "Despedida", há cerca de cinco anos. Minha vida (interior) nunca mais foi a mesma - e jamais o será...

Á medida que começamos a observar os acontecimentos históricos pessoais com olhares mais profundos, tudo começa a se revelar. Mas antes desse retrospecto minucioso, uma dose de dor adequada para tirar a opacidade da forma que nos reveste é mister. 

Cheguei a Ubaldi e sua Obra após sofrer uma espécie de preparo - preparado ou não por mim, antes de iniciar minha vida terrestre. Talvez as marteladas tenham servido para despertar o que já estava consciente em existências passadas. Ou talvez elas tenham servido para que eu despertasse, pela primeira vez, para uma realidade mais profunda, de maior tensão (insuportável para a grande maioria), para que desta forma pudesse iniciar uma nova etapa em minha jornada evolutiva. A verdade é que não o sei e nem estou interessado em saber sobre isso. Simplesmente aconteceu, de forma impressionantemente ordenada, como se eu fosse uma ferramenta humana obedecendo a um plano pré-estabelecido.

Tudo que sempre me interessou na vida foram excertos de obras, sejam peças de teatro, filmes, livros, biografias, teorias científicas, sistemas filosóficos, atitudes, expressões, olhares,...Algumas coisas, por serem muito densas, poderosas, cheias de substância, me interessavam em sua (quase) integridade. Trechos que revelavam algo indescritivelmente poderoso, indefinível...E parecia haver algo a mais a ser dito aí. Minha vida sempre foi, de certa forma, buscar esse algo a mais em outros lugares, de diversas formas, por meio de várias experiências. De repente as palavras "evolução", "consciência", "despertar", entre outras, passaram a significar algo além do que as relativas e pobres definições formais humanas afirmavam categoricamente. Elas simplesmente paravam num ponto me que poderia iniciar-se algo realmente interessante. Mas o racionalismo não permitia um avanço além daquele ponto. Pelo menos não em termos efetivos. Um caminhar a mais, visando ir além das definições, além dos sistemas atuais, além da lógica do mundo, significava apenas andar em círculos, retrocedendo. Ou avançando apenas na forma, criando um outro ponto de vista, a partir de outro relativo - mas permanecendo igual em termos absolutos, isto é, na substância. Isso me dava uma sensação de vazio, de incompletude, o que pode ser muito perigoso. Imperioso é existir um sentido para a vida. 

Pietro Ubaldi na década de 30, passando para papel
o Evangelho da Ciência, durante suas férias em Gúbbio.
Passar por macerações no momento certo é o que as forças do imponderável preparam da melhor forma. No momento certo, pelo motivo certo, com intensidade e duração certa. Momento, motivo, intensidade e duração, todas alinhadas na medida. Para que o ser esteja preparado para compreender a Obra. Pois não basta ela ter sido escrita com reflexão, suor, sangue, amor e ímpeto ascensional. Aquele que recebeu a mensagem (Pietro Ubaldi) e traduziu-a numa linguagem minimamente compreensível pelo tipo biológico atual (nós) cumpriu o seu dever. Resta a nós o esforço de estarmos preparados para assimila-lá. Muitos, ao saberem do que realmente seria necessário para isso, ficarão apavorados e recuarão instintivamente. Por isso as grandes guinadas em nossas vidas são preparadas em planos superiores, além de nossa miserável razão - que se julga o ápice da evolução. Paulo de Tarso já sabia disso - e falou disso. "A letra mata, o espírito vivifica." A letra é o estudo puro, a análise solitária. Reinante num mundo sem (concepção) de Deus. O espírito é a intuição e além. É a consciência da verdade unitária, do amor, do telefinalismo, do significado profundo.

