terça-feira, 28 de janeiro de 2014

POR UMA VIDA MAIS HUMANA

O Progresso da Humanidade é tão lento quanto a capacidade de algumas pessoas compreenderem os problemas sociais e culturais que nossa sociedade, em sua maioria, - em todos países, em menor um maior grau...mas em todos - vem fomentando inconscientemente. Esse fomento acontece de forma lenta e contínua. É um anti-trabalho feito por muita gente que julga estar contribuindo para o progresso através de seu "trabalho". "Trabalho" este que exige muito em termos técnicos e comunicativos, mas cujos resultados é o enriquecimento de um grupo pequeno - já tremendamente rico - que afirma ser este a única alternativa da humanidade. Será?

Não devemos julgar as pessoas pelas suas atitudes. Todos (todos) temos defeitos. Não é culpa do indivíduo reprimir qualquer grupo ou pessoa diferente, "radical", "utópico", "vagabundo" (etc) que proponha uma nova visão e modo de fazer as coisas. E esboce idéias e aplique coisas simples em sua vida. Porque esse indivíduo (o repressor, parte da maioria nas idéias comuns) geralmente está tão atarefado em seus afazeres diários que não há TEMPO nem ENERGIA para que ele ESCUTE vozes dissonantes. Vozes essas ainda com alguma energia. Vozes que tiveram a oportunidade de estudar e trabalhar - no verdadeiro sentido da palavra. Trabalhar em algo que lhe permitisse DESENVOLVER seu SER, respeitando-o.

A maioria das pessoas neste planeta não pode se dar ao luxo de fazer o que gosta. Os motivos são tão óbvios - porém infundados - quanto inumeráveis:

  • Dificuldades financeiras agudas;
  • Preconceitos sócio-culturais acerca da profissão;
  • Mortes, violências ou traumas sofridos ou constantes em seu meio;
  • Preconceitos raciais durante a trajetória de ensino;
  • Falta de perspectivas educacionais.

As dificuldades financeiras agudas são causa de muita infelicidade neste mundo.

Recentemente li um artigo muito bom na revista Carta Capital que falava sobre concentração de renda. Este artigo se baseava num relatório respeitável, "Credit Suisse Research Institue" (Outubro de 2013). É o "Global Wealth Report" (Relatório de Riqueza Global) na qual inúmeras estatísticas relacionadas às condições de vida no planeta são levantadas, interpretadas e usadas para traçar possíveis políticas para a melhoria das condições de tudo e de todos.

Força sem Inteligência versus Inteligência sem Força.
ou (respectivamente)
Polícia versus Sociedade


O que mais me chamou a atenção foi o seguinte: um indivíduo que possua mais de R$ 8.600 reais disponível em sua conta corrente ou casa (ou algum lugar qualquer...mas seu) é mais rico do que 50% DA POPULAÇÃO DESTE PLANETA. Isso me fez refletir um pouco. Porque muitas coisas fundamentais nesse planeta custam algo que beira esse valor. Ou suplente em muito. Um carro, por exemplo. Ou um imóvel. Simples. Eletrodomésticos. Gasto de quatro ou cinco meses de supermercado, para uma família que deseje ter alimentos minimamente nutritivos. Etc.

Uma informação dessas pode levar muita gente a ficar agradecida pelo que possui. E igualmente - e não sem razão - conduzir ao seguinte raciocínio: não devemos reclamar nem desejar mais, pois há muita gente cuja realidade socioeconômica é muito pior. Eu concordo. No entanto, se todo mundo pensar apenas desse ponto de vista, julgando que sempre há uma pessoa ou grupo em condição pior, chega-se à conclusão de que ninguém (exceto o grupo mais pobre, que constitui um punhado de milhões) deve questionar a ordem mundial estabelecida. Mas essa multidão não tem nem sequer consciência da própria existência, e sua única preocupação só pode ser saber se irá sobreviver ao dia seguinte.

O raciocínio anterior facilita as ações de grandes grupos (no topo), que se enriquecem sem esforço real. Apenas exercendo um controle sobre todos aqueles de baixo da pirâmide político-econômica, e dizendo para essa grande massa de pessoas abaixo que devem olhar ainda mais pra baixo e para de reclamar. Bom...primeiro erro: muitos QUESTIONAM ao invés de reclamar. E segundo: todo progresso humano teve como causa a vontade de ser mais e melhor.

Os questionadores são criaturas que constituem o maior perigo para a ordem estabelecida. Eles tem fortes argumentos e falam suavemente. Convencem através da persuasão. Do diálogo. Do exemplo. E convencem aos poucos e para poucos. Porque nós, humanidade, rejeitamos em grande medida nossos sentimentos e pensamentos por muitos séculos, nos automutilando.

Poucos atingiram um patamar capaz de compreender a dinâmica evolutiva de todas criaturas desse (e de outros) globos. E de esboçar possíveis caminhos para a melhoria de suas vidas e a dos outros. E, do meu ponto de vista, me parece que esse tipo biológico não é necessariamente aquele com mais titulação nos estudos e/ou (muito menos) aquele em cargos de poder.

Podemos encontrar seres orientados para a espiritualidade e para o estudo desinteressado (ou seja, prazeroso, mas com uma utilidade de fundo ainda não perceptível nem a essa criatura) em locais simples, frequentados por muita gente. Suas ações são discretas. Tão discretas que, para uma pessoa num patamar médio se dar conta da luminosidade espiritual desse ser, seriam necessários anos de vida. Escutando-o, compreendendo-o, e trocando idéias. No entanto esse tipo de atitude é impossível nesse mundo. Mundo este estruturado de forma a impedir quaisquer tipos de contatos desinteressados a longo prazo - amizades verdadeiras, em outras palavras. Além dos problemas de comunicação, que são uma segunda barreira.

Há pessoas construtoras constantes de boas idéias. São mentes que trabalham 24 horas por dia. Em parques, centros, nas ruas. E se preocupam com a finalidade de sua aplicação. E algumas dessas pessoas ainda tem a sorte de serem de uma etnia e condição social que permita o desenvolvimento de sua personalidade em seu meio. No entanto, essas pessoas tem dificuldade em comunicar suas idéias. E por essa razão, passam boa parte (ou toda) sua existência se manifestando em vão. Por outro lado, essa vertente social deve ser analisada bi-direcionalmente.

É fato que um bom comunicador tem todos pré-requisitos conseguirá passar uma idéia para seu público. No entanto, de nada adianta o melhor comunicador do mundo (ou do Universo) lançar energicamente palavras para uma multidão pouco dotada de sensibilidade. Há evidentemente um pré-requisito a ser preenchido. Pela multidão - ou a maioria dela - nesse caso. Vê-se que o sucesso da ligação é dependente do receptor e do emissor. A relação é bi-direcional.

Portanto, as criaturas questionadoras, - que apesar de serem minoria, são cada vez mais numerosas e conscientes - passam grande parte de suas vidas isoladas e ignoradas na maioria dos meios sociais, que são muito mais receptivos do que os governamentais e corporativos. Isso torna a batalha do sensível muito dolorosa, e seu refúgio é encontrar pequenos oásis sócio-culturais. Locais com pessoas capazes de compreender sua mensagem.

