terça-feira, 19 de setembro de 2017

Ensaio sobre Espaço, Tempo e Consciência - e seus desdobramentos

O tempo é percebido de forma distinta por cada um de nós. E mesmo para um mesmo indivíduo, o desdobrar dos momentos pode ser vivenciado conforme o tipo de experiência (atividade) que ele estiver realizando. E essa percepção, a meu ver, diz muito a respeito do grau de consciência em que cada um se encontra.

A percepção do tempo se altera à medida que somos capazes de pensá-lo. E também de senti-lo. É notório constatar que, quando estamos com imersão total numa atividade, todas percepções relacionadas a medições de tempo parecem desaparecer em nosso interior. Quando isso ocorre a mente fica livre de pensamentos relacionados ao tempo - quanto tempo tenho, qual o prazo, que horas é o almoço, o que farei amanhã, como pude fazer aquilo ontem, etc. A liberdade de pensamento não mais fica restrita ao tempo - apesar de nosso organismo físico estar obedecendo às suas leis. Isso amplia a atuação no mundo concreto.

Vejamos um exemplo que o Cinema nos traz.

No filme Gattaca (1997) a história se passa num futuro próximo, no qual é possível projetar geneticamente os descendentes. Nesse filme haviam dois irmãos, um deles geneticamente otimizado (projetado), outro não (natural). Ambos tinham o costume de realizar competições no mar: o que nadasse mais longe mar adentro venceria a competição. É claro que o irmão geneticamente selecionado sempre ganhava essas competições.

Gattaca (1997) - alguns esboços do monumental sistema
apresentado e sistematizado em A Grande Síntese.
No entanto, lá pelo fim do filme, quando ambos nadam, num dia chuvoso e trovejante, ocorre o inesperado: o irmão "inapto" vence por ampla margem. Nada muito além do esperado - pelo irmão e por ele mesmo. "O que ocorreu?", o outro pergunta. "Como você venceu? Qual foi o truque?" se indaga o irmão selecionado. E o outro simplesmente responde: "Eu nunca pensei na volta." Transcender paradigmas...

Era lógico que, nadando mar adentro até um ponto, alguém saiba que o tanto que se avançar para dentro deverá ser o mesmo tanto que deverá ser recuado para retornar à praia. Trata-se de um cálculo de segurança, natural a todo ser humano racional. No entanto, essa racionalidade - muito importante para nossa sobrevivência e desenvolvimento - se torna restrita a partir do ponto em que você se vê diante da necessidade de, num dado momento de sua vida, ir além das suas capacidades humanas. para captar um novo conceito, criar um novo sistema ou construir uma nova máquina. Para superar isso foi necessário esquecer a mente da segurança sistematizadora e abraçar o sentimento libertador da intuição. Intuição esta que não nega a mente, mas apenas supera-a em certos momentos críticos. 

A partir do momento em que a dimensão espaço-tempo deixa de dominar o campo psíquico por completo, as barreiras das restrições mentais esvanecem e os caminhos para a realização dos objetivos utópicos começam a se delinear. Eis que na materialidade do mundo avança-se um pouco mais, contra todas expectativas do cálculo, da genética, das projeções. E assim a razão se espanta e inicia a sondar o fenômeno. "O que ocorreu?", "Como?", "O que não considerei no meu modelo?". E assim se vê forçada a reconstruir seus métodos até ao ponto de refazer hipóteses e até mesmo questionar seus fundamentos. Os axiomas são abalados e adentra-se no imponderável. A Ciência chega às portas do Espírito. As Humanidades se incorporam de forma cada vez mais sólida na Ciência. A concepção de dilata. A Filosofia se renova, excluindo seus excessivos sistemas, teorias e formalismos. A Religião se desnuda e encontra um laboratório que a conecta à vida das pessoas. Força e fé.

Espaço e tempo, antes considerados dimensões desacopladas, se fundem com a Teoria da Relatividade (Einstein) no século XX. As implicações são muito mais metafísicas do que físicas. O mundo começa a perceber o que significa de fato a curvatura do espaço-tempo. A dimensão "tempo" deixa de ser absoluta, revelando ser apenas um aspecto de nosso universo decaído. Aspecto que dita o ritmo de transformismo da matéria e dos seres, no qual tudo que existe nasce e morre: lógica econômicas, sistemas políticos, ideias, idiomas, pessoas, animais, plantas, planetas, estrelas, galáxias,...

A partir do momento que se atinge a intuição plena, libertamo-nos das barreiras espaço-temporais. A síntese é realizada não na base da sequência, e sim na da simultaneidade. Tempo é a dimensão característica da substância na forma energia; assim como espaço é a dimensão característica da substância na forma matéria. A consciência é a dimensão psíquica da substância na forma espírito. Nessa dimensão inicia-se o processo de superar aquelas precedentes (espaço-tempo). Por exemplo: podemos conceber mentalmente passado, presente e futuro, prevendo e recordando ações no tempo. Ou seja, superamos o tempo com a mente. Podemos abraçar o universo conceptualmente - mas não materialmente. Estamos limitados apenas pelas barreiras das dimensões que julgamos existirem permanentemente e serem únicas. 

"Assim como são infinitas as fases evolutivas, também são infinitas as respectivas dimensões. Eis como nosso olhar pode superar o tempo e o espaço, que são apenas duas dimensões contíguas dentre as infinitas dimensões sucessivas."
A Grande Síntese - Cap. 36. Gênese do Espaço e do Tempo

É necessário destacar a existência de dois tempos: o do devenir fenomênico (absoluto) e o sequencial (relativo).

A Figura 4 do texto de 25/08 ("Emborcamento do Rumo Natural") mostra o desenvolvimento das dimensões numa forma simplificada. Nele, vemos a gênese e conclusão da dimensão "tempo". No entanto, o devenir vai do abismo no infinito negativo à plenitude do infinito positivo, sendo portanto algo diferente daquilo que estamos habituados a denominar como tempo. É imensurável para nossa concepção, mas permeia todas dimensões. Logo, o "tempo" no diagrama deve ser lido de forma diversa, mais ampla, não-mensurável. Como uma progressão.

O tempo sequencial do nosso universo relativo é capturável pelos nossos sentidos. O devenir fenomênico que engloba nosso universo - e vai muito aquém e além - não é capturável (ainda) pelos nossos sentidos. Também não é compreendido. Logo, a mente hodierna considera esses conceitos como tergiversações filosóficas divertidas sem nenhum implicação na vida cotidiana. No entanto, - e isso será contatado futuramente - será no momento em que todos nossos sistemas ruírem e nosso desespero beirar o abismo da inexistência que mais afoitamente nos voltaremos para esses conceitos, únicos que contém as chaves para as dimensões superiores. Muitos sábios vêm trazendo esses conceitos, de forma cada vez mais elaborada (Baghavad Gita de Krishna, Tao Te Ching de Lao Tsé, Evangelho de Cristo, Pascal, Spinoza, Rohden, Bergson, T. de Chardin, Ubaldi,...), adaptada aos nossos tempos, necessidades e desafios.

"Nas fases inferiores, o tempo só existe em sentido mais amplo, entendido como ritmo do devenir, propriedade de todos os fenômenos, e não como consciência do transformismo, propriedade das for-ças. Facilmente compreendeis a revolução que trazem esses conceitos em vossa ordem habitual de ideias."
A Grande Síntese - Cap. 37. Consciência e Superconsciência. Sucessão dos Sistemas Tridimensionais.

Leia-se "fases inferiores" como aquelas precedentes à existência do tempo. É de fato muito difícil compreender isso, uma vez que antecedência nos remete diretamente à ideia de tempo - nosso tempo sequencial.

"Ao deslocar-se no tempo, o fenômeno adquire em β uma consciência própria, linear, a primeira dimensão conceptual."
A Grande Síntese - idem

O movimento é o que os nossos sentidos captam na dimensão tempo. O volume se desloca com o desdobramento da substância em sua forma β (energia) . 

"Em α, estamos na fase subumana e humana de consciência mais completa, onde temos a segunda dimensão conceptual, correspondente à superfície no sistema espacial. Assim como da linha se passa à superfície, com deslocamentos em novas direções extra-lineares, também a consciência humana, por deslocamentos semelhantes, invade o devenir de outros fenômenos, diferencia-se deles, aprende a dizer “eu” e a perceber a própria individualidade distinta das outras, dobra-se sobre o ambiente, projeta-se para fora (a nova dimensão), observa e julga. Essa projeção para fora, característica da segunda dimensão, é alcançada por meio dos sentidos, que, na primeira dimensão, eram desconhecidos."
A Grande Síntese - idem

No tempo a matéria é animada. Posteriormente a vida emerge. Uma forma de energia degradada (eletricidade) entra em contato com elementos químicos específicos (H,N,C,O). Condições atmosféricas especiais farão surgir os primeiros seres unicelulares. A partir daí a vida de desdobra cada vez mais - assim como a matéria e a energia o fizeram.

O tempo corroído pelo seu próprio desenvolvimento.
A racionalidade extinta pela sua própria expansão.
Mas conquistaremos novas dimensões.
A intuição nos levará ao monismo vivenciado.
Com a consciência o ser humano concebe o devenir dos outros fenômenos. Supera o tempo conceptualmente, no pensamento. Mas ainda não completamente, pois seu corpo físico está sujeito às leis da energia e matéria - ambas sujeitas ao tempo. É nesse nível que nós aprendemos a nos diferenciar e consequentemente observar a nós mesmos e aos outros (exteriormente). É a gênese do intelecto luciférico, cuja marcha solitária dá sinais de desgaste. Uma marcha colocada a todo vapor a partir do século XVI. Uma marcha restrita a sua própria lógica, solitária. Negadora de qualquer fenômeno acima, subjugadora de qualquer fenômeno abaixo. E assim o século XX nos brinda com o monismo ubaldiano, acompanhado de outras almas que plantaram as sementes da nova humanidade. Resta ao século XXI iniciar a assimilação e implementação dos conceitos...

