sexta-feira, 25 de maio de 2018

Cap. 7 a 9 - Constituição e Telefinalismo do Universo

O Universo é um todo que pode ser percebido em três aspectos essenciais: como estrutura ou forma (matéria); como movimento ou vir-a-ser (energia); como princípio ou lei (espírito). Daí se segue que todos eles são contíguos e se inter-relacionam através de transformações, seja no sentido evolutivo, da matéria ao espírito, quanto no involutivo, do espírito à matéria. 

Esses três aspectos diferentes (na forma) de ser são denominados de estático, dinâmico e mecânico

"O aspecto estático nos mostra o universo em sua estrutura e forma; o aspecto dinâmico, em seu movimento e vir-a-ser; o aspecto mecânico, em seu princípio e em sua lei. Mas esses aspectos são somente pontos de vista diferentes do mesmo fenômeno. Os três coexistem sempre, em toda parte, e os encontramos conexos." AGS, Cap. VII

O "fenômeno" é Ômega, ou Deus. Por serem manifestações de algo além de sua abrangência, são coordenados por essa força que tudo rege. Assim explica-se que de um ponto de vista universal, tudo é ordem. Estar conceptualmente acima das barreiras do mudo sensório e da mente garante domínio sobre os sentidos e o pensamento, garantindo a orientação na vida.

"Se podeis mover-vos, agir e conseguir qualquer resultado, é porque tudo em torno de vós se move com ordem, de acordo com uma lei, e nessa lei tendes sempre confiança, porque só ela vos garante a constância dos efeitos e das reações." AGS, Cap. VII

Tudo que fazemos é baseado nessa confiança. Somos movidos baseados pelo que conhecemos. Nossas metas e nossos atos são restritos e balizados pelo conhecimento próprio do universo. Não apenas o físico, desde as nebulosas aos átomos, mas igualmente às formas de vida, relações, culturas até ao campo moral. Esse conjunto que conhecemos por 'universo' engloba o tangível e o intangível, o determinístico e o livre. É o que é em termos sensíveis e no pensamento. 

O que não tem preço está além das quantificações humanas.
Por estar em outro plano, não exige recompensa. É graça
na contemplação. É glória na conquista.
Toda desordem está contida numa ordem maior, de forma que o caos só ganha tal denominação para as mentes presas ao mesmo plano no qual aquele se manifesta. Quem ascende em consciência vê o determinismo maior que guia as caóticas vias e vidas humanas, repletas de tentativas e erros - o método de aprendizagem típico do plano racional-analítico, que tateia num mundo de fenômenos vistos de forma isolada. Nossa ciência ainda caminha para a fusão entre infra-humana e humana, que colimará na aceitação do supra-humano. Assim a divisão entre mundo natural e mundo humano será menos demarcada por convenções que satisfaçam egos de estudiosos e interesses de grupos, e mais vista como uma simples ferramenta para compreensão instantânea de uma mente (ainda) limitada. As religiões serão permeadas do monismo, que não apenas vê unidade mas permeabilidade total de Deus no universo. Um Deus imaterial, não-manifesto, além do bem e do mal, além das relatividades humanas, que no entanto se manifesta nelas e usa ora uma oura outra para nos aproximar cada vez mais do absoluto. 

"A ordem, vo-lo disse, não é rígida, mas apresenta espaços elásticos, contém subdivisões de desordem, imperfeição, complica-se em reações, mas permanece ordem e lei no conjunto, no absoluto." AGS, Cap. VII

A elasticidade da Lei não é fraqueza, porém respeito às criaturas. Respeito é a prática de atitude que evidencia o Amor. Entre o determinismo da Lei divina e o livre-arbítrio humano existe uma arena de experimentações fantástica que nos deixa completamente perplexos. É aí que o humano se vê diante de um abismo. Pouquíssimos ousam avançar, percebendo pontos de apoio. São os construtores da via mestra. Ousam inteligentemente. Suam e sangram. Choram e gritam. Mas que belo grito! E que choro doce! É a melodia da dor que se transmuta em experiência interior - conquista apenas individual. É a glória despercebida. É o tesouro inalcançável por quem se nega a subir de plano. 

Quem não vê riqueza nos valores internos não irá reconhecê-los. Enquanto estes forem vistos como um mero objeto de uso, elogio ou agradável admiração, o tempo é perdido e a dor se intensificará. Aquele que ascende deve ser o alerta que nos obriga constantemente a seguir o caminho. Admiração silenciosa, trabalho discreto e potente. 

Glorificar não é fazer ruídos exteriores e criar eventos enfastiantes, mas enxergar a própria alma no espelho da vida e seguir a consciência sem se afetar pelo ambiente. É viver de acordo com princípios superiores, que só mostram os frutos após muitos anos e decênios. 

Resumidamente temos que:

Matéria pode ser denominada ação, estrutura ou forma.

Energia pode ser denominada vontade, movimento ou vir-a-ser.

Espírito pode ser denominado pensamento, princípio ou lei.

São três aspectos do nosso universo trifásico. De cada um deles podemos obter vários constituintes. Da tabela periódica sabemos dos múltiplos elementos fundamentais (átomos), que se agregam e moléculas. Dos tipos de comprimentos de onda sabemos as diversas manifestações energéticas (luz, calor, eletricidade, som, gravitação,...). Das leis que determinam as relações entre o mundo biofísico e humano temos uma ideia do que é a lei. Estamos descobrindo cada vez mais a natureza dos elementos, chegando a perceber na especificidade dos estudos a ponte que une as manifestações da substância. Assim se progride, assim se encanta. 

"O universo resulta constituído por uma grande onda que de α, o espírito (puro pensamento, a Lei, que é Deus), caminha num devenir contínuo, movi-mento feito de energia e vontade (β), para atingir seu último termo, γ, a matéria, a forma. Dando ao sinal “→” o sentido de “vai para”, poderemos dizer: α→β→γ." AGS, Cap. VIII, A Lei

A Voz usa três letras para denominar cada fase. E mostra o primeiro semi-ciclo, que vai do pensamento à sua materialização. Posteriormente diz que nosso universo, no seu conjunto, está em sua fase evolutiva, ou seja, γ→β→α

Estamos em trajetória ascensional, demandando pelo reequilíbrio da descida involutiva. É a segunda onda (evolução, ou espiritualização da matéria), compensadora da primeira (involução, ou materialização do espírito). Toda atitude humana alinhada com esse grande progredir universal tende a se tornar referência dos séculos e inspiração das mentes e corações. 

"A segunda onda, de regresso, é a que vos interessa e viveis agora, refere-se à evolução da matéria até às formas orgânicas, à origem da vida; com a vida, tem-se a conquista de uma consciência cada vez mais ampla, até à visão do Absoluto. É a fase de regresso da matéria, que, por meio da ação, da luta, da dor, reencontra o espírito e volta à ideia pura, despojando-se, pouco a pouco, de todas as cascas da forma." AGS, Cap. VIII, A Lei

Todo transformismo orbita em torno do eixo diretor da
evolução. Deus é o centro que tudo atrai e coordena. 
Após estabelecer esse quadro universal, desconcertante para a (imensa) maioria das mentes, presas ao imediado dos seus problemas profissionais e ao lufa-lufa cotidiano de sensações, Sua Voz finca o "pé" em nosso mundo concreto, antecipando a descoberta da energia atômica, isto é, o meio adequado de se converter matéria em energia (γ→β).

"Estas simples indicações já esboçam a solução de muitos problemas científicos, como o da constituição da matéria, ou como o da possibilidade de, por desagregação, extrair dela, à semelhança de imenso reservatório, a energia, que não seria senão a passagem de γ→β. A energia atômica que procurais existe, e a encontrareis.AGS, Cap. VIII, A Lei

Isso foi escrito em 1932 - seis anos antes da descoberta, por Otto Hahn e Fritz Straßmann, em Berlim [1].

A Grande Equação da Substância é a ilustração simbólica desse ciclo involução-evolução. É um ciclo que orbita em torno do Todo (Ômega), em várias escalas que se ordenam em escalas maiores, e assim por diante. O movimento menor é regido pelo maior. Cada queda aponta para uma ascensão. Cada pico atingido requer uma queda para assimilação. Isso será retomado adiante.