Através dessas ilhas de reflexão e sentimento, criaturas evoluídas conseguem se desenvolver. Não se sentem ameaçadas e portanto dão o melhor de si. E possuem responsabilidade em alto grau. Para eles o Dever - de auxiliar os outros, de estudar, de questionar - é algo natural. Não há necessidade de se monitorar para a prática de atitudes virtuosas. Seu prazer é executar atividades diferenciadas que promovam a união das pessoas e dos povos. Atividades que interconectem as áreas. Para isso sua mente funciona constantemente. Ela é criativa em estabelecer analogias e introduzir idéias de formas diferentes. Esses seres não são necessariamente os mais desenvolvidos intelectualmente. Mas sua VONTADE supera em muito as mentes mais brilhantes.

A vontade é motor de crescimento. É fundamental para a Evolução. Um ser que tem capacidades mas carece de vontade tende a estagnar. Por outro lado, um ser com pouca capacidade mas repleto de vontade está em constante evolução. É como a fábula da Tartaruga e da Lebre. No final a vontade da mais lenta (tartaruga) triunfa sobre a capacidade da mais rápida (lebre). Assim é na vida. Só que a última palavra não foi proferida. Na verdade ela está muito longe de ser dita. Por isso valorizamos as lebres, julgando-as campeãs e exemplo de Progresso. Falta de visão. Falta de sensibilidade. Falta de estudo...

Todos ingredientes de Progresso estão aqui, neste mundo. Só resta a quem já percebe isso, divulgar a idéia. Sem medo. Sem vergonha.

É difícil? Sim, é muito difícil. Mas o encorajamento deve vir daqueles que enxergam mais longe. Se esses ficarem quietos, corremos o risco de permanecer nesse estado de terror, com entidades de terror, dominadas por mentes com dois ou três séculos de atraso.

Não tenham medo.

sábado, 25 de janeiro de 2014

SERES INVISÍVEIS NUM MUNDO INSENSÍVEL

Existem pessoas que apesar de estarem encarnadas apresentam características de espíritos. São invisíveis aos olhos de muitos. Por parte de governos, corporações e - mais trágico - pessoas. Governos porque estes só consideram "gente" aqueles devidamente registrados, carimbados, documentados e em condições de pagarem seus impostos. Em suma manipuláveis e controláveis; por parte de corporações, porque estas só consideram "gente" aqueles que são direta ou indiretamente consumidores de seus produtos - ou potenciais consumidores. Além de (claro) não interferirem no seu processo de extração, manipulação, descarte, exploração legalizada e coisas do tipo; e por parte de pessoas porque alguns seres são completamente destituídos de sentidos refinados para perceber as potencialidades de alguns seres em áreas adjacentes.

Dentre as três invisibilidades, a última sem dúvida é a pior delas. Ser invisível para uma pessoa ou grupo de pessoas é algo que faz muita gente se questionar sobre suas atitudes e o caminho que ela está trilhando. Mesmo que essa pessoa se revele bem sucedida - material e espiritualmente - no futuro, e consiga encontrar um meio mais receptivo, com pessoas capazes de perceber suas potencialidades. Mas passar por túneis é sempre doloroso...

Às vezes temos a sensação de que algo (geralmente ruim) vai durar para sempre. Uma situação na qual estamos atrelados. Por motivos materiais, de sobrevivência, que temos de respeitar. Impedidos de manifestar nossas idéias e sentimentos e opiniões. Impedidos de deixarmos nosso corpo se expressar com liberdade total. E até impedidos, ou compelidos, a não esboçarmos nem sequer gestos de reprovação e admiração a certas pessoas e idéias. Travados.

Etnia "errada", roupa "errada", modo de vida "errado",
sem classe social,...Nem toda SABEDORIA e VIRTUDE
do mundo podem reverter as consequências desse quadro.
Somos civilizados ou bárbaros?

Conseguimos passar por esses túneis porque acreditamos num futuro melhor para nós. Nem que minimamente. Caso contrário, se não houvesse um mínimo de crença numa melhora, seria muito difícil suportar as amarguras cotidianas do presente. Mas o fato é que não existe nada mais desagradável do que ser anulado por pessoas. Essa supressão pode ocorrer por vários motivos. A meu ver, alguém (ou um grupo) pode anular a voz e atitudes de uma pessoa ou grupo porque:

  • Possui inveja
  • A maneira de comunicação do outro não lhe agrada
  • Tem medo de que essa pessoa possa lhe "roubar" algo (o status de mais conhecedor de um assunto X, por exemplo)
  • Os assuntos não agradam
  • Não vai com a cara da outra pessoa

Enquanto as três primeiras atitudes são reprováveis do ponto de vista moral, a última pode ser algo natural. Mas antes deixe-me justificar a minha ideia.

Inveja é um sentimento ruim, que gera ódio e rancor na pessoa. Surge porque vemos alguém numa situação melhor que a nossa (às vezes aparentemente). E esse sentimento parece ser mais intenso quando tivemos a liberdade de escolher o caminho. Como aquele que invejamos. Só que não soubemos escolher de forma sagaz. E, mergulhados num caos, desprezamos (invejamos) o outro.

O fato da maneira de nos sentirmos incomodados com a forma de comunicação de certas pessoas não justifica nossa repulsão a elas. Significa apenas que não temos capacidade de lidar com diferentes formas de manifestação (imagine só, outros poderiam pensar o mesmo de você). E realmente: é muito mais fácil rejeitar do que tentar compreender o outro.

Ter medo de que alguém "roube" algo seu é motor indutor de afastamento e corte de conexões. A fonte é o agente com esse medo. Medo este infundado. Porque, caso alguém saiba mais sobre algo que antes era o ponto forte de outro, nada mais sensato do que deixar este último se manifestar.

Quanto aos assuntos que não agradam, trata-se basicamente de uma questão de interesses. Eu - particularmente - não vejo sentido em tratar mal ou pelo menos não ouvir alguém que fale sobre algo diferente, ou dê um enfoque diferente sobre um assunto, se essa pessoa for bem intencionada e possuir conhecimento sobre o tema (além de se comunicar bem). O problema é o seguinte: se isso ocorrer, os outros dificilmente aceitarão as novas idéias ou novo enfoque. E mesmo que as pessoas não aceitem e nem queiram ouvir coisas diferentes, elas deveriam RESPEITAR a retração e busca desse ser ilhado em buscar e desejar um grupo que o compreenda e esteja disposto a dialogar com ele. Porque não aceitando, o que muitos desejam é que o outro se CONFORME completamente ao meio (apenas para não incomodá-los). Não basta deixá-lo ilhado. Deve-se reprovar seus anseios mais profundos. Isso é a meu ver um erro grave que só tende a gerar mais afastamento. Mas - com um pouco de sorte - esse ser, tido como ninguém em meio X, será alguém (de muito valor) num meio Y. E torço para que todos seres assim encontrem seu meio Y.

