sábado, 19 de agosto de 2017

Telefinalismo

Existe uma função para tudo. Cada coisa do Universo, desde dos elementos atômicos aos anjos, possuem uma determinada finalidade. Quando se trata de entidades sem poder de decisão (livre-arbítrio, liberdade), dizemos que ele possui uma função. Tijolos, paredes, pontes, carros, estradas, computadores, dinheiro, roupas,...e mesmo animais. Quando se trata de seres com grau de consciência capaz de começar a refletir sobre sua própria existência, sobre a finalidade de tudo, sobre a gênese das mazelas, sobre a natureza do bem e do mal, sobre o processo evolutivo (que vai muito além daquele teorizado na superfície orgânica), temos um propósito. No fundo é a mesma coisa. No 1º caso, numa forma determinística. No 2º, numa forma livre, elaborada. Inicialmente caótica. Posteriormente ordenada. Finalmente harmônica.

É interessante constatar diversos acontecimentos ao longo do tempo. A evolução das personalidades. A que podemos ver mais detalhadamente sem dúvida é a nossa própria. Mas poucos tem a paciência de compreender como se transforma um ser humano: entidade viva, conscientizável, em busca de mais liberdade - no sentido mais amplo do termo. É disso que se trata. Só isso. Tudo isso.Porque isso engloba tudo e todos. Em todos momentos, em todos lugares, de todas as formas, por um motivo: evoluir. O objetivo da vida - aqui e do outro lado.

Qual é o problema? É não agirmos conscientemente orientados por esse princípio. Isso torna a subida mais lenta, as dores menos eficazes. O uso dessas é de baixa intensidade. A reação a elas (dores) é direcionada para os lugares errados - consumo conspícuo, trabalho alienado. Deve-se eliminar o primeiro e transformar o segundo: consumo necessário e trabalho evolutivo. E precisamos lembrar que emprego não é trabalho - e vice-versa. Todos esses conceitos estão sendo introduzidos por seres iluminados com algum grau de alcance nos meios de comunicação, iniciando um trabalho de semeadura que leva certo tempo para começar a florescer de forma autônoma e inteligente, em pontos diversos - chegaremos lá.

Muitos se perguntam "o que eu, pouco influente, sem poder político e econômico, com pouco tempo, posso fazer diante dos problemas - cada vez mais insuportáveis - do mundo?" . Eu digo: tentar escutar coisas que, à primeira vista, pareçam absurdas e perigosas, mas que, se perseverarmos na escuta e regarmos o que colhermos com reflexão, teremos o início do pensamento. E isso é muito, se muitos estiverem com essa orientação. Deve-se desprender de tendências coletivas para buscar ouvir o que a nossa consciência diz, no fundo, de forma sutil - quase imperceptível - e tremendamente elegante. Desenvolver uma antena que possuímos mas até hoje não foi usada para construir no campo da ética e moral - e conduzir no campo das ciências e tecnologias. Sensibilização biológica. Substancial. Efetiva.

Os eventos se ligam através de relações muito sutis. Observamos o comportamento de estruturas - físicas ou mentais. Mas fazemos isso apenas na superfície, com uma psicologia de efeitos que ligam a possíveis causas, que não sabemos explicar - com a mentalidade atual. 

Podemos esboçar uma síntese dos sistemas. Eles possuem três atributos: elementos, interconexões e propósito.

  • Os elementos estão para os processos da Ciência e a Tecnologia;
  • As interconexões estão para a visão Sistêmica;
  • O propósito está para a vivência Filosófica-Teológica.

É uma subida lenta e firme, se observarmos bem. 

A humanidade parece ter chegado ao ápice do desenvolvimento a nível de ciência e tecnologia do ponto de vista racional-analítico. Para continuar seu desenvolvimento, deve saber se submeter a uma lógica maior: a sistêmica, pautada pelas interconexões. É nessa ligação (1º com 2º nível) que as humanidades passarão a ter papel efetivamente transformador, criando uma "tecnologia humana" da mesma forma que as ciências naturais possibilitaram a explosão tecnológica dos séculos XIX e XX. 

A vivência do 3º nível não implica no estudo pormenorizado das filosofias e religiões. Trata-se de algo mais abrangente e - particularmente - profundo, de cunho íntimo, que pode ser potenciado pela erudição - mas não atingido por ela. Apoia, mas não é imprescindível.  

"A letra mata. O espírito vivifica."  [Paulo de Tarso]

As coisas mais importantes começam a ser tratadas por alguns. Para que cheguemos às coisas "sérias" de forma orientada. Essa é a glória de nossos tempos: início do 3º milênio. Destruição do homem antigo. Gênese do homem novo. Parto cheio de dores. Dores indescritíveis. Dores que matam, agitam, inquietam, desesperam e ardem desesperadamente. Para os grandes, dores que, além disso, elevam os sentimentos ao vértice da paixão; a mente ao vértice do pensamento; a alma à unificação com Deus. E assim criam novas formas de vida. 

Precisamos de grandes números para transformar o mundo de forma efetiva. Mas só necessitamos de nós mesmos para nos libertarmos das dores mais agudas. Esse é o pontapé inicial. Uma onda coletiva arrastada pela condução da própria consciência. 