Referências:
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Energia_nuclear

domingo, 20 de maio de 2018

Limites Planetários - Vivência Pessoal

O sistema econômico ao qual estamos subordinados não mudou sua essência ao longo dos últimos 5 séculos. No entanto sua forma de atuação foi se morfando conforme o aumento de nível tecnológico, científico e rearranjos políticos - além das escalas de referência. Do ciclo de acumulação de metais ao comercial, passando pela sua fase industrial até chegar ao financismo dos nossos dias [1], o capitalismo foi se transformando de forma a aumentar sua eficiência. Mas esta é apenas considerada no âmbito restrita da lógica do "do ut des" (dou algo que pouco preciso para que tu me dês outro algo que desejo). Ou seja, trata-se de uma eficiência que permeia o mundo - globalidade espaço-temporal - mas que concomitantemente é restrita - localidade conceptual-vivencial. Dessa forma otimiza-se uma esfera da vida (financeira) em detrimento das formas de vida (sistema biosfera) e da Terra (sistema litosfera- atmosfera-hidrosfera), além de inviabilizar o desenvolvimento humano (sistema sócio-politico) necessário para a criação de novas formas de vida, ideias e implementação de políticas públicas mais completas e duradouras.

Combinar três esferas: meio-ambiente (vida e planeta),
sociedade (humanidade) e economia (ferramenta). A interface
entre esses agentes fundamentais são: suportabilidade
(social-ambiental), viabilidade (econômica-ambiental) e
igualdade (economico-social). 
O mais alarmante é que até mesmo seu primo mais próximo, a economia de bens e serviços, se vê enfraquecida por não ser suficientemente "capaz" de acompanhar a criação de valores monetários que se equilibrem à prática de empréstimos à taxas de juros que só estimulam o reforço da ideia de crescimento econômico sem limites [2]. Trata-se de uma problemática simples em sua essência - porém complexa em sua superação - que é a superação do próprio capitalismo como eixo diretor da vida humana. Simples porque o intuitivo vê que o divórcio entre modelos mentais e realidade se dá de forma cristalina - complexo porque as formas de passar essa visão àqueles presos na racionalidade (restrita a partir de certo ponto...que já ultrapassamos) exige uma criatividade fenomenal e uma paciência sem limites. Isso vale tanto para os imersos na falta de instrução quanto àqueles saturados da mesma. 

Instrução sem educação é perigoso, até destrutivo.
Educação sem instrução é melhor, mas insuficiente. 
Educação com instrução é divino.

Instrução vem do conhecimento dos fatos. Vem de saber usá-los a curto prazo, para efeitos tangíveis e restritos a certas visões de mundo (grupos, ideologias, circunstâncias). É reconhecido pelo mundo.

Educação vem da sabedoria da limitação do saber humano, e de saber usar teorias, métodos e ferramentas adequadamente, de modo a se iniciar uma superação: abandonar a inteligência atual (razão) para construir outra, que consiste no resgate os elementos de fé substanciais abandonados no renascimento, sob a ótica da racionalidade. Dessa forma ergue-se a intuição, capaz de realizar as grandes sínteses da vida, na teoria e na vivência.

A degenerescência de nosso modelo econômico consiste em forçar a economia real acompanhar os índices dos empréstimos gerados pelo sistema financeiro. Este último é a economia virtual. 

Rohden esclarece o que é
Educação, no sentido mais amplo.
Todos professores(as devem saber
do que se trata.
Por mais que seja difícil crer, é fato inquestionável que o bem-estar humano está intrinsecamente ligado à questão matéria-energia-vida. Nossa dependência do meio ambiente para construirmos nosso sistema econômico é evidente: extraímos matéria viva (espécies vegetais ou animais) ou minérios, transformamo-los através de uso de energia (conversão de uma forma em outra) uma ou múltiplas vezes, para chegarmos a um produto cujo valor é ditado pelas convenções de mercado. Após o uso desse produto descarta-se o mesmo para o mesmo "depósito" do qual foi retirado: a natureza. No processo todo gera-se resíduos sólidos ou líquidos ou gasosos, cujo tratamento exige injeção de capital - aumentando assim o custo de produção do produto, e consequentemente o lucro obtido de sua comercialização. Assim resta aos detentores dos meios de produção reduzir o que é pago àqueles que trabalham, e simultaneamente ocultar à população como de fato funciona essa lógica. O paradoxo está em gastar-se muito mais com publicidade e propaganda (que em sua essência são meios maquiados e sofisticados de enganar a sociedade) do que ganhar com redução de salários, demissões, retirada de direitos e diminuição de segurança (aos trabalhadores). Em suma: a lógica é contraproducente.

Grande parte do dinheiro em circulação foi criado (realmente) via dívida. Empresta-se R$ 1.000 a um grupo / pessoa. Da devolução cobra-se (por exemplo) 20% de juros. Essa pessoa deve não apenas restituir os mil reais, mas arranjar meios de conseguir outros R$ 200. A depender de seu poder, pode-se aplicar a mesma lógica que lhe foi imposta, gerando um juros sobre outros juros; ou pode-se realizar um trabalho real (que implica num aumento de tempo, energia e conhecimento utilizado) para gerar esse excedente. Dessa forma a pessoa que está no último elo da cadeia - cujo poder de impor taxa de juros aos outros é nula - se vê sem alternativa e deve produzir esse capital excedente sem receber mais salário por isso. Por que? Pelo simples fato de seu poder de barganha ser zero. É pobre, sem instrução, manipulada pelos meios de comunicação e desesperada por sobreviver. 

Dois males são gerados:

1º) Crescimento econômico desvinculado de reais necessidades humanas - atrelados às taxas de juros.

2º) Consequência do anterior, exploração daqueles que menos condições tem de repassar o a obrigação da produção crescente para outros níveis. 

Criam-se os vínculos entre um crescimento virtual (finanças) e outro real (matéria-energia-vida) - ambos exponenciais. Assim arrasta-se a civilização à catástrofe pelo simples fato de nos termos amarrado conceitualmente (e emocionalmente) a um modo de vida insano. Uma orientação avessa às leis da Vida, da Termodinâmica e da Sociedade.

Segundo Daniel Wahl [2], 

"Em 2008, o volume total de bens e serviços produzidos somou US$ 70 trilhões, ao passo que o valor de todos ativos financeiros do mundo atingiu US$ 194 trilhões."

O motivo dessa cisão brutal entre real e virtual (177% a mais) é que os Bancos podem apostar muito mais do que realmente possuem através dessa lógica. O Cassino do banqueiro atual é ideal para os seus fins, pois ao contrário do normal, pode-se apostar muito mais do que se possui em mãos. Isso sem contar que, caso haja algum problema (de cobrança), repassa-se a dívida para aqueles abaixo na pirâmide econômica.  

Redesenhar a vida humana no planeta implica em reformar completamente - até a medula - o sistema econômico e financeiro. Isso leva a pessoa com um mínimo de bom senso a incorporar a 2ª Lei da Termodinâmica e a questão da biodiversidade aos esquemas econômicos, submetendo as atividades produtivas às limitações biofísicas. E que o eixo diretor das atividades humanas não pode ser dívidas e juros, que nos prendem à armadilha do crescimento ilimitado - mesmo que isso nos agrida cada vez mais.

As evidências levam-nos a concluir, sem dúvida, de que nosso sistema monetário transfere riqueza do povo (pobres e maioria da classe média, mais de 95%) para os ricos porque está projetado para isso.

“In Germany in 2004, about one billion Euros found their way from the 80 per cent who work for a living to the ten per cent who sit at the top of the tree.” — Colin Tudge, 2009

"Na Alemanha, em 2004, aproximadamente um bilhão de Euros acharam o caminho para migrar dos 80% que trabalham para viver até os 10% que sentam no topo da árvore."

Gráfico 1: Fluxo de pagamento / recebimento
de juros por nível de renda na Alemanha.
Helmut Creutz (2009).
O pesquisador alemão Helmut Creutz fez uma pesquisa aprofundada [3] e mostrou os fluxos do dinheiro advindo do não-trabalho (juros), que estão sintetizados no gráfico 1, que mostra para onde flui esse dinheiro. Chega-se à conclusão que o intuitivo já percebia: os 10% mais ricos acabam recebendo o dobro do que pagam em juros, ao passo que para os 80% mais pobres a relação se inverte: eles pagam o dobro do que recebem em juros.

Estamos falando da Alemanha, que dentro do paradigma (limitadíssimo) do capitalismo é tido como exemplo de distribuição de renda e país desenvolvido e justo...Se esse estudo for feito no Brasil, creio que os resultados serão mais assombrosos.