Vejamos as declarações iniciais de Sua Voz no capítulo Ciência e Razão (grifos meus):

"Não falo para ostentar sabedoria ou para satisfazer a curiosidade humana, vou direto ao objetivo: para melhorar-vos moralmente, pois venho para fazer-vos o bem. Não me vereis despender qualquer esforço para adaptar e enquadrar meu pensamento ao pensamento filosófico humano, ao qual me referirei o menos possível. Ao contrário, ver-me-eis permanecer continuamente em contato com a fenomenologia do universo. Importa escutar verdadeiramente essa voz, que contém o pensamento de Deus." A Grande Sìntese, Cap. 1

Não adianta ler A Síntese com os olhos da razão. O intelecto não irá permitir que o conteúdo adentre na alma. Da mesma forma, deixar-se simplesmente impressionar pela linguagem mística, com objetivo de formar um novo culto, calcado em automatismos atávicos, impede a assimilação do verdadeiro significado da obra. Nem Razão cega nem Fé manca. É preciso ter Intuição franca, orientando a Razão com o telefinalismo, e vestindo a Fé com os instrumentos do bom senso. Quantos seres humanos hoje são capazes de combinar esses dois (Religião e Ciência) de forma harmônica, fazendo-os avançar a pleno vapor? Trata-se de uma transição radical em termos de concepção de Deus, do Universo, da Vida. Do dualismo devemos passar para o monismo - pela primeira vez neste planeta. É de fato um passo enorme para quem compreende do que se trata. Enorme...

Nunca fui afeiçoado de cerimônias ou formalismos religiosos. Mas no íntimo sempre acreditei em Deus. Mas não nesse que as instituições me apresentavam. Da mesma forma, sempre acreditei num sistema econômico mais justo, eco-socialista, nos moldes delineados por Bertrand Russell e Noam Chomsky. Vejo os assuntos de forma alinhada, e o nosso caminhar como um contínuo processo de transformação, muito externa até o momento - mas a cada ano apontando para a necessidade da transformação interna, a verdadeira. 

"As vias da arte, da literatura, da ciência, da vida social estão fechadas, sem amanhã. Não tendes mais o alimento do espírito e remastigais coisas velhas que já são produtos de refugo e devem ser expelidos da vida. Falarei do espírito e vos reabrirei aquela estrada para o infinito, que a razão e a ciência vos fecharam."  A Grande Sìntese, idem

"coisas velhas que já são produto de refugo e deve, ser expelidos da vida" são todos excessos. Toneladas de informação, entretenimento (do pior tipo), participação em eventos sociais com intenções pífias (networking, apresentação de sua imagem social, difusão de uma ideia para benefício, bebidas e vícios diversos...). É uma busca incessante pela estagnação. Uma satisfação de instintos multimilenares, a serem superados definitivamente pela nova humanidade. São os formalismos inúteis, preocupados mais na forma do que no conteúdo. São os atordoantes "aprofundamentos na superfície", na forma de pesquisas circulares com vistas a incrementar a quantidade (publicações, citações) para preencher um vazio que não desejamos ver face a face. É a Ciência desorientada, sem Deus, do acaso, sem Justiça e portanto sem finalidade suprema. É o motivo que leva um homem com boa situação financeira, sem histórico criminal, sociável, a matar dezenas e ferir centenas*. Ausência de Deus - da consciência Dele. Sem isso não temos nada, no fundo. Os conceitos traduzidos por Ubaldi, durante toda sua vida missionária, podem nos tirar desse buraco. Ele simplesmente captou conceitos supra-humanos para que pudéssemos assimilá-los, pouco a pouco, e assim melhorarmos individualmente e como desdobramento elevar o mundo, criando uma humanidade mais consciente, sem misérias e com um mínimo de transparência em cada atitude e gesto.

"Para avançar ainda, é preciso despertar, educar, desenvolver uma faculdade mais profunda: a intuição. Aqui entram em função elementos complementares novos para vós. Algum cientista jamais pensou que, para compreender um fenômeno, fosse indispensável a própria purificação moral?A Grande Sìntese, idem

De fato. Apenas após essa diminuta catarse** sofrida pude eu ser tocado pela obra A Grande Síntese. É claro que o alto grau de estudo atingido ajudou***, pois trata-se de uma revelação por via da linguagem científica, que exige participação do lúcifer intelectivo. Mas o Logos é essencial. Sem a vivência interior, do espírito, nada será compreendido dessa obra reveladora.

Ir além me é difícil. Como explicar o inexplicável? Como provar aquilo além do campo experimental (ainda)? Como demonstrar algo que exige a maturação evolutiva do espírito? Deve-se apenas deixar o relato aqui, solto nesse mar de informações que é a rede (internet), para que alguém, quem sabe, algum dia, lendo esse paupérrimo relato, mal escrito, por um ser muito pequeno e com muito a melhorar, possa "perder tempo" lendo a Obra de Pietro Ubaldi em sua profundidade. Senti-la. Vivê-la...E esse alguém, tocado pelas pobres palavras desse relato, comece a se aventurar pelas página de A Grande Síntese com olhar minimamente maduro, lendo-a pelo espírito (não pela letra, que apenas a reveste), e sendo tocado a cada conceito apresentado. Conceito que perfura, queima e se funde a alma, tornando-a diferente para sempre. 