Me libertei de um local por crer ardorosamente que aquele modo de vida estava me impedindo de trabalhar e crescer. Todas alternativas foram vistas para tentar encontrar uma finalidade para aquele modo de vida. Não aceitei o que se apresentava à minha frente. Quando fui punido por isso (revelar consciência), nenhum ato de desespero. O tempo passou e a calma imperou. Aceitei o meu destino, fosse qual fosse, com leveza de consciência e firme convicção. Sintonizei com o conto da vida, buscando refletir sobre os últimos anos. E engrenagens poderosas começaram a operar...

Á medida que executava as atividades e vivia minha vida, diversos fenômenos foram se alinhando de forma a me auxiliar. Claro, eu deveria me esforçar e manter a paz interior. Sem desespero. Sem expectativa. Apenas a sensação de estar seguindo uma trajetória. Construindo seu destino - fosse ele qual fosse. E assim, dia após dia, mês após mês, chegou a tão esperada Salvação. Em duas partes complementares: um humano-afetivo, outro econômico-profissional. Não teria sentido receber uma sem a outra. 

Mutos não admitem a existência de fenômenos que são incapazes de explicar - ou ao menos ver. Mas eu digo: eles atuam incessantemente para quem tem merecimento e sinceridade na alma. 

Mas tudo isso impõe uma responsabilidade enorme sobre o ser. Tudo tem uma finalidade. 

Depois de um período de incerteza e desânimo, meu doutorado segue. As ideias para mais cursos começam a ficar mais claras em minha cabeça - coisas que estão por aí mas nunca foram reunidas, difundidas e trabalhadas intensamente. Tão simples, tão difícil...

O espírito sempre está em atividade. Especialmente aqueles que se desconectaram de grande parte das coisas do mundo. Eles precisam buscar mais do Alto, ver mais longe. 

Continuo constatando e buscando.

Convido a humanidade a fazê-lo também - cada um do seu modo, no seu tempo.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

As Três Perguntas

Os melhores escritos, neste espaço, nasceram de uma experiência profunda de dor, amargura, paixão e explosão interior. Sempre assim. Jamais de outra forma. Parece que o combustível espiritual são os choques materiais, do mundo, em todas suas formas, desde o nível físico até ao psíquico. Apenas sob inspiração é possível despejar alguma nova visão, que seja minimamente útil para os séculos vindouros. Para o novo ser humano, regido interiormente por um novo paradigma.

Nós não compreendemos o que lemos. Nem o que estudamos. Mas o que sentimos fica marcado na alma. Imprime-se uma marca abstrata. Uma ferida profunda. Uma experiência que abala nossa vida, de tal forma a fazer-nos mudar radicalmente de comportamento, adotando uma nova postura, com orientação diversa, mais eficiente por dentro - e ineficiente por fora, do ponto de vista do mundo.

O ser humano é um mosaico de traumas, com uma miríade de obrigações, sem a menor noção de quem ele é de fato. Como um iceberg, atuamos e sentimos apenas o que está acima do nível do mar - mas não vamos além dele, mergulhando em profundidades do subconsciente que nos dita as atitudes e gestos automáticos, que consideramos herdados do meio (jamais de nós mesmos); nem alçando altitudes mais ousadas, onde a atmosfera é mais rarefeita e a existência mais sutil..Operamos no nível do consciente. Cada qual no seu nível, com sua largura de faixa. Mas todos - a imensa maioria, operando dentro de uma faixa mais ou menos igual, fazendo com que o coletivo da humanidade forme uma média férrea, que impõe leis férreas a si mesma, e penas severas para quem se encontre fora de suas unidades de medida. 

Aqueles que se encontram no sub-normal são compreendidos e enquadrados pela mentalidade hodierna (95 a 99% dos seres). Esta não enxerga o caráter evolutivo de todos biótipos. Tudo é fixo e imutável. Todas transformações já ocorreram em nosso planeta, em nossas espécies vegetais, animais, em nossa espécie,...E a natureza é imutável! É isso o que afirma a mentalidade hodierna, racional-analítica, com suas matizes e métodos. No entanto, admitir tal coisa seria um atentado ao nosso senso de bondade, de possibilidades, de transformação, de evolução.

Concebemos ideias, gestamos teorias, criamos artefatos em função de nossa escala de tempo, de nossas possibilidades presentes, e de nossos instintos (não superados ainda). Nosso subconsciente, que ainda é forte e domina o nosso consciente, que somente se desenvolveu, em larga medida, para satisfazê-lo. O instinto animal ainda domina. Vemos isso na ganância política, na arrogância da ciência, na obsessão tecnológica, na exclusão econômica, no desprezo cultural, na agressão às artes, no abuso da religião, na insensibilidade social. Quem percebe tudo isso? Poucos. Quem sente isso e vê o caminho para superar essa realidade? Pouquíssimos. Mas o conceito se espalha, porque o universo é dotado de um dinamismo, desde o átomo até o arcanjo, tudo está em evolução. Toda entidade, toda individualidade, está saturada de uma inteligência compatível à sua natureza. Cada átomo, molécula, célula, tecido, ser vivo, conceito,...tudo está impregnado de um vir-a-ser. Evolução.