"Em +x aparece a terceira manifestação da dimensão conceptual, que completa o sistema, correspondendo ao volume. A consciência, que não tem dimensão na matéria (o volume é a dimensão espacial completa, mas, diante do sistema sucessivo, é uma não-dimensão, o ponto), assume no campo das forças a dimensão linear; alcança no campo da vida a dimensão superfície; adquire no campo absolutamente abstrato do puro espírito a dimensão de volume. As limitações de vosso concebível me impedem de prosseguir até aos sistemas sucessivos, cada vez mais espirituais e rarefeitos, que se estendem ao infinito. Em vez disso, expliquemos as características da segunda dimensão (consciência) em relação às da terceira (superconsciência)."
A Grande Síntese 

Sua Voz (entidade do Alto captada por Ubaldi em sua mediunidade ultrafânica) faz uma analogia entre as três dimensões materiais (linha, superfície, volume) e as três sucessivas dimensões conceptuais (tempo, consciência, super-consciência). Quando afirma-se que o tempo é uma não-dimensão no sistema espacial (ponto) significa que a trindade espacial é incapaz de identificar o início da próxima. Trata-se de evolução de dimensões por tríades, formando um acorde [1]. 

Segue-se no livro a diferenciação entre consciência (razão) e super-consciência (intuição):
  
"Da mesma forma que a superfície absorve a linha, a consciência absorve o tempo e o domina; enquanto as forças precisam do tempo, o pensamento o supera. Na passagem da fase β à fase α, a dimensão tempo tende a se desvanecer, pois, embora subsistindo, é tanta a sua aceleração de ritmo (onda), que vos pareceria quase sumir na nova dimensão. Com efeito, quanto mais baixa e material, tanto mais lenta e semelhante a β é a consciência; quanto mais concreto o pensamento, mais denso é o ritmo e mais vagarosa a onda. O pensamento implica tempo somente enquanto e na medida em que ainda é energia. Quanto mais cerebral, racional e analítico, tanto menos abstrato, intuitivo e sintético é o pensamento. Neste segundo sistema tridimensional, assistis a uma aceleração contínua de ritmo. Nessa aceleração, o tempo é gradualmente absorvido. Por sua vez, a superconsciência domina e absorve a consciência, tal como o volume o fez com a superfície."
A Grande Síntese 

O ritmo se acelera significa que a intensidade com a qual eu me envolvo num processo de construção (conceptual, que pode envolver materialidade, mas conduzida pelo psiquismo) atinge um grau de abstração tão elevado que as faculdades da mente ligadas ao cerebralismo puro são incapazes de acompanhar os conceitos sendo absorvidos. Sendo assim o tempo não consegue acessar (influenciar) essa zona com o peso habitual. Zona em que a mente adentra-se em grande porcentagem. Essas inúmeras gradações num contínuo permeiam a região que é denominada pelos psicanalistas de consciente (razão) - relativa a cada ser humano. O início da travessia marca o início da consciência. O fim dela é sua superação completa, na super-consciência. Nesse (longo) intervalo - a Jornada Multimilenar da humanidade terrestre - vamos sempre aprendendo a subir na consciência, conseguindo fazer uso em pequeníssimas doses da fase seguinte (intuição). Essa travessia foi vislumbrada [2] e sistematizada-exemplificada [3] em ensaios anteriores.

Dessa forma, explica-se como é possível iniciar a conquista da eternidade (superação do tempo) com nossos recursos limitados. Recursos que contêm em germe as dimensões superiores. Basta para isso desdobrar aquilo já presente no íntimo.

No íntimo...

Observações
[1] na música, o acorde é um conjunto de três ou mais notas que se ouve como se estivessem soando simultaneamente. assim como o volume (espaço) contém simultaneamente as dimensões superfície e linha, além de si mesmo.
[2] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/11/um-ciclo-duas-fases-piramide-expansiva.html
[3] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo.html
   





sexta-feira, 1 de setembro de 2017

É Chegado o Tempo das Ciências Humanas? (II)

Há mais de dois anos escrevi um ensaio intitulado "É chegado o tempo das ciências humanas?". Trata de um sentimento calcado no pressentimento. Um vislumbre do porvir. Porvir presente em estado latente. Indiferente às indiferenças daqueles que vivem no plano da superficialidade dos fatos e pressões das obrigações; Indiferente às afirmações limitadas e incertas. Afirmações que negam o inexplicável presente - que deseja ardentemente se fazer explicável, exemplificável e transparente futuro. Bastando para isso a nossa vontade ardente se casar com a nossa sinceridade carente, com a bênção de nossa consciência latente. Só isso, tudo isso.

O que quero dizer com "é chegado o tempo..."? Domínio? Predomínio? Culto? Quem acompanha essa jornada de 4 anos, já com 300 ensaios, nascida num período de explosão coletiva, sabe que a leitura literal das palavras não diz. O que diz é o sentimento comum, universal, acionado (ou não) pela disposição das palavras. Estas nada mais que um meio para despertar o Eu em cada um. Nada mais, nada menos.

Reparem o trajeto da humanidade - nossa História e Pré-História. O que impulsionou inconscientemente as descobertas, os inventos, os atos? As crenças. As filosofias. E conscientemente? A ciência e a técnica. Mas a Ciência nasce da Filosofia. E por muito tempo ela fica estacionada na superfície (Séc. V a XV), dando lugar ao império da Igreja. Após isso, deslancha a Revolução científica, seguida pela técnica que culmina na indústria. Até aí desenvolvem-se as ciências físicas e suas aplicações; a química e suas aplicações; a biologia; a medicina; os formalismos da lógica e da matemática. O Iluminismo prepara terreno para uma nova forma de economia, de sistema político e de utilização das tecnologias.

No final do Séc. XIX despontam a Sociologia e a Psicologia. É óbvio que o estudo do comportamento humano surja defasado do estudo do comportamento da natureza - apesar de nós também sermos naturais e estarmos imersos num mundo físico, dinâmico e orgânico. 

O livre-arbítrio de um átomo é tão reduzido que se traduz em férreo determinismo. Ele obedece com perfeição leis que desconhece. À medida que subimos na escala evolutiva, observamos relíquias do mundo físico (matéria), depois dinâmico (energia) até finalmente chegarmos à vida em sua forma mais elementar (vegetais). Elementar mas essencial, pois ela faz perfeitamente e inconscientemente o que um dia faremos de forma espontânea e consciente: captar energia diretamente da luz (em outro ensaio explicarei melhor). Subimos e vemos o movimento e instintos de fome e sexo (animal). Até mesmo um certo sentimento rudimentar, de identificação com o dono, de memorização, de aprendizagem. Mas um psiquismo baixíssimo, incapaz de refletir sua própria finalidade. Subindo mais fareja-se o biótipo em que a razão eclode desordenadamente: o homem.

Nós somos capazes de estudar tudo abaixo de nós e suas dimensões características: matéria (espaço), energia (tempo). E tudo que se manifesta exclusivamente em nós: vida (consciência). E além, nos planos da super-consciência, em que a intuição coordena o raciocínio, que domina os instintos, que se reduzem ao mínimo indispensável para manter o progresso numa marcha segura e crescente. Essa capacidade surge em nós. E iniciamos por sistematizar aquilo mais embaixo. De modo geral estamos subindo na assimilação consciente dos planos evolutivos, sendo cada vez mais evidente que a cada ascensão devemos não apenas assimilar aquilo que recém-conquistamos, como usá-lo para sutilizar todas as qualidades inferiores, tornando-as mais aptas. Espiritualização da matéria. 

Não são apenas as escalas de tempo que mudam. Nem de espaço. Entram elementos novos. A linguagem. O modo de descrever. O subjetivismo. A mudança frequente. Todos essas novidades são recentes, logo, de pouco uso até então. Estamos em fase de compreensão de fenômenos mais complexos, que se fazem mais visíveis devido aos últimos avanços da ciência e tecnologia, e à forma de organização social. Os ciclos descoberta-assimilação-experimentação-difusão das ciências naturais são muito mais breves do que aqueles das ciências humanas. Primeiro por entrarmos com entidades dotadas de amplo livre-arbítrio - ao menos em relação aos fenômenos físicos e químicos; segundo, como consequência, pelo aumento da complexidade das interações, tornando o desenvolvimento de uma ciência supra-natural, humana - mas que também engloba aspectos do natural, porém com menor peso - um processo lento e incerto em larga medida. Logo, não é razoável tratar experiências econômicas, políticas e culturais como coisas que tendem (devem) a se arranjarem tal qual minérios, bactérias, planetas, dispositivos.

A humanidade começa a aprofundar o conceito de democracia. Volta-se à questão da democracia direta, com todos seus desafios considerando as escalas atuais. O sistema econômico, com sua lógica, é expandido e tende a se transformar cada vez mais num apêndice de um sistema diretor, muito mais essencial à vida, intangível, poderoso, que atua silenciosamente através das pessoas, ao longo da história, moldando e orientando à seu modo, rumo a Deus. Eis que Georgescu-Roegen propõe a incorporação da economia à biologia (Bioeconomia), aplicando conceitos de entropia (2ª lei da termodinâmica) para explicar a insustentabilidade do crescimento indefinido, sem limites. A psicanálise após Carl Jung começa a trabalhar com a hipótese da existência (e preexistência) da alma para diagnosticar seus pacientes. O conceito de inconsciente, ao invés de se prender num subconsciente estático freudiano que comanda um consciente de aparências, - cuja única função é satisfazer de forma mais eficiente desejos desses instintos - se desdobra numa tríade dinâmica composta de subconsciente (instinto), consciente (razão) e superconsciente (intuição). Todas as sementes de um novo pensamento são lançadas no século XX - o último século do segundo milênio.

O conceito de monismo, trabalhado desde tempos imemoriais pelas maiores almas, é sintetizado de forma suprema por Ubaldi. Através de sua obra, Ciência e Religião se entrelaçam, co-orientam e auto-explicam. O panteísmo da imanência e o monoteísmo da  transcendência se fundem num monismo. O criacionismo que afirma a natureza de Deus se une ao evolucionismo que afirma e explica Sua lei. Plantam-se as bases para a Civilização do III Milênio.