É importante que destaquemos que todos esses estudos partem de iniciativas de pessoas que vivem em regimes democráticos (para os padrões mundiais presentes) de economia capitalista. E revelam a ineficácia dos mesmos em solucionar e até mitigar os efeitos. Conclui-se que trata-se de ir às causas se se deseja construir um mundo que continue a caminhar - ainda que oscilando - para o verdadeiro progresso.

O problema é tanto inter-nacional como intra-nacional. Países ricos drenam recursos dos pobres. E dentro de ambos, drena-se recursos dos pobres que chegam aos ricos. A lógica permeia todas as escalas, desde a regional até a global. O vídeo abaixo da OECD mostra a tendência de aumento - e não de diminuição - de desigualdade que está se dando desde (grosso modo) início do século XXI.



Trata-se de uma questão simples: o sistema atual, com sua lógica, é realmente capaz de vencer o desafio da violência urbana, o desespero do indivíduo, a cisão dos povos, a sustentabilidade, a educação integral, a saúde plena, entre outros? Porque a não-honestidade daqui para frente irá custar cada vez mais caro, conduzindo-nos a um estado de paralisia crescente e frustrações insuportáveis- somente contrabalanceadas com doses de brincadeiras e piadas que beiram a estupidez absoluta, nos colocando em pé de igualdade com a vida unicelular que surgiu nesse planeta há mais de 2 bilhões de anos. Eu me pergunto se é isso que realmente queremos.

Almejar a riqueza por si só e o modo de vida que ela induz constitui uma pobreza. A maioria das pessoas pobres - ou que não são imensamente ricas - são ricos frustrados, que se possuíssem o que anseiam praticariam exatamente os mesmos egoísmos daqueles que condenam. Assim o nosso mundo caminha - e não avança.

Deve-se questionar o modo de vida e os sonhos. Queremos possuir mais e mais? Ter automóveis mais caros e potentes (com menos eficiência)? Comer em restaurantes caríssimos comidas de altíssimo impacto ambiental? [4]. Ou talvez ter várias residências, possuindo um objeto para ostentação mas não permitindo a outros ocupar espaços que lhes faltam? Qual a finalidade da vida humana no estágio atual? Como usar os recursos (informação, conhecimento, riquezas, tempo, energia, etc)? Sabemos realmente refletir sobre nossa vida e determinar nosso destino? Ou estamos cada vez mais imersos no separatismo e nas falsidades das aparências agradáveis?

Immanuel Wallerstein dá uma visão do fenômeno que se desdobra desde o Renascimento - gênese do antropocentrismo, que se intensificou e plasmou em capitalismo-centrismo, cuja característica central potencia as más tendências do ser humano [5]. Trata-se de um sistema moribundo que deve ceder lugar a outro. Os anúncios já vieram e continuam vindo. A questão é saber interpretar os fenômenos históricos, seus significados, o desenvolvimento dos conceitos sobre ideias passadas. Tenho dificuldade em ver isso ser feito nos ambientes. Isso me preocupa muito. No entanto faço o que posso com minha vida e forças.

É preciso ser honesto nessa hora. E ser honesto dói - muito. Com os outros e, especialmente, consigo mesmo.

Ou estamos prontos para isso, ou lidamos com as consequências.

Somos livres para semear, mas estamos presos à colheita...

Referências
[1] https://outraspalavras.net/brasil/crises-capital-financeiro-e-democracia-ameacada/
[2] https://medium.com/insurge-intelligence/impacts-of-our-current-money-system-57c1a3628be6
[3] http://www.themoneysyndrome.org/index.php/contents/
[4] https://www.youtube.com/watch?v=VS4dJL5syRA
[5] https://www.youtube.com/watch?v=RqZsCe-tPXo

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Cap.6: Monismo (AGS)

A partir daqui a Voz explica o método adotado. Trata-se de seguir o fluxo natural do processo evolutivo, mostrando de forma compreensível o porquê das repetições (desenvolvimento cíclico) que, apesar de aparentar sempre retornar ao mesmo ponto, a cada processo completado  (ciclo) sofre a adição de um novo ingrediente, fazendo com que o mesmo conceito (posição angular) passe a ser visto de forma mais ampla (distanciamento radial, traduzido em potência de relacionamento com outras vertentes da vida). Assim se desenvolve a espiral evolutiva, com pequenas aberturas ao longo de seu progredir espaço-temporal, tornando-se cada vez mais vasta.

"Avanço seguindo uma espiral que gradualmente aperta suas volutas concêntricas e, se passo de novo pela mesma ordem de ideias, toco o raio que parte do centro num ponto cada vez mais próximo dele. Guio vosso pensamento para este centro."
AGS (grifos meus)

O conceito será posteriormente melhor desenvolvido (Cap. 33 a 37), com introdução de diagramas gráficos e exemplificações a partir das últimas descobertas da ciência. 


Pascal: consciência monista. Santo e gênio.
Não devemos observar isso tudo a partir de nosso ponto de vista - por mais difícil que seja vê-lo de forma diversa. O uso de desenhos em papel é uma degradação de um conceito somente plenamente compreensível em dimensões superiores, que extrapolam as barreiras do espaço e do tempo. Logo, o progredir de nosso tempo relativo (que findará um dia) na forma de trajetória angular, é apenas um modelo para dar uma ideia que possa permitir à nossa (pobre) mente começar o processo de maturação interior, se colocando em seu devido lugar, isto é, aprendendo a ver suas limitações. A humildade é o início do ímpeto evolutivo na vertical mística. 

Da mesma forma pode-se dizer que o distanciamento radial do centro - ponto de contração máxima da consciência - representa um ganho de liberdade. Quanto mais área a nossa 'trajetória consciencial' abarca, maior o grau de livre arbítrio. O ponto de partida é o que o humano moderno, crente cegamente na ciência restrita/materialista, valoriza e reconhece como artigo de fé: a matéria. Não à toa, a partir do capítulo X inicia-se o estudo da fase matéria. Estudo orientado pelas premissas. 

"Penetro, sintetizo e aperto num monismo absoluto os imensos pormenores do mundo fenomênico, incomensuravelmente vasto se o multiplicais pelo infinito do tempo e do espaço; canalizo a multiplicidade dos efeitos – dos quais a ciência, com imenso esforço, vislumbrou algumas leis – nos caminhos convergentes que conduzem ao princípio único. Farei desse mundo, que pode parecer caótico a vossas mentes, um organismo completo e perfeito.

A complexidade que vos desanima será reconduzida e reduzida a um conceito central único e simples, a uma lei única, que dirige tudo."
AGS (grifos meus)

Essa complexidade a ser sintetizada num conceito central, único, é o que pode-se chamar de monismo. Ele não nega o dualismo: engloba-o. Eis o porquê de vivermos num universo dual. Eis o porquê de nosso mundo estar repleto de contradições desde o início da nossa trajetória civilizatória, com embates entre grupos, religiões, teorias, partidos, pessoas, profissões. No entanto a jornada sempre continua, de uma forma ou de outra. Existe um senso de orientação no íntimo de cada ser vivo que aponta para essa meta suprema, que visa (re)construir a integridade do Ser, tornando-o Uno em si e com o Universo. Trata-se da imanência de Deus.

A ascese é um treino interior que devemos fazer para que
a potência de uma vida superior possa se manifestar em nós.
Todos mestres apontaram para isso. Ela pode ter várias formas:
jejum, oração, celebração, serviço, confissão, silêncio,
solitude, meditação, contemplação, reflexão, entre outras.
Cada um deve buscar a mais apta a si.
Deus é imanente para permitir nossa evolução (salvação), atuando no íntimo, na intenção, no ímpeto criador de cada criatura, cada qual a seu nível e com sua responsabilidade. Deus é transcendente porque supera tudo que conhecemos, e permanece como a meta infinita e eterna, Senhor do espaço-tempo e dimensões superiores. Logo, do estado perfeito em que fomos criados, quando optamos por criar nossas leis e segui-las, caímos por estas serem imperfeitas. Mas o Criador veio até nós (imanência) para sofrer e ajudar-nos a subir. Mas permaneceu no domínio absoluto, além das dimensões que conhecemos (transcendência). 

Sofrer? Deus?