Finalmente chagamos ao "não ir com a cara". Essa última razão de rejeição tem um fundamento que me impede classificá-la como algo reprovável. Primeiro porque não existe uma explicação lógica para a existência de uma pessoa não ir com a cara de outra. A própria pessoa não sabe o porquê de seu sentimento. Pode haver uma razão para tal sentimento que vai além de nossa capacidade de racionalizá-lo. E fenômenos sem uma explicação racional não podem ser trabalhados no campo da ciência. Segundo algumas teorias, pode ser um "carma", ou seja, um erro ou abuso que você cometeu com essa pessoa que tenha deixado impressa nela essa sensação. Mas não irei me estender nesse assunto.

Voltando ao túnel. Quando alguém se encontra ilhado, sugiro que a pessoa se projete para as idéias e, sempre que puder, recorra a ambientes públicos para fazer atividades que lhe agradem. A Natureza pode ser inclusa como uma grande aliada do bem-estar. E as atividades culturais, igualmente, dependendo da afinidade da pessoa com elas. Nesse ponto eu gostaria de destacar que um indivíduo com mente mais aberta - e portanto criativo - tende a sentir menos necessidade de contatos. A cultura lhe dá uma sensação de preenchimento sem a necessidade imediata de contatos. Digo mais: uma pessoa culta - ou inclinada para tal - é mais propensa a encontrar pessoas e manter um contato saudável e não lastreado em interesses materiais. Sua sensibilidade às coisas simples é maior. Logo, há maior quantidade de distrações úteis em seu leque de atividades.

Não há muito a acrescentar. O mundo é dinâmico e em poucos meses nossas vidas podem dar reviravoltas. Você já deve ter passado por isso. Eu já passei.

É muito difícil prever nossas vidas num horizonte de tempo muito extenso. Por mais sofisticado nosso modelo e estável nossa posição, há muitas variáveis que podem entrar no jogo inesperadamente. E então, a minha dica é: não se preocupe tanto com previsões. 


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

SERÁ QUE NÃO PRECISAMOS DE UM “NEW DEAL” PERMANENTE?

A sociedade ocidental gerou e superou grandes desastres nas primeiras décadas do século XX. As duas guerras mundiais demonstraram os pormenores da capacidade intelectual-destrutiva do ser humano. Após 1945, e pela primeira vez na história, estamos aptos a nos autodestruirmos. Parabéns para a intelectualidade, pêsames para a moral.

Felizmente um conflito de tamanha magnitude fez florescer – mesmo contra a vontade dos governos e empresas – uma necessidade de sobrevivência que culminou com o estabelecimento do Estado de Bem-Estar Social, tão difundido e teorizado por J.M. Keynes anos antes de sua implementação. Um estado que já havia sido colocado em prática após uma outra crise. Uma crise financeira: a queda da Bolsa de 1929.

Com o “New Deal” [1], F.D. Roosevelt [2] se torna o primeiro chefe de estado da História a implementar uma série de mecanismos típicos de um Estado socialista sem recorrer a métodos ditatoriais. Na verdade, pode-se dizer que ele foi o primeiro a implementar políticas socialistas no verdadeiro sentido da palavra – já que a democracia é pré-requisito para se ter um sistema cujo eixo é o SOCIAL (convivência, educação, oportunidades e condições iguais, respeito às diferenças e capacidades, saúde, transporte, cultura, etc). Mas isso é outra história.


Um gesto fraterno para salvar ambos (e todos)
da ruína.
Infelizmente, o “New Deal” só se concretizou por motivos emergenciais. Os EUA – e toda economia do globo, que estava vinculada à nova superpotência – mergulharam numa depressão econômica que ocasionou no caos social de seu próprio povo. Desemprego, desespero e fome são palavras que definem bem o período. ¼ da população perde sua ocupação em poucos dias. Famílias são corroídas. Ninguém ganha, ninguém compra. Ninguém tem nada, ninguém tem medo de perder nada. Ninguém tem medo de perder nada, todos são potencial foco de revolta. Eis o produto de um sistema centrado no negócio, cuja finalidade única é o lucro crescente, custe o que custar.

Os itens do projeto de Roosevelt são quatro e continuam atuais para os dias de hoje e para qualquer sociedade:

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1. Investimento maciço em obras públicas: o governo investiu US$ 4 bilhões (valores não corrigidos pela inflação) na construção de usinas hidrelétricas, barragens, pontes, hospitais, escolas, aeroportos etc. Tais obras geraram milhões de novos empregos;
2. A destruição dos estoques de gêneros agrícolas, como algodão, trigo e milho, a fim de conter a queda de seus preços;
3. O controle sobre os preços e a produção, para evitar a superprodução na agricultura e na indústria;
4. A diminuição da jornada de trabalho, com o objetivo de abrir novos postos. Além disso, fixou-se o salário mínimo, criaram-se o seguro-desemprego e o seguro-velhice (para os maiores de 65 anos).
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Os quatro pilares acima, postos em prática, comprovaram a eficácia de um Estado focado em políticas sociais e (por que não) fraternas.

São políticas que cairiam muito bem num país chamado Brasil (mas não apenas ele). Hoje, ontem e amanhã. Independente do governo.

Embora não fosse a intenção, as reformas adotadas por Roosevelt lançaram as bases do estado keynesiano (do Bem-Estar) e do poder sindical – sem o qual os trabalhadores podem se defender de igual pra igual da exploração. Trata-se de uma atitude que permitiu o desenvolvimento de mecanismos de proteção para as pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, evitando que milhões de pessoas caíssem nas garras de instituições e pessoas – ansiosas para se aproveitarem dessa situação de fragilidade, da qual o ser humano frequentemente se dispõe a fazer de tudo para sobreviver.


John Maynard Keynes: o teorizador e
defensor.
A 2a Guerra Muundial surge (paradoxalmente) como um novo catalisador dessa nova postura político-econômica, que iria reforçar a manutenção do Estado de Bem-Estar social na Europa Ocidental e EUA até os anos 1970, quando a Crise do Petróleo foi utilizada (a meu ver) como justificativa para mudanças. Eis a pré-história do Neoliberalismo.


Jimmy Carter proferiu um discurso memorável em 1979 [3] a respeito dos novos tempos que estavam por irromper. Tempos com problemas relacionados à questão energética. Tempos sombrios se o povo de seu país (e do planeta) não se conscientizasse e mobilizasse rapidamente – o que não ocorreu...

O discurso, a grande questão, pode ser resumida como SUSTENTABILIDADE energética.
O EUA estava prestes a entrar na era Reagan, caracterizada por um desmonte do Estado e participação cada vez maior de grandes conglomerados, cuja finalidade era “servir a sociedade”. E para isso, esses conglomerados precisavam de mais “mobilidade”. Era necessário que o Estado servisse esses conglomerados para que estes pudessem servir à sociedade. Um agente intermediário entre Estado e Povo. Para “facilitar” tudo... Dessa forma, os problemas decorrentes da dependência de fontes energéticas não-renováveis* se tornam uma forte justificativa para o desmonte do Estado do Bem-Estar Social. Lentamente. Vagarosamente. Maquiadamente...(e Maquiavelicmanete).

