quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Unidade ou fragmentação

O despertar da razão nasce na espécie mais complexa do planeta (o homem). A configuração orgânica chega ao auge com o homo sapiens. Seu sistema digestivo, respiratório, muscular, seus ossos, seu cérebro e neurônios,...tudo aponta para um grau de sofisticação nunca atingido por outra espécie. O humano não é o mais forte, nem mais rápido, tampouco mais resistente às intempéries. Mas seu intelecto é capaz de associar fatos externos entre si, construindo a ideia de causalidade. Relações entre os fenômenos passa a ser recurso para criar a técnica - e assim começam a surgir as ferramentas. 

A esbeltez do espírito deve refletir na esbeltez da mente,
das emoções e do corpo. 
A economia é uma extensão da biologia. Melhor dizendo: trata-se de uma continuação da evolução externa (material) num nível radicalmente diverso. Nossa espécie passou a operar predominantemente no nível exossomático. Não apenas construímos máquinas, mas também máquinas que constroem outras máquinas - sempre baseado em princípios ditados por nós. Isso possibilitou o domínio relativo sobre a natureza. 

Da revolução neolítica (10.000 a.C.) até o Iluminismo (século XVIII) a humanidade manteve um padrão de vida considerado baixo. É claro que foram criadas formas de organização como os Estados antigos do Egito, da Índia, da Grécia e Roma. E a base religiosa do mundo (cujos troncos principais foram o Budismo e o Cristianismo) teve sua gênese devido à inúmeros avanços, cujo primordial foi a escrita. Além dos fundamentos das filosofias - e posteriormente o desenvolvimento das ciências. Percorrendo essa formidável trajetória multimilenar, regada de sofrimentos, conquistas, esquemas, repetições, superstições e superações, sentimos a preparação do terreno da civilização para uma etapa muito potente, de transição profunda, que será breve e terá como função capital alavancar a nossa espécie para um nível de conforto nunca visto - este é o meio. E com suas consequências fazer despertar em nós, de forma muito sutil porém intensa, um senso de evolução que vá além das exterioridades tecnológicas e físicas, apontando para o espírito - a finalidade.

Tudo que surge na humanidade é apoiado em uma ou mais conquistas anteriores. Conquistas estas que foram antes se consolidando através de assimilações, repetições, de forma a incorporar no corpo coletivo uma nova cultura. Aquela da moral talvez seja a que aponte para as maiores alturas. E a partir dela, os indivíduos mais adiantados na jornada evolutiva poderão usá-la para chegar a um patamar inimaginável para a imensa maioria: tornar prática cotidiana, natural, instintiva, aquilo que apenas é apontado como ideal - mas jamais aplicado na vida íntima. 

Vicente de Paulo. Após mais de 50 anos, desenterraram seu
corpo para a exumação. Encontraram-no intacto, incorruptível.
Assim é o organismo ocupado por grandes espíritos.
Muitos acreditam que o mundo não mudou em milhares de anos. Mas essa visão superficial denota uma sensibilidade de superfície, presa à forma, que apresenta incontáveis versões fragmentadas, apresentadas de modo contraditório. Observando à fundo nota-se. Recorrendo ao Cinema, com dois filmes excelentes: Spartacus e Padre Vicente de Paulo [2] (cujo título exato não me recordo, mas é sobre o dito cujo). Há cenas que demonstram o comportamento das mulheres da alta sociedade tanto na Roma antiga (70 a.C.) quanto na frança absolutista (Séc. XVII). Vejamos o primeiro filme - antes da vinda de Cristo - que se passa numa sociedade politeísta: nos duelos entre os gladiadores deseja-se (pede-se) a morte do outro para pura satisfação pessoal. O outro é uma mera distração. A vida de um escravo não tinha valor e a morte de centenas para divertir uma classe era fato normal, cuja repetição não suscitava nenhum tipo de indignação - nem por parte dos condenados. No segundo (Pde. Vicente) as damas da aristocracia, após verem o Padre (depois Santo) Vicente levar uma vida de dedicação, dando tudo ao seu alcance (suas reservas, energia, saúde, conhecimento e amor) para aliviar o sofrimento daqueles que se vêem jogados num mundo atrasado e desesperançoso, começam a se organizar para auxiliá-lo. É fato que existe outra coisa por trás: elas sentem na sua vida de abundância uma reprodução de um modo de ser e (consequentemente) fazer cada vez mais afastado do espírito cristão - que elas tanto seguem formalmente, nas missas e falatórios. Uma vida sem sentido na abundância da matéria e das gargalhadas. O Padre, rodeado pela pobreza, abraça-a e aponta para cima. Sente asco pelo que poderia ter pelos seus conhecimentos e posição. A consciência fala mais alto. Em suma: as damas, apesar de longe de um despertamento efetivo, se preocupam em ajudar o pobre - mesmo que sem grandes sacrifícios pessoais. Antes (Roma politeísta) o prazer puro. Depois (Ocidente cristão) uma beneficência deficiente. Dezesseis séculos após a vinda de Cristo percebe-se que no íntimo as coisas se alteram. Tudo dentro da medida do permitido pela ordem dominante claro. O mundo muda, mas lentamente. Muito lentamente...

A Era Moderna nos trouxe a maior conquista da civilização [1]: O Estado Moderno. A passagem do Teocentrismo medieval para o Antropocentrismo moderno permitiu o nascimento formal e efetivo da Ciência, - em todos seus aspectos, natural e humano - uma outra conquista formidável. Esses dois elementos (Estado e Ciência) permitiram a forja de uma sociedade completamente diferente de todas aquelas que haviam surgido e desaparecido. O conforto material finalmente chegara. 

J.M. Keynes: visionário. Suas previsões podem se
realizar. Isso depende apenas de nosso bom-senso.
Em 1930, numa conferência em Madrid, J.M. Keynes [3], economista inglês, esboçou uma possibilidade a ser vivenciada pelas próximas gerações, dentro de um século. Essa possibilidade seria a abolição global das misérias materiais que sempre afligiram a humanidade - tanto em sua fase pré-histórica das cavernas quanto aquela das civilizações históricas. Isso, conforme o próprio afirma, se deu graças ao acúmulo sem precedentes de capital, que possibilitou a Revolução Industrial e assim a produção de bens e serviços nunca vistos, em quantidades enormes. A Revolução Francesa abriu portas para a introdução dos conceitos de democracia e igualdade (ao menos teoricamente), que apontam para a liberdade. Esses conceitos de sociedade e organização política alimentaram os movimentos operários (séc. XIX até meados do XX) e sociais (séc. XX em diante), que através de lutas e persistências conseguiram certas conquistas, reconhecidas por parte dos poderes como imprescindível para o funcionamento do organismo coletivo chamado humanidade. No momento atual, em todo mundo, essas (poucas) conquistas estão sofrendo um processos de erosão. Mas o pior não é esse esfarelamento - a questão é edificar, transformando o conceito substancial de Estado em realidade concreta, criando um organismo que pode fazer frente à barbárie que se anuncia.

O mundo não pode avançar sem o Estado e a Ciência. Eliminar um ou ambos significaria um retrocesso de proporções inimagináveis. A questão é compreender qual o significado desses dois agentes coletivos, supra-humanos, nascidos da razão mas operantes de forma relativamente autônoma a partir de uma fase. Essa consciência falta ao grosso da humanidade, razão pela qual poucas pessoas participam de questões ligadas à política, economia e legislação - que controlam os processos de investimento em ciência, tecnologia, mídia, etc. O perigo se amplia à medida que se faz o jogo de se manter distraído na esperança de que tudo (crise) passe. Nesse aspecto reproduzimos os atos atávicos medievais, depositando nossa fé num sistema econômico que se desconectou da realidade ecológica e social. 

É verdade que houveram grandes males cometidos através do Estado no século XX. A Ciência igualmente serviu a interesses escusos. No entanto, tratam-se de ferramentas (meios), não de causas. Ademais, é preciso perceber a sutileza sistêmica presente nas ondas da História. O fascismo nasce num contexto de crise, quando aqueles que ascenderam e se tornaram proprietários com um tipo de trabalho mais intelectual/sofisticado (mas não melhor!), isto é, as classes médias, veem risco de queda e não podem correr nenhum risco. Quando a ameaça de conforto está à espreita, são os que estão no meio (eu diria aqueles entre o 19% de baixo dos 20% do topo, ou seja, o topo exceto a elite do 1%) que mais estão dispostos a apoiar regimes totalitários [4]. O nazismo nasceu assim. Trump vence as eleições pelos mesmos motivos basicamente. E essa erosão sempre teve como causa uma crise do sistema (capitalista). Trata-se de um sistema apoiado por uma lógica produtora de crises constantes. É crônico. É igualmente cômico perceber que muitos economistas ainda não estão dispostos a subordinar sua "ciência" a uma diretriz mais vasta: a ecologia. 