O fato de haver uma entidade perfeita não implica que esta não sinta (logo, sofra e se alegre). Mas trata-se de um sentimento superior. Tão superior que é a perfeição, o supra-sumo. A sublimação completa das emoções humanas colima no sentimento divino, inexpugnável fortaleza do espírito que derrete todos maquiavelismos da mente. 

Deus não é um androide, ou exterminador do futuro com qualidades terrenas infinitamente expandidas. Ele É. Revelar sentimento não é sinal de fraqueza, porém de força. A questão é superar a dicotomia sentir = fraqueza e maquinar mentalmente = astúcia = força = sucesso. Somente o fracasso sentido, sangrado, sofrido e adequadamente engolido e elaborado poderá lançar as bases para a ascensão inidividual e consequente libertação do modo de vida atual, atrasadíssimo para quem percebe a finalidade de estarmos aqui, neste mundo cego e enfastiado de distrações e cisões. Apenas a vergonha que carregamos de nossos sentimentos mais profundos tornam eles fracos e vulneráveis aos julgamentos do mundo. 

O monismo é acima de tudo um estado de consciência. Ele é a progressão orientada do monoteísmo. E o grau de percepção ao qual ele nos conduz é tão vasto que deixamos de vê-lo como uma simples continuidade da vertente religiosa - pois ele funde ciência e religião, reforma íntima e justiça social, homem e mulher, pessoal e coletivo. Chegar-se-à a uma percepção que deixará o bandeirante da evolução solitário e desolado, pois ninguém o compreenderá plenamente. Este ser terá uma árdua tarefa pela frente, cuja maior virtude a ser conquistada é uma só: paciência. A conquista dessa virtude, de modo pleno e definitivo, será um tormento e uma batalha cotidiana, que exigirá uma elaboração interior fantástica. As tempestades da alma terão de ser lidadas simultaneamente com as inúmeras bestialidades do mundo, que despeja atividades burocráticas que nada acrescentam ao ser ou ao meio (meras convenções), não coopera, não compreende, ignora, espalha meias-verdades (mentiras) e provoca (tentações) de todos modos imagináveis. Isso irá drenar uma quantidade enorme de energia desse ser, que obrigatoriamente opera em duas frentes: uma humana, do mundo, outra espiritual, da consciência. Sentirá constantes alterações de humor, cansaço profundo, solidão terrena. Resta procurar companhia na solidão e no silêncio - único lugar no qual Deus pode se manifestar e derramar a linfa divina que permitirá a progressão da jornada e o cumprimento do destino.

Quem realmente deseja expandir a consciência deve estar preparado para isso. 

"Atentai mais aos conceitos que às palavras. Por vezes a ciência acreditou ter descoberto e criado um conceito novo, só porque inventou uma palavra. E o conceito é este: como do politeísmo passastes ao monoteísmo, isto é, à fé num só Deus (mas sempre antropomórfico, pois realiza uma criação fora de si), agora passais ao monismo, isto é, ao conceito de um Deus que é a criação."
AGS (grifos meus)

Espinoza: também ignorado, rejeitado e perseguido.
"Alinhar nossa vontade com a vontade de Deus, quer isso
nos pareça bom ou ruim.", é sua grande visão.
Em larga medida entramos em querela por palavras. Por vezes o que se deseja é  a mesma coisa, mas as diferenças de definições e métodos cria terreno para uma luta insuprimível que leva à morte, ódio, perseguições. Não é possível progredir efetivamente à base de formalismos da mente e da lógica. Deve-se ater ao conceito. É o que falo aos meus alunos - é o que falo a mim. Preciso me forçar cada vez mais a ver a essência das coisas, de modo que apenas possa falar disso quando tiver vivido (sofrido) suficientemente.

Quem domina o conceito é mestre do seu destino e liberto das correntes do mundo. Está solitariamente plenificado. 

"Cada novo horizonte que a razão e a ciência vos mostraram era apenas uma janela aberta para um horizonte ainda mais longínquo, sem jamais atingir o fim. Eu, porém, vos indicarei o último termo, que está no fundo de vós mesmos, onde a alma repousa. Progredindo da periferia para o centro, subiremos das ramificações dos últimos efeitos, ao tronco da causa primeira, que se multiplicou nesses efeitos."
AGS (grifos meus)

Rohden já disse: "a erótica é a mística da carne - a mística é a erótica do espírito."

O prazer do místico é prazer também - só que de outra forma. Essa percepção depende do que somos. O objetivo dessa síntese é introduzir um novo método de pesquisa, por intuição. Mas para isso é preciso que mudemos por dentro. Dessa forma estaremos receptivos (sintonizados) à correntes de pensamento superiores, que fará uma ponte entre o imponderável e nossa alma. Assim - e só assim - iremos resolver as questões que se nos apresentam hoje. Alguns meios humanos podem ser a ponte para isso, como  a visão sistêmica, ponte entre técnica racional e misticismo vivencial [1].

Referências e vídeos:
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com/2018/03/pensamento-sistemico-ponte-entre.html
[2] https://www.youtube.com/watch?v=2FQesPn9hvI - os últimos 15 minutos do filme dão uma ideia de monismo
[3] http://estudoubaldi.blogspot.com.br/2011/03/grande-sintese-uma-visao-geral-da-obra.html
[4] https://vidacontemplativa.wordpress.com/tag/ascese/

domingo, 13 de maio de 2018

Cap. 4 e 5 - Consciência, Mediunidade - Necessidade de uma Revelação

Como estamos observando, a primeira parte do tratado (cap. 1 a 6) levanta as premissas, que serão a base dos desenvolvimentos subsequentes. Como se trata de uma síntese do conhecimento humano em todas vertentes, incluindo os aspectos humanos não compreendidos pela mente (como o afeto), a Voz inicia a jornada descrevendo a essência de nossa inteligência atual (razão) e seu produto mais prático (ciência). Ao mostrar claramente as limitações do paradigma racional-analítico (~1600 - 1950), levando o leitor sincero a concordar, introduz na sequência uma nova forma de inteligência (intuição), que será a "razão do futuro". E mostra exemplos de homens da ciência (Pascal, Einstein) e da arte (Beethoven, Chopin) que nossa lógica hodierna é incapaz de enquadrar num sistema lógico. Não sabemos explicar, de acordo com nossos métodos e mentalidade, o porquê nem o como da gênese de certas teorias e sinfonias, chegando ao máximo a uma pobre e insuficiente aproximação - que alguns julgam suficiente por não ser capaz de andar além. Na sequência mergulhamos no significado das provas, supra-sumo da ciência materialista, na qual apenas admite-se algo se há uma demonstração objetiva, isto é, reproduzível em todos os ambientes, visualizável, sentida e ouvida por todos indivíduos (com esses sentidos). Caso contrário trata-se de um delírio, uma não-realidade. Nesse sentido podemos dizer que "falta de fé" é o que o mundo moderno possui, pois 'fé' vem de fides (fidelizar), que aponta para sintonização com uma fonte diversa, superior. Como a nossa biologia psíquica, em imenso número (quantidade) ainda não atingiu um grau de maturidade suficientemente refinado / orientado, é inadmissível que haja algo além do que a maioria numérica pode perceber - isso nos deixaria inconformados. Cria-se portanto uma explicação pobre, que o íntimo do ser percebe ser uma aproximação fraca que tende a ser abandonada em pouco tempo.  

Chega-se à questão da consciência e - no desenvolvimento maior desta - na mediunidade, o que colima na necessidade de uma revelação. Antes de adentrar nesse terreno, que já começa a levantar o instinto cético nos intelectualizados e cultos, vejamos em maior detalhe os paradigmas que (ainda) norteiam a mentalidade dos homens de poder e prestígio, cujos métodos e mentalidade ainda são admitidos como exemplo pelas massas. 

Figura 1: Paradigmas do pensamento
racional-analítico.
A Figura 1 mostra os três paradigmas da razão. A simplicidade afirma que deve-se separar as partes para entender o todo. Daí a mania humana de criar fronteiras geográficas, delimitar áreas do saber, compartimentalizando-as, dividir etnias e crenças, cindir correntes sociais ao invés de procurar pontos comuns. Esse paradigma tem nos brindado com diversos avanços no bem-estar, já que é necessário destrinchar a lógica de funcionamento dos elementos de um sistema. No entanto, com o aumento da complexidade da organização humana (ex: rede global de comunicação, aquecimento global, financeirização da economia, convergência ciência-filosofia-religião, desmoronamento dos sistemas representativos, entre outros), afetando o ambiente terrestre, percebe-se claramente que a solução não pode estar na simples intensificação das qualidades tecnológicas dos elementos, mais sim na interconexão deles, tanto individualmente quanto coletivamente. Entre elementos, subsistemas, sistemas e sistemas de sistemas. 