A meu ver é um erro atribuir as falhas de um sistema a algo que não está intrinsecamente relacionado ao modo de operação do mesmo.

Pode-se ter um sistema sócio-cultural eficaz com uma fonte energética insustentável (esse seria o caso do Ocidente dos anos pós-guerra). Nesse ponto eu me pergunto se o caminho mais sensato não seria ouvir os conselhos de Jimmy Carter e começar a pesquisar novas formas de se obter energia e/ou (mais importante) ter como finalidade da existência bens intangíveis e a espiritualidade. No entanto, uma pessoa de bom senso sabe muito bem que a ganância humana é ilimitada, e que portanto o que precisava ser feito não foi porque um grupo de pessoas travestidas de aparatos mastodônticos criaram um problema cuja causa foi desviada para fins escusos. E a partir daí entramos no reinado de Reagan e Thatcher, cujos efeitos são visíveis até hoje. Em seus países e no mundo.

Pode-se contra-argumentar que o Bem-Estar gera uma ampla rede de assistencialismo que induz as pessoas a um estado de inércia. No entanto, basta observarmos os fatos para comprovar a falta de fundamento de tal argumento:

  • O desenvolvimento social dos países europeus e EUA permitiu um período de paz relativa dentro dos mesmos (apesar de que o terceiro mundo continuava a ser explorado, e as ditaduras pseudo-socialistas do oriente fossem norteadas pela burocracia, brutalidade e matéria);
  • Hoje, mais do que nunca, as crises financeiras continuam ocorrendo. Cada vez mais frequentes. E quem paga a conta é quem não a gerou: os trabalhadores e a sociedade. Enquanto quem as causou é socorrido;
  • Os desemprego é cada vez maior, e ao mesmo tempo não se geram alternativas de ocupação do outro lado. E cada vez menos trabalho (do tipo alienado) é necessário. E mais do tipo criativo. No entanto as vagas não são criadas na mesma proporção;

Existem inúmeras atitudes que, se analisadas em sua essência, clamam por um sistema com democratização dos meios de comunicação, priorização dos bens públicos, respeito a questões privadas (sexo, afetividade, sonhos, manias, etc) e liberdade de escolha profissional. Esta última implica que deve haver VALORIZAÇÃO (salários bons, jornada humana, plano de carreira, perspetivas de crescimento profissional) de áreas relegadas ao esquecimento como o ensino, as ciências sociais, a filosofia, as artes, as ciências naturais e mesmo as ocupações não reconhecidas como oficiais que no entanto geram muita riqueza INTANGÍVEL para o seu entorno.

Como último ponto gostaria de enfatizar o seguinte: resolver o problema individual é a primeira coisa a ser feita (é a famosa Reforma Intima) para melhorar o mundo – é a Psicologia em ação. No entanto, como seres sociais, devemos atuar na sociedade como elementos transformadores da mesma. Sem isso há departamentalização e nenhuma interconexão, e portanto não haverá mudança efetiva. Logo, DEBATES, CONFLITOS (saudáveis e conduzido por pessoas sapientes) e INSATISFAÇÃO (bem orientada) são ingredientes fundamentais para edificar uma nova sociedade que anseia por nascer – é a Sociologia em ação.

Mas muitas mudanças se iniciam e não se concretizam. São apenas ondas (os protestos de junho, por exemplo). Talvez isso reflita na postura que os indivíduos tem com o seu meio: hoje as coisas são mais efêmeras. A sensação do momento está à frente da construção sólida. A energia logo se esvai. É a liberdade sem compromisso. É preciso mudar sim. Mas é preciso ORIENTAR essa mudança.

E na fase atual, não vejo como promover progresso sem um órgão público competente conduzido pela sociedade. Um progresso encabeçado por princípios espirituais mas que atue no plano material.

É difícil. Trata-se de reformular todo o aparato estatal, para que este sirva o povo e não um punhado de grupos. É o que F.D. Roosevelt fez.

Quando teremos um “New Deal”?


Referências
[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/New_Deal
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Franklin_Delano_Roosevelt
[3] http://www.youtube.com/watch?v=cwCi-fSdvtU

* A longo prazo, pode-se dizer que o petróleo, assim como todas fontes de energia, são renováveis. Agora, considerando as necessidades da sociedade (de um sistema que a controla), que clama por uma rapidez crescente de recursos e energia, o petróleo não é renovável. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O GRITO DE UMA VIDA. O GRITO DE TODAS AS VIDAS.

Me lembro muito bem. Era o começo de 2007. Eu estava na metade final da faculdade e aproveitando mais uma (daquelas maravilhosas e longas) férias de verão. E dessa vez o que marcou esse início de ano foi um grande filme. Grande em duração e significado. Um filme subdividido em quatro séries de uma hora e meia cada. Um filme insubstituível cuja temática foi abordada da forma mais adequada possível, mesclando realidade e utopia na dose certa. “O Grito de uma vida” é o nome desse filme. Dessa obra. Dessa realização ímpar na História do Cinema. E eu explicarei o porquê de todos esses elogios.

Nessa época minha mente estava em fase de maturação profunda. Era um período de reflexões acerca do que eu queria e poderia ser futuramente. Pensava muito em questões que estavam (foram) enterrdas nas mentes de pessoas. Questões pouco utilitárias, e no entanto com implicações profundas na vida cotidiana. Dentre elas estava a dúvida do que era de fato a luta dos trabalhadores ao longo da história.

O que mais me agradou em “O Grito de uma Vida” foi a abordagem sábia de um dos temas mais controversos do nosso tempo: a luta da classe trabalhadora por justiça. Nesse quesito, a minissérie consegue fugir da abordagem comum, e inicia a narrativa focando na vida específica de um rapaz, Robert Panaud (Francis Renaud), membro de uma família cujos chefes de família foram, por tradição – ou melhor, por necessidade – operários da indústria de aço na França.

150 anos de história dos Panaud são revividos em 'flashbacks' picados durante a projeção. Paralelamente corre a vida de Robert, desde sua infância até a idade adulta. E observando os dias desse rapaz constata-se o poder gravitacional da indústria na vida das pessoas que dependem – forçosamente, na maioria dos casos – dela para obter os recursos mínimos para sua subsistência. E todas vertentes da vida, se são afetadas, tem como uma das causas a situação na indústria. Isso significa que foi criada uma relação (forçada) de dependência entre seres humanos e fábrica. Uma relação que no longo prazo não traz ganhos para ninguém e só gera lutas e insatisfações da (numerosa) parcela oprimida.

Desde fins do século XIX a tragédia marca a vida dos Panaud. Célestin, avô do protagonista, tem um trágico fim. Fim causado fundamentalmente por pressões incutidas nos operários pelos dirigentes ao longo dos anos. Dia após dia. Ano após ano. E é possível perceber que se trata de uma batalha perpétua pela sobrevivência e pela justiça – o que são a mesma coisa para o caso dos trabalhadores.