Ciência. Junto com o Estado Moderno, a maior conquista
da civilização antropocêntrica.
Essas questões nos levam a um aspecto mais profundo que reside dentro dos indivíduos, no íntimo da alma. Trata-se da fragmentação de nossa personalidade através das tecnologias recentes e do excesso de informação. 

É preocupante perceber que estamos vivendo uma época paradoxal: um máximo de possibilidades abortadas por uma maré de desperdício. Como isso ocorre? O fenômeno é complexo, mas pode ser sintetizado por um simples conceito. Estamos na era da informação. Mas sem conhecimento não há o desenvolvimento necessário. Este fica restrito a alguns - não necessariamente ricos, mas com uma vida razoavelmente decente, que permita a aquisição de boa instrução e exercícios de atividades úteis. Sem o conhecimento busca-se mais informação, repassa-se qualquer coisa e habitua-se a mente a buscar preenchimento quantitativo no vazio qualitativo. No entanto, nem mesmo o saber irá resolver a questão da fragmentação / desorientação. É necessário chegar ao Lógos - a razão crística segundo Rohden, ou intuição, segundo Ubaldi.

Tendo uma vida fragmentada no tempo e no espaço, nossas atividades tornam-se menos eficientes, e portanto mais desgastantes. O sofrimento continua porque os meios de superá-lo são travados pelos processos mentais circulares (repetitivos). As condições sistêmicas alimentam isso, dando as condições para que essa reprodução vazia se perpetue indefinidamente. São as distrações midiáticas (TV, rádio, jornais, revistas, internet) e sociais (fofocas, panelas, reações argumentativas); o consumo conspícuo (shoppings, baladas, bares e derivados); o trabalho alienado e alienante (horas infindáveis sem executar algo que desperte a consciência). Tudo contribui. E comprova a veracidade da teoria de Ubaldi do S e do AS [5]

O diagrama de Ubaldi explica de forma
geométrica o fenômeno evolutivo.
A reencarnação nada mais é do que fenômeno natural do universo decaído (AS), no qual a vida - que é una e portanto eterna - se torna fragmentada devido à queda das dimensões, implicando num ciclo de inúmeros nascimentos e mortes, com todas suas dolorosas consequências. A matéria se desagrega com o passar dos anos. Ela está sujeita à lei da entropia [6], que aponta para a desorganização de qualquer sistema termodinâmico. Assim ela "profetiza" o fim da matéria, com o fim do universo físico. Mas a vida é algo diverso daquilo que aprendemos na escola. Vimo-la em seu aspecto orgânico, no espaço-tempo, dependente de um substrato material, que nada mais é do que uma manifestação sua. No estágio atual depende ela desse substrato - devido ao nosso grau evolutivo. Mas a vida é fenômeno vasto e profundo, relacionado ao espírito, e pode sossegadamente progredir em universos extra-físicos, espirituais e mesmo conceptuais [7]. Pedro Orlando [8] desenvolveu de forma magistral essa ideia em seus anos finais de vida (vida utilíssima diga-se de passagem!).

Em existências terrenas estamos vivenciando o drama da fragmentação geral. E a sensação é de uma correria imensa com resultados cada vez mais efêmeros. Nunca fomos tão velozes. Jamais fizemos tão pouco em termos de substância. Caímos numa armadilha que só pode ser vencida se absorvida num esquema conceptual maior. Construí-lo exige estofo espiritual sem precedentes. Ousadia inteligente [9] pode ser um primeiro passo rumo a essa ruptura virtuosa com o paradigma passado.

Desde a década de 50 do século passado começamos a viver em "tempos sistêmicos". A interconexão entre fenômenos se torna mais clara. O que permitiu isso foi a Revolução Industrial. Desperta-se o cão feroz para nos proteger do mundo. Mas logo percebe-se que o cão cresce e se torna soberano. É necessário saber controlá-lo para que ele não nos devore e acabe consigo mesmo. O cão feroz é Lúcifer (intelecto). O controle se dá por Lógos (intuição). O primeiro é analítico. O segundo é sintético. Lógos guia Lúcifer - e não vice-versa. 

A intuição se dá quando o corpo e a mente "morrem".
Ela é a inteligência - que renasce num nível mais alto.
A ineficiência de nossos projetos de vida reflete a fragmentação interna a que nos submetemos em prol de uma suposta eficiência social-profissional. 

Se para despertar a humanidade for necessário uma catástrofe de proporções colossais, a Lei irá providenciá-la. A vida não quer gordos involuídos (conforto material pleno, nulidade espiritual). Ela visa forjar evoluídos, nem que para isso sejam magros (conscientes com pouco conforto material). Podemos ter ambos, se soubermos viver em equilíbrio, nos tornando esbeltos conscientes. Equilíbrio com nossas emoções; equilíbrio em nossas atividades; equilíbrio em nossa saúde; etc. Visando sempre um utilitarismo mais vasto. Alguns cineastas pressentem o nascimento dessa nova humanidade, e através de sua arte, verbalizam os valores vulcânicos da vontade velada [10].

Para atingir a unidade coletiva precisamos antes conquistar a unidade íntima. 

Nossas vidas devem ser vividas de acordo com nossos ideais mais puros. Devemos seguir o roteiro íntimo de forma firme, sem medo dos outros. Porque quem observa o íntimo (Deus) pode não dar a impressão de estar nos protegendo quando aqueles que só veem os atos (humanos) julgam. Mas os mais conscientes saberão que se trata de algo visando o bem de todos.

Devemos lutar para construir a cultura de concentração e reflexão profunda no íntimo, repetindo o que inicialmente pode desagradar, mas tendo fé nesse "método". Trata-se de processo contínuo, sem prazo, e visando uma transformação de atitude - não de ato. 

Sem um pouco dessa unidade interior jamais seria possível prosseguir com meu trabalho e doutorado, com este blog, com a elaboração de curso de extensão, com meu despertar - entre outras coisas. Todas construções sólidas da humanidade se dão num ambiente unitário. A história confirma. A vivência consolida.

Unidade corrigindo a fragmentação. Eis a solução geral.

Passemos para as especificidades. Cada qual com a sua - mas todos com a mesma orientação suprema.

Referências:
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2018/01/a-maior-conquista-da-civilizacao.html
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Vicente_de_Paulo
[3] http://www.geocities.ws/luso_america/KeynesPO.pdf
[4] https://eand.co/the-downwardly-mobile-society-b3d538b6dd27
[5] Sistema (S) e Anti-Sistema (AS). Para saber mais, ler Queda e Salvação, de P. Ubaldi. 
[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Entropia
[7] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/10/racionalismo-em-cheque.html
[8] http://monismo.net/indice1.html
[9] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2013/12/aconquista-de-aqaba-importancia-da.html
[10] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/10/v-em-busca-da-verdadeira-unidade.html

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A Lógica Emborcada

Nós temos imensa dificuldade em fazer auto-crítica. Tão grande é essa dificuldade que passamos a ser muito mais brandos em nossas críticas dirigidas para o exterior - de modo a não sermos forçados a lidar com a provável reação, em sentido contrário e de intensidade igual ou maior, que aponta nossos defeitos. Ao fazermos avaliações profundas e intermitentes de fatos externos somos compelidos a expor nossa realidade interior (nossas atitudes e atos, nossas visões de mundos) para o mundo, que irá avaliá-la de modo tão ou mais incisivo. A questão aí não reside necessariamente em deixar de fazer questionamentos e assumir postura crítica, mas de estar (muito) melhor preparado, intelectualmente, emocionalmente, fisicamente e (mais importante) espiritualmente para lidar com as investidas que o meio apresentar.
O emborcamento de um navio. Quando temos algo que não
caminha de forma correta (casco para baixo), estamos num
caminhar emborcado. A humanidade possui uma lógica
emborcada, ou seja, que não é usada de forma consciente.
Todas as coisas que não estão diretamente relacionadas à nossa vida são alvos relativamente fáceis. Quem possui o intelecto luciférico altamente desenvolvido percebe isso, e se aproveita dessa característica humana para atingir seus interesses. Isso não é apenas verdade no campo da política, mas em todas instituições humanas: corporações, mídias, nações, religiões, famílias, etnias, áreas do saber, profissões, grupos etários, sexos, gêneros, classes sociais. Ataca-se no outro o defeito que em nós é pequeno. Esconde-se o defeito alheio - que em nós é grande. Aparentemente defende-se o outro por bem. Mas tudo me indica que, - lá no fundo, no remoto fundo da alma - quando estamos investindo na crítica, usando os métodos do mundo (que é o nosso, em maior ou menor grau), sempre há uma astúcia por trás do aparente bem. E no mal, sempre há uma redução de efeito visível de nossos ataques violentos, de forma a torná-los mais apresentáveis e "humanos", mais toleráveis pela sociedade "do bem" e dos "bons costumes", garantindo assim a perpetuidade dos métodos. Estamos diante das maiores profundidades da vida humana. 

