terça-feira, 24 de abril de 2018

Fusão, Ensaio e Implementação

De nada servem estes escritos se o autor (ou leitor(a)) não compreender o significado de cada sentença. Uma leitura prazerosa não nos garante a evolução interior. Cultura e intelecto são matéria inerte se não houver uma ardente intuição que os conduza. Assim expele-se apenas letra morta, ordenadamente, elegantemente e precisamente. Mas apenas letra morta, incapaz de acender uma chama de consciência capaz de despertar sentidos além dos conhecidos. Quem lê apenas por distração e erudição deve esquecer esse blog - para o próprio bem. Estudar e ler altos conceitos não irão transformar a pessoa para melhor. Muitas vezes travam o processo evolutivo. Deve-se viver, nem que em grau mínimo, as ideias supremas. Assim pode-se dizer: "sim, eu vivi e sofri e tentei e senti o ideal, e agora posso transmitir o que isso realmente significa. as minhas orquestrações verbais virão da alma, única capaz de fazer os outros iniciarem seu caminhar, não por temerosa coerção, mas por livre convicção!"

Baghavad Gita: a obra contém conceitos de profundidade
inimagináveis. Pouco ainda sei - porque pouco vivi.
Me dirijo a todos mas especialmente a mim. Aprendi que a difusão de altos conceitos se dá no silêncio absoluto. O contrário pode ser usado de forma equivocada, através de interpretações errôneas. Não basta ser bondoso se se é incapaz de compreender como manejar as forças da astúcia, ignorantes mas eficientes em obter à curto prazo as coisas do mundo - e esmagar qualquer tentativa de imprimir um ideal, tornando-o uma prática cotidiana. É uma tarefa solitária, incompreendida e aparentemente sem sentido. No entanto a força que a sustenta tem persistido ao longo dos anos, renascendo de tempos em tempos sob uma veste nova, mais íntegra, conhecedora dos meandros do mundo e dos pontos sensíveis da mente e das emoções humanas. 

O momento atual é grave. O mundo tentas ignorá-lo com distrações. Ao mesmo tempo lamenta a vida - sabendo inconscientemente que muitas das lamentações são reforçadas pelas práticas cotidianas de rituais repetitivos. Gestos, falas, pensamentos, comportamentos. O terreno da inércia é confortável, quente e seguro, cheio de confortos. Ao se tentar erguer uma vertical numa tentativa de ascensão, estranha-se. O trabalho de compreender o porquê de estarmos aqui; do porquê dos gestos; de como se diz o não falado; do porquê da degradação do corpo; da fascinação e subsequente fastio por ilusões; das intermitentes falas agradáveis mas que não levam a lugar algum; do que nos leva a escolher z e não y; da dificuldade em superarmos tendências...Tudo isso foge ao consciente médio, que opta por aceitar os mistérios da vida e viver no modo normal. No entanto - e cada vez mais - sente-se um estacionar. A espécie, em larga medida, patina num paradigma incapaz de resolver a questão humana. Trata-se de paradigma exterior, que busca soluções em qualquer meio - exceto dentro do ser.

Aquele que trouxe a Síntese, servindo de canal de Sua Voz.
É dificílimo buscar soluções a partir do próprio ser. O estudo da personalidade irá se defrontar com a necessidade imperiosa de autocrítica. Expor os defeitos e reduzir o discurso. Submeter suas ideias à arena dos questionamentos, de onde virão golpes dos mais variados. Isso é contraproducente (loucura) do ponto de vista da razão, que se desenvolveu para satisfazer nossa vontade, seja ela individual, seja ela de pessoa, de família, de grupo, de nação, de religião, de partido, de ideologia. Dois cientistas franceses já apontam para isso [1], validando os conceitos de Sua Voz - trazidos pela pena de Ubaldi.

Venho optando pelo caminho mais árduo e ingrato. Não faço-o por vaidosa meta de bela ocupação, ou por vestir-me de santidade. Faço-o por exaustão de todas outras possibilidades que o mundo me apresentou. Possibilidades das mais diversas. Encantadoras sob vários aspectos. Mas sempre com um fim vazio, incapaz de dar significado às ações intermediárias do processo, seja ele longo ou curto. Já percebi que a fama é face de dois gumes; que a riqueza atrai moscas, falsidade e interesses ocultos (muito bem disfarçados); que a beleza exterior serve apenas para agradar aos olhos daqueles que mais necessitam do estímulo dos sentidos; que o falar agradável é aceito apenas pela insuportabilidade do mundo em lidar com sua própria substância; que o caminho seguro das convenções, apesar de importante e a ser respeitado, possui uma limitação, cada ano mais visível; que a coletividade humana é, em larga medida neutra, e que essa neutralidade (aparentemente inocente) é ferramenta que os maus elementos usam para criar um corpo coletivo caótico, cego às reais questões da vida, da interconexão e do telefinalismo. 

Vida é evolução - em sentido lato.
Uma escalada íngreme que clama
por transformação interior. Como meios:
saúde, conhecimento, experiencia,
estudos, leitura, conversas, aquisições e
perdas.
Ao longo de vinte anos realizo esse trabalho de constatação, registrando em meu subconsciente as sensações - especialmente as ruins. Assim compreendo as limitações e não me lanço às aventuras tão comuns que podem parecer a "solução definitiva que trará a libertação e a felicidade". As dores são mais recentes. São sete anos de golpes que, se num momento pareceram trazer a obliteração completa da vida, por outro foram o estímulo para olhar para o lado e perceber que os grandes estavam próximos, bastando apenas estender a mão e absorver os conceitos do Alto, trazidos e vividos por almas de grandeza incomensurável. 

No momento releio História de um Homem [2]. Cada centelha de alto pensamento de traduz em grandiloquentes orações. Palavreado que possui muito mais do que bela erudição - revela profunda mistificação. Aqueles que sofreram e atingiram a maturidade espiritual poderão compreender a obra. Para aqueles que jamais tentaram, à seu modo, viver o grande ideal, fazendo ensaios de implementação, os escritos de Ubaldi irão parecer palavras chiques, elegantes e vazias, sem aplicação prática. Esses terão de receber o grande batismo da dor para despertarem os sentidos sobre-humanos. Me dirijo, aqui neste espaço, àqueles(as) já preparados a colocar os dedos nas fendas do mistério, prontos a viverem a vertigem da razão e a explosão do sentimento sem sofrerem quedas fatais. Pouquíssimos compreendem, alguns sentem e muitos olham, perplexos, sentindo uma miríade de sensações que vão desde os julgamentos de loucura até a admiração. 

Essa trajetória é gloriosamente ignorada, belamente sofrida e fatalmente vencedora - à longo prazo, nem que esse esteja além da existência corpórea. 

Para crermos precisamos ver. Isso constitui numa falta de fé enorme. Isso eu sinto através das aulas. 

Há pouco tempo me dei conta de que se não imprimo intensidade e forma chamativa ao meu discurso em sala de aula, muitos creem que meu interesse em que o outro aprenda é nulo. Julga-se pela forma. As mensagem sérias, precisas e orientadas dadas desde o início são vistas com um olhar superficial. Repara-se mais na forma do professor falar, nos seus gestos, nas suas particularidades e altas intensidades do que no conceito sendo repassado. E aí, quando brotam dificuldades imensas, culminando na ruína das notas das provas, chora-se o desespero de quem está perdido e culpa-se quem está mais acessível. Culpa-se o outro, mas nunca a si mesmo. Pode até haver culta além de si, mas que o diagnóstico, julgamento e implementação sejam conduzidos de modo mais imparcial e universal possível - o que é raríssimo. 

Para quem desejar embarcar, essa será a estrada.
Gélida e solitária. Incompreendida. Mas o íntimo
grita por ela. Por que? (isso eu deixo para vocês)
Dessa forma percebe-se que o mundo quer forma, aparência, sensações. Esse é o único modo que permitirá o aprendizado. Diluí-se a seriedade em doses de brincadeiras, distrações. Não se trata de dificuldade de conteúdo, mas em impossibilidade de envolvimento. É muito mais questão de sintonização do que de aprendizado. Esta virá com a sintonização, naturalmente, à seu tempo. Pode demorar um pouco, mas virá. E com firmeza. Alguns já pressentem essas verdades. Mas a massa dos alunos (e da humanidade) escuta, leva a sério num primeiro momento - apenas para mostrar que é séria - e logo a seguir, na vida pessoal, esquece por completo a mensagem, julgando-a muito difícil, irrealista, bela mas utópica. Não se busca investigar o porquê disso. Não se busca perceber que, se se trata de algo realmente impossível, qual seria a solução para as questões cada vez mais dolorosas, que estão nos levando a uma fragmentação sem precedentes? 