Muitos acreditam que a filosofia já cumpriu seu papel. Dentre esses muitos se incluem filósofos dos mais variados tipos que, mesmo não demonstrando isso por afirmações, exemplificam por sua conduta individual engessada. No entanto, os verdadeiros filósofos - sejam eles de profissão, de essência ou ambos - sentem o porvir e asseguram que hoje, mais do que nunca, a Filosofia tem (e terá) um papel imprescindível para conduzir a humanidade rumo a uma transformação substancial como nunca se viu antes em nossos 6 milênios de civilização histórica. Não se trata aqui de inventar um novo sistema filosófico e alimentá-lo egoisticamente para que outros orbitem em torno dele. Trata-se de fundir o melhor de todos os sistemas filosóficos e trabalhar rumo à evolução suprema, sutilizando todas ideias, conceitos, debates, relações, análises e experiências coletivas. Uma filosofia cósmica que não se atêm a formalidades engessantes e percebe seu papel transformador. Uma filosofia não-dualística.

Com os progressos da tecnologia da informação, das redes sociais, das tecnologias múltiplas, do domínio da mídia e da falta de ideais supremos, a vida estagna e a humanidade corrói o alicerce que a sustenta: a Mãe Terra. Com todos seus recursos minerais; suas fontes de energia fósseis; suas espécies (fauna e flora), suas paisagens e climas e relevos e ciclos; com seu poder de atração gravitacional suficientemente forte e fraco para criar condições de vida. Saber o que fazer com o que se tem é imprescindível. A era da Fé cega terminou no século XV para dar lugar a era da Ciência e da Razão. O misticismo medieval, os santos que ardiam de paixão com sua visão, foram relegados ao esquecimento. A Teologia do tipo Igreja não fornece terreno fértil para a aquisição de novas habilidades. O antropocentrismo começa a se desdobrar e assim explode o materialismo. Renascimento; Iluminismo; Formação dos Estados Nacionais; Revolução Francesa; Revolução Industrial; Revolução Tecnológica. E eis que chegamos a um ponto nevrálgico. O sistema econômico que se considera vencedor eterno e absoluto começa a perder adeptos a cada dia. Só lhe resta o uso da astúcia (propaganda e distrações, seja em forma de consumo conspícuo ou trabalho alienado) e força (Estado de exceção, ameaças informais). Mas esse método tem prazo de validade.

O mal age de forma eficiente e rápida, vencendo no curto prazo. Ele tem pressa, pois está encerrado no espaço-tempo, sua dimensão característica, que tende a ser definitivamente superada pela super-consciência (intuição). O bem, por outro lado, age com paciência e aceita humilhações, pois sabe que a eternidade lhe pertence. Ele supera a dimensão espaço-tempo. Logo, engloba o mal, conduzindo-o para seus fins de forma imperceptível. Com Amor e Visão.

"Quem se humilhar será exaltado. Quem se exaltar será humilhado."
Jesus, o Cristo

Dois mil anos e apenas agora começamos a compreender as palavras proferidas pelo nazareno, nas longínquas terras palestinas. Palavras dos longínquos planos da hiper-consciência.

É chegado o tempo das ciências humanas; da educação ambiental; da cultura profunda e diversificada; da ciência orientada; da fé consciente e aberta às transformações internas e externas. É chegado o tempo da Nova Civilização do III Milênio.

Mas para parir essa Civilização teremos de suar, sangrar e até morrer - no mundo. Para que possamos viver num plano mais elevado - e portanto com maior liberdade. Liberdade consciente. 

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Emborcamento do Rumo Natural

Está em curso neste país de forma explícita e, em medida mais discreta - mas firme - na economia do planeta, um anti-projeto que consiste no desmonte de (quase) todas as estruturas, leis e mentalidades geradas ao longo do século XX. A humanidade, após 6 milênios de civilização, permeada de dores e empecilhos, finalmente conseguiu plantar as bases para um desenvolvimento futuro, que serviria de plataforma para a incorporação de outras esferas de vida e assim consolidaria essa base e criaria leis, sistemas e instituições mais em compasso com o trajeto da evolução. Tudo partiria de uma forma mental mais madura, que por livre convicção trabalharia para um bem-estar sustentável, plasmando uma mentalidade focada no necessário. Chegaria-se a um estado de estabilidade dinâmica, com valorização nunca antes vista de atividades, reconhecimento de atrocidades cometidas por governos, corporações, grupos contra povos, natureza e ideias. Serviria, partiria, trabalharia, chegaria,...

Infelizmente me parece que o caminho para renovarmos esse planeta deverá passar por uma dor de proporções incalculáveis, somente igualada pela nossa incapacidade de gerar uma reação proporcional ao maquiavelismo do desafio que se revela cada dia mais claramente. 

Contextualizemos o momento histórico atual do Brasil.

Durante o século passado foi sendo incorporado à nossa legislação uma série de direitos que garantiam uma relativa segurança para os trabalhadores (CLT). Essas leis não visavam abolir a exploração nem interferir com os ganhos - hoje escabrosos - dos grandes conglomerados econômicos, mas apenas garantir que estes não pudessem fazer tudo que bem entendessem para aumentar seus lucros indefinidamente - com uma finalidade cada vez mais inexplicável. Muito menos se objetivava alterar radicalmente o sistema econômico (transcender o capitalismo), para produzir de outra forma. E nem se imaginava a questão ecológica, que incorpora a litosfera, a hidrosfera, a atmosfera e a biosfera como sistemas imprescindíveis à vida - pilares dos ganhos reais econômicos. 

Figura 1 - Getúlio Vargas. Mesmo sendo autoritário, permitiu a
consolidação de direitos trabalhistas - e humanos. Algo que nenhum
dos liberais das empresas, bancos ou elites fez ou desejam fazer.
Aliado às leis trabalhistas, houve um homem que - independentemente de sua vida pessoal que, como a de todos nós, possui erros e defeitos - enxergou que a única maneira de melhorar os rumos do Brasil, tornando-o um país desenvolvido - uma economia capitalista desenvolvida e soberana, independente no real sentido da palavra - era realizando reformas de base. Essas reformas consistiam em remodelar a estrutura do país em setores-chave. Era eles [1]:
  • Reforma Agrária
  • Reforma Educacional
  • Reforma Fiscal 
  • Reforma Eleitoral
  • Reforma Urbana
  • Reforma Bancária

A Agrária visava democratizar o uso da terra por quem precisasse e desejasse produzir nela, além de garantir uma série de direitos a esse tipo especial de trabalhador de forma a reconhecê-los no mesmo patamar (mas não iguais em termos completos) do trabalhador urbano;

A Educacional visava a valorização do magistério (em geral) e do ensino público em todos os níveis (incluindo planos de carreira, salários, aumentos compatíveis, infra-estrutura, material, divulgação, voz aos docentes, etc). Também projetava-se reformar as universidades, acabando com a cátedra vitalícia;

A Fiscal pretendia promover a justiça na área e aumentar a arrecadação do Estado. Adicionalmente havia o objetivo de limitar a remessa de lucros ao exterior, especialmente das multinacionais (cujo poder é, hoje em dia, maior do que muitas economias nacionais). O decreto 53451/64 garantiu isso. Isso em nada se diferenciava da política de economias capitalistas desenvolvidas (EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Japão), que não podiam permitir que mega-empresas de outras nações tivessem ganhos exorbitantes em seus países sem oferecer nada em contrapartida - no entanto alguns acham que isso era "comunismo"...;

A Eleitoral visava extender os votos aos analfabetos e a legalização do PCB (Partido Comunista Brasileiro);

A Urbana visava uma justa utilização do solo urbano, incluindo possibilitar o fornecimento de habitação digna para todas as famílias;

E a Bancária, visando ampliar o acesso ao crédito pelos produtores. 

Essas eram as reformas taxadas (ou sugestionadas) pelos grandes veículos de comunicação, por grupos religiosos, por setores da classe média (e até baixa!) e por toda elite como "comunistas", que levariam o país a uma ditadura sem precedentes, com mortes, prisões e retrocessos. Não se trata aqui de impor um ponto de vista exaltando um presidente, um governo ou uma corrente de pensamento. Muito menos de distorcer a História. Trata-se apenas de expor os fatos, tais quais agora se sabe, e as consequências do rumo tomado ter sido diametralmente oposto ao planejado.

Figura 2 - João Goulart ("Jango"), o primeiro presidente a
vislumbrar a necessidade, falar e sistematizar as Reformas de Base.
As que hoje tentam fazer de forma emborcada...
Todos sabemos o resultado: um golpe militar que durou 21 anos, em que não foi feita nenhuma reforma, o crescimento fantástico foi bom até certo ponto (construção de Itaipu, da Embraer, Angra I e II, investimentos mínimos em ciência e tecnologia), mas insustentável e sem contrapartida social. No campo cultural oficial, pouco progresso também. Violação dos Direitos Humanos e nenhuma pluralidade. 

É importante lembrar que houve um governo - independentemente de nossa admiração ou repulsa ao mesmo - que sinalizou a necessidade de reformas de base para desenvolvermos esse país. E elaborou em linhas gerais o que seria feito, para que (crescimento) e para quem (todos).

Em 1988 iniciou-se um novo ciclo. A Constituição Cidadã foi um dos maiores marcos para a legislação mundial. Pela primeira vez um país com mais de 100 milhões de habitantes incluía em suas leis mais altas o compromisso de oferecer atendimento médico a todos (universal), independentemente de ser aposentado ou não, possuir renda ou não, raça, crença ou escolaridade. O SUS (Serviço Único de Saúde). Seu mau funcionamento não se deve à seus alicerces e premissas, e sim à falta de cumprimento das leis constitucionais desse país (ex: taxação de grandes fortunas) e falta de reformas (ex: tributária), que poderiam garantir sua melhora, que tornariam o Brasil um país com um sistema de saúde universal, gratuito e de qualidade - ao mesmo estilo do National Health Service, NHS, britânico [2]. Além disso, compromisso em garantir alimentação, educação, moradia, cultura, transporte e segurança a todos - em níveis mínimos para uma vida decente. 