Essa forma mental é a que nos aprisiona nesse (triste) plano evolutivo. Usando os métodos do mundo para questioná-lo, estamos diante de uma reação de igual intensidade. Essa reação é diversa a depender do biótipo. Para a imensa maioria (o homem médio, situado no plano racional-analítico que serve os instintos), ela será difícil de ser lidada, pois tende a cercar o ser com espelhos metafísicos, forçando-o a explicar ao mundo se ele, de fato, tem autoridade para fazer apontamentos tão ousados. O fato é que não o tem, pois ele não é o que espera do mundo, e dessa forma acaba reagindo de forma idêntica, lançando esses mesmos espelhos ao redor daquele que faz as críticas diversas, para expô-lo. Como nessa batalha não há desejo de abrir sua alma para realizar autocrítica - o que poderia estimular o grupo a elevar o debate para outro nível, mais profundo e realmente transformador - perpetuam-se rebatimentos externos. Reações mais intensas, às vezes mais elegantes / elaboradas, que apresentam maior complexidade. Chega-se num ponto em que o intuitivo sente que os nós dados em torno de tema tão simples começam a exigir tamanho esforço que a eficiência cai a um nível absurdamente baixo. E a partir desse ponto abandona-se o tema, ora voltando a ele, sempre da mesma forma, com os mesmos métodos e resultados...

Francisco de Assis percebeu a
brutalidade de permanecer na
alta posição social. Egoísmo puro
não era com ele...
Existem outras formas de lidar com isso. Uma delas é simplesmente não tratar do tema. Reduz-se o nível de (postura) crítica, ousadia (inteligente) e sinceridade (vulcânica) a quase zero. Como resposta o mundo, a sociedade, a mídia (os instintos!) deixarão o ser em paz, podendo seguir sua vida sem golpes fortes - a não ser daqueles que nosso mundo presenteia abundantemente a todos(as). Esse é o caminho fácil, em que se foge de algo e simultaneamente acredita-se estar melhorando interiormente, - por causa da ausência de conflitos externos e camuflagem dos conflitos internos via ruídos exteriores como trabalho alienado, consumo conspícuo e dependência midiática. No entanto o problema permanece na alma e se manifesta na forma de uma dependência cada vez maior de ruídos externos. Isso é a ânsia por novidades, a necessidade enorme de exibir o seu histórico, títulos, posição (seja ela social, acadêmica, física, financeira,...todas quantidades), o ato mecânico de sempre deixar seu entorno cheio de ruídos - sejam eles humanos ou eletrônicos - e a criação de metanarrativas* a respeito de grupos específicos, formas mentais e acontecimentos históricos para satisfazer certas tendências psíquicas fortemente enraizadas. O produto dessa combinação é uma repetição cotidiana. Uma aprendizagem lentíssima, que se dá através da fixação da personalidade num patamar. Não se transforma, não se abre para o mais da qualidade que ilumina e acelera, sempre preferindo-se o menos da quantidade que inunda e engessa. Alterar esse rumo implica em alterar a si mesmo, num nível nunca antes experimentado. Deve-se estar pronto para o que vier. Mas igualmente isso só pode ser feito para quem estiver suficientemente preparado, com o estofo espiritual mínimo para iniciar a jornada. Estofo sem o qual pode-se cair numa espiral de desespero por não saber lidar com a substância interior. O que nos leva ao outro método, que nada mais é do que adquirir a capacidade de ser sinceramente consciente e ousadamente inteligente. 

Albert Schweitzer (1875-1965), teólogo, músico,
filósofo e médico alemão. Saiu da Alsácia onde o
sucesso lhe convinha para viver 54 anos na Àfrica,
onde construiu um hospital e ajudou os mais miseráveis.
Rohden chamou-o "Profeta das Selvas".
Quando conquistamos a habilidade de trabalhar com esses reflexos vindos de fora, absorvendo o que retorna para emitirmos algo diferente, mais elevado, menos contraditório - seja em ideias, atitudes ou ações - melhoramos o mundo externo, pois ele deve trabalhar num terreno mais sofisticado para continuar no jogo. A quantidade de Lúcifer cede um pouco de espaço à qualidade de Lógos. Começa-se a inverter o rumo de nossa nave. E com isso vem o trabalho jubiloso, muito acima do alienado. E a reflexão brota, redefinindo o conceito de necessário, e assim rejeitando o consumo alienado por melhor focar no consumo consciente. Essa força que brota de uma profunda convicção interior é o melhor modo de transformar o mundo. Mudar a forma mental. Ela inicia uma mudança em cadeia, que cresce como uma onda. Forma mental estimula a reorientação da ciência e do pensamento filosófico que plasma instituições, que forjam as bases para superar o sistema hodierno - calcado em acúmulo indefinido e segregação entre saberes. Parte-se da crença, passa-se pela fé e chega-se à experiência direta [1]. Passar de um nível a outro é tarefa titânica mas compensadora. Libertar-se da escravidão das necessidades supérfluas (luxo-lixo) é a maior potência para acabar com o que não mais serve a uma nova humanidade. Essa atitude é inexpugnável. 

Mas nada de novo falei até aqui que não tenha sido dito, explicado, exemplificado, teorizado ou prosado. Agora verso o ponto diferencial.

Existe um aspecto que temos dentro de nós que contribui (e muito) para o mundo não progredir. E trata-se de algo aparentemente inocente, não-causador de males. É o nosso ato de querer ir para o local bom (de lá) que (geralmente) sustenta o ruim daqui (e do mundo), simplesmente para termos uma vida mais plena. O nosso desejo de morar num país de alta qualidade de vida é natural. Quem não gostaria disso? (eu certamente aceitaria uma boa proposta). Mas andei refletindo muito a respeito disso. Observando o porquê de eu, de você, de todos nós ansiarmos sempre por ir para um lugar melhor, e comecei a perceber um aspecto muito sombrio nisso tudo. Um aspecto que, feita a soma do conjunto dos desejos e vontades, mantem as coisas como estão e reforça a lógica do mundo, garantindo o domínio do forte sobre o fraco. 

Se eu quero ir para um lugar de boa qualidade de vida porque aí posso melhor me desenvolver, sou uma pessoa sensata. Isto é o que o senso comum diz. Quero viver num meio em que possa viver melhor e me desenvolver mais. Mas ao fazer isso estou abandonando o meio que é pior (onde vivo), e que portanto mais precisaria de gente capaz para auxiliar, e parto para um meio em que já é bom e devo dar minha contribuição para ficar melhor ainda. Sinto nisso uma reprodução da lógica de concentração - de renda, oportunidades, etc. É como se todo ser humano estivesse reforçando (justificando) a política de assalto praticada pelo sistema financeiro. Na essência percebo uma semelhança assustadora. Vejamos mais a fundo.

No Butão o governo estabeleceu prioridades diferentes. Há
contradições, mas muitos aspectos são bons para serem
incorporados na sociedade.
Todos seres que passaram por esse planeta e foram reconhecidos como aqueles que ajudaram a elevar o nível médio da humanidade, foram justamente aqueles que fizeram o avesso do que nós ansiamos. Partiram dos melhores meios para caírem nas situações menos favorecidas. Cristo é o máximo dos máximos dos exemplos. Francisco de Assis, Pietro Ubaldi e Albert Schweitzer [2] (o Profeta das Selvas) são exemplos supremos. Se todos ou apenas uma boa parte de nossa espécie fizesse algo minimamente parecido com o que estes exemplares raríssimos fizeram, o mundo seria um paraíso. Porque não é saindo dos lugares pobres e feios, usando toda astúcia, para entrar nos lugares ricos e bonitos, que o mundo se tornará melhor. Especialmente porque esses lugares ricos e bonitos, em larga medida, historicamente contribuíram para o empobrecimento de certas regiões; e igualmente se beneficiam de determinadas conjunturas globais para manterem seus altos padrões de vidas. Quantas empresas europeias não se encontram em lugares remotos do mundo tendo um lucro enorme à custa de populações? Isso tudo deve ser inserido num balanço global. 

A Islândia (seu povo) é outro exemplo de como poderíamos
nos conscientizar e controlar nossas vidas de forma mais
sincera e plena. Sua revolução - não coberta pela mídia -
tirou-os da crise.
Quem é verdadeiramente rico não o ficou às custas do desequilíbrio do meio ambiente, da exploração de outros povos, nem da perpetuação e consolidação de sua posição (obtida pelas suas explorações passadas). Logo, até o presente momento, posso afirmar com segurança que nunca vi uma nação verdadeiramente rica. Algumas estão tentando caminhos diversos, com modos de desenvolvimento alternativo, como o Butão [3]. Outros se dão a nível menor, mas de forma mais complexa, através de ecovilas, como a comunidade de Tamera em Portugal [4], [5]. São novos aspectos brotando no mundo de forma ordenada, consciente  e orientada. O desafio é perceber a profunda realidade e criar a partir de onde estamos, percebendo que o mundo não é um migrar unidirecional alienado, mas um transformar multidirecional virtuoso, visando a conquista de dimensões superiores. Criar o país rico aqui, verdadeiramente rico, não às custas de outros corpos, culturas, riquezas e massacres históricos, mas por meio de uma nova atitude, que brota de uma diversa concepção de vida. 