Portanto irei buscar fazer aqui a fusão das coisas mais díspares, trazendo a Obra de P. Ubaldi, H. Rohden, T. de Chardin, B. Pascal, G. Freire, L. Boff, entre outros iluminados dos tempos modernos, para mostrar, pelo caminho da razão e dos valores modernos, que estamos muito longe de atingir o ponto final - mas que todos os segredos já nos foram revelados, restando apenas assimilá-los, trabalhando-os cada vez mais, fundindo Razão e Fé, para que haja a gênese da Intuição, nova inteligência, a ser dominada de forma sistemática por nós, seres humanos. Irei me basear na obra A Grande Síntese, tão bem explicada por Pedro Orlando, parte por parte, relacionando-a com outros aspectos da vida [3]. Será um trabalho monumental, mas necessário - se eu quiser realmente difundir, subsequentemente, a grande visão ubaldiana, de forma oficial. Assim eu, pequeno e insignificante, limitado e impotente, me lanço loucamente nesse abismo de mistério, em meio a um mar de obrigações cotidianas.

Sem isso a vida não tem sentido.

Irei demolir os conceitos e valores mais queridos de muitos, mas apenas para construí-los em plano mais elevado, único capaz de superar o atual impasse humano. Assim, e somente assim, a questão econômica, social, política, da justiça, afetiva, psicológica, religiosa e científica, poderá ser resolvida de forma efetiva.

Farei aqui uma fusão de conceitos, para a seguir realizar um ensaio de práticas, e finalmente uma implementação formal, sustentada pela força da vivência.

Referências:

[1]https://www.google.com.br/search?q=cientistas+franceses+contradizem+descartes&source=lnms&sa=X&ved=0ahUKEwiI-6Lk-9LaAhVGhpAKHfx7BDMQ_AUICSgA&biw=1280&bih=829&dpr=1

[2] http://www2.uefs.br/filosofia-bv/pdfs/ubaldi_05.pdf

[3] http://monismo.net/indice1.html

Vídeo para iniciação no tema:
                                                                                   

domingo, 22 de abril de 2018

A Solidão do Consciente

O grau de consciência fatalmente aponta para a quantidade e intensidade das conexões sociais de um ser. Quanto maior estas, menor aquele - e vice-versa. A admiração também se dá assim. As pessoas tendem a admirar aquelas que estão num nível de consciência próximo. Elas gostam, interagem, buscam, cumprimentam, enxergam, se lembram e aceitam como alguém 'humano' o outro que está numa faixa vibracional próxima, o que permite sintonização.

Ser feliz consigo mesmo para atrair outras consciências.
Vivemos numa era de sociabilidade-solidão. Devemos entrar
num nível de sensibilidade social - plenitude.
Frequência vibratória é uma métrica de maturação interior. Quanto maior a frequência emanada, mais involuído, relativo, de curto prazo, os pensamentos. Á medida que a mente se torna mais compenetrada, se atendo às grandes questões da vida, as ações e atitudes do dia a dia passam a ser conduzidas de modo mais ponderado. Há mais pensamento antes de cada ato, que colima em movimentos mais precisos, com menor desperdício de forças.

Quem não esta preparado para incorporar no seu sistema de crenças e valores uma realidade mais vasta será refratário a qualquer tipo de mensagem, seja na forma de atitude, símbolos ou fala, que aponte para uma perspectiva mais vasta da vida. A tendência é ou reduzir o novo conceito a piada ou ignorá-lo, de forma a não lidar com a questão. Isso sempre será feito enquanto a força do número predominar, fazendo suas fileiras horizontais barulhentas que muito falam (e pouco dizem) predominar sobre os picos verticais do silêncio que pouco falam (mas muito dizem). Esse é o motivo central que explica o porquê de muitos (dos poucos) seres com grau de consciência maior serem frequentemente ridicularizado assim que começam a esboçar sua natureza, repleta de pensamentos que lançam faíscas de luz nas regiões intocadas e temidas pelo imaginário comum. O isolamento começa.

Já escrevi alhures a respeito da questão do isolamento [1] ressaltando que existe uma brecha na qual ele não só pode mas deveria ser respeitado. Caso se trate da exceção, a atitude de (quase) nulificação da interação tem um significado profundo, elevado e nobre, cujos produtos são preciosos do ponto de vista da catarse mística. O mundo percebe, pasmo e indignado, relegando o ser a um esquecimento gradativo. Muitos não compreendem o porquê desse comportamento. Os mais imaturos, geralmente mais jovens, veem um inerme, incapaz de trazer algo 'interessante', digno de piadas e escárnios. O ser sente isso a todo momento. Não reage. Usa os golpes como possibilidade de maior compreensão da natureza humana presente, procurando extrair verdades mais profundas a partir dela. E assim nascem novas conexões, ideias e concretizações. Avança-se sofrendo. Avança-se em silencio. Avança-se pouco, mas em direções diversas, tidas como inúteis por não conduzirem a uma meta tangível, visível, de riquezas, fama e gozos.

A região do ego é o campo concentrado, onde a frequência
é alta. As fronteiras estão no imponderável. Aí reside a paz
e a plenitude, a serem conquistadas por maturação evolutiva.
Quanto menor a frequência maior a expressão da consciência. Quanto maior a frequência menor a expressão da consciência [2]. É possível perceber que matéria e energia se intensificam com o aumento de frequência vibratória, uma vez que energia é igual à constante de Planck vezes frequência; e a matéria é igual à constante k (=h/c^2) vezes a frequência, ou seja:

e = h*f
m = k*f

A dimensão característica da matéria é o espaço, ao passo que a da energia é o tempo. Sem matéria o espaço se torna indefinível, pois passa a ser inexistente - e tudo que não-existe está fora do campo das definições mentais. Sem energia não existe propagação sequenciada, não há movimento, de forma que o tempo de torna indefinível porque inexistente - também fora das definições conceptuais. Logo, a ausência de vibração colima na nulificação do espaço-tempo. Mas o indivíduo não deixa de existir, pois ele não é a matéria nem o movimento que a anima. Estas são apenas manifestações de um princípio no nosso universo.

Gilson Freire, baseado nas últimas descobertas da física moderna, apresenta uma formulação matemática da consciência [2].

C = (h/c^2)/f = k/f

Ou seja, a intensificação do espírito (consciência) se dá com a degradação da frequência. Menor intensidade na manifestação aponta para maior intensidade no pensamento profundo, isto é, a reflexão, a síntese, única capaz de orientar a vida de um indivíduo. Dessa forma a incompreensão do mundo começa a ser compreendida pelo indivíduo que passa pelo processo. A questão é que a estrutura da civilização não estimula o avanço nesse campo. Frequentemente nos sentimos constrangidos ao esboçar pensamentos que andem desalinhados com a média humana, seja ela de qualquer classe social, orientação política, religião, grau de instrução, formação acadêmica, cultura, nacionalidade, etnia ou gosto. Se ocorre afastamento da média substancial da humanidade, fica se só.

É preciso estar forte interiormente, convicto da meta suprema
da vida, para conseguir lidar com as más-interpretações,
os escárnios e incompreensões. 
As médias variam na forma mas na essência o grosso da humanidade se acolhe numa nuvem de comportamento na qual ninguém consegue se diferenciar. Nessa nuvem a direita se identifica com a esquerda; o rico se iguala ao pobre;  a mulher se assemelha ao homem; o pouco estudado se identifica com o culto instruído; o cientista se vê no teólogo; o filósofo se enxerga no artista; e assim toda a humanidade se identifica em seu grau evolutivo.

O ser consciente enxerga essa igualdade na substância, e o modo como conduz sua vida tende a desnudar os mais diversos tipos e grupos, fazendo-os se sentirem diante de um espelho nítido, que dá todas as verdades interiores através de um olhar...uma atitude, simples e despretensiosa. É natural. Mas isso o mundo teme e não aceita. Logo, o convívio é minimizado. No fundo sabe-se que o medo do tipo único é no fundo o medo de si próprio, ou melhor, de sua natureza. Assim ignora-se enquanto pode. Condena-se quando as alternativas de fuga diminuem. E elimina-se quando a ameaça de mudança interior é iminente. Basta observar a História com essa potentíssima lente e logo seremos tomados por um sentimento ardente. Causará choque nas mentes e abalo nos corações. Abrir-se-á o horizonte de trabalho árduo - a ser feito, cedo ou tarde - e o senso de dever tomará conta do espírito do ser.