O super-normal vê e sente. Logo, ele vive em outro plano. A forma de perceber as relações é diversa. A forma de atuar é estranha ao mundo. O desejo de escavar esse inconsciente, é imenso. O ímpeto dirigido à destruição de sua natureza inferior é uma explosão de paixão pelos conceitos do Alto, que tudo enquadram e consequentemente dominam, com maestria ímpar e sutileza cativante! Mas a classificação - do mundo - é semelhante àquela dada ao infra-normal: problemático a ser corrigido. Forçá-lo a um modo de vida, ao menos em algumas esferas de convivência, para não expor o mundo a sua verdadeira realidade. 

Alguém já deve ter se perguntado porque no filme Ben-Hur o diretor optou por não mostrar a face de Cristo. Essa curiosidade (vã) de ver a face de um Ser evoluído - o mais alto que passou por essa orbe - em nada nos ajuda a sermos melhores. Nos prende às aparências. De fato, Cristo terá a face que mais nos convier, de forma a estabelecer uma identificação entre aquele que adora e o objeto adorado. Aí já temos dois erros crassos: "adorar" está para culto. Culto está para forma. Forma está para aparência. Aparência oculta e engessa o ser, em seu ímpeto de auto-melhora, transformação...E "objeto" está para uso. E aquilo que se usa não é dotado de livre-arbítrio, e sim se prende às leis determinista - justamente o avesso de Cristo, Ser mais consciente entre todos que passaram pela superfície, logo, com máxima liberdade - de até mover montanhas, pelo pensamento...

Muitos se isolam pelo motivos errados. Muitos falam pouco, interagem pouco, correm atrás pouco. Pelos motivos errados, e com isso acabam alimentando medos, ódios e senso de arrogância em relação às outras formas de vida, seja conceitos, sociedade ou natureza. 

Já faz muitos meses que escrevi um ensaio que diferenciava sociabilidade da sensibilidade social. Pois está na hora de diferenciar amigabilidade a integração universal. Trata-se apenas de estender os mesmos conceitos para a natureza infra-humana e supra-humana. Ser integrado ao Todo - ou estar caminhando para isso - não implica em fazer barulho no mundo. Em participar em momentos em que se espera, da forma que muitos esperam. Em se mostrar preocupado em algo mas sem saber exatamente, à fundo, o porquê disso. Trata-se um uma ideia que exige uma leitura espiritual - jamais analítica. 

"A letra mata, o espírito vivifica." (2ª, Co 3.6 )

Todos aqueles que atingiram o vértice do pensamento, derramando em formas diversas - de melodias sublimes, quadros impressionantes ou suavizantes, equações matemáticas, conceitos filosóficos, inventos formidáveis - algo que o mundo julgava inconcebível, irrealizável, buscaram um contato mais íntimo com o silêncio trovejante. Queriam ver a luz invisível. Luz que ofusca os olhos da alma. Eleva o ser até um estado de êxtase sem par no mundo terreno. 

Conhecer a si mesmo é conhecer a lei do universo. Conhecê-la é dominá-la conceptualmente, percorrendo a trilha que não te trará as reações da Lei (de Deus). Essa é, de fato, a única lei a ser respeitada. Lei que se manifesta numa multiplicidade de outras leis, em todos níveis (espiritual, social, psíquico, biológico, físico), em todos aspectos (jurídico, científico, religioso, ético, filosófico, artístico, político, econômico) em todos tempos e em todo lugar. Até que tudo se funda num organismo uno, harmônico e orientado. Até que cheguemos ao fim dos tempos. Nesse ponto a Lei continuará a se manifestar. De forma mais elevada, em universos conceptuais, em que a vida não tem necessidade de sustentação física para existir.

Mas o que está em questão aqui é o grau de sociabilidade de um ser. Em que aspecto podemos julgar que a não-sociabilidade é patológica? Com que argumentos podemos justificar nossas ações de enquadrar um filho, um aluno, um amigo ou colega, uma personalidade famosa, numa dada categoria, e impor uma diversa para "melhoria"? Isso é uma questão difícil se não houver as perguntas certas a serem feitas. E portanto o autor teve uma visão, que partiu de vivência intensa, de altíssima voltagem, com choques e desdobramentos que por vezes levaram à exaustão. Essa visão deu as três perguntas fundamentais que qualquer um pode fazer a si mesmo antes de se classificar (reconhecer) sua anti-sociabilidade e iniciar uma aproximação (integração) com o mundo circunjacente. 

1. Eu não interajo porque tenho medo?
2. Eu não interajo porque tenho ódio?
3. Eu não interajo porque me considero superior (arrogante)?

Medo de passar por alguma situação, de ter de expor algo, de algum indivíduo, de alguma corrente de pensamento. Ódio de alguma corrente de pensamento, de algum indivíduo, de um grupo. Arrogância em relação a alguém, a tudo, a todos. Pode ser uma combinação de dois - ou os três... uma repulsa completa! A questão é fazer as perguntas a si mesmo e respondê-las honestamente, com sinceridade, pensando em sua cura, com a eliminação gradativa de traumas e superação de obstáculos. Aí inciar-se-á uma psicodiagnose. 

