sábado, 29 de março de 2014

DAR O PEIXE e ENSINAR A PESCAR? OU DAR O PEIXE ou ENSINAR A PESCAR?

Muito se tem comentado a respeito da proteção social oferecida pelos Estados. Há críticos e defensores de políticas assistencialistas. E de certa forma ambos tem razão em seus pontos de vista. No entanto, o extremismo gerado pelos lados – pelo que tenho visto na mídia, o lado do contra é mais feroz do que o lado a favor. mas isso é a "opinião" da mídia – não tem auxiliado muito na convergência dessa temática.

Enquanto os críticos do assistencialismo defendem que você deve ensinar a pescar ao invés de dar o peixe, os defensores dizem que você deve dar o peixe para que depois o assistido saiba pescar. E existem os defensores que acabam se concentrando mais no “dar” e esquecem no “aprender”, mas creio que se trata de um número reduzido de pessoas. Mas é em cima desse grupo reduzido que a propaganda anti-assistencialista se apóia para destacar os (possíveis) efeitos negativos da mesma.

Em linhas gerais, o que deve-se ter em mente é que não se trata de uma coisa OU outra (dar OU ensinar). Trata-se de uma coisa E outra (dar E ensinar). São atitudes que devem trabalhar em conjunto, com uma precedendo a outra.

Explico melhor.

É fato que todo ser humano deve aprender a obter recursos através de suas próprias habilidades e aptidões. No entanto é interessante nos lembrarmos dos bebês para compreendermos a delicadeza do tema.

Uma criança (da espécie humana) precisa de uma série de cuidados antes de poder andar e tomar decisões por conta própria. Isto é, o bebê irá necessitar de um forte assistencialismo (dos pais ou tios ou avós,..de alguém) de saúde, alimentação, abrigo, vestimenta, educação, afetividade, entre outros itens, para que futuramente possa ser capaz de executar atividades úteis para ela mesma e para a sociedade. Sem esse assistencialismo inicial – que dura vários anos – o pequeno ser corre risco de morrer ou se desenvolver em desacordo com as expectativas dos cuidadores.

Estendendo esse assistencialismo para o mundo, observamos que ele é necessário da mesma forma. Por que? Simplesmente porque nosso sistema arcaico, centrado no lucro, consumo e trabalho alienado gera uma desigualdade de condições tão funesta que existe uma miríade de seres em todas idades que não tem condições mínimas de melhorar sua condição presente. Não possuem escolaridade nem saúde, e sua etnia, crença ou cultura tornam sua empregabilidade menor, quer os empresários admitam isso ou não. Os exemplos são numerosos e podem ser encontrados nas ruas de qualquer cidade.

Não é possível que uma pessoa faminta, sem moradia fixa, nem saúde, com família para cuidar e problemas dessa natureza possa executar um trabalho. Sua mente estará preocupada com problemas de sua realidade. Mesmo porque os empregadores, que poderiam fazer isso, dificilmente o farão (o norte de uma empresa é o lucro, não a fraternidade). E muitos daqueles dispostos a fazer esse "favor" tiram proveito dessa situação de vulnerabilidade do indivíduo, submetendo-o a exploração. Em suma, uma neo-escravidão.

É portanto imprescindível que pessoas em condições desfavoráveis sejam assistidas por uma entidade que (teoricamente) representa e trabalha pelo povo: o Estado. O intuito, claro, é que esse programa seja bem conduzido de modo a tornar a pessoa financeiramente independente e com um nascente senso crítico a médio e longo prazo. E nesse aspecto o Bolsa Família foi um passo importante [1], [2].

Segundo um estudo publicado na revista CartaCapital (não me lembro a edição, mas sei que foi do ano passado), para cada R$ 1,00 do PIB investido gerou-se, alguns anos de pois, R$ 1,44 de retorno. Os números são a comprovação de que tal política - ao contrário do que as classes abastadas acostumadas a serem servidas querem propagar - aumenta a produtividade do país, com 44% de retorno. Apesar de não ser a solução de todos problemas, é um componente fundamental da mesma.

Quanto às críticas - aparentemente sensatas e ferozes - contra o Estado de Bem-estar, faço um convite à reflexão em relação a alguns pontos:

  • Se o assistencialismo é ruim, porque todos países europeus que o adotaram como prioridade tem uma qualidade de vida alta, com seu povo desfrutando de renda alta, produtividade e muitas horas livres e opções de lazer? (pelo menos antes de vários governos adentrarem nessa onda neoliberal ditada pelo lucro...). E por que países ditos desenvolvidos que não adotaram essa política tem indicadores sociais baixos entre boa parte da população (como EUA, por exemplo).
  • Segundo estudos, 99,5% dos pesquisados [3] não deixaram de trabalhar, e muitos crianças passaram a ir para a escola, pois a família percebeu que isso é importante. Quanto àqueles que se recusaram ao trabalho, trata-se de pessoas que adquiriram consciência e não querem mais se submeter a um trabalho degradante (escravo). Isso é, a meu ver, um progresso. A recusa a ser explorado jamais deve ser vista como ato de vagabundagem, e sim como o despertar da consciência - e convenhamos...para quem se acostumou a usufruir de mão-de-obra barata, é muito difícil aceitar a libertação mental de seus servos assalariados.

É óbvio que uma pessoa que passa a ter consciência de que sua realidade passada era miserável e alvo de lucro de grupos corporativos nefastos vai se recusar a "trabalhar" para tal sistema. Ela demandará um trabalho DIGNO, que pague um salário compatível com sua dedicação, e com possibilidades de crescimento - se uma pesquisa aprofundada for feita nesse campo, como Bertrand Russell, Noam Chomsky, Domenico De Masi e etc fazem, eu garanto que poucas são as empresas no mundo atual dispostas e interessadas em dar essa possibilidade a seus funcionários...

Devemos ter em mente de que os problemas de violência somente cessarão definitivamente, em todos os campos, a partir do momento que começarmos a construir uma sociedade FRATERNA. E SAPIENTE.

Essa frase contêm a essência do artigo.
Antes de tudo precisamos compreender a fundo a realidade de todos e nos abrir para a TRANSFORMAÇÃO, nos despojando de instintos de exploração e percebendo do "fraco", no "incapaz", no "pobre", um ser como nós, que simplesmente vive outra realidade. Uma realidade mais árdua em vários aspectos.

É difícil? É. Muito. Mas esse me parece ser o único caminho. Aquele que ataca as causas. Um caminho sensato, a meu ver.







Referências

[1] http://www.cartacapital.com.br/sociedade/bolsa-familia-nao-desestimulou-procura-por-emprego-diz-estudo

[2] http://www.cartacapital.com.br/economia/por-que-o-bolsa-familia-e-importante-1636.html

[3] http://www.viomundo.com.br/politica/recordar-e-viver-rebatendo-as-criticas-ao-bolsa-familia.html

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