A importância dada às aparências iniciará a diminuir. O mundo perceberá, estranhando. Perguntando-se o que está  ocorrendo. Não encontrando explicação dentro de seu arcabouço mental, recorrerá ao esquecimento. Mas sempre presente, ora ou outra, fará esse esquecimento se tornar de difícil convívio. Passa-se ao nível da ridicularização, que a depender do grau evolutivo de cada um, pode ser de um simples pensamento pejorativo até o de uma agressão verbal, física ou esmagamento. A gradação é grande, assim como a faixa de consciência. Começa-se assim a serem formuladas as hipóteses. A constatação é contínua e serve para comprovar a realidade da Lei de Deus, que nas misérias do relativo domina cada movimento, bastando estarmos atentos às sutilezas, usando as nossas dores e indignações para benefício de superação própria.

Logo a frase "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" passa a ser uma realidade científica, cada vez mais concreta para fortalecer os que sentem e percebem. E menos conto de fadas para acalmar os fracos.

A solidão é um pré-estágio para a verdadeira socialização, em que cria-se um núcleo de consciência que só aceita a sinceridade dos julgamentos, a retidão da ações e o mesmo fim supremo - único modo de convergir os egocentrismos humanos.

Referências:
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/07/as-tres-perguntas.html
[2] https://www.youtube.com/watch?v=ENr5PrN90Bs

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Evolução por Comunhão

O AS possui uma quantidade infindável de restrições àqueles que desejam ascender rumo ao S*. Todas as forças do mundo convergem impiedosamente para aquele que lança as sementes de uma nova civilização, especialmente se esse semeio for feito de forma pacífica. 

Aqueles que são crucificados hoje tendem a se tornar heróis do futuro, e consequentemente da eternidade. Sua atuação parte do íntimo e visa melhorar a vida das pessoas, culminando no início de um processo de mudança interior. Isso pode ser feito do ponto de vista político, científico, artístico, filosófico ou místico. Todos possuem um fio diretor comum, que acabará por criar um corrente que transformará todos agentes para melhor, tornando a relação entre eles mais resiliente. 

Há aqueles que não desejam a transformação do mundo, e portanto farão tudo ao seu alcance para impedir a manifestação de uma ideia, a propagação de um símbolo, a correta interpretação de uma série de acontecimentos, que formam uma narrativa. Assim o poder age criando narrativas falsas, com verdades relativas, pulverizadas num oceano de informações, repetidas conforme a psicologia de cada grupo, de forma a torná-los obedientes a um modo de vida, cada qual a seu modo, dando uma falsa impressão de diversidade. No fundo o nosso mundo possui apenas uma diversidade de superfície, de aparências, que dá uma falsa sensação de que somos livres. Mas na substância o que domina é um pensamento aprisionador, que massifica o que pior existe em cada um de nós. Nosso consciente é dominado pelas piores tendências de nosso subconsciente. O que é bom não é estimulado. O que é egoísta é. Fecham-se as portas para a intuição e as possibilidades de sínteses. Praticamente todas as instituições, em larga medida, não tocam nas questões centrais da vida e perpetuam modelos inadequados aos desafios hodiernos.

O amor evolui. Do carnal ao afetivo. Deste ao espiritual.
Um sentimento que parte da forma exterior, egoísta, até
atingir uma interior, altruísta, percorrendo o caminho.
Aprendendo a compreender. 
Pensar o longo prazo e globalmente pode influenciar a vida cotidiana. Quem consegue oscilar entre síntese e análise é capaz de manter uma orientação universal, o que significa equilíbrio diante das absurdidades que ocorrem a todo momento. Essa combinação dinâmica permite ao indivíduo potenciar suas ações, dar significado à sua vida, aumentar sua concentração e relacionar conceitos de forma natural, sem mais necessitar usar as muletas dos métodos externos. Não mais. Agora o sujeito é neo-sujeito. Renasceu na visão da realidade. Consegue (re-)rescobrir os caminhos, parcialmente ou por completo, dos gênios e místicos e heróis que lançaram pontos de clarão intenso à linha ascensional da História, abrindo fendas no céu do insondável. Clarões num mundo de obscuridade de sentimentos, sem orientação, preso ao imediato das sensações e das repetições. Preso à segurança enfastiante. Ao engessamento dos conceitos e ao desrespeito à consciência. Mundo de grandes batalhas. 

Nesse mundo e nesse país reina a completa falta de bom-senso. Fala-se de forma a reproduzir discursos de ódio, conceitos velhos, e invocar emoções baixas, de barulho e impacto imediato - e só. Enquanto pessoas comentam e se digladiam furiosamente sobre fatos orquestrados por uma elite ao longo de anos, os alicerces de uma vida civilizada erodem, com um desmonte generalizado das poucas coisas boas presentes nas instituições. A grande maioria, inerte, neutra, acaba fazendo o jogo que o poder deseja. Hannah Arendt explica.

Poucas são as oportunidades de imprimir algo útil. A maior parte do tempo é perdido. As circunstâncias são apresentadas secas, superficiais, avessas a qualquer investigação da natureza humana. Avessas a tudo que possa libertar o indivíduo das amarras das convenções angustiantes, que na sua neutralidade astuta escondem a íntima preguiça de ascender. Escondem o medo abissal em se aproximar do outro. Em dialogar. Em aceitar o diferente. Em compreender que evoluir significa submeter o velho a um novo superior, mais hábil em coordenar as (aparentes) contradições. Esse não nega o antigo, mas supera-o, mostrando que domina o passado, vive no presente, mas diferente de todos aqueles que se arrastam na repetição mórbida dos costumes atávicos, antecipa o futuro, lançando-se por inteiro em regiões ignotas. É uma ousadia louca, mas transbordante de paixão! É um salto que se projeta ao longo de anos, décadas e vidas, de forma inconsciente, baseado numa sintonização ainda incompreendida que de alguma forma consegue dar lógica suprema a um trajeto sofrido, tortuoso e solitário, por vezes árido demais - sempre incompreendido, até pelos próximos. Nessa etapa só se pode contar com uma força: Deus.

A verdadeira comunhão é uma fusão de almas num momento singular que não pode durar mais do que o mundo suporta. Quando se percebe algo grande sendo construído: uma construção conceptual apoiada pela paixão; um projeto de vida que se forja sem interesses. Que persiste apesar do número reduzidíssimo de seguidores, do imenso mar de gozadores que ridicularizam às escondidas e dos que não auxiliam, não orientam e olham com escárnio, se refestelando com suas dores. Quando essa vertical se ergue em meio a tiroteios contínuos e ainda assim se faz mais visível e edifica aqueles que a erguem - com sangue e suor - o mundo se impressiona. O que ocorre? Que loucura é esta? Brota o interesse dos incrédulos. Nasce a esperança dos pessimistas. Explode a coragem dos bons. Aciona-se a raiva do mal, que se desespera em julgar, prender e humilhar todos canais que possibilitem transformação. E nessa empreitada desesperada começam a ficar claras as intenções. E essa clareza começa a mexer com algumas almas, antes afogadas no inconsciente e misérias da existência material. Agora cientes de sua miséria, buscando meios de sair desse labirinto sem fim.

Combinar os dois aspectos do AS para equilibrar a subida
rumo ao S. Esse dois se identificarão cada vez mais, se
aproximando da unidade, apesar de sempre manter uma
parcela única, característica.
Os acontecimentos da vida só possuem sentido quando construídos com sinceridade e vontade. Um mar incontável de destinos são feitos inconscientemente. Produto do acaso para muitos. Não há bom ou mal destino. Há apenas destino feito, consciente ou inconscientemente, pelo indivíduo e pela humanidade. Somente quem possuiu estofo espiritual, personalidade dinâmica, capaz de nunca cessar e atuar nos mais diversos campos, morrendo em um plano para depois renascer em outro, superior, mais livre e menos preso às misérias das necessidades dos sentidos e da mente, conquistará paz interior. Nada é mais admirável do que um destino construído conscientemente.