Quem atingiu um grau de consciência tal que pode olhar a si mesmo e ter consciência de seus defeitos, procurando enquadrá-los numa ordem maior e absorvê-los, pode fazer seu próprio tratamento, sem uso dos recursos terrenos - que muitas vezes indicam caminhos ineficazes ou equivocados, tentando por vezes enquadrar o ser numa ordem que não lhe cabe, implicando em animalização de sua natureza florescente. A psicanálise atual se preocupa em dar ao indivíduo uma "solução" aos seus problemas: aliviar-lhe a dor. Eis que voltamos aos conceitos já aqui desenvolvidos através de analogia físico-psíquica [1], e sistematizados de forma gráfica e analítica em diversos ensaios [2]. Mas se é necessário transcender uma barreira, isso significa que deve-se passar por ela. Atravessá-la. Superá-la. Não voltar atrás, deixando-a diante de você, novamente, mas mais distante - e portanto menos ameaçadora e dolorosa. 

Um dia todos teremos de passar por essa barreira, sem a qual estaremos condenados a uma dor cada vez mais intensa, até chegar ao grau de insuportabilidade humana, que é uma experiência fantástica de dor multi-cromática - que não é agradável.

As perguntas devem ser respondidas. É provável que a resposta (honesta) seja afirmativa em pelo menos um dos casos. Caso não seja, nada há a temer. Nenhuma mudança é necessária, por mais que o mundo por vezes o convide (imponha, force, exija,...) a isso. Pois tudo já está resolvido internamente. Se houver uma necessidade ou vontade de interação com o outro, a interação se dará - e assim tudo se encaixa perfeitamente.


Observações
[1] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/10/rompendo-barreira-do-som-espiritual.html
[2] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_27.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_81.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_28.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_9.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_81.html
      http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_86.html
      https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo_40.html

sábado, 15 de julho de 2017

Os Miseráveis: Queda e Salvação

Aqueles que nasceram neste século estão sentindo, inconscientemente, o que a Sétima Arte tem de menos nobre - uso a palavra no melhor sentido do temo. Ao menos no campo das grandes produções, outrora pautadas por diretrizes mais elevadas, preocupadas em transmitir aspectos profundos da vida, revelando obras literárias monumentais, ideias e pensamentos transformadores, sentimentos indescritíveis, em forma de película. Imagens e sons. Música, gestos e atitudes. Harmonicamente ordenados, caoticamente criados. Com um fim: despertar o Ser.

Quem é Jean Valjean?
Quem é o (inspetor) Javert? 

Reduzir tais nomes a personagens fictícios, individualizados, com objetivos fixos, predeterminados, é diminuir uma das obras mais sublimes da literatura mundial. Atesta uma pobreza de observação. Uma ausência de sentimento. Uma nulificação da abstração que se encarna em palavras, personagens, atitudes e destinos complexos - que no entanto possuem diretrizes simples e cristalinas. 

Jean Valjean. Nome simples, do povo. Conjunto sonoro, harmônico. Vida sofrida, vida perdida...à princípio. Nisso é o que acredita Javert, inspetor com ideia já formada das pessoas, das instituições, do mundo...Para este homem (tipo biológico) tudo já está predeterminado. A natureza (humana ou não) não muda. É inalterável. E - cima de tudo - deve ser controlada e castigada conforme normas rígidas e (aparentemente) eficazes.


Os Miseráveis. Todos nós, aqui,
neste mundo, no estágio atual.
Mas em busca da Superação.
Valjean...produto do mundo com seus métodos intransigentes. Seu paradigma engessante. Sua saciedade infindável. Valjean...alma fantástica encoberta por ilusões que o meio lhe imprimiu. Incessantemente, intensamente, insensivelmente. E assim ele, afogado por 19 anos de trabalho duro, desumano, desgastante, endurece sua alma e nulifica sua fé ao ponto de quase morrer por descrença no homem...19 anos de misérias insuportáveis por haver quebrado um vidro e pego um pão. 19 anos de sofrimento por haver matado...sua fome.

Eis que um bispo cruza seu caminho. Dois seres, duas atuações. Um age conforme a vida lhe ensinou. Outro age conforme a inspiração lhe revelou. O resultado, inesperado, inextrincável, se sente nos olhares entre as duas lógicas: uma insistente na superação, outra agonizante na perdição - mas prestes a despertar para um mundo mais vasto! É a transformação da substância em um homem, tido como um inerme (em suas capacidades) e uma ameaça (às instituições) perante os conceitos da sociedade e do poder. Estava nosso protagonista suficientemente dilacerado exteriormente, inesgotavelmente macerado interiormente, a tal ponto de somente crer numa atuação sincera, profunda e íntima num momento inesperado. Assim se dá a mecânica dos milagres. Palavras ou teorias rebuscadas em nada lhe serviriam. Nem mesmo uma atitude pensada, calculada. Era necessário uma atitude sincera e consciente. O bispo lhe deu isso. E nunca mais Valjean - o eternamente condenado - foi o mesmo. Exceto para o inspetor Javert, encarnação perfeita do braço mais brutal do poder deste mundo: a polícia.