Podemos fazer isso de onde estamos. Comecemos abrindo-nos para conceitos novos e experiências mais profundas. 

Vencendo a lógica emborcada que construiu nosso passado e governa nosso presente estaremos adquirindo a "lógica mais lógica", não emborcada, que enriquecerá nosso passado e construirá nosso futuro. Um futuro completamente diferente.

Referências:
[1] https://osegredo.com.br/2018/01/entendendo-as-3-etapas-do-desdobramento-espiritual/
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Schweitzer
[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/But%C3%A3o
[4] https://en.wikipedia.org/wiki/Tamera
[5] https://www.youtube.com/watch?v=IryCO3MvAiQ

Observações:
Metanarrativa (também conhecida como meta-narrativa e grande narrativa; do francêsmétarécit) é um termo literário e filosófico que significa simplificadamente a narrativa contida dentro ou além da própria narrativa. É um termo que tomou o centro dos debates ao final do século XX pelo filósofo francês Jean-François Lyotard (1924-1998), pois este considerava que se estabeleceria o fim das grandes narrativas. Um exemplo das grandes narrativas presentes nos discursos, segundo Lyotard seriam o iluminismo, o idealismo e o marxismo. O prefixo met(a)- tem sentido de "além de; no meio de, entre; atrás, em seguida, depois". [Wikipedia]




sábado, 27 de janeiro de 2018

Espiritualidade e Revolução

A imensa maioria de ações conduzidas por nós brotam do subconsciente. Essa é uma afirmação já dita por pessoas que se conscientizaram dos problemas últimos da existência [1]. A personalidade humana é um fenômeno deveras complexo para que seu estudo - e compreensão - fique restrito à classe dos psicanalistas e psiquiatras. Estes, em sua imensa maioria, apoiados numa ciência consolidada, de superfície, captam apenas efeitos e (no máximo) causas superficiais dos grandes distúrbios humanos. Não vão além porque ignoram completamente visões que poderiam servir de plataforma para trilhar novos caminhos, descobrindo pontes (relações) entre saberes. Dessa forma a personalidade humana vai além do seu aspecto psíquico convencional, que trabalha apenas com medicamentos e abordagens que levam em conta o passado recente do indivíduo. Inclinações inatas - de nascença - não são compreendidas. Pois antes, segundo esse ramo, o ser inexiste. E portanto nenhum solução definitiva é alcançada. 

Nos cremos conscientes. Isto é, temos a férrea convicção de que as nossas atitudes e ações cotidianas são produto de um processo mental controlado por nós, e que dessa forma estamos no controle pleno de nossa vida - e destino. Se isso fosse verdade, que liberdade seria essa na qual toda massa humana se lança, precipitadamente, para uma situação que se mostra cada vez mais caótica em todos níveis e escalas de vida? Corrosão completa de sistemas políticos; insustentabilidade de relações com a biosfera; liquidez das relações humanas [2]; ignorância causada e mantida através do dilúvio informacional; ineficiências gritantes nos sistemas de transporte urbanos; conversão da arte em entretenimento;...Pode-se observar uma degradação da forma em todos aspectos. No entanto a lógica seguida é esta: "tudo tem que ser chique." Vê-se isso de forma clara nos novos centros comerciais (shoppings), mas igualmente em hospitais de certa elite financeira e espaços diversos frequentados por aqueles que possuem algum dinheiro a ser gasto. Tudo é muito bonito, cheiroso e harmônico, não nego. Mas a que custo? Para quem? Para quê? 

Chega o momento de observar além do observável para
que acionemos engrenagens interiores capazes de nos
colocar em fluxo com a Lei de Deus. O fenômeno evolutivo
será potenciado. Da subida lenta inconsciente-dolorosa
passaremos à subida veloz consciente-jubilosa.
A vida humana não se torna mais rica - em termos de vastidão de possibilidades, de conexões significativas e de profundidade de tarefas - com o atual culto à forma e conveniência a todo custo. Ao contrário, parece-se adiar um confronto que um dia irá eclodir, como um vulcão de dimensões incomensuráveis, para todos. O confronto com nosso próprio Eu. Com nossa natureza.

Se consideramos que a vida consciente, o nosso Eu, nasce com o parto materno e morre no túmulo, então não se encontra explicação racional-lógica que consiga resolver a questão dos impulsos (alguns fortíssimos) que jamais foram assimilados na vida terrena. Nem sequer se é capaz de mobilizar efetivamente seres humanos para melhorarem a si mesmos e o seu entorno. Pois a certeza de um fim definitivo físico-psíquico, sem a continuidade de um princípio mais profundo (espírito) que não é abalado por leis de um plano tangível, biofísicas, suga todo ânimo criativo que poderia brotar de um ser humano. Fica-se na realidade. Não se é ridicularizado. A pessoa (com "sorte") se garante de forma externa e transitória, mas à custa de coisas internas e eternas. Porque o curto-prazo fala muito mais forte do que o médio e o longo prazo - especialmente quando este extrapola os limites de uma existência orgânica.

Maurício Crispim, médico, apresenta um diagrama, baseado na visão de Pietro Ubaldi, que situa de forma mais certeira a nossa personalidade presente (esta vida) perante o grande fenômeno que é a evolução [3]. O quadro que nos é exposto pode não agradar a muitos presos a formalismos empíricos. Desejam medir, provas e palavras de renomados cientistas. No entanto o íntimo daqueles que buscam atingir paz interior e melhorarem a si mesmos entra em ressonância com os conceitos formulados pelo místico da Umbria. A depender do tipo de leitor que se deparar com esse texto, cada um tirará a sua conclusão do que lhe é apresentado de acordo com a força com a qual os rituais da modernidade foram inculcados em sua mente. Não se trata de menosprezar quem não aceita os conceitos aqui expostos, e sim de explicar como a mente de nós, seres humanos com (ainda) pequeno grau de consciência funciona de modo geral. Vencer os nossos automatismos para sairmos de situações suicidas é tarefa titânica. Cooperar com o outro (visões mais abrangentes e unificadoras) e competir consigo mesmo (nossos instintos). Eis o ponto. 

O Dr. Crispim mostra aquilo que satisfaz meu coração e preenche de possibilidades minha mente, libertando assim o poder genético do meu espírito para atingir concepções superiores de vida. Vamos nos adentrar na questão.

Este volume trata do problema psicológico.
Estende-se essa área, fazendo interceptos
com diversas outras. Ganha-se assim uma
orientação geral para conduzirmos nossas
especialidades. A humanidade futura será
infinitamente grata a esse ser.
Ao estender o Eu humano para o pré-nascimento e o pós-túmulo, é possível começar a relacionar certas tendências da pessoa com características vividas, sofridas e apreendidas no passado. Este, por ser imenso comparado à nossa vida presente, imprime ao nosso Eu uma inércia que exerce uma barreira imensa para a nossa ascensão. Por isso as mudanças efetivas, de nossa natureza (instintos), são extremamente difíceis para qualquer ser humano. Imagine que podemos possuir centenas de milhares se não milhões de anos de experiências terrenas - e/ou extraterrenas - acumuladas, que formam hoje nosso subconsciente. Que terreno profundo a ser explorado! O problema da psicanálise se torna tarefa homérica. Rasgam-se os véus do mistério e abrem-se as portas para o trabalho colaborativo despido de preconceitos. De repente o problema da personalidade humana passa a ser uma questão histórica, espiritual, científica, lógica, filosófica e religiosa, em que todos ramos do saber devem dar sua colaboração. 

Milhões de anos acumulados. Milhares de existências. Uma vida que tenta superar centenas ou milhares por completo não será capaz de executar a tarefa. A evolução se torna lenta porque o esforço para substituir algo que está no subconsciente por uma característica um pouco melhor (mais humana) será um embate contínuo, dia-a-dia, sem resultados visíveis, que deve persistir por anos. O avanço se mede em centímetros (vida cotidiana concreta orientada) num terreno de quilômetros (telefinalismo). O desânimo está à espreita, louco para nos capturar e nos manter na zona de conforto. E assim levamos inúmeras vidas. O ritmo de aprendizado é lento e sentimos que a barreira é insuperável. Deixamos que as pessoas fantásticas tentem o caminho. Se falharem (o que na verdade é um aprendizado que prepara um pequeno avanço) rimos e caçoamos, reforçando nossa visão limitada da vida; se tem êxito, muitos de nós admiramos e criamos fã-clubes do ser espiritual que habitou uma personalidade humana que se superou. Pouquíssimos se encorajam e iniciam essa jornada interior ao verem aquele que ascendeu. 