Quando a mecânica do milagre é sentida, passa-se a usar os benefícios que brotam para uma finalidade muito mais nobre. Não se goza os ganhos. Usa-se cada um deles. Para continuar a jornada - antes sentida agora percebida. Percebida com clareza progressivamente maior. Essa noção dá um ímpeto formidável ao ser, que começa a estabelecer conexões fora do comum com diversos sentimentos. Ímpetos incompreendidos que ganham sentido com o passar das décadas. Paciência é a palavra de ordem. Amor a conquista suprema. Evolução o mecanismo.

Quando estivermos prontos para falar, diremos. Quando estivermos aptos a elaborar, forjaremos. Quando nossa natureza psíquica estiver preparada, ciente das armadilhas, malhadas pelos golpes lancinantes, capaz de antecipações fantásticas, aí entraremos em campo. Aí será revelado o que se maturou ao longo de tanto tempo. Mostrar-se-à de uma vez por todas a potência da terceira lei, lei da evolução, lei que permite o consumo da vida corporal, dos títulos e das posições de respeito para alçar novas visões de mundo. Uma sensibilidade hiper-sintonizada com aspectos íntimos das criaturas irmãs, capaz de estabelecer um novo tipo de comunicação, através do silêncio. E assim a eficiência cresce e o abuso se torna uso; a recusa se torna uso; e o amor humano carnal se plasma em amor divino espiritual. 

A partir de um patamar minimo de conforto e estabilidade, é possível seguir seu caminho de forma mística, tornando todas ações plenificadas de valor. A substância se manifesta de várias formas, desde o espírito até a matéria em nosso universo. Logo, é possível falar de Deus a todo momento, seja nas atitudes, nos olhares, nos gestos, nos toques, no carinho da compreensão e na intensidade do discurso. Na força da determinação e na febre da criação.

Em suma, você quieto, temeroso, cauteloso, despertará quando for o momento certo. Construa o seu despertar desde já, não se importando com a escala de tempo ou a dificuldade. Não estabeleça grandes planos mas tenha no coração o sentimento da meta suprema e a convicção do vosso caminho! Quando chegar a hora, você se erguerá. E esse despertar será glorioso para ti e todos sedentos pela água da vida eterna à sua volta. Será um despertar sem volta, para uma forma de vida superior. Sofrida mas com sentido. E nada melhor para a consciência do que uma vida com sentido.

Força e Fé !

* S: Sistema. AS: Anti-Sistema. Para mais detalhes ler Queda e Salvação.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Estado de Fluxo

Criar algo além de suas possibilidades presentes implica em atingir um grau de desprendimento de diversas distrações do mundo. Envolve um mergulho conceptual e de paixão em regiões bloqueadas pelo mundo. Regiões com pouquíssimos desbravadores - e nenhum apoio ou compreensão do mundo. 

Nosso presente deixou de sê-lo devido a uma miríade de preocupações com o futuro próximo. E um aprisionamento aos acontecimentos passados, que ecoam variadas vezes e de variadas formas em nossa mente, sem aparente prazo de validade. De modo que nossas ações e atitudes do momento sempre sofrem distúrbios desse futuro preocupante e passado amargo. 

Momentos de reflexão são preciosíssimos. Deveríamos vê-los
como normal. A construção de uma verdadeira civilização
depende disto.
Pensar em características externas nos prende ao externo, que passa a dominar como conduzimos nossa vida. Por ânsia de sintonização exterior nos esvaziamos da substância interior, capaz de encorajar nossos planos mais elevados de ascensão. Há automatismos diversos que conduzem nossa mente racional, que por mais desenvolvida que seja, em seu plano sempre estará refém dessa inteligência inferior, mais forte porque mais consolidada. Dezenas, centenas, milhares de existências na quais certos vícios se consolidaram, algumas virtudes de firmaram, alguns pensamentos foram superados, e sentimentos floresceram. Combater esse eu interior (subconsciente) no único campo em que podemos atuar com livre-arbítrio (consciente) é uma luta desigual e desesperadora. Combate-se um inimigo oculto, difícil de ser destacado de todas suas atitudes e ações. O filtramento do eu para identificação das causas de seus mais profundos sentimentos e reações às dores da vida é tarefa que por vezes demanda períodos longos, de anos ou decênios - para muitos uma vida inteira. Há ainda aqueles que nada descobrem de seu eu interior, vivendo e reagindo conforme lhe foi impresso pela sua história individual - e pelas normas e convenções do meio. Estamos diante de desafio titânico, que levam os mais fortes no mundo ao desespero completo, e justamente por causa disso estruturam o mundo de modo a ninguém ser capaz de eduzir esse eu interior, colocando-o à tona para saber o que fazer.

Estado de fluxo (minfulness) é um período no qual o tempo (psíquico) interior se desalinha do tempo exterior, gerando uma libertação capaz de potenciar criações inesperadas para o indivíduo. A libertação de um paradigma, de uma convenção estabelecida, a superação de um atavismo, acaba permitindo que se opere com outros tipos de estruturas mentais (arquétipos), de tal modo que começamos a criar novas. Essas irão alterar nosso comportamento, que consequentemente trarão novos resultados (eventos) em nossas vidas. Quem observa exteriormente, na superfície dos acontecimentos momentâneos que iludem e revoltam, vê nos efeitos algo miraculoso. Miraculoso porque sem explicação fácil, aparente. Porque não se vê de fato.

Perceber o quadro geral dá uma sensação
de paz interior ao viver o dia a dia. 
Existem preços a se pagar para a conquista desse estado em sua vida. No entanto quem percebe o telefinalismo da evolução não se abala pelas tempestades na superfície do oceano. Este, em sua abissal profundidade, contém riquezas incontáveis e belezas inigualáveis, que somente os mergulhadores destemidos do espírito poderão acessar - e conquistar. Para esse mergulho nenhuma erudição, intelecto ou aquisição material serão suficientes. Deve-se partir de um plano superior, em que a síntese é esboçada através da intuição. 

Ser menos lembrado em momentos específicos pode ser desanimador. Por outro lado ser menos incomodado quando conflitos se armam é garantia de paz. Paz esta que permite um trabalho contínuo de criação e vivência ímpar. Quanto mais se vê, mais se percebe que esse "negócio" é lucro, pois a perda do mundo é pequeníssima comparada ao ganho interior. E assim possibilitam-se novas construções. 

Pouquíssimos seres param para refletir o porquê de um indivíduo agir de certo modo. As conclusões se baseiam na forma - de falar, de mover, de gesticular, de observar - e no quão intenso e dinâmico este é para certos assuntos (raros), e ao mesmo tempo indiferente para muitos outros. Nunca se para para pensar que pode haver um porquê desse abrupto pico de intensidade e dinamismo ao tratar de certos temas, que podem ser variados, mas levantam, cada qual a seu modo, por vezes, um aspecto essencial da vida, que encanta e agrada a todos, no fundo. Esse ser acaba distorcendo a personalidade já em maturação intermediária para que sejam evitados certos conflitos e interpretações equivocadas de sua pessoa. Á medida que o tempo passa o ser acaba adquirindo maestria nisso, e acaba se tornando um mestre do mapeamento de personalidades. Acaba por identificar em poucos instantes quais são os ritmos, o que estimula cada um e os grupos, até que ponto se pode caminhar na íngreme escada do sentimento e do conceito. Assim ele consegue, de certa forma, evitar se revelar. Pois o que lhe interessa só irá chamar atenção se servir de algo prazeroso para os outros. Algo que possa até fazer o outro melhorar, mas sem jamais incomodar. Há certas estruturas do subconsciente que não podem ser incomodadas, pois não querem e farão de tudo para prevalecer. Seria a destruição do indivíduo, que pouco preparado para a grande batalha (interior, Lúcifer versus Lógos), sabiamente recusa ir além de certo ponto. E está corretíssimo! Inconscientemente percebe a natureza que no momento atual é insuperável. Aquele, tendo passado por isso, percebe e respeita, trabalhando silenciosamente.