Esse relato não é uma recomendação de leitura. O autor antes perde do que ganha ao usar seu tempo, mente e energia para deixar esse excerto flutuando pelo mar virtual. Poderia estar lendo um artigo opara seus estudos de doutorado. Ou praticando atividade física. Ou algo reconhecido pelo mundo como útil. Nem sequer há interesse de ganhar acessos ou dinheiro com a difusão dos escritos. É justamente isso o que se quer superar. Por que ele o faz então? Senso de dever talvez. Vontade íntima. Inspiração. 

Esse é um relato para vagar pelo mar cronológico-espacial do relativo, em busca de uma alma sedenta de salvação, que o utilize como bote salva-vidas para chegar ao imenso transatlântico que se chama A Grande Síntese e toda obra de Ubaldi. E assim, pouco a pouco, um dia, chegaremos à ilha da nova civilização, que se encontrará com outras ilhas, até chegarmos ao imenso continente do espírito - abraçado pelo pensamento diretor do Todo: Deus.


Observações
* o autor se refere ao recente tiroteio nos EUA
** o autor se refere as experiências dolorosas de vários tipos sofridas entre os anos de 2011 a 2015, no campo financeiro, social, afetivo e familiar.
*** o autor viveu no exterior por 4 anos. fala inglês, francês e italiano. é estudioso de diversos autores da atualidade nas ciências humanas e naturais. se formou em Engenharia em universidade de ponta, realizando ainda curso de Especialização e Mestrado, além de gostar (mas não tocar) de música.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Racionalismo em Cheque

Desde que desenvolvemos a escrita (~4.000 a.C) começamos a desenvolver conceitos de forma orientada. Conceitos externos, a respeito de organização social, tecnologias elementares, criação de instituições, elaboração de teorias, surgimento de línguas, religiões, ciências e tudo característico daquilo que denominamos "ser humano". É a nossa História.

Assim que florescem as primeiras civilizações, observa-se um movimento paralelo, contemporâneo, alinhado com essa gênese humanitária, como que surgido para servir de guia, orientando o ser intelectual que nascera. São os grandes escritos Sagrados - vindos através de grandes inspirados, conhecidos ou não, naturais de outros planos. 

O Antigo Testamento se iniciou com Moisés, por volta de 1.400 a.C. A Bhagavad Gita (Canção de Deus ou Canção Sublime) data do século IV a.C. Lao Tsé (Tao Te Ching), Buda e Sócrates, cada um a seu modo, vieram nessa mesma época banhar o mundo com conceitos de vida e vivências que iam muito além do que o racional humano podia assimilar - quem diria vivenciar...E é natural que assim o seja, pois o intelecto está limitado à superfície [1].


Krishna orienta Arjuna em sua homérica
batalha interior. Lúcifer e Logos.
A razão, por excelência, é a dimensão do dualismo [2]. Ela eclodiu na espécie humana (homo sapiens-sapiens), que a utilizou para melhorar, em termos gerais (coletivamente dentro de um grupo, e amplamente, nas diversas áreas do saber), sua qualidade de vida. Mas essa melhora é apenas efeito de uma intenção que não visa, à priori, a melhora, e sim o predomínio de um grupo (ou indivíduo) sobre o outro. E essa sede de dominar nasce no subconsciente, zona dos instintos. A região dos instintos (natureza humana), cuja força é irrefreável até que surja uma outra força que a supere por completo*, por via da paz, domando ao invés de chocando-se contra. Estamos diante do Drama Multimilenar da Humanidade. E toda essa questão, base para nossa evolução daqui pra frente, vêm sendo descoberta aos poucos, passo-a-passo, pela razão humana [4]