Figura 3 - Ulysses Guimarães e a Constituição de 1988.
Início do novo ciclo (Nova República), cujo fim estava
marcado pela própria natureza limitante do mesmo em
implementar o que prometia.
Os governos que se sucederam, independentemente de sua falta de inciativa em alterar uma estrutura cada vez mais apodrecida, permitiram um avanço gradual na implementação dessas leis. Infelizmente a década de 90 viu alguns retrocessos em termos de perda de indústrias importantes (privatizadas) com a alegação oficial de que elas seriam melhor geridas (e trariam ganhos ao país, sua população) se fosse administrada por grupos privados. O resultado disso pode ser sentido no desastre de Mariana (MG). Somado a isso, o descompasso entre ações de venda e valor: A Vale do Rio Doce tinha um valor de mercado estimado em US$ 92 bilhões, mas vendida por US$ 3,3 bilhões. Se o valor de mercado é soberano - segundo a lógica neoliberal - e o país precisava arrecadar recursos para investimentos, porquê uma empresa estatal foi (praticamente) entregue ao setor privado? A partir desses números podemos nos perguntar a real natureza de diversas políticas da década de 1990.

Inicia-se um governo ao estilo Vargas no início do século XXI. A trajetória do protagonista desse novo movimento passou por diversas tentativas - e sempre fora rechaçado. Percebeu intuitivamente que o único meio de conseguir levar a esquerda a (uma parte pequena) do poder oficial era fazer alianças e mudar o discurso. Isso significava logicamente abrir mão de reformas essenciais, radicais - no sentido de transformação profunda e não mexer nos privilégios das elites, nem democratizar os meios de comunicação, nem alterar a política do parlamento. Isso determinava um prazo de validade para todas as políticas, incluindo as sociais (insuportáveis para alguns setores da classe média, habituados a se servirem de pobres - negros, pardos, mulheres e outras minorias frágeis economicamente, em geral - para terem certo nível de conforto). 

Em termos de política externa o país evoluiu em 10 anos mais do que em 5 séculos. Em termos de políticas de alívio ao sofrimentos (mas não redução de desigualdade!) houve progresso inegável: 40 milhões de pessoas passaram a se alimentar diariamente, pessoas miseráveis subiram na escada social, passaram a ter filhos frequentando escola - e por mais tempo - e tendo condições de comprar medicamentos essenciais. O discurso de "estímulo a vagabundagem" é facilmente desmontado com uma análise mais profunda, dotada de senso crítico, que pode ser estudada num estudo pormenorizado anterior [4]. É importante lembrar que o custo do Bolsa Família orbita em torno de 1% do PIB do país, e alivia a fome e doença de milhões. E também destacar que não se trata de uma medida final, mas essencial para inserir todos seres humanos do país nos processos participativos - que ainda existem.

Da mesma forma, a criação de universidades e a valorização das carreiras (todas categorias) foi - ao contrário do que a mídia dominante difunde - feita de modo sustentável [5]. Logo, o argumento de que a queda econômica se deve às irresponsabilidades dos gastos da esquerda institucional nos últimos 13 anos não tem fundamento. 

Nos últimos 13 anos o Brasil implementou, de forma tímida e retardatária, princípios do Estado de Bem-Estar Social da Europa dos anos 50, 60 e 70. Mas mesmo assim setores da alta classe média - que saíram às ruas em 2015 "contra a corrupção"...mas hoje não saem mais...- se sentiram profundamente incomodados com as regalias "anti-naturais" dadas a pessoas "nascidas para servi-las". E com isso foram usadas de instrumentos para servir a forças poderosíssimas e ocultas...

Agora aos erros e defeitos da esquerda institucional - parte deles perdoáveis, por ser impossível de fazer de forma diversa neste mundo atrasado.

É fato que as reformas são apresentadas ao país desde a década de 60. É fato também que sempre que se tentou implementá-las de forma aberta, com diálogo e de forma inclusiva, elas foram barradas por forças poderosas, que não são explicadas, explicitadas ou comentadas pelos meios de comunicação. Agora que estão sendo alteradas profundamente, de modo a não tocar nos reais problemas da nação - que são da humanidade também, em diversas escalas e natureza - são aprovadas a toque de caixa.

Alguns pontos devem ser esclarecidos antes das críticas:
  1. A única maneira de você ter algum poder neste mundo é fazendo concessões, o que implica permitir que suas políticas não causem evolução da consciência, e consequente transformação do sistema e da sociedade, que é regida por este;
  2. Os pactos envolvendo troca de favores (dinheiro) entre parlamentares foi uma característica de todos os governos, desde Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma (e especialmente o do ilegítimo e anti-visionário governo Temer, produto de nossa procrastinação). São os chamados mensalões. A diferença é que a mídia deu tratamento completamente diverso a cada um deles, conforme o grupo no poder estivesse mais ou menos alinhado à sua ideologia. Isso é factual - não opinião;
  3. Nenhum dos governos da Nova República fez uma reforma estrutural. O máximo foi atingido com Lula I e II, com sua política de conciliação;
  4. Nunca foi colocado em debate a lógica econômica a nível oficial, desperdiçando-se uma grande oportunidade;
  5. O fenômeno de Descida dos Ideais [6] é lentíssimo. Implementar mudanças para o melhor, de fato, sem causar reações das elites - especialmente num país que opera segundo a lógica feudal Casa Grande e Senzala - é impossível sem um povo consciente (que é mais que ter cultura e intelecto elevados). Logo, faz-se o que se pode - para evitar dores maiores.

O fenômeno conhecido como lulismo tinha prazo de validade. O Brasil - queles que o controlam - não admitem reformas para o melhor (ex: tributária progressiva, midiática, política, agrária, urbana, educacional), e sim para facilitar os mecanismos de extração de riquezas naturais e força de trabalho, mental ou físico, das pessoas, em diversas intensidades e contextos, por motivos diversificados - mas de mesma substância: remoção de liberdades, aumento de ilusões. A validade se fez com a Carta ao Povo Brasileiro [7], que estabelecia uma promessa de não mexer nos interesses das elites (ver pontos 1 e 5). Com isso o governo do PT, que já subira de forma limitada no Executivo, se torna refém da lógica financeira. 

É importante destacar que o PT e seus aliados nunca governaram de fato o país. As elites brasileiras e o mercado financeiro internacional permitiram à Esquerda brasileira uma pequena atuação (no executivo em larga medida) talvez para acalmar os ânimos da população. Como se estivessem mostrando "olha, eu deixo viu?". Mas de fato, o Legislativo continuou podre em sua maioria, o Judiciário, elitista e intocável pelas urnas (e forma mental elitista) e a Mídia (Globo, Veja, Istoé & Cia) intocáveis em sua liberdade de abuso da informação. Dessa forma, o sistema sempre permaneceu o mesmo. Exatamente igual ao que sempre fora...

Dito isso pode-se esboçar críticas maduras.

A falta de sinalização - apenas isso - para reformas de base acabou golpeando com toda força a esquerda brasileira. A tentativa de estabelecer alianças com entidades que servem aos piores interesses (segregadores, anti-produtivos, regressivos) revelou não ter valor algum. A Globo e Veja agradecem.

Da mesma forma, não abrir espaço para colocar em pauta questões mais fundamentais como a "lógica do crescimento econômico infinito", "a evolução da democracia" (direta x representativa) e até mesmo metafísicas (ex: telefinalismo) acabou por não formar nenhuma base sólida sob a qual se apoiar quando algum golpe viesse - como agora vemos, e em breve todos sentiremos...

Se apoiar no crescimento via consumo para gerar emprego e renda é bom até certo ponto, especialmente para certa parcela da população. Mas deve-se criar uma narrativa [8] para essas pessoas, de forma que elas percebam a importância do auxílio sendo fornecido, dos direitos garantidos, e da finalidade de tudo isso no plano geral. Porque quando o pobre deixa de sê-lo, ao menos num certo nível, é importante fazê-lo manter a memória do que era aquela realidade, e quais as finalidades do alívio. Sem as quais ele poderá atuar de forma consciente e ordenada contra eventuais golpes (como o de 2016).

O fenômeno iniciado em 2013 marcava o fim de um ciclo. Em Junho a população brasileira, simultaneamente se insurge contra o estado das coisas. Não contra um partido, uma personalidade, uma ideologia. E sim contra o sistema como um todo. O modo como as coisas são feitas. A falta de avanços grandes na vida das pessoas. Era o momento das esquerdas usarem para iniciarem uma escalada virtuosa, colocando pautas unificadoras para evitar a captura daquelas pessoas (ou parte delas) pelas forças ocultas (mídia, políticos arcaicos, mercado financeiro, mega-corporações, latifundiários, etc). Mas isso não foi feito. O governo institucional nada fez. Não deu uma resposta à altura do acontecimento.

O que se segui já sabemos. Uma escalada com fins de queda, em que os setores arraigados de ódio - e com influência e poder - saíram às ruas gritando por barbaridades, resumindo os problemas do país a questões tão superficiais que chega a assustar. A capacidade crítica chegara ao zero - e estava saindo do armário sem a menor vergonha. Seria usada por gente com certo intelecto, para implementar as reformas "realmente importantes"...

É preciso ter alguma noção antes de traçarmos alguma opinião da realidade presente. Por isso todo desenvolvimento anterior. Agora que isso foi feito - e lendo as referências - pode-se traçar o que representa as reformas atuais. Reformas andando a um passo nunca antes visto. A pessoa com senso crítico pode se perguntar porque antes elas eram barradas e agora, com um governo sem voto, composto por uma miríada de estadistas afogados até o pescoço em ilegalidades, e uma mídia pré-histórica em suas intenções, elas caminham de forma rápida - sendo a única resistência que impede o avanço total o povo, que tudo começa a perceber em linhas gerais. Lentamente...