Durante 2 horas de projeção - rápidas como um relâmpago - acompanhamos a saga de um homem orientado e outro obcecado. O primeiro encontrou o ideal de atuação, seguindo a lei Divina. O outro se perdeu no excesso das leis humanas. E assim inicia-se uma perseguição de décadas. Sem fim previsto. Sem finalidade convincente...


Victor Hugo. Viu o telefinalismo.
E passou seu sentimento através de
uma narrativa monumental, com
personagens vivos, fora de série.
Cada cena, cada gesto, cada olhar, são reveladores. E alguns destes, inspiradores! A música capta o sentimento da alma do eterno condenado pelo mundo. Do eterno ser que sofre e ama. Chora e constrói. Um eterno batalhador pela libertação de vícios. Pela redenção. Ampara os que sofrem. Contesta os que geram sofrimento gratuito. E assim constrói sua personalidade, pouca a pouco, com suor e sangue e cansaço - mas cada vez mais convicto.

Javert é um ser que colocou toda sua crença no mundo, com todos seus métodos, leis e lógicas. Tem um conceito de ordem, é verdade. De harmonia. De sociedade ideal. Infelizmente, conceito restrito no tempo, excludente das multiplicidades desejosas de ascenderem, nem que apenas um pouco. Conceito ignorante dos efeitos de longo prazo, que se propagam como ondas com o passar dos tempos, e explodem como eventos dolorosos, sem explicação, para o mundo. Mundo tão "poderoso" e "inteligente"...O contato incessante com o outro, o "delinquente", vai sendo registrado pelo consciente do inspetor, que ignora o drama da superação. Não captou que Valjean,o homem que ele tanto busca e deseja punir, morreu após se encontrar com aquele bispo humilde...

O desenrolar dos anos tece uma obra que se torna épica. Uma obra do universo interior, com suas superações e dores, em meio a um trabalho incessante pela Salvação. A experiência interior mística intensa e eletrizante transborda na atuação ética e nos projetos edificantes. Isso é o que sentimos diante da jornada de Jean Valjean. Uma jornada bela...intensa...sincera....infinita...

Billie August consegue traduzir uma monumental obra da literatura para película. Deu vida às palavras, dando mais um passo orientado na encarnação do conceito mais elevado: o da Ascensão. E assim se aproximando (e nos aproximando) um pouco mais do infinito e do eterno, além de nossas dimensões, de nosso conceito, de nossa vivência cotidiana...E assim nos aproximamos da única e verdadeira meta: Deus.






terça-feira, 4 de julho de 2017

Duas Somas

A soma de duas quantidades dará como resultado um número predeterminado, pautado por uma férrea lógica. Isso vale para o mundo racional-analítico. Um mundo em que o método para decifrar a realidade consiste no processo de destacar as partes e/ou decompô-las em unidades compreensíveis ao intelecto. O interesse são os elementos. Neste mundo a soma é determinística. Não pode ser nada além dela mesma. Inexistem possibilidades de potencializar essa soma - ou diminui-la. É um mundo no qual a realidade deve ser adaptada ao intelecto humano - estar na sua medida. Portanto, um mundo sem conexões nem propósitos representados. 

Por outro lado, a soma de duas qualidades é indefinida à princípio. Elas possivelmente não irão dar um resultado predeterminado, e sim uma outra qualidade, que pode ser superior ou inferior. Qualidade que pode se refletir no número, claro. Porque podemos mensurar algo não-mensurável - d à princípio. Isso vale para o mundo real, pautado pela complexidade. Nele o interesse são as interconexões e - acima de tudo - o propósito. Os elementos ainda são considerados, trabalhados e valorizados. Recebem um tratamento decente, eu diria. Mas deixam de ser o eixo diretor, no qual todos conceitos, metodologias, dados, representações e melhorias orbitam. Passa-se de um mundo restrito, de resultados certos, sem alternativas, a um mundo de múltiplas possibilidades. repleto de liberdade. Liberdade bem usada se guiada pela criatividade ascensional. 

No mundo real o que domina é a qualidade.
A ciência de sistemas busca compreender
a complexidade que gera inúmeras possibilidades
sem criar nada concretamente. Eis que começamos
a perceber que o abstrato dá resultados mais
concretos do que este por si só.
Essa trindade (elementos-interconexões-propósito), que é a espinha-dorsal do pensamento sistêmico, é profundamente filosófica, apontando para o sagrado - se sentirmos do que realmente se trata. 

No volume O Sistema - Gênese e Estrutura do Universo, Ubaldi relaciona esses três atributos de sistemas aos três tipos biológicos humanos: o homem fera, o homem astuto, e o super-homem. Os dois primeiros são involuídos em relação ao último, que é evoluído em relação ao segundo; e este em relação ao primeiro. Podemos afirmar que o grau de consciência do 1º tipo é baixo, levando ao egoísmo individual violento; a do 2º tipo está na média dos nossos tempos, medido pela sua inteligência e astúcia; e a do 3º tipo é unitária, levando-o a com compreender a finalidade da vida.