A estabilidade pressupõe que dadas as condições iniciais de qualquer situação, consegue-se traçar com precisão seu comportamento subsequente. Vemos que isso também possibilitou avanços, mas mostra limitações no mundo moderno, onde começam a brotar mentes mais esclarecidas. A meteorologia não é determinística. A Física Quântica, com seu Princípio de Incerteza de Heisenberg, aliada aos conceitos da Transformada de Fourier [1], demonstra empiricamente a impossibilidade de saber posição e orientação simultaneamente. Ou seja, o determinismo acaba concomitante ao método da razão, sequencial e segregadora. A partir daí recorre-se à Teoria da Probabilidade, que desemboca nos processos estocásticos [2]. Estas dão uma série de faixas e probabilidades, mas não especificam pontos certos. 

A objetividade é a cisão entre sujeito e objeto. Ela é consequência da simplicidade, que funciona à base da separação. Dessa forma, com toda personalidade vendo exteriormente um fenômeno, captando o pelos sentidos e processando-o sequencialmente, pela lógica, há a tendência de identificação e portanto construção de uma base sólida aceita pela mentalidade humana. Por fora todos vêem a mesma coisa. Esse paradigma permitiu a construção de teorias, ideias, inventos e métodos. Mas jamais explicou os milagres e outros fenômenos impressionantes como o modo como Einstein chegou à ideia de relatividade, ou Beethoven orquestrou, sem ouvir, a 9ª sinfonia, que impressionou o mundo e deixa as almas sensíveis prostradas diante de tanta beleza. 

Já se disse que somente compreende-se um fenômeno quem o viveu. De nada adianta estudá-lo e observá-lo de fora. Somente quem deu aula sabe o que é coordenar uma massa heteróclita para obter o melhor de cada um; somente quem se casou sabe a arte da convivência profunda; somente quem teve a responsabilidade de criar um filho sabe dos picos e vales que permeiam o cotidiano; somente quem chegou ao poder e teve de se sujar para fazer algo (ou tentar) sabe os meandros do processo. Estamos assim diante da limitação da inteligência humana...

Figura 2: Paradigmas do Pensamento
Sistêmico
O Pensamento Sistêmico propõe três paradigmas (Figura 2) em contraponto aos do Pensamento Racional-analítico. À simplicidade coloca-se a complexidade, de forma a forçar os nossos limites, afirmando que a simplificação amputa questões essenciais dos fenômenos estudados. Quando forçamos a realidade a se adequar aos nosso modelos mentais, construímos um mundo de ilusão que cedo ou trade trará seus frutos (amargos).  É momento de ascensão interior para expandirmos os limites da mente, criando novas ligações entre elementos consolidados.

À estabilidade coloca-se a instabilidade

Afirma-se:
"não conhecemos e queremos mudar nossa alma para capturar o significado desse novo mundo que se revela aos nossos olhos" 
ao invés de 
"conhecemos (pobremente) com base na teoria da probabilidade, e ela é suficiente para o que queremos" 

Ou seja, estimula-se a mudança, que deve vir de dentro. Nossa perspectiva deve mudar profundamente. Para resolver essa equação devemos ir além dos símbolos convencionais. Trata-se sobretudo de um sistema de equações filosófico que desemboca numa síntese mística. Isso só poderá ocorrer com a experiência da vivência. Temos assim:

Dor + Reação adequada (alto nível) + Tempo (longo) = 
Criação de novos valores (maturação) --> Compreensão / Paz

Ao contrário do método do mundo que vê de outra forma.

Dor + Reação convencional (baixo nível) + Tempo (curto) = 
Reforço da crença antiga (engessamento da personalidade) --> Ódio / Estresse / Fuga

A intersubjetividade é - da mesma forma- consequência direta da complexidade. O que a gente observa determina o grau de indeterminismo da parte complementar, e vice-versa. Nós, observando, afetamos o fenômeno, observado. Logo, quem observa mais à fundo (não necessariamente mais superficialmente, mas captando o significado daquilo que vê), se distanciando da enorme massa humana, irá sentir um indeterminismo mais compreensível. O mistério espanta menos e encanta mais. Não ouso avançar por medo de tropeçar...

"O sistema de pesquisa positiva, ao vos fazer olhar mais profundamente as leis da natureza, também vos fez descobrir o modo de transformar as ondas acústicas em elétricas, dando-vos um primeiro termo de comparação sensível daquela materialização de meios que empregamos.
Cap. 4, AGS (grifos meus)

Relaciona-se o inexplicável com o que já foi explicado.

"No mundo da matéria, temos primeiro os fenômenos; depois, vossa percepção sensória e, finalmente, por meio de vosso sistema nervoso convergente para o sistema cerebral, vossa síntese psíquica: a consciência."
idem

A formação da personalidade parte desse contato da consciência com o mundo tangível. Para os mais evoluídos, os impactos de fora moldam de forma diferente o interior. Trata-se de passar o centro de gravidade da vida mais próximo a uma consciência diversa: a latente, ainda não plenificada.

"Se descermos mais na profundidade, encontraremos a consciência latente, que está para a consciência exterior e clara, assim como as ondas elétricas estão para as ondas acústicas.A essa consciência mais profunda pertence aquela intuição, que é o meio perceptivo, ao qual é necessário chegar, como vos disse, para que vosso conhecimento possa progredir."
idem (grifos meus)

A consciência possui estratos. Diversas camadas, como uma cebola [3]. Compreendemos a parte que finda com a vida. Mas homens respeitados da ciência já atestam a sua sobrevivência [4], tendo passado anos trabalhando sob o mando do paradigma racional-analítico (tem portanto cuidado ao rasgar os limites do método, usando-o, e não impondo-o, ao mundo do inexplicável). 

"Apenas alguns indivíduos excepcionais, precursores da evolução, estão conscientes na consciência interior. Esses ouvem e dizem coisas maravilhosas, mas vós não os compreendeis senão muito tarde, depois que os martirizastes. No entanto esse é o estado normal do super-homem do futuro."
idem

Essa consciência profunda é a base da mais alta forma de mediunidade, ativa e consciente, como a de Ubaldi. É ela que permitiu elaborar a Obra e (especialmente, no auge da maturação) A Grande Síntese. Foram necessários 20 anos de dor e reação adequada para chegar a um grau de purificação que permitiu a abertura dos canais do espírito a vozes superiores. O estudo exterior serviu apenas como uma forma eficaz para organizar a substância, deixando-a compreensível para a ciência.

"Vossa consciência humana é o órgão exterior através do qual vossa verdadeira alma eterna e profunda se põe em contato com a realidade exterior do mundo da matéria. Por intermédio deste órgão, a alma experimenta todas as vicissitudes da vida; faz destas experiências um tesouro, assimilando-lhes o suco destilado, do qual ela se apodera, tornando suas estas qualidades e capa-cidades, que mais tarde constituirão os instintos e as ideias inatas do futuro. Assim, a essência destilada da vida desce em profundidade no íntimo do ser, fixando-se na eternidade como qualidades imperecíveis, de modo que nada, de tudo o que viveis, lutais e sofreis, perder-se-á em sua substância."
idem (grifos meus)

O que vale não são as obras, mas o processo doloroso que passamos ao concebê-las e mantê-las. Todos finitos se vão, mas a experiência do processo fica marcada para sempre, na alma.

Terminada essa exposição, fala-se na necessidade de uma revelação, único modo dos espíritos evoluídos, irmanados na visão do progresso, possam conduzir seus trabalhos terrenos de forma orientada, culminando na transformação do mundo.

"O estudo que vos exponho representa novo princípio para vossa ciência e filosofia, novo rumo para vosso pensamento. O momento psicológico que a humanidade atravessa hoje requer a ajuda dessa revelação. Não vos assusteis com essa palavra; revelação não é apenas aquilo de que nasceram as religiões, mas também qualquer contato da alma humana com o pensamento íntimo que existe na criação, contato que revela ao homem um novo mistério do ser"
Cap. 5, AGS (grifos meus)

No íntimo todos sentimos a necessidade de um conceito superior e vivido em parte. Não à toa admiramos - geralmente em silencioso jubilo - quando alguém supera uma convenção pútrida de forma corajosamente inteligente, estimulando a continuidade do desenvolvimento interior. 