O primeiro golpe (PEC 241 ou PEC 55) desvincula os gastos sociais do crescimento econômico. Logo, o crescimento econômico não implicará em "gasto" (investimento) social. Reserva-se uma fatia maior do PIB para pagar uma Dívida Pública não auditada [9], que serve à lógica econômica na moda: crescimento infinito apoiado pela especulação financeira. O vídeo do programa Viva Roda (o avesso da Roda Viva, hoje vendida aos interesses do poder) com Maria Lucia Fatorelli revela o que a mídia não apresenta:



Dos três golpes (Teto dos Gastos Públicos, Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência), a PEC 55 é o primeiro e menos mobilizador da população. Por esse motivo central ela passa tranquilamente em 2016. Isso apesar de inúmeras advertências de políticos sérios [10]. Independente do partido, eles representam o âmago que movimenta os atuais atos políticos no poder legislativo - uma mera marionete dos Bancos e Mega-Corporações. O discurso tem pouca capilaridade. Quantos assistem a TV Senado? Ou melhor: quantos tem tempo, energia e instrução para acompanhar os debates? Daí se conclui com firmeza férrea: tudo está estruturado para que as pessoas não tenham tempo, energia e meios intelectuais de participar dos processos políticos e econômicos deste país.

Figura 4 - Diagrama simplificado do movimento evolutivo. No
eixo das abcissas temos o tempo. Nas ordenadas a evolução.
A curva caracteriza a trajetória evolutiva.
Fonte: A Grande Síntese.
A PEC 55 representa um emborcamento do fenômeno dos movimentos vorticosos [11]. O que isso quer dizer? Significa que essa nova legislação, de acordo com projeções de especialistas, vai contra a lei natural de evolução - em seu sentido mais amplos. 

A Figura 4 revela de forma simplificada o fenômeno evolutivo. É cíclico, constituído de avanços e retrocessos, sendo que os avanços superam os retrocessos num fator de 3 para 2 (3:2) [12]. Se formos observar, em geral, o progresso da humanidade, veremos essa curva oscilante ascensional. Isso confirma que a evolução não se dá linearmente nem em sentido único. Ela é uma espiral que se expande e contrai ciclicamente, com contrações e expansões cada vez mais elevadas, complexas e elaboradas. Dessa forma podemos afirmar que os movimentos vorticosos (dos processos evolucionários da vida, em seu mais amplo sentido) são a soma de três naturezas conhecidas:

Movimentos Vorticosos  = Natureza Cíclica + Natureza Espiral + Natureza Oscilatória

OBS: É importante frisar que a natureza cíclica está contida na espiral. Somente destrinchamos em três para melhor compreensão dos atributos presentes no fenômeno evolutivo.

Ao compararmos o histórico dos gastos primários do Governo Federal (1997-2017), curva em azul, e ver as projeções para os próximos 20 anos (2017-2037), curva em vermelho (Figura 5), percebe-se mais do que um desmonte de uma política de cidadania: desmorona-se o curso natural das coisas. Ou seja, a lei da evolução. Um texto mais específico dá uma ideia das implicações da política (estranhamente) adotada sem participação da sociedade [13].

Figura 5 - Gasto primário do Governo Federal com
área Social (incluindo Saúde e Educação), em relação
às riquezas produzidas pelo país.
Fonte: Tesouro Nacional.
A curva pré-2017 revela que, independentemente do governo (PSDB ou PT), com todos seus vícios e engessamentos típicos, essa base - compromisso - vinha sendo cumprido. Houveram períodos de retrocesso que podem ser facilmente explicados pelo momento global, que se conjuga ao nacional. Em 1997-98 a crise asiática; em 2002-03 o medo do mercado com a chegada de Lula; em 2007-09 e 2011-12 com a crise econômica global em dois momentos - primeiro pelo impacto imediato, depois pelas incertezas se haveria ou não sucessão do programa do PT. A questão é que a cada recaída logo havia uma ascensão, que superava a anterior; e uma nova queda, que retrocedia mas jamais ao patamar da queda anterior. E no geral, a ascensão é evidente. Dessa forma podemos perceber a Lei de Deus sendo cumprida pelas políticas públicas, independente do partido no poder. 

Alguns podem se perguntar pela imperfeição das curvas da Figura 5 comparadas à da Figura 4. Basta nos lembrarmos que os fenômenos medidos por nós experimentalmente, apresentam uma série de erros que se traduzem em imperfeições gráficas. O importante é a natureza do comportamento geral que, como se vê claramente, se triparte: é cíclico (sempre se repete no comportamento geral), é espiral (aumenta sempre no longo prazo) e oscila entre as repetições (devido aos retrocessos sistêmicos).

É importante perceber que esse crescimento relativo não pode se dar indefinidamente - conclusão óbvia - o que é mostrado pelo gráfico: uma curva logarítmica média é traçada para nos dar uma ideia da assíntota e período de estabilização (em torno de 19~20% do PIB). 

Figura 6 - Representação em diagrama polar dos
motos fenomênicos.
Fonte: A Grande Síntese. 
Agora estamos sujeitos a uma nova lei nesse campo, que desacopla "gastos" - que chamo de investimentos - públicos do crescimento econômico. E as previsões são de diminuição relativa, até chegarmos a patamares inferiores aos de 1988. Em suma, prevê-se que estaremos nas mesmas condições de 1990 - uma regressão de 50 anos quando a PEC terminar. Mas sinto que ela não chegará a passar da maioridade e comemorar seus 20 anos: antes disso o país entrará em um estado de convulsão social que demandará a ascensão de um sistema ainda pior OU a renovação efetiva da nação. O desdobrar da História (ainda no futuro) irá confirmar (ou não) as previsões e sentimentos sinceros do autor. 

A Figura 6 dá a visão da lei dos motos fenomênicos de forma mais detalhada.

O gráfico passa a ser visualizado na forma de coordenadas polares (não mais retangulares). O tempo é cíclico, se repete, e portanto se desloca de forma angular; enquanto a evolução substancial (de verdade, que fica inscrita no âmago do Ser, do corpo coletivo, nos instintos) é radial, ou seja, sempre se expande no longo prazo, tendendo a englobar todo o finito - e assim se integrar ao infinito.

Estamos assim saindo do curso natural das coisas que, com todos seus defeitos e dores, ainda assim caminhava para o progresso. Esse descarrilhamento é um dos movimentos necessários à expansão da lógica neoliberal - que nada tem de nova nem de liberal - e pode ser vista como a última grande armadilha do Diabo para impedir o progresso das pessoas nesse planeta.

Quem deseja ter um diagnóstico um pouco mais imparcial, universal e bem intencionado do que está ocorrendo de fato - e como chegamos a essa situação - ofereço a última entrevista de Vladimir Safatle.

Compreenda quem o puder...


Referências
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Reformas_de_base#cite_note-Via_pol.C3.ADtica-1
[2] Assistir "O Espírito de 1945", de Ken Loach: https://www.youtube.com/watch?v=unqe5k7vNBw
[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_S.A. 
      http://nossapolitica.net/2015/12/de-como-fhc-vendeu-a-vale/
[4] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/03/dar-opeixe-e-ensinar-pescar-ou-dar.html
[5] ver artigos de Ladislau Dowbor. https://www.carosamigos.com.br/index.php/artigos-e-debates/8497-ladislau-quem-quebrou-o-     
     estado-brasileiro
[6] http://www.pietroubaldi.org.br/a-descida-dos-ideais-3
[7] http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u33908.shtml
[8] para mais detalhes ver Jessé Souza. http://jornalggn.com.br/noticia/jesse-souza-o-desafio-de-desconstruir-os-interpretes-do-brasil
[9] https://www.youtube.com/watch?v=aoioCF2Z9h8
[10] https://www.youtube.com/watch?v=4pn8WmuFVtc  --> Roberto Requião
        https://www.youtube.com/watch?v=qqZEdCujW7Q&t=607s   --> Gleisi Hoffmann
[11] para mais detalhes estudar capítulos 21 a 25 de A Grande Sìntese
[12] para mais detalhes estudar A Grande Sìntese na íntegra
[13] https://www.cartacapital.com.br/blogs/brasil-debate/sem-democracia-austeridade-e-o-novo-2018pacto-social2019-brasileiro


sábado, 19 de agosto de 2017

Telefinalismo

Existe uma função para tudo. Cada coisa do Universo, desde dos elementos atômicos aos anjos, possuem uma determinada finalidade. Quando se trata de entidades sem poder de decisão (livre-arbítrio, liberdade), dizemos que ele possui uma função. Tijolos, paredes, pontes, carros, estradas, computadores, dinheiro, roupas,...e mesmo animais. Quando se trata de seres com grau de consciência capaz de começar a refletir sobre sua própria existência, sobre a finalidade de tudo, sobre a gênese das mazelas, sobre a natureza do bem e do mal, sobre o processo evolutivo (que vai muito além daquele teorizado na superfície orgânica), temos um propósito. No fundo é a mesma coisa. No 1º caso, numa forma determinística. No 2º, numa forma livre, elaborada. Inicialmente caótica. Posteriormente ordenada. Finalmente harmônica.

É interessante constatar diversos acontecimentos ao longo do tempo. A evolução das personalidades. A que podemos ver mais detalhadamente sem dúvida é a nossa própria. Mas poucos tem a paciência de compreender como se transforma um ser humano: entidade viva, conscientizável, em busca de mais liberdade - no sentido mais amplo do termo. É disso que se trata. Só isso. Tudo isso.Porque isso engloba tudo e todos. Em todos momentos, em todos lugares, de todas as formas, por um motivo: evoluir. O objetivo da vida - aqui e do outro lado.