Dois cientistas franceses, Hugo Mercier e Dan Sperber, autores do livro The Enigma of Reason, advogam que a cognição humana despertou e evoluiu para atender as demandas do meio social. Estas eram ditadas pelos sentimentos basilares do ser humano, ligado ao seu recente passado biológico, ainda predominante nos dias atuais, que visa a satisfação dos instintos da fome e do sexo. E as pessoas descobriram que a razão é muito útil para fazer o seu argumento predominar - e acabar com outros argumentos contrários. Percebe-se isso de forma cristalina quando estamos num debate envolvendo religião, política, visão de mundo, conceitos, sistemas econômicos ou qualquer outra área cultural. Defende-se um relativo com uso do intelecto, até os limites, e até esboça-se a imposição desse relativo sobre os outros, de forma a criar um domínio de um conceito sobre outros. Isso prova substancialmente a característica dual do racionalismo. "Dividir para conquistar" não é um slogan meramente de guerra ou que se dá entre famílias/grupos/clãs em disputa pelo poder. É fundamentalmente um princípio que norteia o modo de vida das pessoas, em variados graus de intensidade, com vistas a tranquilizar instintos profundos, enterrados no subconsciente, mas atuantes como nunca - por se apoiarem em fundamentos biológicos inquestionáveis. A questão é que esses instintos se saciam - como nos animais. Mas a razão, desenvolvida em função destes, é insaciável, criando assim novas necessidades - e assim fugindo da zona de segurança que garante o equilíbrio natural das espécies.

Pascal compreendeu a tríade dinâmica instinto-razão-intuição.
Pascal: Santo e Gênio. Combinação de outro mundo -
como de fato ele o era...ou melhor...é
Os animais e as plantas jamais ultrapassam limites da natureza. Podem não ser dotados de capacidades intelectivas. Podem não criar artes, ciências, ética, símbolos ou tecnologias. Porque eles estão circunscritos à zona dos instintos, com pequena faixa de plasticidade para desenvolver sua razão. O máximo que um animal pode desenvolver que seja comparável ao ser humano é o aprendizado de alguns movimentos simples, reconhecer seus donos, padrões, pedir comida, etc (domesticação). Além disso tudo lhes é estranho, indecifrável. São portanto indiferentes. Consequentemente, são incapazes de pecar. Pois quem peca tem a capacidade de discernimento. Notem: capacidade. Não significa que possui, mas é capaz de adquirir. Logo, tem responsabilidade - perante si mesmo e àqueles abaixo. Esse é o glorioso ser humano, nômade que atravessa um deserto interior infindável, regado de armadilhas, numa jornada multimilenar que está formando um banco de dados histórico formidável. Dados que se transformam em informações que, organizadas e trabalhadas, geram conhecimentos. Mas tudo ainda, em grande medida, usado para satisfazer nossos instintos, de formas cada vez mais sutis - com efeitos cada vez mais indecifráveis para a mente que os cria: a (mente) racional...

Eis que me deparo com um artigo que formalmente afirma o que o ser minimamente intuitivo já sente: as políticas de austeridade não são tão boas quanto os "especialistas" afirmavam [3]. A fé no mercado, nas "avançadas" teorias dos economistas, com seus modelos e jargões inacessíveis àqueles que necessitam dedicar toda sua energia e tempo em ocupações em grande parte precárias, (seus sentimentos a reconstruir seu estado psicológico, cada vez mais abalado) parece ser uma pseudo-fé. Um emborcamento da verdadeira fé, cuja exercitação foi iniciada após o advento de um espírito há dois mil anos.

Cristo lança as bases para a atualização dos ensinamentos de Moisés. E assim surge o Novo Testamento, cuja quintessência** são seus cinco (não quatro) Evangelhos ***. Os primeiros cristãos (séc. I a IV) aplicaram os princípios semeados sem corrupção. Por isso foram dilacerados e perseguidos. E igualmente, por isso o cristianismo se difundiu tão rapidamente, como chama apoiada pelo vento numa floresta seca repleta de matéria em busca de transforação. Consumo da forma para engrandecimento da substância. Assim a matéria se eleva, pouca a pouco, para um plano mais elevado, começando a vislumbrar a realidade do espírito, que sempre a coordenou. Trata-se da grande questão da humanidade. Os últimos problemas. Únicos capazes de gerar interesse total da parte das pessoas. Todo o resto - política, economia, filosofias, ciências, artes, afetos, sociedade, tecnologia, justiça,... - deve se subordinar a esse fim supremo, realização máxima do ser, no qual será superada de uma vez por todas a natureza que impede a razão de dar lugar à terceira e última dimensão dessa tríade conceptual: a intuição.