"A mente humana procura um conceito que a abale, conceito profundo e mais poderosamente sentido, que a oriente para a iminente nova civilização do Terceiro Milênio."

Como disse Pedro Orlando, no momento em que formos conscientes no superconscientes teremos essa revelação. Trata-se da translação da faixe tríplice das inteligências (subconsciente, consciente e superconsciente).

A Voz explica do porquê da elaboração dessa síntese - o Evangelho da Ciência - quando aponta para a unificação das religiões sob um mesmo princípio, sem obrigá-las à abdicação das formas relativas, mas apenas causar uma mudança de substância em cada uma.

Referências:
[1] https://www.youtube.com/watch?v=MBnnXbOM5S4
[2] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2018/03/o-universo-e-deterministico-ou.html
[3] A animação Shrek tem uma fala que remete a essa analogia.
[4] https://www.youtube.com/watch?v=EgAPwSWuRog

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O Beijo de Judas

Todas as histórias que lemos, ouvimos e assistimos possuem um seu significado profundo. O que muda é a forma, que se molda ao grau de despertamento daqueles que a reproduzem e - especialmente - recebem. Assim funciona a técnica de introduzir valores universais e sobre-humanos às crianças e jovens, aos alunos, aos discípulos, aos povos e aos grupos. É dessa forma que se garante a perpetuação do ideal na forma de ideia. Essa ideia pode ser resgatada por aqueles que resgatam esses conceitos remotos e o relacionam à vida profunda que passam a ver ao seu redor. 

A grande maioria que lê o Evangelho o faz superficialmente, de forma mecânica. Passa pelas palavras e extrai algum significado. Entende a superfície de um oceano de profundidade abissal. Se prende à lógica da razão e do cálculo, formando uma opinião ao encaixar os relatos. Mas diante da suprema tarefa de ascensão mística, que se inicia com um despertar da consciência, não se trata de formar opinião, e sim de adquirir capacidade de visão. É aí - e somente aí - que reside a força titânica que doma a mente e reduz a sede dos sentidos. A percepção de uma lógica mais profunda, que não se prende à vantagem imediata nem calcula ganhos e perdas (do ut des), estabelece a condição sine qua non para a elaboração de jornadas nunca antes tentadas. Atitude completamente diversa. As palavras são atravessadas pela visão do espírito, que a partir da forma (letra) consegue arranhar o significado profundo (espírito). Assim lê-se a alma dos textos - porque vê-se o fenômeno da evolução.

Um senhor do Destino. O outro, servo do destino.
Um senhor do tempo - outro escravo do tempo.
Judas precisava de Cristo tanto quanto Cristo precisava de Judas. Um precisava do outro para cumprir seu destino. O primeiro era pequeno, destino gozoso, de curto prazo. O outro era grande, destino glorioso, de prazo longo, eterno. 

A parcela do mundo (Judas) que seguia a luz (Cristo) e só via a forma dela (seus atos), sem captar a essência (significado), se revolta ao perceber que não seria feita uma tomada de poder à força. E assim nasce o inconformismo e a traição. Mas o bem, personificado pelo Mestre, sabia que o único modo de cumprir sua missão era receber o golpe da traição, com toda sua força, 100% ciente das consequências. Não se desejava ganhar no mundo e do mundo - mas sim superar a si mesmo e lançar um clarão que se perpetuaria pelos milênios, servindo de guia para a civilização. 

O Amor do Cristo é a força do ideal que se propaga pelos séculos sob várias formas. É uma substância animada de ímpeto construtor que ora atua na frente científica, ora na cultural, ora na artística, ora na administração, ora na política, ora nos direitos. Ela se plasma conforme a época, resgatando conceitos e aflorando ideias capazes de se sustentarem de forma mais elaborada, resiliente e progressiva. É uma evolução em todos aspectos. Um furacão que varre as formas inúteis e erode os solos áridos. Assim a humanidade fica cada vez mais límpida, de mente esvaziada para ser capaz de receber a silenciosa voz do Alto. Voz silenciosamente trovejante. 

Cristo sabia de sua função e da função de Judas. Este nada sabia da missão de seu Mestre - tampouco da sua...

Como se vê, o bem age de forma ilógica sob o ponto de vista terreno. Mas sobrevive e cresce ao longo dos séculos. O significado se torna cada vez mais claro. A glória da evolução brinda todo o ser com a liberdade física, psíquica e espiritual. Uma esfera reforça a outra, na ida e na volta, criando espirais oscilatórias cada vez mais vastas, que veem as pequenas mazelas da vida terrena como um pequeno detalhe na bela arquitetura cósmica. Assim se dão as ascensões humanas.

O universo é um todo orgânico que respira. Ele é uma manifestação de um imponderável. E nós, como produtos elaborados a partir de sua matéria bruta, começamos a entrever significados infinitos contidos nas finitudes do cotidiano. Percebemos que existe um porvir. E assim começamos nos desprender de certas coisas mundanas, dando o seu devido valor a cada uma delas (dai a César o que é de César - e a Deus o que é de Deus). Assim brota a compreensão do todo.

O bem também faz uso das coisas. Mas o faz de forma consciente. O faz permitindo que o ambiente aja conforme lhe convenha - pois sabe que se uma forma ou de outra irá desferir o mesmo tipo de golpe. Dessa forma a traição de Judas nada mais foi do que o ato final que permitiu Cristo resplandecer numa vida superior, livre do pesado invólucro corporal que tanto lhe desafiou nos 33 anos de sua passagem neste mundo involuído - mas em vias de evolução. Tudo se encaixa perfeitamente quando tomamos o acontecimento como um momento da eternidade. No fundo trata-se de perspectiva: o mal opera em prazo curto, tem pressa alucinante, pois sabe que está enclausurado no espaço-tempo e deve se consumir dentro dos seu limites; o bem não se preocupa com derrotas momentâneas e aparências, operando silenciosamente e focando além dos limites dos sentidos e dos conceitos humanos. São dois mundos que não se conversam. Realidades irreconciliáveis. Um está no zênite - o outro está caminhando dolorosamente para esse destino. O Alto compreende o baixo, mas este vê aquele como enigmático. Se se sente incomodado, cerca e destrói a forma material, mera manifestação do espírito. Nessa destruição que reside a força do imponderável. Seu interesse não é o julgamento dos outros, mas garantir a perpetuação da onda evolutiva. Onda que arrasta a todos, cedo ou tarde, levantando ideias e despertando sentimentos antes inacessíveis. A revolução começa biologicamente, na natureza do ser, que passa a viver de forma mais coerente com os ideais que são teorizados pelas ideologias. Estas somente se sustentam com uma natureza minimamente boa, consolidada e firme em sua convicção.

Todos nós, consciente ou inconscientemente, iremos passar por um "beijo de judas" para ascender. É aparentemente o único caminho para a ascensão. Saber identificar qual as nossas reais necessidades evolutivas - como Cristo o fez - é a tarefa mais sublime que alguém pode fazer em sua vida. Com essa firme orientação, estaremos norteados para todas nossas atividades mundanas, preenchendo-as de valor.

Assim se dão as ascensões humanas. 

sábado, 5 de maio de 2018

Cap. 3 - As Provas (AGS)

"Mostro-vos as grandes descobertas que fará a ciência, especialmente as das vibrações psíquicas, por meio das quais nos é permitido, a nós, espírito sem corpo, comunicar-nos com aquela parte de vós que é espírito, como nós. Segui-me. Não se trata de um lindo sonho nem de fantástica exploração do futuro o que estou fazendo: é o vosso amanhã." (grifos meus)

A uma mente presa nas convenções sociais e ágil no racionalismo parece muito improvável - mesmo que se queira - haver descobertas que confirmem de forma positiva o que já vem sendo afirmado há tempos [1]. No entanto é comum a indagação excessiva e a negação quando nossas expectativas de progresso minguam devido à falta de exemplos à nossa volta. Queremos que alguém inicie o processo de descoberta de novos mundos (interiores), mas jamais nos damos ao trabalho de iniciar o processo. Isso exige determinação férrea

Buda falou sobre ilusão e seu imenso poder sobre
aqueles com baixo grau de sensibilidade psíquica-nervosa.
Falou de forma simples, mas profunda.
A vida, do modo como está estruturada, é muito (muito) fácil cairmos na inércia do conforto e na repetição das convenções e rituais cotidianos. Vencer o lugar comum é tarefa que o inconsciente humano julga perda de tempo que não leva a nada. O fracasso é apenas humilhação - jamais aprendizado e crescimento íntimo. A derrota exterior, vista, sentida e considerada como tal pelos outros, se torna a própria derrota do ser que ousa, sentida pelo indivíduo até a medula. Isso é se nortear pela coletividade.