E mesmo com essa vida carente de recursos, conseguidos à custa de muitas horas, muito suor e muita saúde, observamos as diversas vertentes da vida de Robert e de seus familiares e amigos. Seu gosto pela música o leva a participar da orquestra da fábrica, e com isso se aproximar de uma colega descendente de italianos, Graziella (Marina Golovine), pela qual se apaixona e casa.

O Grito...” mostra todas nuâncias da vida no escritória e na comunidade e dá espaço para que todos personagens justifiquem seus atos e pontos de vista, permitindo que a luta (eterna) da classe trabalhadora – e de todos seres humanos explorados – seja melhor compreendida em sua essência.

Robert e Graziella: pouco tempo livre.
Tomando como exemplo o Senhor Lessage, antigo colega do pai de Panaud que seguiu um caminho diferente: enquanto este decidiu se manter fiel a seus colegas, evitando dilemas morais como ter que escolher quem será demitido ou como podem ser cortados os custos, se mantendo portanto operário e sem promoções, aquele se alinhou mais à chefia e acabou ocupando um cargo mais alto na fábrica. No entanto, pagou o preço de se afastar de seus colegas, e desde então carrega um peso na consciência que tenta maquiar a todo custo com sua expressão séria e “racional”. Todos dias, com todo mundo. No entanto, – e aí que reside a grandeza de “O Grito...” – Lessage, num momento crítico, decide atuar em favor de seus semelhantes, demonstrando uma firmeza singular perante seus 'superiores' [sempre aspas nesses casos], quando se vê diante de uma questão fundamental de justiça trabalhista. E nesse ponto vemos que muitas pessoas nas mesmas condições sociais agem como inimigos entre si (desunidas) por motivos de imposição de força daqueles que controlam a economia, ou por verem a ascensão profissional – à custa de princípios morais – como o meio de promoverem o bem da sociedade.

O discorrer da vida de Robert, com as memórias de seus antepassados e o crescimento de seu filho, é permeada com dilemas comuns a todos. Não vemos apenas um rapaz que é compelido a entrar no mundo da indústria aos 15 anos por falta de oportunidades. O que se vê é um ser humano com ideais e possibilidades, que ama e quer compreender o mundo e luta contra todas injustiças. Sua vida é a constatação de que as condições sociais precárias das famílias servem de matéria-prima para os industriais obterem meios de aumentarem seus lucros indefinidamente mas sem finalidade. E as desculpas para essa produtividade vão desde a 'necessidade de vencer o inimigo', 'a sobrevivência da fábrica', 'o 'progresso' da comunidade',...Justificativas ocas que são prontamente desmascaradas ao observarmos a realidade retratada do front de guerra (a fábrica). E ao ouvirmos os discursos calcados de lógica e bom senso de Ferrari (François Morel), o sindicalista. Discursos cuja veracidade logo é comprovada ao observarmos como as coisas são e foram na vida dos trabalhadores daquela fábrica.

Logo no início da projeção, quando o jovem Robert estréia seu primeiro dia na fábrica, ele passa diante do portão de entrada. E não poderia ser mais claro: para quem viu muitos filmes da Segunda Guerra, o portão lembra a entrada de um campo de concentração. O formato, o material, e até as dimensões, fazem o espectador estranhar aquilo. Somada às fumaças saindo das chaminés, aos controles sistemáticos, e a falta de finalidade de tudo aquilo, temos aí uma mensagem que ao contrário de ocultar verdades, procurá revelá-las (por mais chocante que possa ser essas verdades).

Em suma, “O Grito de uma Vida” é a DESMISTIFICAÇÃO do que foi, é, e continuará sendo, a luta dos trabalhadores e da sociedade.

Trata-se de uma análise profunda e não-maniqueísta de uma das realidades mais marcantes de nossos tempos.



Trecho do filme (em francês):
http://www.youtube.com/watch?v=tbuS353hOxU

Ficha completa:
http://www.imdb.com/title/tt0459240/?ref_=fn_al_tt_2


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

CORRUPÇÃO E SONEGAÇÃO: PROBLEMAS ACOPLADOS

Estudos recentes revelam que a carga tributária no Brasil atingiu 35,5% do PIB (Produto Interno Bruto) [1]. Isso significa que mais de um terço de toda riqueza (mensurada) gerada pelo país é direcionada para o governo – união, estados e municípios. Com tamanho apossamento de recursos, esperaria-se um retorno substancial em campos fundamentais para a população, dentre os quais poderíamos citar: saúde, educação, creches, bibliotecas, parques, segurança, ciência e tecnologia e cultura. Isso sem contar subsídios fortes ao transporte coletivo e programas de moradia que viabilizassem a compra de um imóvel de padrão decente em regiões decentes para qualquer pessoa que trabalhe – independentemente de seua escolaridade, etnia, classe social e profissão. E meios de garantir que os alimentos essencias cheguem à mesa de todo brasileiro a preços acessíveis. Mas sabe-se que isso não ocorre.

O problema não é o Brasil ter uma carga tributária alta, e sim o fato do país possuir uma carga tributária alta E um nível de desenvolvimento humano (IDH) baixo [2]. A análise dessas duas variáveis multidimensionais – uma de entrada e outra de saída – permite avaliarmos a situação. E o retorno está muito aquém do esperado. No entanto, é preciso ter cuidado para, no desejo ardente de querermos sair de um problema, não cairmos numa armadilha.

Segundo uma pesquisa da organização britânica Tax Justice Network, as perdas por SONEGAÇÃO fiscal no Brasil atinge a cifra de US$ 280,1 bilhões por ano. Enquanto isso, segundo um relatório da Fiesp, o país perde de R$ 50,8 bilhões a R$ 84,5 bilhões por ano com corrupção governamental [3]. Ou seja, os roubos por sonegação suplantam os de corrupção em pelo menos QUATRO VEZES. No entanto, não quero dizer com isso que a corrupção seja um caso secundário, e explicarei o porquê disso.

A meu ver, o problema CORRUPÇÃO, referente ao mau uso dos impostos altos, e SONEGAÇÃO, referente à vontade ora justa ora astuta de pessoas, estão ACOPLADOS. Isto é, um está relacionado com o outro. Trata-se novamente da relação de dependência bidirecional entre fenômenos.

Quanto maior a arrecadação de impostos e a corrupção, maior a taxa de sonegação. A causa? Simplesmente porque o cidadão, ao perceber que boa fatia de seu salario é confiscado compulsoriamente para jamais retornar (nem para ele nem para seus semelhantes em situação pior), começa a se revoltar. E na primeira oportunidade, na primeira brecha detectada, muitos não hesitarão em fugir das garras da Receita Federal. Porque sabe-se que o mau uso de seus recursos é certo. E que a desobediência civil aberta resulta em prisão. E que mesmo protestando inteligentemente e pacificamente a forma de atuação do Estado continuará igual em seu âmago.