Assim, podemos considerar o Universo de três modos diferentes- conforme nosso grau de consciência. Segundo Ubaldi:

"O pensamento humano pode considerar o universo de três modos diferentes:

1) Como desordenado – constituído de elementos separados, desconexos e incoerentes, que se ignoram mutuamente e não se constituem nem funcionam organicamente como uma unidade. Essa é a concepção do involuído e exprime o seu tipo, desconhecedor das profundas realidades da vida, instintivamente separatista, isolado de tudo, na concha de seu egoísmo.

2) Como ordenado – onde os fenômenos são concebidos como ligados por leis naturais, que os regulam. Esta ideia vê, assim, princípios diretivos e, portanto, uma ordem no universo, que é, pois, concebido como uma rede de relações, onde cada elemento está concatenado aos outros em seu funcionamento. Os fenômenos são coligados por derivação causal, unidos em um transformismo lógico que completa a causa no efeito. Essa concepção corresponde a um estado mais evoluído do indivíduo, que expressa o seu tipo biológico, alcança-do pela observação e raciocínio.

3) Como unitário – concepção de um universo redutível a uma causa única central e absoluta, uma realidade fundamental, origem de tudo. Aparece, assim, o conceito de uma realidade espiritual interior dirigindo a forma exterior, que constitui apenas a sua expressão ou manifestação. Não se trata somente de uma ordem, mas da centralidade dessa ordem. Revela-se, então, o conceito de organicidade do universo, em que todos os elementos componentes estão coligados em uma mesma funcionalidade orgânica. O universo é concebido, neste caso, como uma unidade coletiva, onde todas as individuações ocupam, cada uma, a devida posição, executando funções adequadas, todas coordenadas por uma lei, constituída pelo pensamento e pela vontade de Deus, que a dirige com um poder central, como senhor de tudo. O universo aparece, então, como um sistema. Essa concepção corresponde a um estado ainda mais evoluído do indivíduo, exprimindo o seu tipo, que chegou por intuição à visão de Deus e do Sistema. Aqui não se compreende apenas o conceito de ordem, como no caso precedente, mas também o conceito da centralidade dessa ordem, pelo que tudo existe em função da causa primeira, sempre o centro de tudo: Deus. Esta é a concepção do evoluído, cujo olhar espiritualizado chegou a ver além das aparências da forma. É um estado de vidência cósmica, atingido pelo espírito maduro, ao qual se revela a íntima e recôndita realidade das coisas em toda a sua magnificência."

(grifos meus)

Ou seja, podemos conceber o Universo (nossas vidas individuais e coletivas, da família a humanidade) como desordenado, ordenado ou unitário. E conforme essa concepção iremos ter uma atitude e agir em função delas, gerando o nosso destino, que tão mais valorizado (pelo Alto) será quanto mais consciente estivermos do Todo.

Fica muito clara a relação entre toda ciência de sistemas e a Obra de Pietro Ubaldi. Basta fazer uma leitura espiritual, íntima, dos conceitos. Levando em consideração os sentimentos preenchidos de boas intenções - as melhores!

O propósito forja as interconexões.
As interconexões alimentam os elementos.
Os elementos atingem o objetivo.
A complexidade é produto do livre-arbítrio. Podemos senti-lo presente em todos níveis de existência, mesmo no mundo atômico, com seu férreo determinismo. Apesar de fraquíssimo, o mundo mineral tem seu grau de consciência - a seu modo - que é baixíssimo. Á medida que subimos, passando para as formas orgânicas (vida) e desta refinamos, chegando às células nervosas e órgãos elaborados, como nosso cérebro e sistema nervoso (psiquismo), atinge-se um grau muito maior de liberdade. Aí o livre-arbítrio é mais evidente. Mas o processo continua num ritmo não-linear, em planos mais elevados. 

Nossa constituição física já chegou ao seu auge, não restando mais nada a refinar no plano material. Cabe agora o desenvolvimento das faculdades psíquicas, que abrirão as portas para o universo do espírito, cuja liberdade é infinitamente maior do que a nossa mente racional pode conceber.

Vejamos mais sobre esse 3º modo de conceber:

"Este terceiro aspecto nos mostra um universo que, embora ainda seja em parte desorganizado atualmente, está reorganizando-se; um universo que, embora em alguns pontos e momentos ainda seja hoje caótico, vive um processo de reordenação (evolução). No campo humano, esse trabalho é executado pelo homem, pelo espírito do homem, como centelha divina saída do primeiro e único motor, a única que pode ser encarregada de dar vida, movimento e desenvolvimento à matéria, por si mesma inerte e incapaz de tudo." [P. Ubaldi]

Existe uma hierarquia de comando. O princípio mais consciente, mais livre, comanda aqueles imediatamente abaixo dele, menos conscientes, mais escravos de seu estado. Isso se revela de modo magistral na vida. Mesmo numa escala de tempo que ultrapasse os limites de nossa paciência, quando percebemos que quem de fato forja o seu destino por vezes é o mais menosprezado e tido como o mais abstrato, começamos a despertar para a realidade: o abstrato age em silêncio potente e constrói (inexplicavelmente para nós) as mais altas formas de vida, organização, sistemas, ideias, por vezes em explosões vindas após uma longa incubação. Eis que o mais concreto é de fato aquilo que a mentalidade hodierna tem por abstrato - e vice-versa. A diferença está nas dimensões: o consciente supera a prisão do espaço-tempo realizando trabalhos de ascensão homéricos para subir. Ama, busca compreender, se transforma e - se possível - relata da forma mais poética e científica possível, atraindo aqueles que mais tem sede de ascensão. 