Após A Síntese, surge a necessidade de
sistematizar ao máximo possível como
se dá o fenômeno inspirativo. Não é um
processo (da razão). É um fenômeno
interior (comente alcançável pela
sinceridade ardente, misto de pensamento
e paixão extremas.
Outra notícia revela que os seis brasileiros mais ricos possuem mais patrimônio que os 100 milhões mais pobres [5]. Os desequilíbrios são cada vez mais injustificáveis. Aceitá-los não implica em ser fervoroso defensor de uma distribuição autoritária que vise equalização absoluta, mas simplesmente admitir princípios de equilíbrios basilares da vida, tão bem esboçados e vividos pelo príncipe Siddharta****. 

Domenico De Masi, no programa Roda Viva [6] de 1999 - quando a Roda era viva... - demonstra por via da lógica que acumular e ganhar milhares de vezes mais do que outros - mesmo que supostamente seja possível merecer - é contraproducente para a atividade econômica. Porque (Silvio) Berlusconi, ganhando 13 mil vezes o salário médio de um funcionário de um de seus canais de TV, não come 13 mil vezes mais, nem calça ou veste 13 mil vezes mais roupas, nem consome 13 mil vezes mais energia e água (em sua forma básica e útil pelo menos), nem 13 mil casas, e etc. Ou seja, os recursos monetários, concentrados nas mãos de pouquíssimos, acaba freando a atividade econômica. Aciona-se no máximo altas rodas. Isto é, atividades econômicas envolvendo bens e serviços de luxo, desnecessários, contrários à lei da eficiência e do espírito. Jatos, mansões, palácios, jantares exóticos, viagens surreais, tecidos surreais, aparições surreais, ilusões...E se contabilizarmos a atividade de especulação, vê-se o divórcio completo entre realidade biofísica e economia [7]

Tudo se incia com a Queda [8], cuja reação sanadora foi a cisão de parte do Sistema (S), gerando seu emborcamento, o Anti-Sistema (AS). O S está para a unidade ao passo que o AS está para a dualidade, que gera a multiplicidade fenomênica atordoante, que nossa Ciência racional-analítica está, passo-a-passo, vagarosamente, compreendendo. Iniciamos a Era da Unificação [9]. Atesta essa afirmativa imponente a emergência de novas áreas como a Ciência de Sistemas, a Engenharia de Sistemas, a valorização das faculdades intuitivas - pouquíssimo controladas pelo consciente - e a interconexão profunda entre os saberes mais distantes. A Ecologia simboliza esse despertar. Ela é por excelência um sistema complexo cujo funcionamento exige uma profunda reflexão aliado a uma vivência intensa, sem a qual jamais iremos compreender porque devemos colocar esta ciência como eixo central, subordinando a sociologia, a economia, a política, a justiça e as específicas ciências naturais e tecnologias como agentes subordinados. Estamos num momento de re-hierarquização de saberes cujo maior desafio não reside na mente, mas no espírito de dominá-la fazendo uso de seu Ser espiritual. Tudo se dará de dentro para fora.

Quando o evoluído desce ao plano do involuído, ele perderá.
Pior: a transformação que deseja fazer não se dará, pois
o método escolhido é contraproducente. Deixai as pedras em
paz, pois elas só obedecem a leis elementares do campo físico.
Nós seres humanos somos animais diferenciados dos outros. Atingimos a capacidade de estender a biologia através da economia. Isso se deu através de instrumentos exossomáticos. Esses instrumentos são uma extensão do nosso corpo. Ferramentas, máquinas, mecanismos autônomos e aparatos cada vez mais sofisticados são exemplos dessa capacidade de criar aparatos que diminuam a nossa necessidade de gastar energia para obter o mesmo produto final. Nossa espécie é a única que se mostrou capaz de criar "órgãos" externos - uma extensão de nossa força, velocidade, etc - para conseguir atingir seus objetivos fundamentais. Os animais possuem instrumentos endossomáticos - incluindo nós humanos - cuja função é sobrevivência e reprodução. Mas eles são limitados pela sua natureza. Lotka [10] enfatiza que a economia é uma extensão da biologia, em sentido lato. Pois aquela surgiu para satisfazer de forma mais eficiente esta. Trata-se de obter a mesma quantidade de baixa entropia usando uma menor quantidade de energia. Porque parte do metabolismo é transferido para fora do corpo. Esse princípio possibilitou à humanidade revelar suas verdadeiras potencialidades - tanto para a construção e bem-estar quanto para a destruição e sofrimento.