Pietro Ubaldi se refere de modo geral a fenômenos desse tipo – isto é, do desvio das leis estabelecidas. Ele afirma, com razão, que enquanto um sistema criar leis injustas, ou melhor, criar leis que se apliquem aos outros e não aos seus elementos condutores, no caso de obter deveres, e vice-versa, no caso de obter direitos, haverá pessoas tentando encontrar brechas. Com isso demonstra-se por lógica que a sonegação é uma CONSEQUÊNCIA do MAU USO dos recursos oriundos via imposto. Se a cultura de corrupção se mantiver, o aumento de imposto só tende a aumentar proporcionalmente a mesma e a taxa de sonegação.

Vê-se então que o aumento de imposto dá aos governantes mais recursos, que são desviados para fins escusos, e que esse desvio reflete na (falta de) qualidade de vida da população, que por sua vez se torna mais criativa para sonegar. Tem-se um ciclo completo (ver figura 1)




No ciclo IMPOSTO → CORRUPÇÃO → SONEGAÇÃO tomei o cuidado de destacar em cor amarela o IMPOSTO e em vermelho a CORRUPÇÃO e SONEGAÇÃO. A razão dessa diferenciação segue um raciocínio bem simples.


O imposto, por definição, não é um mal em si. Através da pesquisa de qualquer sociedade que soube fazer uso sagaz do aparato estatal, pode-se ver que os altos impostos foram motor de desenvolvimento, trazendo distribuição de renda, democratização e bem-estar social. Logo, a extinção de impostos não resolve problema algum.

Alguém pode contra-argumentar afirmando que o fim compulsório dos impostos evitaria a corrupção (e sonegação). No entanto, como a mentalidade das pessoas não muda com o fim de uma ferramenta (no caso a arrecadação), passariam a haver outras formas de corromper e sonegar. Isso ocorre porque a raíz do mal não foi solucionada. E isso é comum no mundo atual, no qual 99% ou mais das pessoas não tem senso investigativo dos fenômenos que ocorrem ao seu redor. Como consequência chega-se frequentemente a soluções temporárias, que ou tapam o sol com peneira ou desviam o problema para outro setor – mas tudo isso é tema de outro artigo.

Agora adentremos um pouco na questão dos problemas reais intrínsecos à natureza humana do plano evolutivo atual para melhor compreender a dinâmica que ocorre. Nesse ponto cabe uma explicação um pouco mais detalhada.

Quando afirmei que a sonegação era um consequência da corrupção, quis dizer que esse é o fluxo PRINCIPAL. Em outras palavras: pode haver sonegação em sociedades pouco corruptas. Nesse caso, trata-se de um problema chamado ganância. Esse tipo de desvio geralmente ocorre com pessoas jurídicas – raramente um cidadão simples se sentirá compelido a sonegar imposto, se sua qualidade de vida for boa e sentir que justiça está sendo feita, salvas raras exceções de desvios psicológicos. Porque muitas corporações de grande porte internalizaram uma cultura de lucratividade sem pudor algum, no qual vale tudo para atingir o maior lucro possível. Nesse caso tem-se um caso no qual a sonegação desses gigantes deve estimular o Estado a exercer mais FISCALIZAÇÃO – admitindo-se um Estado ao estilo escandinavo (ver figura 2). Nesse caso particular e não tão incomum, a corrupção não gerou a sonegação. A causa dela foi pura e simplesmente uma: GANÂNCIA.





O mal fundamental é aquele que incita a corrupção e a sonegação, duas formas de roubo, uma praticada pela esfera pública e outra pela privada, é a ganância das pessoas encabeçando instituições . Dessa forma chega-se a um esboço de conclusão que


condena a CORRUPÇÃO
condena a SONEGAÇÃO GANANCIOSA
justifica a SONEGAÇÃO PELA SOBREVIVÊNCIA
justifica a existência de TRIBUTAÇÃO


Sendo a primeira justificativa a resposta dos seres com senso investigativo e de justiça a um sistema instável e (consequentemente) destrutivo; e a segunda uma necessidade para defesa da vida e desenvolvimento do meio; resta trabalharmos em cima das duas condenações.

E como?

A meu ver, em PRIMEIRO PONTO, o que qualquer pessoa pode fazer é informar os outros (familiares, amigos, colegas, alunos,...) e travar debates aprofundados – que fogem do lugar-comum...que me horroriza – acerca desse tema (escrever esse texto, por exemplo, é um exercício que faço com esse intuito). Ao mesmo tempo, as pessoas, ao ouvirem opiniões diferentes e/ou mais aprofundadas, deveriam ser mais RECEPTIVAS e sair de sua inércia mental para alçar patamares de compreensão superiores acerca de assuntos muito propagados e pouco refletidos. Patamares esses imprescindíveis para a construção de uma sociedade mais justa.





Referências

[1] http://economia.terra.com.br/carga-tributaria-do-brasil-atinge-novo-recorde-
355,e84bf967a7ca1410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html

[2] http://www.opovo.com.br/app/politica/2012/01/24/noticiaspoliticas,2772726/entre-30-paises-com-maior-carga-tributaria-do-mundo-brasil-da-menor-retorno-a-populacao.shtml

[3] http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/201cestado-ineficiente201d-mito-
mediocre-1246.html

Link extra (para reflexão)
[4] http://www.academiaeconomica.com/2014/01/estado-ineficiente-ou-governantes.html

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A NÃO-EXPECTATIVA COMO SOLUÇÃO DO MAL-ESTAR CONTEMPORÂNEO

Um dos maiores problemas de nossa sociedade são as crescentes crises de depressão e solidão, cada vez mais presentes no cotidiano. Todo indivíduo, se não passa por algo do tipo, sem dúvida já passou. Se não passou, provavelmente passará. Se vier a não passar, sem dúvida deve conhecer um familiar ou amigo ou colega ou cliente que tem ou já teve um problema desse tipo. Tudo isso apesar de toda riqueza e tecnologia e globalização - que muitos achavam que aproximaria os seres humanos.

Vivemos numa Era na qual estamos cada vez mais interconectados e - paradoxalmente e aparentemente - solitários. Quantas pessoas rodeadas de "amigos" não alegam sofrer de solidão? Gente solitária em meio a uma multidão. Gente completamente desintegrada em meios que se dizem integradores.

Parmênides, que garantiu a boa governança de
sua cidade natal, Eleia, que se deixou influenciar
pelos seus pensamentos.
Os grandes centros urbanos estão se privatizando cada vez mais. Mesmo com uma onda de insatisfação, que clama por mais espaços públicos, mais tempo livre e menos dependência do capital, ainda se percebe a falta de iniciativa corporativa e governamental para atender as demandas de uma nova humanidade, que deseja nascer e se manifestar.

Todo discurso de integração na maioria das vezes não passa de algo vazio e sem sentido na prática. Parece que cada vez mais gente adere à fórmula de valorizar a forma e deixar o conteúdo em segundo plano. E me parece que os problemas não estão sendo resolvidos. Apenas encobertos. Problemas que desejamos resolver, mas nos desviamos pra valer. Então, eu penso, deve haver alguma coisa errada com tudo isso.