Chorar ao ver a manifestação da vida. Isso ocorre não por
loucura ou fraqueza, mas por capacidade de sensibilização.
Quem souber controlar essa faculdade será mestre de sua
vida. 
Assim, de uma forma ou de outra, vivemos num mundo de atuação, na qual deve-se mascarar, em maior ou menor grau, quem se é, para que o bem possa trabalhar eficientemente e o mal possa julgar estar no controle. Mas quem manda em mim, em você, em todos nós são as forças da vida que clamam: "Evolução ou perdição!" E quando passamos a operar em prol das leis da vida, integrando o aspecto econômico ao humano, e este ao ecológico, a eficiência aumenta. Conseguimos mais concentração e o nosso tempo livre, de solidão, é respeitado pelo próximo, que inconscientemente vê nele não um isolamento egoísta, mas uma construção altruísta, buscada para gerar conceitos, sentir o distante não-distante, se alegrar com o mais simples, de incrível complexidade para nossas mentes. Assim brotam apresentações, textos, falas, ideias, conceitos, energias latentes, disposição, projetos e novos comportamentos. Trabalha-se na estrutura da personalidade. Isso só é possível quando se percebe que há mais do que a inteligência humana. Nesse ponto Sua Voz, captada por P. Ubaldi, esclarece:

"Deixareis de lado, para uso da vida prática, vossa psique exterior e de superfície, a razão, pois só com a psique interior, que está na profundeza de vosso ser, podereis compreender a realidade mais verdadeira, que se encontra na profundeza das coisas. Esta é a única estrada que conduz ao conhecimento do Absoluto. Só entre semelhantes é possível a comunicação; para compreender o mistério que existe nas coisas, deveis saber descer no mistério que está em vós."

"Purificai-vos moralmente e refinai a sensibilidade do instrumento de pesquisa que sois vós, e só então podereis ver."

A.G.S. Cap. II - Intuição
(grifos meus)

"Se vossa consciência já não vos faz mais admirar qualquer nova possibilidade, como podeis negar a priori uma forma de existência diferente daquela do vosso corpo físico? Deveis pelo menos alimentar a dúvida a respeito da sobrevivência que vosso eu interno vos sugere a cada momento e que inconscientemente, por instinto, sonhais em todas as vossas aspirações e obras. Como podeis acreditar que vossa pequenina Terra, a qual vedes navegar pelo espaço como um grãozinho de areia no infinito, contenha a única forma possível de vida no universo? Como podeis acreditar que vossa vida de dores e alegrias fictícias e contraditórias possa representar toda a vida de um ser?"

A.G.S. Cap. III - As Provas
(grifos meus)

Na metamorfose da borboleta vemos a emergência.
Eduzir: ser eduzido; ser trazido à luz; se revelar.
A ciência da complexidade percebe isso. Cristo o
afirmou em palavras simples e vivência suprema. 
Crer numa inteligência superior implica no vislumbre de outros planos de inteligência, acima da razão, capazes de realizar sínteses supremas e resolver problemas que todo intelecto do mundo é incapaz. Significa perceber que existe uma interconexão profunda entre não apenas os ramos do saber, os grupos de indivíduos, as nações, as religiões e as filosofias, mas sobretudo entre os acontecimentos de nossas vidas, por mais caóticos que possam aparentar. Há lógica por trás de tudo, especialmente o sentimento do amor. 

"O coração tem razões que a própria razão desconhece."

Blaise Pascal, matemático, físico, inventor, filósofo e teólogo francês. Santo e Gênio.

Conseguir atingir cada vez mais frequentemente, por maiores períodos de tempo, o estado de fluxo, garantirá ao indivíduo a conquista definitiva de si mesmo, que possibilitará criações inimagináveis. A construção de um destino se dá com a fidelidade à sua natureza íntima, que no fundo se irmana com a natureza íntima de todas as criaturas do universo, sempre dispostas a darem algo para sua jornada ascensional, seja na forma do belo canto de um passarinho, no sorriso de uma criança, na melodia inesquecível de um músico, na criação cinematográfica de um cineasta, no conceitos e paixões de um místico. 



O presente só serve se nos desprendemos das barreiras do tempo, obliterando as preocupações com o futuro e as lamentações do passado com a paixão pela descoberta, pela pesquisa, pelo aprendizado e pela vivência. Cristo coroa esse ensinamento quando afirma categoricamente que a morte é apenas condição para renascer de forma mais plena, elevada. A borboleta, inconscientemente, sabe disso, pois passa por esse processo de morte antes de reviver plenamente, com toda liberdade. Nós humanos, temos de aprendê-lo também - só que conscientemente.

Essa será a maior conquista da civilização depois do Estado e da Ciência.

A conquista da Consciência.

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Músicas recomendadas (para despertar o pensamento e a paixão):

1. The Imitation Game Suite (FSO)
















2. Tchaikovsky's Violin Concerto - Janine Jansen
















3. Rachmaninov Piano Concerto - Helène Grimaud 
















4. Chocolat (FSO, 2016) 



quarta-feira, 11 de abril de 2018

O Cumprimento de um Destino

Começo este ensaio de modo abstrato. E assim permanecerei, até o seu fechamento - que nada mais é do que a constatação das leis da vida, operantes na profundidade, para vencer na e pela eternidade. Falo para aqueles com senso íntimo apurado. Minha voz se dirige a todos que buscam ver a realidade de forma um pouco mais profunda, despidos de preconceitos e narrativas prontas. Minha voz não visa impor ou expelir mágoas, magoar ou causar distorções. Para tanto ela será um registro para o porvir, para as décadas, séculos e milênios. E portanto deve ser hoje, em tempos de fúria irrefletida e neutralidades perversas, uma harmônia abstrata e de sentimento profundo, unicamente capturável pelos corações sensibilizados e pelas mentes amadurecidas. Mentes que começam a se submeter a uma inteligência universal, superior, atuante além do espaço-tempo. Uma inteligência capaz de elaborar sínteses fantásticas. Uma mente em contato com os sentimentos mais elevados, que intui a verdade sem exatamente saber explicá-la pelos métodos do mundo - e portanto permanecem quietas.

Há momentos em que o destino de um indivíduo se funde com o destino coletivo íntimo da humanidade. Esses momentos são vistos por muitos como um evento comum. Para outros como necessário. Para outros como banal. Para outros ainda como trágico. Para outros como um triunfo. Mas essas visões são superficiais, que apenas tangenciam a superfície de um bloco de ideias vasto, permeado de significado e conceitos. 

Esses momentos únicos, singulares, raros na História, não brotam do nada. Eles são construídos, inconscientemente, pelos povos e pelo indivíduo. Este, em menor ou maior grau, sentindo sua ascensão no mundo em prol de uma realização coletiva superior, se vê diante do desafio titânico de contrabalancear os métodos do mundo (tradições humanas) com o desígnios do Alto (consciência). A combinação é explosiva. O controle desse binômio exige uma personalidade ágil e astuta, mas ao mesmo tempo sincera e visionária. Pouquíssimos são os personagens capazes de orquestrar essa dança binomial dinâmica, suportando todos os ataques das forças do mundo, que fazem uso da neutralidade "inocente" das massas para desferir os golpes mais duros - e criar os piores contextos.

Somente quem foi martelado pelo mundo, tendo vícios amputados e virtudes cuidadas, podem compreender o significado de determinados eventos. É na reação à dor que vemos o íntimo das almas. Que conhecemos sua natureza. Sua verdadeira face. É daí que saem as explosões conceptuais dos gênios, os atos de bravura dos heróis, a vivência super-humana dos santos. É somente com a destruição do humano que revela-se a potência do divino. 

O ideal, para descer e se consolidar,
deve pactuar com o mundo - feliz
ou infelizmente. É lei inexorável
no Anti-Sistema (AS). Para um dia
chegarmos ao Sistema (S).
Um homem. Um destino. Marcado desde sua infância. Uma trajetória que possuía um plano pré-determinado, que se ajustava conforme às condições históricas se desenvolviam. Um homem como todos nós. Nascido na miséria. Filho de um povo, com todas suas características. Destino aparentemente traçado, pela análise do mundo. Mas eis que o desenvolvimento dessa trajetória se deu de maneira realmente conforme prevista e permitida pelo mundo, com seus poderes podres dominando quem sobe e quem desce. Ao mesmo tempo, esse desenrolar de destino se deu de forma completamente diferente daquele desejado pelas mesmas forças que julgavam manipulá-la. Enquanto esse pobre indivíduo, com poderes grandes mas temporários, com influência imensa das massas, e obediente ao sistema hodierno - mas ciente disso - fazia o seu trabalho, combinando espírito e matéria, céu e terra, ideal e realidade, os poderes assistiam no detalhe, prontos para, no momento certo, capturar um aspecto humano desse personagem, e mostrar que ele era não apenas igual, mas pior do que todos. Golpeou mas não eliminou.