No século XVI esse racionalismo se torna eixo-diretor do processo civilizatório. Quero dizer com isso que a razão, a partir da Idade Moderna, passa a ser a "nova religião" do homem, permitindo o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia num grau nunca antes visto.

As ciências humanas vem com um delay em relação às ciências naturais, mas começam a se impor no campo científico. No entanto, devido à sua natureza diversa, enquadrar os comportamentos humanos num arcabouço lógico-matemático, com pressupostos muito eficientes para descrever fenômenos de ordem física e química, mas incapaz de lidar com processos de emergência da biologia, mina as potencialidades de se criar laboratórios de experiências humanas, como no caso recente da Islândia [14]. E paupérrimo para lidar com questões da psique e a coletividade humana, com suas instituições. A inserção do livre-arbítrio em nossos modelos - mesmo que mentais - exige um método completamente novo. Esse método não dialoga mais integralmente com o pensamento racional - ele exige mais...uma consciência volumétrica, não mais apenas de superfície. 

A Grande Síntese revela com linguagem científica esse fenômeno de dilatação de consciência (grifos meus):

"No sentido espacial, vosso universo estelar, considerado isoladamente, é um sistema finito; é imenso, mas pode ser medido, e tudo que se pode medir é finito. Vossa mente o domina por completo, porque, sendo ela de um plano superior, pode ultrapassar qualquer limite espacial. Se podeis, num corpo tão frágil e pequeno, voar assim conceptualmente, a ponto de poderdes compreender o universo físico, o qual jamais poderíeis percorrer todo materialmente, isso é devido ao fato de que existis numa fase evolutiva superior. Verificais, aqui, como a diferença de nível dá ao superior o poder de dominar e compreender o inferior, mas não o contrário."
Cap. 35 - Limites Espaciais e Limites Evolutivos do Universo

Temos ainda antecipações que a própria ciência começa a admitir como tal:

"Todo o vosso universo físico move-se em velocidade vertiginosa em relação a outros longínquos universos semelhantes, a fim de fazer parte, com eles, de sistemas ainda maiores. Que isto não vos surpreenda!"
Idem

Vejamos sob a luz das descrições formais da atualidade:

"O conceito de Multiverso tem suas raízes em extrapolações até o momento não científicas da moderna Cosmologia e na Teoria Quântica, e engloba também várias ideias oriundas da Teoria da Relatividade modo a configurar um cenário em que pode ser possível a existência de inúmeros Universos onde, em escala global, todas as probabilidades e combinações dessas ocorram em algum dos universos. Simplesmente há espaço suficiente para acoplar outros universos numa estrutura dimensional maior: o chamado Multiverso."
Fonte: [11]

Mais descrições podem começar a nos dar uma ideia do tamanho do desafio que a Ciência hodierna encontra com seus formalismos:


"Devido ao fato da conjectura de multiverso ser essencialmente ideológica, não havendo, atualmente, qualquer tipo de prova tecnicamente real, a "teoria dos universos paralelos" ou "multiverso" é em essência uma teoria não científica. Nesse ponto, aliada à completa ausência de evidência científica, há ainda a questão concernente à compatibilidade com as teorias científicas já estabelecidas e os rumos diretamente apontados por essas. No conceito de multiverso, imagina-se um esquema em que todas os universos (as bolhas de sabão) agregavam-se mutuamente por uma infinita vastidão. Tal conceito de Multiverso implica numa contradição em relação à atual busca pela Teoria do Campo Unificado ou pela Teoria do Tudo, uma vez que em cada Universo pode-se imaginar que haja diferentes Leis Físicas."
Fonte: [11]

As "diferentes leis físicas" é algo inadmissível pela Ciência justamente pelo fato desta não conceber que os universos se encontram em níveis evolutivos diversos. Por esse motivo não podemos aplicar as mesmas leis de nosso Universo conceptual, avançando no campo do psiquismo, mas igualmente (e ainda) regido por leis materiais, a outros universos, que podem ter superado por completo a materialidade - e portanto não mais obedecem leis físicas, e sim leis superiores, do campo espiritual [12].