"As verdades filosóficas fundamentais, tão discutidas durante milênios, serão resolvidas racionalmente, por meio da simples razão, porque vossa inteligência terá progredido; o que dantes, por outras forças intelectivas, tinha de ser forçosamente dogma e mistério de fé, será questão de puro raciocínio, será demonstrável e, portanto, verdade obrigatória para todo o ser pensante."

Épocas remotas explicavam fenômenos naturais embasadas nos mitos. Hoje, com o progredir da ciência e da razão, o sobrenatural saiu da penumbra do mistério e se tornou claro, evidente, aceito por todos. Assim também deve se dar com o universo interior, do espírito. A física quântica já acena para essa realidade, tornando a matéria um campo de possibilidades que depende de nossa percepção [2]. A matéria, antes independente, se "tornou" uma entidade dependente de outros fatores - que escapam aos nossos sentidos. O que era considerado sólido pelos mais proeminentes nomes da ciência acabou se revelando uma ilusão, como a Bhagavad Gita já acenou há 25 séculos [3].

Reflito e medito, logo anseio pela iluminação. 
"Vós mesmos que negais estais todos ansiosos e ávidos de ascensão; não podeis negar que o intelecto progride e que existem alguns homens mais adiantados do que outros."

A diferenciação existe e é dinâmica. O relativismo de nossos tempos acabou reduzindo qualquer fenômeno anormal a uma mera diferença na horizontalidade, não sendo digna de observação aprofundada - e tampouco compreensão. Essa questão já abordei anteriormente [4]. Há diversas pessoas despertando para o fato de que a própria imposição do relativismo como modelo mental do mundo é falha [5], já que a própria afirmativa deve estar sujeita à transitoriedade e em relação a outras opiniões. Dessa forma a lógica hodierna não é capaz fornecer um sistema universal sob o qual qualquer um pode se apoiar com segurança máxima e orientação certa. Desenvolvi essa ideia extensivamente, inicialmente numa abordagem mística-impetuosa [6], e posteriormente com uma sistematização analítica [7].

"Muitos médiuns ouvem com novo sentido de audição psíquica, não mais com o acústico. Ouvem-nos com seu cérebro. Sintonia quer dizer capacidade de ressonância. Espiritualmente, sintonia é simpatia, isto é, capacidade de sentir em uníssono. Tanto acústica, como elétrica ou espiritualmente, o princípio vibratório de correspondência é o mesmo, porque a Lei é una em todos os campos."

Da acústica (domínio mecânico) para o electromagnetismo (domínio elétrico), e deste para a afinidade de almas (domínio espiritual), o conceito é sempre o mesmo: estar vibrando na mesma frequência, intensificando o sinal dos entes que se comunicam. O sentimento também possui uma sua vibração característica, mais refinada do que aquela que a ciência já mensura, das ondas eletromagnéticas. As particularidades, equações para cálculo, os efeitos sentidos, podem ser diferentes, mas o princípio é único. Aqueles cuja psicologia se prende ao mais concreto nega categoricamente afirmativas que exigem certo grau de sensibilidade (sentimento). 

"Naturalmente, quem não ouve nega; mas não poderá e não terá o direito de negar que os outros possam ouvir e que ouçam. Quem nega pede provas e só se dispõe a conceder seu consentimento depois de haver verificado esses fatos, necessários para sacudir esse seu tipo de mentalidade. Jamais pensastes na relatividade de vossa psicologia, devida aos diversos graus de evolução de cada um? Jamais pensastes naquilo que impressiona a mente de um, mas deixa a de outro indiferente, e como cada um exige a “sua” prova?"

Os Dez Mandamentos (1959). O filme impressiona porque
transmite valores fundamentais e tem cenas fortes, bem
desenvolvidas. Toda cena tem embasamento e força de intenção.
Novamente nos deparamos com a questão da negação da diferenciação evolutiva dos seres. Pelo medo de muitos se vestirem de mantos absolutistas acabamos por criar uma lógica que alimenta um sistema de "imperialismo do relativo". Qualquer tentativa de erguer uma rota na verticalidade mística ofende e já é encarada como tentativa de se colocar acima dos outros e portanto mais digno dos bens e serviços do mundo. Pode não ser o caso...Mas como a mente do involuído julga os outros baseado no que ele mesmo é, chega-se à conclusão de que o outro é ruim e está sempre à espreita. Em tudo julga haver segundas intenções. E quando se depara com o inesperado, se choca, e se lança ao ataque para não se ver diante do dilema de que "há muito mais do que se imagina". Se o ser agredido e humilhado continua com reação diversa, de não-violência, sem ressentimentos, alguns podem começar a refletir sobre o fenômeno. Eis a fronteira entre o "mundo como é", regido pela astúcia, e o "mundo como será", regido pela justiça. Um choque magistralmente revelado na obra de Victor Hugo, Les Misérables, que já foi muito observada aqui [8]

"Que número enorme de provas seria necessário para cada um sentir-se impressionado em sua própria sensibilidade particular! Para cada indivíduo há um fato específico para inserir-se em sua vida, em sua concepção de vida, na orientação dada a todos os seus atos. O próprio raciocínio não serve para todos, porque a demonstração, com frequência, torna-se discussão, que, em lugar de convencer, transforma-se em desabafo agressivo, exemplo de luta que exacerba os ânimos."

Não adianta provar. Esse caminho não convence o coração. Logo a outra parte apresenta uma contra-prova. O mesmo tema com um ponto de vista revestido como se fosse proprietário de maior importância (peso). Não é isso o que vemos entre as áreas do conhecimento? Engenheiros discutindo com cientistas; mecânicos com eletrônicos; mulheres com homens; jovens com velhos; ambientalistas com tecnologistas; sociólogos com economistas; matemáticos com físicos; médicos com enfermeiras; nação contra nação; religião contra religião,...cada qual com inúmeras provas de sua suposta superioridade. Mas o fato é que a única superioridade reside no alinhamento de sua finita vontade individual com a vontade Infinita de Deus, mesmo que isso signifique se tornar um anátema perante o mundo - de forma parecida disse Espinoza.

Matrix (1999): somente iremos ampliar nossos limites humanos
quando chegarmos neles e dermos um salto de fé no
abismo do mistério. Assim nos divinizamos. 
A ciência médica sempre está descobrindo novas coisas a respeito dos alimentos. Ora algo é bom (sob aspecto X), ora nem tão bom (sob aspecto Y). E assim sucessivamente. Não cessa porque estamos em fase de descoberta. Especialmente a respeito de propriedades nutricionais, mapeamento genético, evolução das espécies, limites espaciais (o microcosmo e o macrocosmo) e temporais (relatividade). É claro que existem certas verdades consolidadas, inegáveis. Mas até essas devem ser interpretadas com cuidado se não desejamos cair em armadilhas.

"Além disso, um milagre vos convenceria? O Cristo fez tantos! Acreditastes? Um milagre é sempre um fato exterior a vós; podeis negá-lo todas as vezes que vos for cômodo, porque perturba vossos interesses."

Só veremos a verdade quando estivermos abertos a ela - isso é .

A porta da compreensão se abrem por dentro. Somente nós mesmos podemos abri-la. O sábio pode, no máximo, nos mostrar o caminho, conforme disse Morpheus a Neo, no filme Matrix [9].

"She told you exactly what you needed to hear, that's all. Neo, sooner or later you're going to realize, just as I did, there's a difference between knowing the path and walking the path."
(Morpheus)

O imponderável permeia nossas vidas. Já sangrei e perseverei o suficiente para acionar engrenagens desconhecidas [10]. Por isso tenho o dever de continuar este (e outros) trabalhos. 

"Vossa vida está cheia dessas forças desconhecidas em ação. São as maiores, das quais dependem vossas vicissitudes e o destino dos povos. Quantas já não estão prontas a se moverem no desconhecido amanhã, mesmo contra vós que me ledes? Os inconscientes sacodem os ombros ao amanhã; só os corajosos ousam olhá-lo de frente, seja bom ou ruim."