Depois desse golpe nosso personagem cumpre os maiores feitos no campo da diplomacia internacional, da inclusão social, da democratização do ensino, sem no entanto deixar a desejar os indicadores econômicos. Sabia ele que essas alterações (pobres, poucas e deficientes) estavam muito aquém daquelas que poderiam - e deveriam - ser feitas -  para vivermos num mundo minimamente justo e livre. No entanto, os poderes estabelecidos possuíam um sistema tão rígido, com punições férreas a quem o transcendesse, que nosso personagem viu que nada poderia fazer. Tudo que fosse além dos seus pequenos planos poriam em risco vidas de pessoas. O mundo, e especialmente o nosso país, não está pronto para um sistema minimamente humano - não enquanto a falta de informação predominar, e a capacidade de reflexão for obliterada pelo ego, cheio de certezas e vazio de interconexões com o seu meio. E assim seguiu-se a trajetória. 

Compactuar com o mundo no nível do estritamente necessário para realizar um quid a mais deixa de ser pecado para se tornar dolorosa missão. Isso poucos compreendem, seja por estarem fascinados pelas novidades do momento ou pela urgência do alívio das tensões do cotidiano - tão miserável em todos aspectos. 

O mundo não permite saltos grandes. Natura non facit saltus. Logo, não podemos mudar nada substancialmente numa escala de tempo satisfatório às nossas ânsias mais sinceras, honestas e profundas. E nosso personagem sabia muito bem disso - tão bem que jamais deve ter falado a isso com alguém, exceto nos momentos em que realizava, a seu modo, solilóquios com o Criador, no íntimo de sua alma, nos poucos momentos de solidão com o mundo. Porque ficar plenamente com Deus implica em se desconectar temporariamente com todo aspecto humano. 

Estudar e compreender a Obra de Ubaldi lhe
dá os meios de compreender o ensaio.
Talvez nosso homem tenha sido ingênuo. Acreditou que os poderes iriam mudar um pouco. Compreender que o que estava sendo feito era bom para todos. Compreender que, mesmo tendo saqueado por séculos uma nação e um povo, com maior ou menor intensidade a depender das classes sociais, etnia, cultura, ele não desejava restituir nada à força - isso, sabia ele, cabia à Lei de Deus. E tendo essa firme convicção e essa ágil atuação ele conseguiu o que ninguém conseguira - por mais pequeno que fosse à nível de ideal. 

Eis que num momento de recessão econômica o mundo se vê diante de uma limitação de crescimento (insano) econômico. E aqueles que vivem de privilégios, naturalizando-os através de narrativas fantásticas, assimiláveis apenas a quem pouco reflete e sente, acionaram as engrenagens para garantir seu crescimento de "necessidades". Necessidades supérfluas. Superfluidades grotescas, construídas através do saque do trabalho daqueles que pouco ou pouquíssimo tem. Para acioná-las plenamente seria necessário alterar profundamente. Isso significava anular a história recente do país, remodelando-a conforme as suas necessidades. 

O primeiro passo era desmontar as leis que garantiam o mínimo de civilização numa sociedade. Trabalho, previdência, saúde, educação, direitos humanos, recursos naturais, entre outros. 

Segundo: confundir as pessoas, colocando no subconsciente uma concepção pobre e distorcida do papel do Estado, da relação público e privado e de ideias. 

Terceiro: destruir o símbolo que representou a abertura de uma fenda para um mundo pleno de possibilidades. Um símbolo que atuou como ferramenta, pobre ferramenta, para que quem soubesse perceber à fundo o fenômeno das forças da vida, usasse essa oportunidade pequena - mas infinita perante o nada que lhe havia sido dado nos último séculos - para iniciar um novo ciclo. Ciclo mais elevado e astuto, mais integrado e profundo. Isso é o que pode estar em formação nesse momento.

Nosso personagem sabia que toda posição de poder implica em uma responsabilidade perante o alto. Seu dever era com a eternidade e a história - não com sua imagem momentânea ou com seu conforto final. Ele, em seu íntimo, serve à vida da forma mais nobre, sabendo que quem deseja transformar deve sofrer. Quem quer servir ao Alto, qualquer que seja o grau, deve estar preparado para os ataques (gananciosos) dos poderes, apoiados em larga medida por setores inconscientes, neutros, "de bem", cheios de certezas, das massas. A neutralidade da maioria serve à perversidade daqueles que melhor manipulam a ciência do neutro. 

O indivíduo foi condenado pelo sistema do mundo. Mas sua alma está tranquila. Sabe no íntimo o que fez e para quê. Muitos choram e lamentam, se prendendo mais ao humano personagem do que à missão universal que lhe coube - e executou. Outros cantam e comemoram, na crença firme de que "agora vai pra frente", como títeres de um esquema maquiavélico. Poucos percebem o cumprimento de um destino. Que essa derrota humana é um triunfo divino a ser chancelado nos livros de história - e uma herança a ser desenvolvida por nós, revolucionários evolutivos do futuro, que tivemos nossas almas ligeiramente despertas. 

Trata-se de um aspecto temporário que revela o desespero do mal em encarcerar e destruir um símbolo. Mas se este permanece fiel e calmo, o mal começa a perder adeptos e assim seus métodos se tornam cada vez mais astutos e ferozes, cerceando liberdades, naturalizando barbaridades, destruindo os conceitos mais altos que as pessoas de bom senso tem de ciência, estado e arte. Pois o mal tem pressa, pois está preso ao espaço-tempo, que um dia irá terminar, e portanto age com pressa, atropelando todos os procedimentos legais  (que ele mesmo estabeleceu); ao passo que o bem age pacientemente, aceitando todos os golpes, pois sabe que a eternidade lhe pertence, bastando para isso manter fé inabalável.

Compreenda-o quem o puder, pois esses ditos são para poucos - e assim devem permanecer.

Esse é um texto para os arqueólogos do futuro, que viverão num mundo diverso, com mais possibilidades.

Até lá pouquíssimo posso fazer - como nosso personagem.

terça-feira, 27 de março de 2018

O Universo é determinístico ou estocástico?

Estocástico
"Em teoria probabilística, o padrão estocástico é aquele cujo estado é indeterminado, com origem em eventos aleatórios. Por exemplo, o lançar de dados resulta num processo estocástico, pois qualquer uma das 6 faces do dado tem iguais probabilidades de ficar para cima após o arremesso. Assim, qualquer sistema ou processo analisado usando a teoria probabilística é estocástico, ao menos em parte."
[https://pt.wikipedia.org/wiki/Estoc%C3%A1stico]

Determinismo
"Determinismo (do verbo determinar, do latim determinare: a adição do prefixo de -"para fora" - e terminare - terminar, limitar, finalizar.[1]) é a teoria filosófica de que todo acontecimento (inclusive o mental) é explicado pela determinação, ou seja, por relações de causalidade."
[https://pt.wikipedia.org/wiki/Determinismo]

Há tempos eu li um livro do Leonard Mlodinow intitulado "O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas". Há vários episódios interessantes que fogem ao senso comum. Um deles diz respeito a um programa no qual o apresentador dá a um convidado a opção de escolher uma de três portas (atrás de uma delas está o prêmio). Após a escolha o apresentador abre uma das portas que não contêm o prêmio (exceto a já escolhida) e pergunta ao convidado se ele deseja trocar de porta - sim ou não. A pergunta que o autor nos põe é: trocar ou não trocar irá mudar a probabilidade de chegar ao prêmio?

Diagrama polar dos movimentos fenomênicos.
A evolução é cíclica, oscilante e progressiva.
Uma espiral que inspira-expira, com aberturas
cada vez maiores, significando maior
despertamento do espírito.
À primeira vista parece que a revelação da porta vazia e a escolha por trocar ou não estão desconexas - pois é um prêmio que continua atrás da mesma porta. Mas o fato é que após o evento "informar" o protagonista possui um conhecimento que o eleva do plano do acaso, puramente probabilístico, dando-lhe uma certa dose de determinismo, gerando um contexto não mais 100% "governado" pela aleatoriedade, mas híbrido, com certa dose de determinismo.

Vejamos pormenorizadamente.