O que isso tudo explica? Estamos começando a relacionar a personalidade humana (psicologia individual) com um fenômeno imponderável, muito mais complexo, diretor da evolução. Percebe-se que a rede de relações cresce exponencialmente. E que nenhum experiência profunda se perde no nível de profundidade da alma. Por isso temos membros que nascem numa certa família e, a despeito de toda instrução e repetições de costumes, seguem um caminho completamente diverso. Para o bem ou para o mal. Exemplos não faltam [4]. Na verdade são tipos que já possuem experiências e aprendizados mais profundos sobre Deus e o Universo, e que portanto despertam em dado momento de sua vida presente, para continuar a caminhada já iniciada em outra existência. São seres excepcionais, fora-de-série. 

Nosso eu-inferior (subconsciente) é a nossa História. Ele é fortíssimo pelas quantidades acumuladas. Mas deve ser superado, gradativamente. Quanto mais evoluirmos, mais veloz a ascensão - porque mais elevado o passado. Nossos impulsos brotam dele e conduzem nossas atitudes e ações no plano do consciente. Este, nosso eu-consciente, é onde se realizam as conquistas. É terreno de esforço contínuo. Cansaço e fadiga constante para nos tornarmos melhores. Busca por superação através de buscas incessantes - umas mais elevadas, outras menos. Nesse campo podemos corrigir impulsos multimilenares e imprimir novos caminhos, iniciando um desvio de trajetória de nossa personalidade. Dessa forma estamos agindo conscientemente. 

O príncípe Gautama Siddharta (Buda) percebeu a técnica
evolutiva e iniciou a despertar aos 19 anos. Quando fez 29
 abandonou sua vida farta (de tudo) e buscou a iluminação -
que finalmente atingiu aos 40~45 anos, passando seus
ensinamentos até sua morte física.
Se alguém parar para refletir com honestidade, se dará conta de que o grosso de sua vida é ditada por instintos. Ou seja, uma vida não-orientada. A razão apenas trabalha para justificar um sistema que, no fundo, nada mais é um meio de se obter algo que satisfaça determinado instinto, tendência humana, adquirida. Tendência que se deseja preservar a qualquer custo - mesmo que às vezes implique em grandes males. Esse é o ponto em que nos encontramos. E é daí que devemos partir. 

Existe ainda o tipo evoluído. Este, além de possuir e compreender o subconsciente e o consciente, possui a capacidade de visão (intuição). Isso se traduz em capacidade de concepção de noções superiores e vivência - em pequena ou larga medida - alinhada a essas concepções, ou seja, em harmonia integral. Esboça-se uma forma de vida melhor. Busca-se explicações definitivas, que satisfaçam a alma, para as grandes questões. Todo arsenal do conhecimento humano é acionado por esta alavanca superior, que arremessa a alma para cima, deixando-a perplexa perante o seu maravilhoso futuro. Resultado concreto: faz-se de tudo possível para se melhorar. 

Experimentos já demonstram. Tudo que Ubaldi vinha transmitindo desde 1932 agora começam a ser confirmados pela Ciência [5]. Aquilo que iremos pensar (pensar! e não fazer) já está inscrito em regiões pouco conhecidas até sete segundos antes. Isso confirma que o cérebro físico não é a fonte nervosa da qual parte a direção de nosso organismo e vida. As portas para um universo muito mais vasto começam a ser abertas pela ciência que antes negava este mundo por própria limitação de conceitos e instrumentos. Estamos diante da confirmação do fenômeno evolutivo em seu significado mais abissal. Chegar-se-à até o espírito e deste a Deus. 

Caitlin Johnstone diz:

"Experiments have shown that decisions we consciously make are actually made neurologically many seconds before we ever become conscious of them. The mental noises we hear in our mind’s ear tell us we’re thinking through our potential choices and then making a conscious “I’ll choose this option” decision in day-to-day living, but more and more research seems to show that our behavior is far more likely to be determined by unconscious mental habits than by the process of conscious thinking." [6]

Logo a seguir ela confirma a concepção ubaldiana:

Man is not a rational animal; he is a rationalizing animal, Robert A Heinlein once wrote. Mental stories clang around in the consciousness of deeply conditioned jersey-wearing apes about being in control as we hurtle on a spinning orb through a sea of blackness in a universe that we do not understand. We act based on the conditioning we’ve accumulated during our time here, most of it from other humans who have been acting out the conditioning they themselves have accumulated generation to generation to generation, and then we rationalize those actions retrospectively." [6]

Nós racionalizamos atitudes a atos de gênese instintiva (1º grifo), segundo Robert A. Heinlein. Ela  a seguir afirma que agimos baseado no condicionamento impresso por outras pessoas que acumularam isso geração após geração (2º grifo). Resta-lhe apenas perceber que essa passagem se dá do Eu para o Eu, ou seja, no mesmo indivíduo, através de várias vidas (personalidades). Pois sem essa conexão, o ato de recebermos tudo exteriormente, por experiências de terceiros (esposa, pai, mãe, avós, amigos, colegas, professoras, etc), não é capaz de explicar definitivamente porque alguns seres conseguem romper de forma definitiva essa cadeia e atingir patamares superiores de vida. No entanto as pessoas começam a caminhar. Esta é apenas uma primeira aproximação, ainda calcada nas crenças e formalismos humanos. 
Um ato como tocar o piano pode ser visto como um conjunto
de "decisões ditadas" pelo subconsciente, que conduzem o
consciente, sem que este necessite racionalizar que tecla
será tocada quando, com que intensidade, de que modo.

Toda experiência efetiva se dá interiormente. De fora podem mostrar-nos o caminho. Explicá-lo. Contar sua experiência (para quem passou por ela). Mas jamais passá-lá (vivência). Logo a questão espiritual se resume a uma questão individual - individual em sentido positivo, de contato com seu Eu divino. Esta irá resolver definitivamente a questão coletiva, tanto em seu aspecto social quanto ambiental (exterior). Humanidade, sistema-Terra e sistema-Vida devem entrar em harmonia a partir dessa iniciativa. Sem esse alinhamento ascensional não será possível resolver os grandes problemas que agora se nos apresentam de forma cada vez mais evidentes. 

Recentes experimentos da neurociência mostram, através do escaneamento do cérebro, que é possível prever as ações de pessoas até 10 segundos antes delas tomarem a decisão de executá-la [7]. Daí concluíram que não existe livre-arbítrio. Isso pelo simples fato de que a decisão tenha sido tomada em outra região, atualmente desconhecida, que brota como um impulso que dita as diretrizes do sistema nervoso central. Mas nada se pode afirmar de absoluto diante de um mistério que contém em germe inumeras possibilidadesToda observação da Ciência será válida mas relativa, assim como as conclusões subsequentes.

É muito provável - praticamente evidente - que a personalidade humana é um continuum composto por três faixas de consciência que intercambiam informações/experiências. São elas:

1) Subconsciente - os instintos, nossa história, os impulsos que nos conduzem;
2) Consciente - a razão, o pensamento, região de livre-arbítrio, de luta constante para corrigir tendências e gerar novos comportamentos e mentalidades;
3) Superconsciente - a intuição, que constitui a capacidade de elaborar normas superiores, de relacionar conceitos distantes,  aparentemente desconexos.

Elas progridem à medida que evoluímos. A tarefa da vida é fazer uso da fina camada superficial na qual a razão atua para corrigirmos vícios e traumas (instintos) passados, superando-os, colocando automatismos mais evoluídos em seu lugar. Trata-se de batalha titânica, que se travada com seriedade movimentará forças colossais de nosso passado que se recusa a ser superado. É uma luta para superação da natureza baixa, tornando-a uma natureza cada vez mais refinada, inteligente, angelical, capaz de solucionar os mais intrincados problemas de forma simples, sem recorrer a enxurrada de métodos e ferramentas que o mundo comercializa loucamente. Assim o santo nada mais é do que um tipo evoluído, cujo subconsciente está completamente renovado, tendo eliminado todos vícios e baixezas que nos prendem na miséria e sofrimento, com automatismos elevados em seu lugar. Daí se compreende como existem gênios da música - por exemplo - que desde tenra idade não necessitam "pensar" para executar uma música. Pois se isso fosse necessário a característica sublime da música não iria se manifestar. É o subconsciente executando o trabalho elevado e automático para que o consciente possa adentrar em regiões tremendamente mais vastas e complexas.