Nesse ponto eu me relembro dos estoicos*, que possuem uma filosofia de vida que diz: “Não coloque expectativas em nada e serás feliz." Faz sentido. Porque ao longo da vida, se formos relembrando os momentos e percebendo os detalhes de nossas amizades e relações e todos tipos de contatos, nos damos conta de que, talvez, a maior causa da maioria de nossos momentos de raiva e infelicidade emanam dessa expectativa - ou excesso dela - em relação a algo ou alguém. Pode ser um curso, uma faculdade, uma profissão, uma moça (ou moço), um amigo, um produto, etc. E não podemos mudar todas essas pessoas e cursos e objetos para satisfazer nossas expectativas. Logo, segundo os estoicismo, a melhor alternativa é deixarmos de lados todas expectativas.

Quando digo que o melhor é deixar as expectativas do lado, não quero dizer que devemos fazer as coisas sem ânimo. Nem que nossas amizades devem ter menos vida. Simplesmente devemos encarar todas as coisas como um algo a mais. E nos concentrarmos no presente. Nossa mente fica menos perturbada. Nos concentramos melhor em nossas atividades. Tudo flui. Isso é se tornar indiferente a tudo que é externo ao ser (a nós). Devemos nos adaptar à lei natural das coisas, nos encaixando harmoniosamente nesse todo que exite.

Marco Aurélio (121 d.C - 180 d.C), o
Imperador-Filósofo de Roma.
Seguia a escola estoica. 
De certa forma o pensamento estoico tem muitos pontos em comuns com o raciocínio de Pietro Ubaldi. Adaptar-se à sua realidade. A única diferença reside da crença deste de que existe uma inteligência suprema que sabe tudo e estabeleceu essas leis, enquanto aqueles creem não haver necessariamente essa inteligência. Ou seja, as coisas são simplesmente como são, e devemos nos adaptar da melhor forma a elas.

A filosofia de vida estoica demora para ser compreendida. E um pouco mais para ser implementada. Porque se trata de algo difícil. Algo que prego o não apego ao materialismo e mesmo aos sentimentos que possam dte deixar deprimido. Isso é difícil (não se apegar a nada).

Desde a nossa mais tenra infância nos habituamos - ou melhor, somos habituados - a desejarmos bens e possuir influência sobre pessoas, tendo-as sob nosso campo de controle. A apresentarmos ambição. Somos orientados para o TER. Ao passo que o SER é pouco enfatizado. E a conseqüência floresce ao longo dos anos.

Não ter expectativas em relação a muitas coisas tira uma bigorna enorme de nossas cabeças. Nos vemos preparados para qualquer imprevisto. Aliás, não haverá nenhum tipo de imprevisto. E isso permite que façamos nossas atividades em paz. Podemos concentrar nossas energias em uma coisa só. Não gastamos essa energia com preocupações, planos ou desejos de vingança.

Eu até acredito que muitas coisas que não acontecem em nossas vidas - e nós achamos que deveriam acontecer - podem ser uma oportunidade de crescimento interior. É duro ouvir isso quando muitas coisas parecem conspirar contra nós. Mas se você observar bem e com calma, verá que é verdade [adote a visão cósmica].

A vida das pessoas à sua volta não é tão maravilhosa quanto você ou eu imaginamos. Lembre-se que só vemos a casca das pessoas. E vice-versa. É o único que (a grande maioria) quer mostrar. E em público as pessoas gostam de manter uma certa aparência, por pior que seu jardim interior esteja. Por medo, na maioria das vezes. Mas se pararmos uns dias para sentar, constatar o movimento das pessoas num café, num restaurante, numa rua, num parque, num ônibus,....se pararmos para refletir, observando nuanças e gestos, será possível começar a ver o horror que existe na alma de muitos seres. Através de seus rostos e olhares e gestos. Se a boca não fala o corpo dará conta de mostrar a realidade. E se existe aparência de felicidade posso garantir que ela é efêmera. E a partir daí você se sente menos louco. E mais humano.

Não esperar nada pode ser a fórmula para solucionar os grandes males contemporâneos do ser humano (mas sempre tenha planos!).

Viver o presente ao invés de viver para o futuro.
Viver o presente ao invés de reviver o passado.
Viver o presente para viver.

Não se trata de não traçar metas. Nem de ignorar as lições da História. Se trata de dar o devido lugar aos acontecimentos e se concentrar no presente para que o passado se construa e traga memórias cada vez mais doces e gloriosas e o futuro seja sempre a morada de nossas utopias - que devem sempre se renovar. Porque esse é o objetivo da vida.

Nem nos meus textos coloco expectativas. Eu estaria matando-os se fizesse isso. Transformando os pobres coitados em algo que eles podem não ser.

Ser capaz de se adequar à realidade é um dos principais fatores para se atingir a felicidade, a meu ver. E isso inclui não depositar expectativas em nada externo, exceto sua própria pessoa. Logo, passamos a ter controle sobre nossa percepção do mundo e consequentemente sobre nosso estado emocional.

Estou tentando começar a praticar isso.

Pode render bons frutos futuramente...








domingo, 5 de janeiro de 2014

O ARTISTA

Um filme em P&B e mudo. Filmado em 2011. Uma história simples com um tema universal. Um bom elenco. Nenhuma grande pretensão. Eis os elementos fundamentais de um filme que conseguiu chamar a atenção de muita gente e ganhar cinco Oscar – prêmio que pode não ser o máximo em termos artísticos, mas ainda é um bom termômetro de filmes bons.


"O Artista" (cartaz)
1927. Vemos o ator George Valentin (Jean Dujardin) no auge de sua carreira. Um artista mudo que domina a dança, as expressões e a mímica. Boa pinta, rico e famoso. O artista do momento. Uma posição com a qual ele já se habituou.

Na saída de uma de suas Premières, nosso artista acidentalmente se esbarra com uma de suas fãs, – ou ela se esbarra nele – Peppy Miller (Bérénice Bejo). Ele reage graciosamente. Ela fica feliz e lhe dá um beijo na bochecha no auge dos flashes fotográficos. A partir desse encontro uma série de coincidências passam a permear a vida dos dois personagens.

Talvez inspirada pelo ocorrido, Peppy decide tentar a sorte na indústria cinematográfica. E aí tem início a carreira dela no Cinema. E junto com esse alvorecer, surge um novo protagonista: o som.

O advento do som rompe paradigmas no arte cinematográfica. Agora era preciso dominar a arte da fala para se destacar nas telas. Para uns era o término da carreira. Para outros, se tratava da salvação de tempos insossos ou o início de uma verdadeira carreira. Valentin se encaixava no primeiro caso. Miller no último. Auge e queda para um. Início e ascensão para outro. Eis que o início de uma bela relação é chacoalhada violentamente pela mudança dos tempos. O novo cinema se coloca entre os dois protagonistas.


Peppy Miller assistindo cenas de um filme bom.
É interessante (e real) perceber que uma pessoa pode atingir o clímax na vida (pessoal e profissional) e, em poucos anos, chegar a um estado de depressão absoluto. Unicamente devido às mudanças do mundo. Mudanças essas iminentes e irrefreáveis.