Quando eu escolho uma porta minha probabilidade é 1/3 de acertar (assumindo que não tenho um 6º sentido ou tenha combinado algo previamente com a equipe).

Minha escolha pode estar certa (Pc = 1/3) ou errada (Pe = 2/3).

Quando uma porta falsa é revelada eu tenho acesso a uma informação que não tinha anteriormente (algo me é revelado). Caso a escolha original seja certa, trocar de porta significa perda.  Caso a escolha original seja errada, trocar de porta significa acerto.

Mas a probabilidade da escolha ser certa é de 1/3, ao passo que a situação de erro tem 2/3. Logo, optar pela troca em duas das três situações possíveis será ganho - ao passo que permanecer o será em apenas uma situação. Ou seja: independente da sua escolha, trocar de porta após receber essa informação aumenta a probabilidade de acertar. Não significa que você irá acertar, mas terá mais chances.

Agora passemos para o plano da vida humana e do universo, com todas suas complexidades e elaborações. 

O que significa levar uma vida orientada? Significa estar na posse de um conhecimento que lhe dá a oportunidade de exercitar sua liberdade - conhecimento sem o qual o uso da liberdade não pode se dar. Isso é o que diferencia o ser humano das outras espécies: a possibilidade de capturar conceitos e elaborar ideias, dando-lhe possibilidades de superar o férreo determinismo da natureza infra-humana.

O caos do acaso está circunscrito na ordem do determinismo.
Isso se dá em várias camadas. A descoberta de novas leis
supera o acaso do passado. Depois, surgem novas dúvidas
(caos), que são os desafios que novos pioneiros devem
desvendar.
 Mas se emancipar das consequências árduas de um determinismo elementar através do uso do livre-arbítrio não significa que cesse o determinismo universal da Lei, que circunscreve tudo e todos, inclusive o próprio Universo, ínfima manifestação de um princípio superior. 

Quando a pessoa se vê na posse de uma informação ela é estimulada a fazer uso de sua razão para conseguir valer o que lhe foi passado. Essa informação deve se transformar em conhecimento, cuja função cabe ao psiquismo - a nível humano. Podemos ter o caso contrário, no qual a teoria é elaborada antes da situação prática brotar. Nesse caso deve-se relacionar a mesma com a situação, percebendo que ela explica o que é mais vantajoso. De qualquer forma deve-se estabelecer uma relação. Isso é uma característica exclusivamente humana. Os animais e vegetais apenas capturam as sensações do ambiente (sentidos), sem estabelecer uma rede de causa-efeito entre os fenômenos. Apesar disso executam suas funções magistralmente. O que nos leva a concluir que a natureza infra-humana já atingiu o seu estado de regime permanente, ao passo que nós humanos estamos numa travessia multimilenar. Nossa natureza está em transformação - daí a existência da consciência, terreno de liberdade e experimentações, de ousadias e sistematizações, do qual florescem os mais altos conceitos filosóficos, as grandes revelações, as profundas obras de arte e as grandes teorias. 

Por estarmos em processo de transformação sofremos. Sofremos porque não sabemos a finalidade última da vida (por que estamos aqui? por que nascemos e morremos? por que fazemos "loucuras"? por que...). Daí que advêm o sentido da evolução, em seu sentido lato. Já falei alhures sobre essa travessia unicamente humana pelos vales do intelecto [1]. Desenvolvi-a após uma visão clara e intensa, que me deixou em estado de êxtase [2]. Assim fiz uma sistematização do conceito, de modo a relacioná-lo com a vida cotidiana. 

Diagrama geral que revela a jornada multimilenar da
humanidade. O conceito foi sistematizado posteriormente
em outros ensaios. 
Uma vida, quanto mais orientada seja, terá mais possibilidades de ascensão. Isso não significa evitar dores, conquistar fama, dinheiro, prazeres e conforto, mas construir a personalidade, erguendo uma vertical a partir do plano humano, iniciando um processo de superação.

Da mesma forma que no jogo apresentado, muitas pessoas consideram a vida como acaso ou - no máximo - um híbrido acaso-determinismo, com pequena dose deste último. E recorrem, no máximo, às teorias da mente, probabilísticas e de outros ramos do saber, para conseguir optar pelo "melhor caminho". Mas quem possui intuição, com forte senso de orientação, sabe que o universo é regido por leis determinísticas superiores, que aceitam a desordem do acaso justamente por dominá-lo, sabendo que este trabalha a seu favor. É a lei dos grandes números que Sua Voz revela em A Grande Síntese.

A busca alucinada pelo saber se reduz quando se tem uma firme orientação universal. Busca-se o realmente necessário, compreendendo as limitações próprias, as limitações da mente humana, ou seja, da consciência racional-analítica. Aí inicia-se a conquista de uma nova consciência, universal, de processos simultâneos, intuitiva-sintética. A evolução continua de forma orientada, estreitando-se as sistematizações, enxugando a complexidade à medida que se assimilam as experiências. O subconsciente se renova através do intenso trabalho do consciente. A natureza humana melhora, e com isso nasce o Novo Ser Humano - o Super-Humano. Antes a nível individual, com pouquíssimos exemplares experimentando caminhos novos, inexplorados, refazendo conceitos antigos, reaplicando ideais abandonados. São os pioneiros. Os mártires. Aqueles que sangram por nós, anseiam pela ascensão. São os Santos, cuja revolta com a forma de vida atual é tão grande que explodem conceitos revolucionários, gerando novas formas de vida, que encantam pessoas através dos séculos e milênios. 

São inúmeras camadas: caos 1 - ordem 1 - caos 2 - ordem 2- caos 3 - ordem 3 -...Cada etapa exige uma superação. Um esforço titânico de superação da realidade. Cada descoberta e assimilação significa ganho de liberdade e consequente maturidade, que obedece leis superiores, enquadrando as leis humanas na Lei de Deus. 

As ferramentas do intelecto somente nos salvarão se forem submetidas a uma inteligência superior, capaz de orientar. Para isso é preciso cada vez mais saber selecionar (e não expandir) e usar (e não recusar ou abusar). Isso é o que a sabedoria da vida me mostrou através da dor - bendita sejas!

Os tambores soam com toda intensidade. O ódio advindo do medo se espalha. A ignorância reina. As bases da civilização erodem. É nesse momento que o inconsciente humano clama pela erupção de novas visões de mundo e vivências integrais, impulsionadas pelo calor da sinceridade e pelo ímpeto do saber ser. Hora decisiva no destino da humanidade. Momento seríssimo, no qual o menor esboço de desdém pela Lei significa a ruína do ser. 

Despertar é a nossa missão. Lancemo-nos nesse desafio monumental!

Referências:
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2014/11/um-ciclo-duas-fases-piramide-expansiva.html
[2] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo.html?m=0
[3] O Andar do bêbado. Leonardo Mlodinow. Ed. Jorge Zahar.

segunda-feira, 26 de março de 2018

A Consciência ignora a Grande Mídia

No dia em que o mundo for razoavelmente decente - e este dia chegará, nem que à custa de catástrofes apocalípticas - a maior profilaxia contra a doença da ignorância, que produz todos os tipos de miséria, será nos meios de comunicação, incluído aí canais de televisão aberta e fechada, rádio, jornais, revistas, folhetos, internet, anúncios, legislações direta ou indiretamente relacionadas e aplicação das leis. 

Enquanto os povos do mundo (e do país, num nível mais escrachado) estão se digladiando sobre questões superficiais, a plutocracia global continua imprimindo sua vontade através de seus agentes: os estados capturados, sua mídia de massa, seus bancos, sistema financeiro e suas correntes de pensamento difundidas em universidades e escolas. 

É triste constatar que quase sempre, quando se inicia uma conversa que poderia se tornar um processo de pesquisa racional e um irmanação de almas em busca de uma compreensão da verdade, unindo fragmentos, o desenvolvimento das falas iniciais não vão muito mais do que três palmos de profundidade no oceano da verdade. Os produtos são um reforço do desprezo por determinado grupo, partido, personagem, corrente de pensamento, religião, forma de ver o mundo, profissão, área do saber, ou qualquer outro relativo humano. Deseja-se expelir argumentos da forma mais apropriada a reforçar uma crença pessoal. Uma crença reforçada através da história do indivíduo e das correntes mentais que mais facilmente sintonizam com seus desejos. Amplia-se o que se deseja enxergar, tornando o aumento uma realidade; e diminui-se (ignorando, por exemplo, ou desmerecendo uma teoria com base em opiniões duvidosas) o que não se deseja enxergar, tornando a miniaturização um processo natural que não distorce. Dessa forma o ser humano reproduz, de forma pobre, o comportamento da grande máquina midiática que determina os rumos de nossa civilização. 