Os milagres abundam. As provas estão aí. Basta abrir os olhos da sensibilidade...

Notas e referencias:
[1] Allan Kardec compilou mensagens de entidades não-encarnadas, que respondiam sobre questões diversas, focando sobretudo no além-tumulo. Mais tarde viria Ubaldi expandir esses conceitos, anexando-os ao "seu" monismo, construindo um sistema universal que tudo explica, restando a nós apenas conduzir nossa vida e nossa ciência pelos princípios esboçados em sua obra.
[2] http://www.gilsonfreire.med.br/index.php/gerais/fisica-quantica-e-espiritualidade
[3]https://medium.com/revista-subjetiva/bhagavad-gita-as-li%C3%A7%C3%B5es-que-mudaram-minha-vida-badb0e032039
[4] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/10/absoluto-e-relativo.html?m=0
[5] http://alemdoquepensamos.blogspot.com.br/2011/04/absoluto-x-relativo.html
[6] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/08/desmistificando-ideias-quase-arraigadas.html
[7] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/12/relatividade-vertical-relatividade.html
[8] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/07/os-miseraveis-queda-e-salvacao.html
[9] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/06/matrix-uma-visao-mistico-cosmica.html
[10] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/09/mecanica-do-milagre.html

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Cap. 2 - Intuição (AGS)

"Não vos espanteis com esta incompreensível intuição(3). Começai por não negá-la e ela aparecerá. O grande conceito que a ciência afirmou (embora de forma incompleta e com conseqüências erradas), a evolução, não é uma quimera e estimula vosso sistema nervoso para uma sensibilidade cada vez mais delicada, que constitui o prelúdio dessa intuição. Assim se manifestará e aparecerá em vós essa psique mais profunda, por lei natural de evolução, por fatal maturação que está próxima. Deixareis de lado, para uso da vida prática, vossa psique exterior e de superfície, a razão, pois só com a psique interior que está na profundeza de vosso ser, podereis compreender a realidade mais verdadeira, que se encontra na profundeza das coisas. Esta é a única estrada que conduz ao conhecimento do Absoluto. Só entre semelhantes é possível a comunicação; para compreender o mistério que existe nas coisas deveis saber descer no mistério que está em vós.
(grifos meus)

Logo após mostrar os limites da razão e seu produto concreto - a ciência - Sua Voz apresenta o futuro ao qual todos iremos fatalmente chegar através da evolução: a conquista de uma nova inteligência. Trata-se mais de um início em outro plano do que em uma continuidade da mentalidade hodierna

A intuição é uma faculdade capaz de realizar sínteses sem perscrutar o universo através dos processos sistematizadores da razão. O indivíduo evoluído que opera nesse plano busca apenas o indispensável no meio externo, maximizando a eficiência mental para gerar excedentes (de tempo, disposição) que permitem um estado de maior vigília nos momentos mais significativos de seu dia. A integração é mais importante do que o acréscimo de informações desconexas - muitas sem sentido e degradantes. 

Quando desenvolvi o ensaio do ciclo com duas fases [1], esboçando um diagrama, estava ilustrando o esquema geral desse longo processo evolutivo do indivíduo. Após esse escrito, numa noite tempestuosa surgiu, num turbilhão, um desencadear de ideias que deram um caráter mais detalhado do conceito, e me pus a escrever tudo que me vinha à mente, com um ímpeto irrefreável, que só cessou após completar o conjunto de ensaios em sua totalidade [2]

"Os dois pólos do ser - consciência exterior clara e consciência interior latente - tendem a fundir-se. A consciência clara experimenta, assimila, imerge na latente os produtos assimilados através do movimento da vida - destilação de valores, automatismos, que constituirão os instintos do futuro. Assim expande-se a personalidade com essas incessantes trocas e se realiza o grande objetivo da vida. Quando a consciência latente tiver se tornado clara e o Eu tiver pleno conhecimento de si mesmo, o homem terá vencido a morte. Aprofundarei mais adiante essa questão.
(grifos meus)

A morte é causada pela fragmentação da consciência. A evolução pode ser vista como uma faca de dois gumes do ponto de vista humano: ao mesmo tempo em que percebem-se novas interconexões através da sensibilização, a mesma deixa o ser mais sensível às vicissitudes da vida (de si e dos outros), sendo mais incomodado com as questões que pouco afligem a média, sendo portanto ignoradas. 

À medida que sinto o progredir da minha visão dos fenômenos da vida humana percebo que a causa das resistências à implantação de minhas ideias se deve à conformação que a maior parte da sociedade assume perante certos assuntos, recorrendo à conformação para "resolver" suas questões. Dessa forma qualquer possibilidade de tentar métodos inovativos e atitudes diversas são vistas como preocupação. Aquilo que pode causar um maior esforço (de energia, de tempo, de vontade, de busca por soluções) pelo grupo humano tende a ser deixado de lado. "O outro que inicie esse trajeto! Se ele for bem sucedido, bom para ele. Se não, irei criticá-lo o resto da vida pelos seus fracassos." Assim funciona o inconsciente médio da humanidade. Ele acaba sendo uma barreira monumental para os espíritos dispostos a superar certas misérias da realidade. Essa barreira, sendo observada, desafio o ser a se lançar num caminho sem volta, no qual a necessidade de maquinação de ideias e a intensidade da vivência se intensifica a tal ponto que esquece-se dos rituais, aparências e distrações do mundo. O mundo não compreende, mas o desespero da miséria interior é mais forte do que o temor pela rejeição exterior. Nascem as possibilidades das criações fantásticas. Assim gestam-se Beethovens, Pascais, Turings, Chopins, Einsteins e toda miríade de almas dispostas a superarem uma realidade limitada e portanto triste. 

Viver na (e pela) verdade é libertação das correntes animais que nos puxam para uma existência densa. É o início de um processo de ascensão, que por mais doloroso que seja, é seguido pelas almas desejosas de algo a mais. 

"O estudo das ciências psíquicas é o mais importante que podeis hoje fazer. O novo instrumento de pesquisa que deveis desenvolver e se está desenvolvendo, naturalmente, é a consciência latente. Já olhastes bastante para fora de vós. Agora resolvei o problema de vós mesmos e tereis resolvido todos os outros problemas. Habituai aos poucos vosso pensamento a seguir esta nova ordem de idéias. Se souberdes transferir o centro de vossa personalidade para essas camadas profundas, sentireis revelar-se em vós novos sentidos, uma percepção anímica, uma faculdade de visão direta; esta é a intuição da qual vos falei. Purificai-vos moralmente e refinai a sensibilidade do instrumento de pesquisa, que sois vós, e só então podereis ver."
(grifos meus)

Quanto mais vivemos em profundidade, maiores são as possibilidades de descobertas. Ao mesmo tempo, maior a incompreensão, o que leva o trabalho de justificação (perante o mundo) tarefa árdua. Por vezes tão desgastante que opta-se por conviver com a opressão da ignorância. Ubaldi sentiu isso, o que permitiu usar toda essa lenta dor para iniciar seu processo de maturação. Apenas após vinte anos de incompreensão e ataques psicológicos e econômicos à sua pessoa ele pôde iniciar a sua missão. Foi necessário fazer o voto de pobreza com plena consciência para que a alma se abrisse para verdades inacessíveis a nós, presos no plano da razão governada pelos instintos. 

Aqueles que absolutamente não sentem essas coisas, os imaturos, ponham-se de lado; tornem-se a chafurdarem-se na lama de suas baixas aspirações e não peçam o conhecimento, precioso prêmio concedido apenas a quem duramente o mereceu."
(grifos meus)

O discurso é forte e ofende aqueles menos dispostos a sair da posição de conforto (conceitual). Apenas quem está disposto a evoluir reconhece a finalidade das forças da vida que o comprimem e esmagam, demandando algum tipo de reação. No nível atual, a maioria dessas é pobre, colimando em consumo conspícuo e trabalho alienado - coisas que satisfazem o ego e atrasam o despertar do Eu. 

Reconhecer nossa miséria humana é a primeira coisa a ser feita para divinizar a substância dentro de nós.

Devemos espiritualizar a matéria - não materializar o espírito.

A substância deve ficar sempre mais transparente.

Referências:
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/11/um-ciclo-duas-fases-piramide-expansiva.html
[2] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_27.html?m=0