Experiência Simbólica Não-Persistente (ESNP) é o termo científico para descrever quem atingiu em estado conhecido (no oriente) como iluminação. Constata-se que indivíduos que atingiram isso mudaram completamente sua relação com o pensamento. Sua vida deixou de ser ditada por impulsos (apesar deles exercerem alguma influência, mas mínima) e histórias repassadas geração após geração. Esse fenômeno possui uma relação muito profunda com o momento político-econômico atual do mundo, no qual é evidente o papel da imensa maioria dos meios de comunicação - que em larga medida são agentes que causam confusão, distração e consequente enfraquecimento do organismo coletivo da humanidade. Poder-se-ia pensar que o autor é pessimista e portanto deseja atacar algo importante, mas - feliz ou infelizmente - esses ditos estão em ressonância com a concepção de Noam Chomsky sobre o que a mídia realmente é (ou se tornou) em nossa civilização: um meio de manipulação.

O link https://www.youtube.com/watch?time_continue=261&v=34LGPIXvU5M mostra os cinco filtros que essa máquina aplica na humanidade para garantir o curso das políticas - rumo à destruição.

O que me impressiona é que eu gostaria de ter colocado o vídeo diretamente, mas o mecanismo de busca do blog afirma "vídeo não encontrado", apesar do vídeo (ainda) estar lá...De qualquer forma, recomendo que vejam para refletir e gravem para preservar - antes que saia do ar por algum motivo obscuro.

Estabelecendo as conexões entre iluminação interior e situação exterior, percebe-se que a mídia é um veneno para o verdadeiro processo revolucionário, ou seja, a revolução de substância que trará  de forma efetiva e irreversível a igualdade, liberdade e fraternidade - que a Revolução Francesa apenas nos apresentou.

O que nos diferencia de organismos como a cianobactéria - que por pouco não levou à extinção da vida na Terra há 2,5 bilhões de anos - é nossa capacidade de orientar nosso pensamento para objetivos mais vastos e intangíveis através da conquista de um estado de consciência superior, e não a nossa habilidade de produzir conhecimento inútil e espalhar informações vazias com intenções egoístas. E aí percebe-se que esse blog é apenas um grão num vórtice ascensional cada vez maior, composto por inúmeras almas que despertam cada vez mais para a real questão do fenômeno evolutivo.

"If we are indeed different enough from the cyanobacteria to avert annihilation, that difference isn’t in our capacity to manufacture mental noises, it’s in our potential to make this kind of shift in our relationship with mental narrative. " [6]

Finalizo afirmando com toda segurança:

Se podemos transcender a nível individual, nada nos impede de transcender a nível coletivo. 

Neste aspecto devo complementar aquilo que uma criatura chamada Margaret (Tatcher) disse:

Não há alternativa a não ser despertar a consciência e enterrar um sistema falido para edificarmos um novo, já vivo dentro de nossa alma vibrante.

Referências e comentários
[1] Para saber mais recomendo a obra de Ubaldi, Teilhard de Chardin e Rohden. A jornalista independente Caitlin Johnstone também tangencia essa questão de forma recorrente em seus ensaios - veja mais em https://medium.com/@caityjohnstone
[2] Para mais detalhes sobre nossos "tempos líquidos" o estudo da obra de Zygmunt Bauman é revelador. https://pt.wikipedia.org/wiki/Zygmunt_Bauman. Livros em: http://lelivros.love/?x=0&y=0&s=zygmun+bauman.
[3] https://www.youtube.com/watch?v=jgoJ-jQgo88
[4] A história de pessoas desde o mais alto nível de consciência até níveis mais próximos ao nosso:  São Franciso de Assis, Pietro Ubaldi, Huberto Rohden, Garrett John, Jim Carrey, Keanu Reaves,...
[5]http://exploringthemind.com/the-mind/brain-scans-can-reveal-your-decisions-7-seconds-before-you-decide
[6] https://medium.com/@caityjohnstone/some-thoughts-on-spirituality-and-revolution-f6414c2e4abc
[7] https://en.wikipedia.org/wiki/Neuroscience_of_free_will#cite_note-soonetal-5

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A Maior Conquista da Civilização

O que define civilização? Será sua tecnologia? Sua capacidade de se comunicar (linguagem)? Ou simplesmente sua potência econômico-militar? Essas esferas todas podem dar pistas do que seja propriamente uma civilização, mas não são senão aspectos reveladores de algo mais profundo, que parte da forma de organização da coletividade humana.

A forma de organizar os indivíduos, estabelecendo uma norma de conduta geral, permite certos tipos de avanços que seriam impossíveis de ocorrer com simples associações de clãs, tribos e grupos humanos. Essa organização (a ideia de formar relações e um modo de operar um agregado de elementos, humanos ou não) é natural a partir de um ponto. Assim ocorreu no mundo físico-químico, com seus cristais [1] e no mundo biológico com sua organização celular inicialmente unicelular, em que uma única célula executa todas as funções da vida (nível 1), passando por níveis de organização cada vez mais complexos, formando tecidos (nível 2), órgãos (nível 3), sistemas de órgãos (nível 4) até a formação de organismos (nível 5) [2]. Estes são múltiplos e surgiram no decorrer de milhões de anos, sendo o ser humano um dos últimos organismos a aparecer no planeta - 2 a 7 milhões de anos, a depender da fonte. Mas antes de chegar em nós (humanos, em busca de sua humanidade), falemos sobre o a base sobre a qual todas nossas atividades se tornam concretizáveis: a vida

Cristais: a matéria possui um tipo de inteligência
que permite sua organização. É Deus imanente
se manifestando na matéria.
A vida é um fenômeno que aponta para uma inteligência. Ela surge no espaço-tempo, isto é, num universo em que existe matéria e energia se chocando, transformando e reagindo de formas múltiplas, em escalas de tempo e dimensões variadíssimas, guiadas por um determinismo férreo que apesar de assim o ser, revela uma tarefa providencial que abala toda a "ciência" probabilística. Ela aparece quando o contexto (condições ambientais) são favoráveis. Ela surge, brota, floresce, assim que as condições fundamentais estão estabelecidas em terreno sólido, aparecendo em sua forma mais resistente, porém menos complexa. Porque a evolução vai do simples, seres unicelulares, ao complexo, seres humanos. Este é um ser pluricelular que além possuir todas características dos animais, apresenta um psiquismo que habilita seu cérebro a ser algo além de um mero intérprete de estímulos sensoriais. Desponta a razão.

Qual a principal característica da razão? 

"Razão é a capacidade da mente humana que permite chegar a conclusões a partir de suposições ou premissas. É, entre outros, um dos meios pelo qual os seres racionais propõem razões ou explicações para causa e efeito. A razão é particularmente associada à natureza humana, ao que é único e definidor do ser humano." [3]

Essa é a gênese para o que virá a ser a principal característica que diferencia o homem de todas as outras espécies deste planeta. A palavra "razão" se origina de duas fontes: a palavra latina ratio, e a palavra grega logos [4]. Ela se relaciona com os verbos derivados dos substantivos medição, separação, junção, contagem e cálculo. Para fazer essas atividades, é necessário seguir uma sequência. Logo, pode-se dizer que a razão é sequencial e portanto está vinculada ao tempo, pois qualquer processo racional, seja elaboração de teoria, método, implementação, receita, análise, etc deve seguir um determinado roteiro, mental ou escrito. Daí decorre que a consciência humana do presente (razão), que é a 2ª dimensão conceptual, análoga a de superfície, está presa à dimensão "tempo", 1ª dimensão conceptual, análogo à linear [5]. Traduzindo: não conseguimos raciocinar sem o tempo para apoiar esse raciocínio. Isso comprova que o nível de consciência atual, da razão, está preso à sua dimensão precedente, o tempo. Apesar disso somos capazes de pensar em termos de passado e futuro. Na mente englobamos o tempo, percorrendo-o através de abstrações mentais, projetando (previsões) o futuro e reconstruindo (História) o passado, para que melhor possamos atuar no presente. Mas no geral, considerando o corpo físico, o corpo astral e a alma, como todos os três se vinculam e devem caminhar juntos, de forma organizada, no decorrer de uma vida orgânica na Terra, não é possível ao ser humano superar a barreira do tempo. Ao menos no presente grau evolutivo. Trata-se de uma realidade a ser conquistada através da evolução, que é maturação interior através da experiência de vida, autora de nossas obras. Elas, e apenas elas, são o que realmente importa na vida. Serão nossas obras que irão determinar o quanto avançamos na escalada evolutiva. 

Mas voltemos à evolução humana em termos mais visíveis.

O pensamento permite ao ser humano perceber relações. Dessa forma começa-se a pensar sobre os objetos que nos cercam. As necessidades iniciais da humanidade - e por muito tempo - se assemelhavam às necessidades dos outros animais, em seu nível mais fundamental. São elas:

1) Preservação individual (fome) e;
2) Preservação da espécie (sexo).