Qual é o problema? É não agirmos conscientemente orientados por esse princípio. Isso torna a subida mais lenta, as dores menos eficazes. O uso dessas é de baixa intensidade. A reação a elas (dores) é direcionada para os lugares errados - consumo conspícuo, trabalho alienado. Deve-se eliminar o primeiro e transformar o segundo: consumo necessário e trabalho evolutivo. E precisamos lembrar que emprego não é trabalho - e vice-versa. Todos esses conceitos estão sendo introduzidos por seres iluminados com algum grau de alcance nos meios de comunicação, iniciando um trabalho de semeadura que leva certo tempo para começar a florescer de forma autônoma e inteligente, em pontos diversos - chegaremos lá.

Muitos se perguntam "o que eu, pouco influente, sem poder político e econômico, com pouco tempo, posso fazer diante dos problemas - cada vez mais insuportáveis - do mundo?" . Eu digo: tentar escutar coisas que, à primeira vista, pareçam absurdas e perigosas, mas que, se perseverarmos na escuta e regarmos o que colhermos com reflexão, teremos o início do pensamento. E isso é muito, se muitos estiverem com essa orientação. Deve-se desprender de tendências coletivas para buscar ouvir o que a nossa consciência diz, no fundo, de forma sutil - quase imperceptível - e tremendamente elegante. Desenvolver uma antena que possuímos mas até hoje não foi usada para construir no campo da ética e moral - e conduzir no campo das ciências e tecnologias. Sensibilização biológica. Substancial. Efetiva.

Os eventos se ligam através de relações muito sutis. Observamos o comportamento de estruturas - físicas ou mentais. Mas fazemos isso apenas na superfície, com uma psicologia de efeitos que ligam a possíveis causas, que não sabemos explicar - com a mentalidade atual. 

Podemos esboçar uma síntese dos sistemas. Eles possuem três atributos: elementos, interconexões e propósito.

  • Os elementos estão para os processos da Ciência e a Tecnologia;
  • As interconexões estão para a visão Sistêmica;
  • O propósito está para a vivência Filosófica-Teológica.

É uma subida lenta e firme, se observarmos bem. 

A humanidade parece ter chegado ao ápice do desenvolvimento a nível de ciência e tecnologia do ponto de vista racional-analítico. Para continuar seu desenvolvimento, deve saber se submeter a uma lógica maior: a sistêmica, pautada pelas interconexões. É nessa ligação (1º com 2º nível) que as humanidades passarão a ter papel efetivamente transformador, criando uma "tecnologia humana" da mesma forma que as ciências naturais possibilitaram a explosão tecnológica dos séculos XIX e XX. 

A vivência do 3º nível não implica no estudo pormenorizado das filosofias e religiões. Trata-se de algo mais abrangente e - particularmente - profundo, de cunho íntimo, que pode ser potenciado pela erudição - mas não atingido por ela. Apoia, mas não é imprescindível.  

"A letra mata. O espírito vivifica."  [Paulo de Tarso]

As coisas mais importantes começam a ser tratadas por alguns. Para que cheguemos às coisas "sérias" de forma orientada. Essa é a glória de nossos tempos: início do 3º milênio. Destruição do homem antigo. Gênese do homem novo. Parto cheio de dores. Dores indescritíveis. Dores que matam, agitam, inquietam, desesperam e ardem desesperadamente. Para os grandes, dores que, além disso, elevam os sentimentos ao vértice da paixão; a mente ao vértice do pensamento; a alma à unificação com Deus. E assim criam novas formas de vida. 

Precisamos de grandes números para transformar o mundo de forma efetiva. Mas só necessitamos de nós mesmos para nos libertarmos das dores mais agudas. Esse é o pontapé inicial. Uma onda coletiva arrastada pela condução da própria consciência. 

Me libertei de um local por crer ardorosamente que aquele modo de vida estava me impedindo de trabalhar e crescer. Todas alternativas foram vistas para tentar encontrar uma finalidade para aquele modo de vida. Não aceitei o que se apresentava à minha frente. Quando fui punido por isso (revelar consciência), nenhum ato de desespero. O tempo passou e a calma imperou. Aceitei o meu destino, fosse qual fosse, com leveza de consciência e firme convicção. Sintonizei com o conto da vida, buscando refletir sobre os últimos anos. E engrenagens poderosas começaram a operar...

Á medida que executava as atividades e vivia minha vida, diversos fenômenos foram se alinhando de forma a me auxiliar. Claro, eu deveria me esforçar e manter a paz interior. Sem desespero. Sem expectativa. Apenas a sensação de estar seguindo uma trajetória. Construindo seu destino - fosse ele qual fosse. E assim, dia após dia, mês após mês, chegou a tão esperada Salvação. Em duas partes complementares: um humano-afetivo, outro econômico-profissional. Não teria sentido receber uma sem a outra. 

Mutos não admitem a existência de fenômenos que são incapazes de explicar - ou ao menos ver. Mas eu digo: eles atuam incessantemente para quem tem merecimento e sinceridade na alma. 

Mas tudo isso impõe uma responsabilidade enorme sobre o ser. Tudo tem uma finalidade. 

Depois de um período de incerteza e desânimo, meu doutorado segue. As ideias para mais cursos começam a ficar mais claras em minha cabeça - coisas que estão por aí mas nunca foram reunidas, difundidas e trabalhadas intensamente. Tão simples, tão difícil...

O espírito sempre está em atividade. Especialmente aqueles que se desconectaram de grande parte das coisas do mundo. Eles precisam buscar mais do Alto, ver mais longe. 

Continuo constatando e buscando.

Convido a humanidade a fazê-lo também - cada um do seu modo, no seu tempo.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

As Três Perguntas

Os melhores escritos, neste espaço, nasceram de uma experiência profunda de dor, amargura, paixão e explosão interior. Sempre assim. Jamais de outra forma. Parece que o combustível espiritual são os choques materiais, do mundo, em todas suas formas, desde o nível físico até ao psíquico. Apenas sob inspiração é possível despejar alguma nova visão, que seja minimamente útil para os séculos vindouros. Para o novo ser humano, regido interiormente por um novo paradigma.

Nós não compreendemos o que lemos. Nem o que estudamos. Mas o que sentimos fica marcado na alma. Imprime-se uma marca abstrata. Uma ferida profunda. Uma experiência que abala nossa vida, de tal forma a fazer-nos mudar radicalmente de comportamento, adotando uma nova postura, com orientação diversa, mais eficiente por dentro - e ineficiente por fora, do ponto de vista do mundo.

O ser humano é um mosaico de traumas, com uma miríade de obrigações, sem a menor noção de quem ele é de fato. Como um iceberg, atuamos e sentimos apenas o que está acima do nível do mar - mas não vamos além dele, mergulhando em profundidades do subconsciente que nos dita as atitudes e gestos automáticos, que consideramos herdados do meio (jamais de nós mesmos); nem alçando altitudes mais ousadas, onde a atmosfera é mais rarefeita e a existência mais sutil..Operamos no nível do consciente. Cada qual no seu nível, com sua largura de faixa. Mas todos - a imensa maioria, operando dentro de uma faixa mais ou menos igual, fazendo com que o coletivo da humanidade forme uma média férrea, que impõe leis férreas a si mesma, e penas severas para quem se encontre fora de suas unidades de medida. 

Aqueles que se encontram no sub-normal são compreendidos e enquadrados pela mentalidade hodierna (95 a 99% dos seres). Esta não enxerga o caráter evolutivo de todos biótipos. Tudo é fixo e imutável. Todas transformações já ocorreram em nosso planeta, em nossas espécies vegetais, animais, em nossa espécie,...E a natureza é imutável! É isso o que afirma a mentalidade hodierna, racional-analítica, com suas matizes e métodos. No entanto, admitir tal coisa seria um atentado ao nosso senso de bondade, de possibilidades, de transformação, de evolução.

Concebemos ideias, gestamos teorias, criamos artefatos em função de nossa escala de tempo, de nossas possibilidades presentes, e de nossos instintos (não superados ainda). Nosso subconsciente, que ainda é forte e domina o nosso consciente, que somente se desenvolveu, em larga medida, para satisfazê-lo. O instinto animal ainda domina. Vemos isso na ganância política, na arrogância da ciência, na obsessão tecnológica, na exclusão econômica, no desprezo cultural, na agressão às artes, no abuso da religião, na insensibilidade social. Quem percebe tudo isso? Poucos. Quem sente isso e vê o caminho para superar essa realidade? Pouquíssimos. Mas o conceito se espalha, porque o universo é dotado de um dinamismo, desde o átomo até o arcanjo, tudo está em evolução. Toda entidade, toda individualidade, está saturada de uma inteligência compatível à sua natureza. Cada átomo, molécula, célula, tecido, ser vivo, conceito,...tudo está impregnado de um vir-a-ser. Evolução.

O super-normal vê e sente. Logo, ele vive em outro plano. A forma de perceber as relações é diversa. A forma de atuar é estranha ao mundo. O desejo de escavar esse inconsciente, é imenso. O ímpeto dirigido à destruição de sua natureza inferior é uma explosão de paixão pelos conceitos do Alto, que tudo enquadram e consequentemente dominam, com maestria ímpar e sutileza cativante! Mas a classificação - do mundo - é semelhante àquela dada ao infra-normal: problemático a ser corrigido. Forçá-lo a um modo de vida, ao menos em algumas esferas de convivência, para não expor o mundo a sua verdadeira realidade. 

Alguém já deve ter se perguntado porque no filme Ben-Hur o diretor optou por não mostrar a face de Cristo. Essa curiosidade (vã) de ver a face de um Ser evoluído - o mais alto que passou por essa orbe - em nada nos ajuda a sermos melhores. Nos prende às aparências. De fato, Cristo terá a face que mais nos convier, de forma a estabelecer uma identificação entre aquele que adora e o objeto adorado. Aí já temos dois erros crassos: "adorar" está para culto. Culto está para forma. Forma está para aparência. Aparência oculta e engessa o ser, em seu ímpeto de auto-melhora, transformação...E "objeto" está para uso. E aquilo que se usa não é dotado de livre-arbítrio, e sim se prende às leis determinista - justamente o avesso de Cristo, Ser mais consciente entre todos que passaram pela superfície, logo, com máxima liberdade - de até mover montanhas, pelo pensamento...