Para quem atingiu maior consciência, sua liberdade engloba melhor as circunstâncias do mundo - da qual o grosso da humanidade é refém. Somos guiados pelos de cima, que possuem liberdade para fazer valer o determinismo da Salvação, conduzindo-nos sem sabermos. Assim exercemos nossa liberdade: dentro de um determinismo maior. E assim vamos nos reordenando, milênios após milênios, até atingirmos o infinito e o eterno, rasgando a constituição ilusória do espaço-tempo e proclamando a liberdade plena, em que o espírito pode subir cada vez mais - e melhor.

É glorioso...



quarta-feira, 28 de junho de 2017

O Fim de UM Mundo (mundinho presente) NÃO É o Fim DO Mundo (mundo futuro)

Às vezes posso estar passando a ideia de que nos próximos anos nosso planeta vai ser exterminado devido à nossas atitudes coletivas grotescas - que ainda imperam. Não. O Fim de um Mundo não é o mesmo que o Fim do Mundo. 

O que está se destruindo é a mentalidade intelectiva que despertou plenamente para atuar incessantemente, em torno do século XV, no Renascimento. Essa mentalidade que despontou e começou a atuar, trazendo as mais diversas transformações, que se relacionam entre si no tempo, criando circunstâncias para outras surgirem, permitiu um desenvolvimento ímpar nos mais diversos campos. A partir daí surge o conceito de Estado moderno, de Mercados; as Ciências físicas avançam, gerando teorias no campo da gravitação, da cinemática, da transmissão de calor, dos gases, dos fluídos, dos equilíbrios dos corpos, da química, da evolução orgânica, da genética, da sociologia, da psique humana, e por aí adiante. Surge uma nova doutrina (Espiritismo), que pela primeira vez atesta a existência da vida pós-morte - a continuidade da existência. Uma primeira aproximação entre Ciência e Religião se dá. O Universo intangível do Espírito começa a ser aproximado do Universo tangível da Ciência. Fenômenos "sobrenaturais" são avaliados à luz da razão, ganhando mais respeito de certas pessoas e grupos. 

Paralelamente, a História traz as Revoluções políticas (Revolução Francesa e Russa) e econômicas (Revolução Industrial). Conceitos novos são introduzidos e proclamados - mas não praticados! Começa-se a concepção de novas formas de viver. Bertrand Russell, Paul Lafargue, William Wilberforce, Carl Jung, Victor Hugo, H.G. Wells, Benedito Spinoza, Blaise Pascal...são diversos, em todos os campos, que trouxeram à mesa uma nova perspectiva da vida. Como conceber "trabalho", "emprego", "tempo livre", "cristianismo", "monismo", "telefinalismo", "justiça social", "amor",..com histórias universais, atitudes arrebatadoras, gestos poderosos, obras formidáveis, melodias inesquecíveis, discursos eloquentes. 

O século XX trouxe à luz o que tínhamos de pior - e melhor! Duas guerras demolidoras. Desmoronamento de impérios, formas de vida; tecnologias inovadoras; salto quântico da ciência; experiências políticas inéditas; massificação de serviços essenciais como saúde, educação e segurança; composição de uma lei que reconhece direitos mínimos (ONU); a ascensão da Sétima Arte (Cinema); o Estado do Bem-Estar e sua dissolução - ao invés de reformulação -, por motivos polêmicos; a ascensão do financismo; a informatização crescente da sociedade; nossa dependência; os cultos se plasmando em outros, de forma variada (culto ao consumo, ao corpo, à saúde total, à ascensão social, à fama, às aparências,...); tudo isso e muito mais. Pela primeira vez adquire-e a capacidade de destruir a espécie (era atômica) e afetar profundamente os ecossistemas (crise ambiental). E com isso mexe-se com tudo.

Vários apocalipses houveram em nossa História de ego luciférico desperto. A destruição de Jerusalém em 70 d.C. As Cruzadas. Os Holocaustos - muitos dos quais causados pelas potências imperialistas, que plantaram o terreno para que isso ocorresse. Hoje a população da Síria está vivendo verdadeira destruição. 400 mil mortos e mais de 5 milhões de refugiados. Essa situação se cria a a partir da interferência de agentes distantes. 

O Estado Islâmico (ISIS) não surge do nada. Não surge porque muçulmano é do mal; árabe é assim. Ele começa a surgir a partir da invasão do Iraque pelos EUA e seus seguidores (ingleses e cia), que desestabilizaram a região, alterando a geopolítica local, causando mortes e instabilidades. Colocando um governo "democrático", que nada mais é do que um parlamento fantoche que cumpre diretrizes de governos dominados pela lógica financeira e petrolíferas. Uma democracia de fachada, submissa aos interesses do capital - não do povo, da cultura, da natureza. Eis o motivo das invasões e guerras: domínio, seja ele militar, econômico ou ideológico.