No entanto, no homem vemos a emergência de um novo comportamento: um novo modo de lidar com a satisfação das necessidades básicas: a criação de instrumentos

A vida é o brotar da consciência. Nela o espírito começa a
atuar de forma cada vez mais livre. Sentindo na planta,
movimentando no animal, raciocinando no humano, e
intuindo no super-humano (nosso futuro biológico).
Todo organismo vivo necessita capturar energia para sobreviver, seja com a finalidade de manter a temperatura (aquecimento, com vibrações musculares, ou resfriamento, com transpiração), de se alimentar (caça, pesca, coleta) ou se proteger dos elementos (tempestades, enchentes, secas, contaminação, etc) e outros seres. Seres humanos são muito mais frágeis do que muitos mamíferos. Sua robustez é consideravelmente menor que a de um boi; sua rapidez é menor do que a de um cavalo ou onça; sua força muscular e agilidade perdem para os felinos grandes; seus dentes são menos adaptados à triturar carne crua; seus punhos são mais fracos do que os chifres de um alce ou um touro; sua pelagem os deixa vulneráveis ao clima; entre outras particularidades. Somos frágeis por excelência. No entanto dominamos toda a superfície planetária. Como? 

Os mecanismos de captura de energia são os órgãos. Eles podem ser bicos, unhas, braços, chifres, nossas mãos e pés. São parte de nosso organismo. Alfred Lotka deu o nome de instrumentos endossomáticos para esses órgãos [6]. O ser humano foi além. Ele possui "órgãos" que não fazem parte de sua constituição biológica. São exteriores a ele. São portanto exossomáticos. Daí nasce a tecnologia: clava, machado, lança, arco-e-flecha, roda, domesticação animal, arado, escrita, escudos, espadas, armaduras, catapultas, barcos, aquedutos, pontes, muros, mapas, mecanismos,...E assim começamos a contrariar (em sentido positivo e/ou negativo) a tendência natural. Passamos a superar o meio através do uso da razão, nos tornando mais fortes, vendo mais longe, nos alimentando melhor, prevendo, antecipando, armazenando e construindo no campo material e do conhecimento, como nenhuma espécie jamais o fez. 

Com o desenvolvimento da tecnologia, começa-se a se viver de forma mais segura. Associações de grupos humanos, com seus códigos de conduta (leis sociais e religiosas) e deveres respectivos possibilitam outras buscas - também tarefa da razão. Nasce o saber humano. Gênese da Ciência. Civilizações da Antiguidade. O Estado Antigo surge. Impérios nascem, de desenvolvem e morrem. Cada qual com seus deuses e que trouxeram um legado. Medicina, geometria, filosofia, direito, escultura, teatro, literatura,...Todas civilizações politeístas até a última da Antiguidade (Roma), que serviu de canal para a consolidação definitiva do monoteísmo - que levou ao início do fim do politeísmo. A partir de Constantino, com a oficialização do Cristianismo, difunde-se pelo mundo as religiões monoteístas, que passaram a ser dominantes, ao passo que o politeísmo sobreviveria por séculos (até hoje) na forma de adorações. São os resquícios do passado ecoando pelas eras. Mas cada vez menos, para haver espaço na alma para a assimilação de verdades cada vez mais vastas.

Quando começamos a usar ferramentas para obter nossa
subsistência, declaramos um novo início. Surge o "órgão"
exossomático, que a partir de então se desenvolve.
Hoje o domínio sobre a Terra é inquestionável. Resta
dominar nossos instintos...
O homem não apenas faz instrumentos. Ele constrói instrumentos que fazem outros instrumentos (automação). Essa característica nossa deslanchou a partir da segunda metade do século XVIII, início da Revolução Industrial. Mas nesse ponto a humanidade já havia concebido e lançado sua maior conquista. Voltemos um par de séculos.

Entre o século V e XV d.C. predominou uma lógica diversa daquela da Antiguidade. O sistema que imperou no mundo conhecido (estudado nas escolas) foi o Feudalismo. Esse sistema era baseado na servidão, e a Igreja tinha um papel central nesse mundo. Época de maravilhas do Evangelho e horrores da Teologia. Místicos e santos como São Francisco de Assis, Joana D'Arc, Santo Antão, Santo Agostinho, entre muitos outros, exteriorizaram em sua vivência as altas verdades compiladas nos Evangelhos e outros livros sagrados (como a Gita). A Idade Média foi de uma riqueza impressionante em termos de mística - e a ela estamos retornando hoje, de um modo diverso, com interpretação renovada, para conduzirmos nossa razão desgovernada. 

Quando o sistema feudal começou a fragmentar irreversivelmente, surge o Estado Moderno. A História classifica esse novo período como História Moderna. Ele nasce conjuntamente com o capitalismo, em sua primeira forma, mercantil. Portugal, Espanha, França, Inglaterra e algumas cidades italianas encabeçaram as primeiras conquistas ultramarinas. A diferença entre essa nova forma de governar é que passou-se a ter um regime centralizado. Surge da pressão da burguesia, que passou a exigir elementos (contexto) que garantisse sua evolução econômica, política e social. Com força crescente, passam a plasmar à seu modo o poder nascente. Surge assim uma superestrutura que possibilita a estabilidade e a centralização de serviços à população. Mas isso não se deu do dia para a noite. Foram necessários três séculos para essa nova forma coletiva se estabelecer [7]. Quando o absolutismo começou a ruir com a Revolução Francesa nascem as possibilidades de expansão a nível global. Com o campo político-social aberto, restava apenas o elemento que fosse dar o impulso econômico-tecnológico: a Revolução Industrial. Não é de se estranhar a proximidade temporal entre esses dois eventos históricos gigantes, cujas ondas de manifestação se repercutem ao longo dos séculos. 

Todo substrato que possibilitou os saltos nos dois campos (econômico-tecnológico e político-social) foi o Estado Moderno. No século XIX foram feitos avanços na indústria. O século XX viu o predomínio dessa instituição. Graças a sistemas universais de educação a foi possível estender para muitas pessoas o que era privilégio de poucos até então - mesmo que por motivos bélicos. O mesmo se deu para saúde, previdência, um corpo de leis, garantia de direitos básicos, desenvolvimentos industriais-tecnológicos massivos que lançaram a pedra fundamental para diversas tecnologias que melhoraram a qualidade de vida da humanidade (mesmo que apenas uma parcela). 
A Grande Síntese revela de forma única, fora do normal, o
conceito de Estado, sua gênese e seu futuro. A partir
dessa obra pode-se construir uma nova humanidade.
Substancialmente, não apenas na forma...
Pela primeira vez...

Após catástrofes das duas guerras e dos regimes totalitários, novos impulsos dados através desse super-órgão coletivo: o Bem-Estar Social. A população dos EUA, Europa Ocidental e Japão, de 1945 a 1975, pôde se beneficiar de uma qualidade de vida jamais vivenciada em toda história da humanidade, com conforto material crescente e garantia de direitos. É verdade que lutas houveram, mas no plano geral, observando a trajetória de milênios infindáveis do homem, nunca se viveu tão bem e com tamanho acúmulo de conhecimento quanto na segunda metade do século XX.

Contrapondo-se a isso vimos massacres infindáveis em todos locais do mundo. Causados por influências de grandes potências. O embate entre um modo de se produzir (capitalismo) e outro (socialismo); a inércia em findar a colonialismo europeu; e o advento de uma nova força, surgida com a explosão industrial no século XIX, e que passa a ter força cada vez maior ao longo do século XX, operando de modo invisível, influenciando os poderes sem aparecer no palco, entrando na vida dos indivíduos e se mostrando como um grande bem para a humanidade: as corporações e seu sistema financeiro.

Com um lag de três séculos, o universo privado usa como plataforma o eixo econômico-tecnológico. Afirma que o progresso da humanidade se deve a esse grande eixo, e ao longo dos anos se articula e usa de seus meios de comunicação de massa e influência nos poderes para passar essa ideia, inculcando-a nas mentes dos indivíduos. Eis que chegamos aos nossos tempos. Os últimos 40 anos foram de ascensão enorme das finanças e da fragmentação da vida como a conhecemos. Tudo se plasma cada vez mais rápido. Relações são líquidas [8] e não há alternativas a não ser seguir uma lógica que permita lidar (leia-se gerenciar) esses medos e frustrações sem afetar o que está nascendo. Mas para gerenciar deve-se abrir mão de questionar e consequentemente transformar. Mexe-se com o que é imposto e já está pré-formatado. Não se mudam as premissas sob as quais todo o sistema se apoia. Pois isso - segundo a lógica financeira-corporativa - significaria caos, que a ninguém agrada, e portanto a ser evitado a qualquer custo, mesmo que para isso deva-se diminuir gradativamente o poder do Estado, até sua extinção, se for necessária.