George começa a desaparecer de cena. Seu nome migra dos jornais famosos para as memórias das pessoas mais antigas. Seu trabalho diminui. Seus contratos acabam. Sua rejeição à nova tecnologia o colocam fora do ramo. Pouco a pouco. Paralelamente, Peppy ascende rapidamente, atingindo o status de estrela. Ela é o novo. O futuro. O jovem. É o que o público, a mídia e – consequentemente – os produtores querem. Ela é independente e influente. No entanto, apesar de todo dinheiro e fama e juventude à sua volta, sua felicidade só pode ser completa com George.

Confesso que esse sentimento – irrefreável como a chegada do cinema falado – de amor que Peppy sente por George se assemelha mais a um conto de fadas do que a uma possibilidade real em nosso mundo (e no mundo deles). No entanto, esse é uma das finalidades da Sétima Arte: ELEVAR o espectador. Isto é, fazer as pessoas crerem na possibilidade de um mundo melhor, em que existam sentimentos profundos e no qual a sinceridade prevaleça sobre a teatralidade. Pelo menos isso é o que o Cinema sempre significou para mim.

Por 'acaso' (ou melhor, propositalmente), trata-se de apresentar uma comovente história através da forma antiga de filmar – mudo e P&B. E com o sucesso de bilheteria do filme, constata-se que essa forma de fazer filme, apesar de ter caído em desuso e não ser praticável em massa nos dias atuais, ainda possui sua capacidade de encantar plateias.

E lembrar às pessoas de como era o passado da Sétima Arte.

E de como os seres humanos podem ser.


Trailer em:
http://www.youtube.com/watch?v=OK7pfLlsUQM




quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

H.G. WELLS E SUA ARTE CRIADORA DE REFLEXÕES

Herbert George Wells teve que trilhar um caminho longe da arte da escrita para que pudesse ter matéria-prima para escrever. Escrever bem. Muito bem.

Herbert Geroge Wells (1866-1946)
Me lembro da época da faculdade. Quando estava nas férias de verão e fazia estágio. Ia e voltava toda semana. Chegava segunda a noite e ia embora quinta de tarde. E sempre levava um livro da BC (Biblioteca Central) comigo. E um dos livros que um dia peguei foi um dos romances mais famosos e que mais mexia com o meu imaginário: “A Máquina do Tempo”.

Eu já conhecia bem a história. Minha infância foi marcada pelo clássico com Rod Taylor e a bela Yvette Mimieux. Aquele aparato com um disco girante por trás me fascinava. Era como se fosse possível existir uma máquina daquelas. Aparentemente simples. Despretensiosa. Mas capaz de te transportar numa dimensão que nenhum outro aparato da época – e dos dias atuais – seria capaz.

Me recordo do preâmbulo do livro (é uma espécie de comentário inicial que nos convida a uma reflexão sobre a obra ou o autor ou ambos e/ou assuntos relacionados). Era bem filosófico (do jeito que eu gostava). Ele começava falando sobre a importância de Wells no mundo da literatura, comparando as suas ficções com as de seu contemporâneo Júlio Verne.

Rod Taylor (Wells, o inventor) e Yvette Mimieux (Weena).
As histórias de Wells e de Verne eram parecidas em muitas coisas. Os aparatos que imaginavam não existiam. No entanto, enquanto Verne “criava” máquinas que estavam prestes a serem inventadas, Wells criava (realmente criava) máquinas de outro mundo. No limiar da imaginação. Inventos que estavam (estão) num patamar que possivelmente os netos de nossos netos não chegarão a usar. Trata-se mais de filosofia do que de ciência.

Com o amadurecimento, me dei conta de que o interessante na obra de Wells não são as parafernálias tecnológicas, capazes das coisas mais fantásticas, e sim o que IMPLICA ter o poder sobre grandezas – como o tempo.

De início – no livro – inúmeros paradoxos são lançados contra o inventor inglês do final do século XIX. Quando este apresenta uma miniatura de seu invento e a aciona, puf! A máquina (naturalmente) some. “Mas para onde?”, é a pergunta mais natural. E seus colegas aristocratas começam a criar teorias sobre o destino do aparato. Um diz que ela foi para o passado. Mas como, diz outro, se antes dela ser colocada aqui na mesa não estávamos a vendo? E outro então diz: “Ela foi para o futuro!”. Mas (diz outro), então ela deveria estar presente! Porque o futuro dela sempre será nessa mesa, já que não há interferência. Só que (claro) transladado cronologicamente do nosso presente. Mas as faixas coincidem...E por aí vai. Então, com isso só queria mostrar quantas questões existenciais são levantadas com um simples aparato.

O próprio futuro distante que o famoso viajante acaba vivenciando pode ser visto como uma crítica do que a sociedade tende a se tornar, que não é muito diferente em essência do que existe em nossa civilização: um grupo (que se tornou uma raça apartada), chamada de Morlocks, que se alimentam de seres humanos sem nenhum traço de maldade, com saúde e beleza ímpar, denominados Eloys. E Wells sabiamente criou uma situação de difícil resolução. Porque o simples extermínio de um (Morlocks) implica na morte do outro (Eloys).

"A Máquina do Tempo"
Explico melhor.

Os Morlocks, apesar de dependerem dos Eloys na alimentação de seus organismos menos depurados, fornecem os alimentos naturais e saudáveis para estes (são os únicos que os Eloys digerem): frutas, legumes, grãos e sucos. Isso porque os Eloys, apesar de toda suas inclinação natural, é uma espécie cuja capacidade intelectual foi congelada e reduzida à simples subsistência (os livros se esfarelaram e o ato de pensar foi esquecido ao longo dos milênios). Ou seja, esses seres aparentemente puros são incapazes de se defenderem e obterem seu próprio alimento, nem sequer perceberem a mudança das coisas. São manipuláveis. E precisam de quem os alimente e proteja. E que permitam sua reprodução. Dessa forma, esses seres humanos elevados são como gado para os outros seres, que dominam a praticidade do cotidiano e possuem a força física. Estabelece-se assim uma relação BIDIRECIONAL, o que caracteriza uma sociedade já não tão simples.

Num primeiro momento, imaginando que a relação entre Morlocks e Eloys seja unidirecional (Eloys → Morlocks), é simples se chegar à solução de que os primeiros devam ser eliminados para que os últimos vivam em paz. No entanto, estes dependem daqueles, o que significa que estão INTERLIGADOS.

Ou seja, a relação que parecia ser

Eloys → Morlocks

é na verdade

Eloys ← Morlocks /
Eloys → Morlocks

Outro ponto para Wells, que soube retratar um mundo com complexidades (ou seja, sempre haverá trabalho a ser feito para melhorar as coisas, e ele não será fácil).

Uma obra como “A Máquina do Tempo” é riquíssima fonte para debates filosóficos em sala de aula, além de permitir análises no campo das ciências (como era o relevo naquela época?, e o clima?, haviam indústrias,? como se chegou a tal estado?, qual a causa da aguda diferenciação biológica entre os seres?, como eram as relações sociais? e afetivas? e de trabalho? etc).

Existem muitos temas (interessantes) de muitos autores subaproveitados no campo educacional e individual.