Pedro Orlando, em um trabalho magistral, nos revela as classes de universos (figura abaixo) baseado nos princípios revelados por Sua Voz, através de Pietro Ubaldi. O diagrama (Figura 4) esboçado no ensaio sobre "Emborcamento do Rumo Natural" [13] é justamente a chave para compreender o fenômeno evolutivo da natureza (sim, não é apenas a cultura que se altera, apesar de sua dinâmica muito mais frequente). 

Conjunto de universos.
Fonte: ORLANDO, Pedro.
O nosso universo é de desenvolvimento conceptual. Repare que esse tipo de universo ainda está preso à dimensão espaço. O conjunto de universos de desenvolvimento espiritual já superou a dimensão espaço-tempo e neles percebemos que a superconsciência é regra (não exceção). Logo, leis físicas não se aplicam.

Querer reduzir o desconhecido a algo mensurável ao nosso grau de consciência é distorcer as possibilidades de evolução própria. Devemos ser humildes ao chegar na fronteira do concebível. Esse é o único modo de evoluir - e nos tornarmos felizes permanentemente.

Sair dessa posição de cheque implica em mudar completamente a forma de conceber o que é: "evolução". Deve-se assumir postura de humildade perante o infinito.

"Movendo-se sempre na mesma direção do mundo físico, encontrareis sempre o mesmo princípio, sem mudanças. Para ultrapassá-lo e sair dele, é indispensável mover-se em outra direção: a da evolução."
Cap. 35 - Limites Espaciais e Limites Evolutivos do Universo

Não dominaremos a superfície nos movendo infinitamente nela. Apenas superando-a com o mergulho volumétrico poderemos dominar a dimensão inferior que tanto nos atordoa. O próprio Einstein afirmou isso ao dizer que "nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou".

Por ora me limito a chegar aqui. Futuras maturações devem trazer à tona novos conceitos.


Referências
[1] A Grande Sìntese. Caps. 35 a 38. UBALDI, Pietro.
[2] Ver Filosofia da Antiguidade, de ROHDEN, Huberto e Ascese Mística, de UBALDI, Pietro.
[3] https://www.cartacapital.com.br/blogs/brasil-debate/as-reformas-neoliberais-ampliaram-os-lucros-das-grandes-empresas
[4] https://www.cartacapital.com.br/revista/948/cientistas-franceses-contradizem-descartes-o-pai-do-racionalismo
[5] https://www.cartacapital.com.br/economia/seis-brasileiros-tem-a-mesma-riqueza-que-os-100-milhoes-mais-pobres
[6] https://www.youtube.com/watch?v=njhAiVcl344
[7] ROEGEN, Nicolas-Georgescu. Energy and Economic Myths, New York: Pergamon Press, 1976.
[8] Para maior compreensão recomenda-se o estudo dos livros-base da Obra: A Grande Síntese, Deus e Universo, O Sistema e Queda e Salvação. UBALDI, Pietro.
[9] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2016/01/evolucao-e-complexidade.html
[10] Lotka, junto com Volterra, foi um dos responsáveis pela construção do modelo matemático predador-presa que estabelecia a relação entre duas espécies num habitat.
[11] https://pt.wikipedia.org/wiki/Multiverso_(ci%C3%AAncia)
[12] http://monismo.net/coment36.html
[13] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/08/emborcamento-do-rumo-natural.html
[14] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/08/democracia-diretautopia-hoje-vir-ser.html

Observações
* Trata-se da intuição, 3ª dimensão conceptual, que pouquíssimos seres humanos desenvolveram até o momento.
** Quintessência vem de 5ª essência, que seria a substância que os gregos acreditavam que permeava todo o espaço (o éter). Seriam os núcleos (prótons e nêutrons) sem elétrons, imperceptíveis aos nossos instrumentos. Mas o monismo diz que trata-se de algo muito maior do que isso. Maior em termos qualitativos.
*** O Evangelho de São Tomé é uma preciosidade. Para compreendê-lo na íntegra necessitamos ler o espírito do texto, que tudo revela, tudo diz - e não suas palavras, que pouco dizem.
**** Buda