O que ocorre então? O Estado Moderno, já completamente permeado de interesses de corporações, que seguem uma lógica financeira que ignora o Sistema-Terra e o Sistema-Vida em seus modelos. Opera com base no gerenciamento da sociedade. Isso é fácil de ser feito, uma vez conhecida a natureza humana e suas limitações. Com isso pode-se jogar com os questionamentos vindos de indivíduos, a se iniciar usando a psicologia de superfície, tornando os questionamentos e reflexões meras reações irracionais que visam satisfação individual às custas da coletividade. A mídia é muito eficaz nesse caso, com suas edições, descontextualização, omissões, seletividade e demais artifícios. O modo de vida, com jornadas de trabalho e preocupações financeiras decorrentes, além de distrações que nada acrescentam, completam o quadro, sugando todo tempo, energia e vontade da grande maioria dos indivíduos que devem abraçar uma ocupação que não lhes possibilite sequer refletir sobre o estado das coisas - a começar pela sua própria vida. Quem quiser saber mais sobre esse verdadeiro poder global pode assistir o documentário "The Corporation" [9]. Onde o Estado Moderno, maior conquista da civilização, entre nessa trama global?

Amor: último bastião da bondade.
Amor: garantia da Salvação.
Amor, base de tudo, sem o qual nada pode
existir e ser feliz.
Seu fim equivale ao fim da civilização como a conhecemos. Por Estado Moderno compreenda-se um organismo que não é 100% centralizador nem possua traços de autoridade que prejudiquem indivíduos, mas sim um super-organismo coletivo capaz de conduzir as almas, provendo a cada um segundo suas necessidades, e extraindo de cada uma, construtivamente, segundo suas possibilidades. Se a tendência mundial persistir, não apenas a civilização pode retroceder séculos (ou desaparecer), mas o meio do qual todo seu bem estar depende (a Terra) pode não fornecer, por muito tempo, possibilidades para uma recuperação a curto prazo. 

Vejamos o que Sua Voz [10] tem a dizer (grifos meus):

"Temos observado a evolução das mais poderosas forças sociais que operam nas massas humanas para a formação de sua alma coletiva. Observemos agora essas forças convergindo nesta alma ainda jovem – verdadeira central psíquica e volitiva – para formarem a sua nova expressão: o Estado. Situado no centro do organismo social, ele concentra o poder dirigente de todas as funções de um povo. Compreendido dessa maneira, como poder, ele é o órgão psíquico promotor e coadjutor das maturações biológicas individuais e sociais, já vistas por nós. Sua função é formar o homem, estimulando as ascensões humanas. Sua meta mais elevada é criar no campo do espírito. Toda a sua multíplice atividade, jurídica, econômica e social, deve ser destilada nessas criações espirituais,..." Cap. 96 - Concepção Biológica do Poder

Segue-se com o Estado propriamente dito, projetando sua evolução (grifos meus):

"Se a Idade Média, em suas condições sociais involuídas, só podia oferecer ao homem um sonho de libertação individual pelos caminhos da renúncia mística, hoje nasceu o Estado, levando a sociedade a desenvolver-se numa forma orgânica, em cujo seio o indivíduo pode atingir sua completa realização. Se a Idade Média atendeu às construções prevalentemente individuais, retoma-se hoje o ciclo das construções e conquistas coletivas. Não é mais concebível o indivíduo isolado, ainda que santo, numa fuga mística da convivência humana, mas somente o indivíduo fundido neste consórcio, em colaboração fecunda. Podemos, então, definir mais exatamente o poder como a central psíquica e volitiva de uma nação, estendendo o conceito de Estado a todo o organismo nacional."
Cap. 97- O Estado e sua Evolução

"Hoje, o Estado não é mais apenas um poder central superposto a um povo. Esse era o Estado embrionário, filho da monarquia. Não mais se admitem tais superposições. Assim o Estado deixou de ser um poder central dominador, para tornar-se o cérebro de seu povo, só podendo ser a expressão de uma consciência nacional, de uma unidade de espíritos, baseada numa unidade."
idem

O último trecho aponta para a Democracia. Um Estado que começa a ser cérebro do povo, manifestando seus interesses mais maduros, é o início da unidade coletiva. O misticismo volta na forma de união coletiva, na qual as almas desejam ascensão efetiva, em maior número, de forma a caminhar rumo a organizações mais pacíficas e em harmonia com seu meio, isto é, todas formas de vida e a mãe Terra. Se algo ou alguém capturou esse corpo (Estado), destroçando sua imagem e emborcando suas funções, é dever do espírito humano discernir as intenções por trás das atitudes e ações daqueles que não mais são capazes de desempenhar sua função. É imperioso não focar no corpo, na ferramenta útil (Estado), e sim na forma mental que está confundindo qual é a meta da vida e o que está ocorrendo por trás do palco. 

Nosso mundo passa por uma turbulência. Nessa travessia vemos o Estado encolher não apenas em sua concretude mas principalmente no campo psíquico: nosso conceito do mesmo é cada vez mais pobre. Vemo-lo como algo cada vez mais dispensável à vida. Como um empecilho. Como a atrocidade em si - e não algo que as viabiliza. Mas essas atrocidades não vem da superestrutura, mas se usam dela para se beneficiar. 

"O novo Estado tem que possuir o monopólio da força, pois, embora ela seja uma necessidade de vossa vida involuída, a privação do seu emprego por parte do indivíduo já constituirá um progresso, porquanto o seu desuso enfraquecerá os instintos antissociais. Esse Estado, que não pode ser agnóstico, deve ter resolvido os maiores problemas do conhecimento, pois precisa ter uma concepção ampla da vida, para fazer o indivíduo compreendê-la e colocá-la em prática; deve saber compreender o homem, seus instintos e seu destino, penetrando o mistério de sua personalidade, a fim de poder colocá-lo em seu lugar e obter dele o máximo rendimento. No princípio, o centro realizará um mero enquadramento de massas, porém no futuro ocorrerá a fusão de almas. Nesse Estado, Deus é imprescindível, assim como o conhecimento de sua ordem divina, cujo funcionamento a ciência deve demonstrar, para que, nessa ordem, o Estado encontre suas bases racionais. Concepção imensa de uma fé social e científica, da qual participarão em paz todas as religiões. Este é o Estado da nova civilização do Terceiro Milênio"
Cap. 98 - O Estado e suas Funções

"Monopólio da força" poderá soar extremamente perigoso para muitos. O século XX viu isso. Mas aqui não se trata de uma força egoísta, e sim de uma força que visa conter excessos. Até o presente momento a humanidade não viu um Estado desse tipo, mas percebe elementos em alguns deles que apontam para esse comportamento. A humanidade, em seu íntimo, anseia por ele, teorizando, imaginando, buscando na Arte e lutando por uma vida melhor, mais justa, em maior união com o outro. Mas podemos ainda acrescentar: de que adianta o Estado não usar da força enquanto corporações fazem isso, de forma violenta (apesar de inteligente) para garantir supremacia sobre tudo que existe? Por mais críticas históricas que haja, há a premissa de que o Estado Moderno deve conduzir o ser humano e evoluir para uma entidade global (globalização dos direitos, das condições de vida, organização dos deveres, justiça, bem-estar, saúde e educação universal, etc). Quais as premissas do mundo privado, que há muito extrapolaram as fronteiras que lhe são devidas? Crescimento econômico infinito, consumismo e domínio sobre povos, formas de vida e biomas? Mercantilização de tudo criado pela humanidade - inclusive as relações afetivas? E o Amor, quando for o único ainda não mercantilizado (porque não-mercantilizável), será combatido por não adequar sua essência aos desígnios insanos de uma lógica gerencial que visa controlar tudo para que o saque projetado se dê indefinidamente? Assim não será, pois o Amor é a base da vida. É o que lhe dá sentido e o que impulsiona o fenômeno evolutivo, no íntimo dos seres. 

Assim sendo e pouco conseguindo fazer, busco orientação me voltando para dentro, sentindo a presença de Deus em meio a todo caos que se manifesta nesse mundo desorientado por excesso de informação, carência de sentido e fragmentação de tempo. 

Deixaremos a maior conquista da civilização desmoronar por termos uma falsa idéia do que ela realmente é - e deve ser no futuro?

Referências

[1] Um cristal é um sólido no qual os constituintes, sejam eles átomosmoléculas ou íons, estão organizados num padrão tridimensional bem definido, que se repete no espaço, formando uma estrutura com uma geometria específica.
[2] http://www.portalsaofrancisco.com.br/biologia/organizacao-celular
[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Raz%C3%A3o
[4] https://razaoouemocao.wordpress.com/2008/08/15/a-origem-da-palavra-razao/
[5] http://monismo.net/coment34.html
[6] Andrei Domingues Cechin: "Georgescu-Roegen e o desenvolvimento sustentável: diálogo ou anátema? " São Paulo, 2008. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo para a obtenção do título de Mestre em Ciência Ambiental.
[7] https://www.todamateria.com.br/estado-moderno/
[8] Zygmunt Baumann desenvolve e ideia de mundo líquido em toda sua obra. 
[9] https://www.youtube.com/watch?v=Zx0f_8FKMrY
[10] A Grande Sìntese.  UBALDI, Pietro.