Muitos se isolam pelo motivos errados. Muitos falam pouco, interagem pouco, correm atrás pouco. Pelos motivos errados, e com isso acabam alimentando medos, ódios e senso de arrogância em relação às outras formas de vida, seja conceitos, sociedade ou natureza. 

Já faz muitos meses que escrevi um ensaio que diferenciava sociabilidade da sensibilidade social. Pois está na hora de diferenciar amigabilidade a integração universal. Trata-se apenas de estender os mesmos conceitos para a natureza infra-humana e supra-humana. Ser integrado ao Todo - ou estar caminhando para isso - não implica em fazer barulho no mundo. Em participar em momentos em que se espera, da forma que muitos esperam. Em se mostrar preocupado em algo mas sem saber exatamente, à fundo, o porquê disso. Trata-se um uma ideia que exige uma leitura espiritual - jamais analítica. 

"A letra mata, o espírito vivifica." (2ª, Co 3.6 )

Todos aqueles que atingiram o vértice do pensamento, derramando em formas diversas - de melodias sublimes, quadros impressionantes ou suavizantes, equações matemáticas, conceitos filosóficos, inventos formidáveis - algo que o mundo julgava inconcebível, irrealizável, buscaram um contato mais íntimo com o silêncio trovejante. Queriam ver a luz invisível. Luz que ofusca os olhos da alma. Eleva o ser até um estado de êxtase sem par no mundo terreno. 

Conhecer a si mesmo é conhecer a lei do universo. Conhecê-la é dominá-la conceptualmente, percorrendo a trilha que não te trará as reações da Lei (de Deus). Essa é, de fato, a única lei a ser respeitada. Lei que se manifesta numa multiplicidade de outras leis, em todos níveis (espiritual, social, psíquico, biológico, físico), em todos aspectos (jurídico, científico, religioso, ético, filosófico, artístico, político, econômico) em todos tempos e em todo lugar. Até que tudo se funda num organismo uno, harmônico e orientado. Até que cheguemos ao fim dos tempos. Nesse ponto a Lei continuará a se manifestar. De forma mais elevada, em universos conceptuais, em que a vida não tem necessidade de sustentação física para existir.

Mas o que está em questão aqui é o grau de sociabilidade de um ser. Em que aspecto podemos julgar que a não-sociabilidade é patológica? Com que argumentos podemos justificar nossas ações de enquadrar um filho, um aluno, um amigo ou colega, uma personalidade famosa, numa dada categoria, e impor uma diversa para "melhoria"? Isso é uma questão difícil se não houver as perguntas certas a serem feitas. E portanto o autor teve uma visão, que partiu de vivência intensa, de altíssima voltagem, com choques e desdobramentos que por vezes levaram à exaustão. Essa visão deu as três perguntas fundamentais que qualquer um pode fazer a si mesmo antes de se classificar (reconhecer) sua anti-sociabilidade e iniciar uma aproximação (integração) com o mundo circunjacente. 

1. Eu não interajo porque tenho medo?
2. Eu não interajo porque tenho ódio?
3. Eu não interajo porque me considero superior (arrogante)?

Medo de passar por alguma situação, de ter de expor algo, de algum indivíduo, de alguma corrente de pensamento. Ódio de alguma corrente de pensamento, de algum indivíduo, de um grupo. Arrogância em relação a alguém, a tudo, a todos. Pode ser uma combinação de dois - ou os três... uma repulsa completa! A questão é fazer as perguntas a si mesmo e respondê-las honestamente, com sinceridade, pensando em sua cura, com a eliminação gradativa de traumas e superação de obstáculos. Aí inciar-se-á uma psicodiagnose. 

Quem atingiu um grau de consciência tal que pode olhar a si mesmo e ter consciência de seus defeitos, procurando enquadrá-los numa ordem maior e absorvê-los, pode fazer seu próprio tratamento, sem uso dos recursos terrenos - que muitas vezes indicam caminhos ineficazes ou equivocados, tentando por vezes enquadrar o ser numa ordem que não lhe cabe, implicando em animalização de sua natureza florescente. A psicanálise atual se preocupa em dar ao indivíduo uma "solução" aos seus problemas: aliviar-lhe a dor. Eis que voltamos aos conceitos já aqui desenvolvidos através de analogia físico-psíquica [1], e sistematizados de forma gráfica e analítica em diversos ensaios [2]. Mas se é necessário transcender uma barreira, isso significa que deve-se passar por ela. Atravessá-la. Superá-la. Não voltar atrás, deixando-a diante de você, novamente, mas mais distante - e portanto menos ameaçadora e dolorosa. 

Um dia todos teremos de passar por essa barreira, sem a qual estaremos condenados a uma dor cada vez mais intensa, até chegar ao grau de insuportabilidade humana, que é uma experiência fantástica de dor multi-cromática - que não é agradável.

As perguntas devem ser respondidas. É provável que a resposta (honesta) seja afirmativa em pelo menos um dos casos. Caso não seja, nada há a temer. Nenhuma mudança é necessária, por mais que o mundo por vezes o convide (imponha, force, exija,...) a isso. Pois tudo já está resolvido internamente. Se houver uma necessidade ou vontade de interação com o outro, a interação se dará - e assim tudo se encaixa perfeitamente.


Observações
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/10/rompendo-barreira-do-som-espiritual.html
[2] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_27.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_81.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_28.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_9.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_81.html
      http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_86.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_40.html

sábado, 15 de julho de 2017

Os Miseráveis: Queda e Salvação

Aqueles que nasceram neste século estão sentindo, inconscientemente, o que a Sétima Arte tem de menos nobre - uso a palavra no melhor sentido do temo. Ao menos no campo das grandes produções, outrora pautadas por diretrizes mais elevadas, preocupadas em transmitir aspectos profundos da vida, revelando obras literárias monumentais, ideias e pensamentos transformadores, sentimentos indescritíveis, em forma de película. Imagens e sons. Música, gestos e atitudes. Harmonicamente ordenados, caoticamente criados. Com um fim: despertar o Ser.

Quem é Jean Valjean?
Quem é o (inspetor) Javert? 

Reduzir tais nomes a personagens fictícios, individualizados, com objetivos fixos, predeterminados, é diminuir uma das obras mais sublimes da literatura mundial. Atesta uma pobreza de observação. Uma ausência de sentimento. Uma nulificação da abstração que se encarna em palavras, personagens, atitudes e destinos complexos - que no entanto possuem diretrizes simples e cristalinas. 

Jean Valjean. Nome simples, do povo. Conjunto sonoro, harmônico. Vida sofrida, vida perdida...à princípio. Nisso é o que acredita Javert, inspetor com ideia já formada das pessoas, das instituições, do mundo...Para este homem (tipo biológico) tudo já está predeterminado. A natureza (humana ou não) não muda. É inalterável. E - cima de tudo - deve ser controlada e castigada conforme normas rígidas e (aparentemente) eficazes.


Os Miseráveis. Todos nós, aqui,
neste mundo, no estágio atual.
Mas em busca da Superação.
Valjean...produto do mundo com seus métodos intransigentes. Seu paradigma engessante. Sua saciedade infindável. Valjean...alma fantástica encoberta por ilusões que o meio lhe imprimiu. Incessantemente, intensamente, insensivelmente. E assim ele, afogado por 19 anos de trabalho duro, desumano, desgastante, endurece sua alma e nulifica sua fé ao ponto de quase morrer por descrença no homem...19 anos de misérias insuportáveis por haver quebrado um vidro e pego um pão. 19 anos de sofrimento por haver matado...sua fome.

Eis que um bispo cruza seu caminho. Dois seres, duas atuações. Um age conforme a vida lhe ensinou. Outro age conforme a inspiração lhe revelou. O resultado, inesperado, inextrincável, se sente nos olhares entre as duas lógicas: uma insistente na superação, outra agonizante na perdição - mas prestes a despertar para um mundo mais vasto! É a transformação da substância em um homem, tido como um inerme (em suas capacidades) e uma ameaça (às instituições) perante os conceitos da sociedade e do poder. Estava nosso protagonista suficientemente dilacerado exteriormente, inesgotavelmente macerado interiormente, a tal ponto de somente crer numa atuação sincera, profunda e íntima num momento inesperado. Assim se dá a mecânica dos milagres. Palavras ou teorias rebuscadas em nada lhe serviriam. Nem mesmo uma atitude pensada, calculada. Era necessário uma atitude sincera e consciente. O bispo lhe deu isso. E nunca mais Valjean - o eternamente condenado - foi o mesmo. Exceto para o inspetor Javert, encarnação perfeita do braço mais brutal do poder deste mundo: a polícia.

Durante 2 horas de projeção - rápidas como um relâmpago - acompanhamos a saga de um homem orientado e outro obcecado. O primeiro encontrou o ideal de atuação, seguindo a lei Divina. O outro se perdeu no excesso das leis humanas. E assim inicia-se uma perseguição de décadas. Sem fim previsto. Sem finalidade convincente...


Victor Hugo. Viu o telefinalismo.
E passou seu sentimento através de
uma narrativa monumental, com
personagens vivos, fora de série.
Cada cena, cada gesto, cada olhar, são reveladores. E alguns destes, inspiradores! A música capta o sentimento da alma do eterno condenado pelo mundo. Do eterno ser que sofre e ama. Chora e constrói. Um eterno batalhador pela libertação de vícios. Pela redenção. Ampara os que sofrem. Contesta os que geram sofrimento gratuito. E assim constrói sua personalidade, pouca a pouco, com suor e sangue e cansaço - mas cada vez mais convicto.