Noam Chomsky (1928). Não basta compreendê-lo. Devemos
identificar nossas misérias com seus conceitos, e após isso
desintoxicar nossa vida das mais diversas drogas - em seu
sentido mais amplo. 
Se alguém crê que o que está sendo dito é exagero aponto para um renomado ser humano, cuja perseverança e paixão pelos estudos ao longo de sessenta anos de carreira pública lhe renderam o título de "o maior intelectual da atualidade". Trata-se de Noam Chomsky

O que diz esse linguista, filósofo e ativista político norte-americano? Primeiro: os meios de comunicação (os grandes) confundem a população, ajudando no processo de fabricar o consentimento. O que seria isso exatamente?

Consentimento é aquela atitude que alguém tem em face a algo que lhe ocorre (bom ou não) ou é apresentado (como uma ideia). Se ela não questiona, não assume uma postura crítica, não busca meios de compreender os porquês daquilo nem o porquê do modo como lhe foi apresentado, essa pessoa está concordando (um voto) de que aquilo está "ok", e pode-se continuar com aquelas ações, sejam elas políticas de investimento, ideologia dominante, modo de interpretar leis, que tipos serão valorizados socialmente, entre muitas outras coisas. Ela está consentindo. Abaixando a cabeça e dizendo "certo. eu não vou fazer nada a respeito, deixarei essa visão de mundo se difundir, mesmo não concordando. mas minha vida é tão atribulada (alienação) e minha pressa em me aliviar das tensões (conspicuidade) é tão forte, que irei deixar por isso mesmo." E pensa - se é que podemos assim dizê-lo - ainda: "começar a destrinchar certos assuntos vai sujar minha imagem e me trará problemas. ficarei preso ao modo de comportamento da média para poder viver em paz." Esse indivíduo não é mau. Ou seja, não é culpado pelo mal que faz. Mas tem dívida imensa devido à sua neutralidade inerte que viabiliza a construção subterrânea do mal. Hannah Arendt explica (ver vídeo abaixo).


A mídia de massa coloca a imensa maioria das pessoas num estado de impotência tão monumental que as poucas reflexivas que restam são enquadradas pela imensa massa social cooptada pelos meios de comunicação dos (ou sob comando dos) plutocratas. E assim sobram os pouquíssimos que fazem frente ao absurdo que se tornou a sociedade humana, imersa no turbilhão de fluxos frenéticos de informação - mas ao mesmo tempo desinformada, com cada vez menos conhecimento e nenhuma sabedoria ou ânsia de adquiri-la.

A base do controle é a divisão. Se os 99% (digamos assim), que representam a classe média e o povo (incluindo os miseráveis), estão fracionados em diversos grupos, partidos, religiões, seitas, filosofias, classes, etc, jamais poderão fazer frente ao 1% que os controla, roubando-lhes o bem mais precioso que alguém pode ter: direitos humanos e liberdade. 

Enquanto a população se debruça sobre o julgamento de um personagem, ou discute novelas, ou discute eventos desconexos, ou repete dia após dia discursos, ou fofoca sobre o modo de um se vestir, amar, caminhar ou falar, ou procura remediação das dores (psíquicas e físicas) no consumo do supérfluo,...enquanto isso se der (e isso ocorre a todo momento, todo dia), nada irá mudar. Enquanto as pessoas estiverem se sintonizando com os grandes meios de comunicação, nenhum passo será dado em direção a um mundo melhor, com menos injustiça e mais eficiência. 

Para largar algo que te prende na ignorância antes deve-se perceber que aquilo está te escravizando. Isso é tomar consciência. Isso é difícil, e se dá em vários passos. Pequenos degraus. Pequenos mas imensos perto dos degraus paupérrimos da intelectualidade, alta cultura, potência física e sensações inebriantes que o mundo vê como avanços - mas que nada mais são do que ilusões que alimentam a ignorância humana. Debater em público, com amigos e colegas, as dez estratégias de manipulação das massas, terá muito mais efeito do que ficar na superfície dos ódios e esquemas (ver vídeo abaixo).

Raríssimas são as conversas nas quais é possível irmanar pensamentos e sentimentos. A fusão das almas envolve escutar, compreender, saber sofrer com seus conflitos interiores. Conflitos loucos para serem externalizados na forma de consumo vazio e fofocas áridas e distorções dolorosas. Não podemos permitir que isso aconteça. E isso está sob nosso controle! Precisamos usar as dores para construir algo melhor, com mais sentido, e assim brindar esse mundo que se chafurda na lama com algo diverso, resistente às críticas mais ferozes, aos ataques mais incisivos e que se torna cada vez mais claro - especialmente quando se tenta acobertar. Forjar um destino é a obra de arte mais bela deste universo.

É verdade que os avanços tem seu tempo. Por isso as construções devem ser no interior. Quando chegar o momento, a oportunidade de difundir será apresentada, bastando percebê-la e trabalhar para concretizar o que antes era utópico. Os maiores significados das vidas nascem assim. Coisas incríveis que, a depender do grau de maturação interior precedente, se tornam obras que ecoam pelos milênios. 

Dois mil anos de cristianismo não nos trouxeram a realização do Evangelho. Mas a possibilidade sempre está presente. Começam a surgir seres capazes de trabalhar em cima do trabalho de Cristo, aplicando, vivendo e modernizando (ex: Francisco de Assis e Ubaldi) princípios universais. Nessa grande corrente de almas concatenadas, auto-reforçantes, que começam a aparecer e imprimir ao mundo a sinfonia que grita o cântico da bela dor, vemos o preparo do mundo futuro. São raios de luz momentâneos que incitam as almas sedentas a buscarem melhor compreender os fins da vida. Dão coragem e inspiram. São eternos e imprimem um calor confortante, mesmo que neste mundo só restem escritos e relatos. Mas o princípio se propaga ao longo da linha da História, explodindo ora aqui ora acolá, em novas formas, mais elaboradas e adaptadas aos tempos modernos. Sentir esse transformismo nos liberta dos vícios dos meios de comunicação.

O tempo ruge. O ecossistema foi gravemente ofendido e a consciência do acontecimento tocou poucos corações. Talvez mais mentes tenham compreendido. Mas o número é pequeno. Portanto o trabalho se torna grande. 

Quem percebe e sente o absurdo da divisão humana deve encontrar o meio de espalhar a ideia. Deve se abrir ao diálogo profundo e aceitar os choques bem-intencionados, englobando verdades relativas e inserindo-as numa ordem harmônica maior, mais vasta, sem no entanto dar uma impressão de diminuição do outro - e sim uma sensação de despertar, que alivia. 

Somente dessa forma o Brasil e o mundo irá efetivamente progredir. De nada irá adiantar manter um sistema político inadequado às complexidades da vida moderna; de nada irá adiantar xingar e eliminar grupos, religiões, partidos e ideologias; de nada irá adiantar consumir e ignorar outros fragmentos da grande verdade; de nada irá adiantar se esquivar do processo evolutivo, que exige ousadia inteligente. 

Enquanto ocorre um desmonte não apenas de direitos, mas de conceitos de vida, em todo o mundo, com diversos graus de intensidade e frequência, estamos fazendo pseudo-batalhas, na superfície. E enquanto houver alguma ilusão ao qual possamos nos agarrar, temo que assim o será.

Desse ponto de vista devo concordar que "Sem Dor não há Salvação". Pois é a querida irmã dor aquela que mais nos recorda de que há algo profundamente anormal ocorrendo na sociedade.

Começar a perceber que a grande mídia é muito mais poderosa e nociva do que os governos - que são meras marionetes dos plutocratas, que controlam os meios de comunicação - é o primeiro grande passo. 

Daremos o passo ou rumaremos à degradação da vida em suas mais variadas formas?

Referência:
[1]https://medium.com/@caityjohnstone/mass-media-propaganda-is-the-only-thing-keeping-us-from-rising-like-lions-454c0b7df2c

Vídeos:
[1] https://www.youtube.com/watch?v=tTBWfkE7BXU
[2] https://www.youtube.com/watch?v=34LGPIXvU5M