Javert é um ser que colocou toda sua crença no mundo, com todos seus métodos, leis e lógicas. Tem um conceito de ordem, é verdade. De harmonia. De sociedade ideal. Infelizmente, conceito restrito no tempo, excludente das multiplicidades desejosas de ascenderem, nem que apenas um pouco. Conceito ignorante dos efeitos de longo prazo, que se propagam como ondas com o passar dos tempos, e explodem como eventos dolorosos, sem explicação, para o mundo. Mundo tão "poderoso" e "inteligente"...O contato incessante com o outro, o "delinquente", vai sendo registrado pelo consciente do inspetor, que ignora o drama da superação. Não captou que Valjean,o homem que ele tanto busca e deseja punir, morreu após se encontrar com aquele bispo humilde...

O desenrolar dos anos tece uma obra que se torna épica. Uma obra do universo interior, com suas superações e dores, em meio a um trabalho incessante pela Salvação. A experiência interior mística intensa e eletrizante transborda na atuação ética e nos projetos edificantes. Isso é o que sentimos diante da jornada de Jean Valjean. Uma jornada bela...intensa...sincera....infinita...

Billie August consegue traduzir uma monumental obra da literatura para película. Deu vida às palavras, dando mais um passo orientado na encarnação do conceito mais elevado: o da Ascensão. E assim se aproximando (e nos aproximando) um pouco mais do infinito e do eterno, além de nossas dimensões, de nosso conceito, de nossa vivência cotidiana...E assim nos aproximamos da única e verdadeira meta: Deus.






terça-feira, 4 de julho de 2017

Duas Somas

A soma de duas quantidades dará como resultado um número predeterminado, pautado por uma férrea lógica. Isso vale para o mundo racional-analítico. Um mundo em que o método para decifrar a realidade consiste no processo de destacar as partes e/ou decompô-las em unidades compreensíveis ao intelecto. O interesse são os elementos. Neste mundo a soma é determinística. Não pode ser nada além dela mesma. Inexistem possibilidades de potencializar essa soma - ou diminui-la. É um mundo no qual a realidade deve ser adaptada ao intelecto humano - estar na sua medida. Portanto, um mundo sem conexões nem propósitos representados. 

Por outro lado, a soma de duas qualidades é indefinida à princípio. Elas possivelmente não irão dar um resultado predeterminado, e sim uma outra qualidade, que pode ser superior ou inferior. Qualidade que pode se refletir no número, claro. Porque podemos mensurar algo não-mensurável - d à princípio. Isso vale para o mundo real, pautado pela complexidade. Nele o interesse são as interconexões e - acima de tudo - o propósito. Os elementos ainda são considerados, trabalhados e valorizados. Recebem um tratamento decente, eu diria. Mas deixam de ser o eixo diretor, no qual todos conceitos, metodologias, dados, representações e melhorias orbitam. Passa-se de um mundo restrito, de resultados certos, sem alternativas, a um mundo de múltiplas possibilidades. repleto de liberdade. Liberdade bem usada se guiada pela criatividade ascensional. 

No mundo real o que domina é a qualidade.
A ciência de sistemas busca compreender
a complexidade que gera inúmeras possibilidades
sem criar nada concretamente. Eis que começamos
a perceber que o abstrato dá resultados mais
concretos do que este por si só.
Essa trindade (elementos-interconexões-propósito), que é a espinha-dorsal do pensamento sistêmico, é profundamente filosófica, apontando para o sagrado - se sentirmos do que realmente se trata. 

No volume O Sistema - Gênese e Estrutura do Universo, Ubaldi relaciona esses três atributos de sistemas aos três tipos biológicos humanos: o homem fera, o homem astuto, e o super-homem. Os dois primeiros são involuídos em relação ao último, que é evoluído em relação ao segundo; e este em relação ao primeiro. Podemos afirmar que o grau de consciência do 1º tipo é baixo, levando ao egoísmo individual violento; a do 2º tipo está na média dos nossos tempos, medido pela sua inteligência e astúcia; e a do 3º tipo é unitária, levando-o a com compreender a finalidade da vida.

Assim, podemos considerar o Universo de três modos diferentes- conforme nosso grau de consciência. Segundo Ubaldi:

"O pensamento humano pode considerar o universo de três modos diferentes:

1) Como desordenado – constituído de elementos separados, desconexos e incoerentes, que se ignoram mutuamente e não se constituem nem funcionam organicamente como uma unidade. Essa é a concepção do involuído e exprime o seu tipo, desconhecedor das profundas realidades da vida, instintivamente separatista, isolado de tudo, na concha de seu egoísmo.

2) Como ordenado – onde os fenômenos são concebidos como ligados por leis naturais, que os regulam. Esta ideia vê, assim, princípios diretivos e, portanto, uma ordem no universo, que é, pois, concebido como uma rede de relações, onde cada elemento está concatenado aos outros em seu funcionamento. Os fenômenos são coligados por derivação causal, unidos em um transformismo lógico que completa a causa no efeito. Essa concepção corresponde a um estado mais evoluído do indivíduo, que expressa o seu tipo biológico, alcança-do pela observação e raciocínio.

3) Como unitário – concepção de um universo redutível a uma causa única central e absoluta, uma realidade fundamental, origem de tudo. Aparece, assim, o conceito de uma realidade espiritual interior dirigindo a forma exterior, que constitui apenas a sua expressão ou manifestação. Não se trata somente de uma ordem, mas da centralidade dessa ordem. Revela-se, então, o conceito de organicidade do universo, em que todos os elementos componentes estão coligados em uma mesma funcionalidade orgânica. O universo é concebido, neste caso, como uma unidade coletiva, onde todas as individuações ocupam, cada uma, a devida posição, executando funções adequadas, todas coordenadas por uma lei, constituída pelo pensamento e pela vontade de Deus, que a dirige com um poder central, como senhor de tudo. O universo aparece, então, como um sistema. Essa concepção corresponde a um estado ainda mais evoluído do indivíduo, exprimindo o seu tipo, que chegou por intuição à visão de Deus e do Sistema. Aqui não se compreende apenas o conceito de ordem, como no caso precedente, mas também o conceito da centralidade dessa ordem, pelo que tudo existe em função da causa primeira, sempre o centro de tudo: Deus. Esta é a concepção do evoluído, cujo olhar espiritualizado chegou a ver além das aparências da forma. É um estado de vidência cósmica, atingido pelo espírito maduro, ao qual se revela a íntima e recôndita realidade das coisas em toda a sua magnificência."

(grifos meus)

Ou seja, podemos conceber o Universo (nossas vidas individuais e coletivas, da família a humanidade) como desordenado, ordenado ou unitário. E conforme essa concepção iremos ter uma atitude e agir em função delas, gerando o nosso destino, que tão mais valorizado (pelo Alto) será quanto mais consciente estivermos do Todo.

Fica muito clara a relação entre toda ciência de sistemas e a Obra de Pietro Ubaldi. Basta fazer uma leitura espiritual, íntima, dos conceitos. Levando em consideração os sentimentos preenchidos de boas intenções - as melhores!

O propósito forja as interconexões.
As interconexões alimentam os elementos.
Os elementos atingem o objetivo.
A complexidade é produto do livre-arbítrio. Podemos senti-lo presente em todos níveis de existência, mesmo no mundo atômico, com seu férreo determinismo. Apesar de fraquíssimo, o mundo mineral tem seu grau de consciência - a seu modo - que é baixíssimo. Á medida que subimos, passando para as formas orgânicas (vida) e desta refinamos, chegando às células nervosas e órgãos elaborados, como nosso cérebro e sistema nervoso (psiquismo), atinge-se um grau muito maior de liberdade. Aí o livre-arbítrio é mais evidente. Mas o processo continua num ritmo não-linear, em planos mais elevados. 

Nossa constituição física já chegou ao seu auge, não restando mais nada a refinar no plano material. Cabe agora o desenvolvimento das faculdades psíquicas, que abrirão as portas para o universo do espírito, cuja liberdade é infinitamente maior do que a nossa mente racional pode conceber.

Vejamos mais sobre esse 3º modo de conceber:

"Este terceiro aspecto nos mostra um universo que, embora ainda seja em parte desorganizado atualmente, está reorganizando-se; um universo que, embora em alguns pontos e momentos ainda seja hoje caótico, vive um processo de reordenação (evolução). No campo humano, esse trabalho é executado pelo homem, pelo espírito do homem, como centelha divina saída do primeiro e único motor, a única que pode ser encarregada de dar vida, movimento e desenvolvimento à matéria, por si mesma inerte e incapaz de tudo." [P. Ubaldi]

Existe uma hierarquia de comando. O princípio mais consciente, mais livre, comanda aqueles imediatamente abaixo dele, menos conscientes, mais escravos de seu estado. Isso se revela de modo magistral na vida. Mesmo numa escala de tempo que ultrapasse os limites de nossa paciência, quando percebemos que quem de fato forja o seu destino por vezes é o mais menosprezado e tido como o mais abstrato, começamos a despertar para a realidade: o abstrato age em silêncio potente e constrói (inexplicavelmente para nós) as mais altas formas de vida, organização, sistemas, ideias, por vezes em explosões vindas após uma longa incubação. Eis que o mais concreto é de fato aquilo que a mentalidade hodierna tem por abstrato - e vice-versa. A diferença está nas dimensões: o consciente supera a prisão do espaço-tempo realizando trabalhos de ascensão homéricos para subir. Ama, busca compreender, se transforma e - se possível - relata da forma mais poética e científica possível, atraindo aqueles que mais tem sede de ascensão. 

Para quem atingiu maior consciência, sua liberdade engloba melhor as circunstâncias do mundo - da qual o grosso da humanidade é refém. Somos guiados pelos de cima, que possuem liberdade para fazer valer o determinismo da Salvação, conduzindo-nos sem sabermos. Assim exercemos nossa liberdade: dentro de um determinismo maior. E assim vamos nos reordenando, milênios após milênios, até atingirmos o infinito e o eterno, rasgando a constituição ilusória do espaço-tempo e proclamando a liberdade plena, em que o espírito pode subir cada vez mais - e melhor.

É glorioso...