E então? O que está ocorrendo no mundo? Um processo de transformação de proporções e consequências nunca vividas pelos habitantes desta orbe (Terra). Vários ciclos estão sendo finalizados nesse período. Ciclos de sistema político falido (democracia parlamentar representativa), de sistema econômico falimentar (capitalismo financeiro), de ideias caducas (consumo é meta final, sociabilização à todo custo, corpo sempre em forma), de relação com as entidades evolutivamente abaixo (atmosfera, oceano, águas, solo, minerais, vegetais, animais) e acima (conceitos elevados, santos, místicos, gênios, heróis, anjos) de nosso consciente. Dentro de nossa própria psique, essa relação entre consciente-subconsciente e consciente-superconsciente começa a ficar mais evidente, mais transparente, e com isso gerando reações de incômodo. Vê-se qual é o único caminho. O caminho a ser enfrentado corajosamente, com criatividade ímpar. Com otimismo propulsor e orientado e pessimismo estabilizante e integrador. 

Precisamos superar o modo de conceber a vida, as relações. Criar novas relações mentais em nossas mentes. Praticar isso, num grau mínimo, em nosso cotidiano. Recusar o que não mais sentimos ter valor, em nosso íntimo, sem medo de sermos mal vistos. Buscarmos as ferramentas do mundo (estudo , retórica, atitudes, escrita, criação de cursos, formas de falar, de escolher produtos, serviços, amigos, maridos e esposas) para sustentarmos esse ímpeto de ascensão que brota vulcanizante, sem aviso, de nossos poros espirituais. 

Quero deixar isso claro. Porque a destruição da forma só é vista de forma pessimista por aqueles que de fato não creem em algo que vá além dessa forma. Quem sabe que a consciência é indestrutível não se deixa levar pelo desespero. 

Até as ideias podem caducar, mas jamais o ideal. Ele é o motor propulsor que reside em nosso interior. Resquícios do Sistema no Anti-Sistema. 

Rumo à Transformação planetária !

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O Advogado de Deus

É preciso ter coragem. Coragem consciente. Coragem insistente. Coragem que se transforma, se refazendo de várias formas a cada conquista e - sobretudo - derrota. Refazer não é se desviar, e sim reformular, baseado na memória crescente das experiências. Memória que se combina com outras, e acaba exigindo sempre uma nova interpretação - e consequentemente novos meios de ação. Por isso eu percebi: a História é viva, porque os eventos e movimentos passados sempre se modificam com o passar do tempo. À medida que se incrementa tempo, com seus períodos de estabilidade e revoluções, ao grande livro da História, passa-se a ter uma visão mais profunda do mesmo acontecimento passado (o que aquilo significou? como foi de fato? porque as pessoas foram levadas a fazer aquilo? como foi possível?...).

Existem diversas coisas a serem defendidas neste mundo. Mas acima de todas, há UMA ENTIDADE que sustenta todas c: Deus

Por simples lógica, Deus não precisa de defesa. Pois Ele está acima de tudo - do Bem e do Mal. No entanto, em nosso universo físico, produto da Queda [1], nos encontramos numa situação de transformação ininterrupta. Um vir-a-ser que destrói e reconstrói usando as forças da vida, que animam as criaturas em busca da perfeição perdida - ainda que relativa. Nesse Universo reina a dualidade, característica do Anti-Sistema (AS) [2]. E isso faz com que haja a necessidade de, mesmo que exista um Ser mais conectado ao Sistema (S) do que ao AS, esse Ser deva atuar usando elementos do AS - incluindo parte de sua lógica - para conseguir inserir elementos do S de forma progressiva e efetiva nas mentes e corações - daqueles que buscam sinceramente mas não sabem nem o como nem o porquê de realizar essa busca. Busca dolorosa. Busca ingrata. Busca solitária. Busca infinita dentro de um mundo finito...

"Pietro Ubaldi era (é) o Advogado de Deus." 
Frase dita por minha esposa - que está lendo o volume "O Sistema". 

De fato, uma excelente colocação! Primeiro porque ele se formou em Direito pela Universidade de Roma. Era portanto seu métier. Segundo porque toda sua Vida - que de tão sincera e intensa acabou sendo derramada em sua Obra - foi uma defesa ininterrupta, criativa, ousada e infindável do conceito de Deus e todas suas consequências, penetrando na arena da Ciência, da Arte, da Filosofia e da Religião; da Política e da Economia; das Famílias e dos Indivíduos; destes e seus Destinos; da Sociedade e seu Destino coletivo; do Livre-arbítrio e do Determinismo; do Átomo ao Anjo. 

O Advogado de Deus - usando um
finito para elevar-se ao infinito.
Em Ubaldi, Vida e Obra se fundem numa Unidade harmônica e compacta, sintetizando a luta infindável pela ascensão num mundo que impede qualquer tentativa de superação. É impressionantemente assustador - para quem se prende firme a este mundo e goza nele. E assustadoramente impressionante -  para quem anseia por algo a mais, apesar de viver aqui. Mas a sensação é a mesma, quer você se regozije, quer você sofra aqui: impressionar-assustar.

É preciso que se entenda do que se trata - sem o qual será difícil seguir em frente com certo interesse. Não poderei fazer isso sem usar fragmentos de minha própria vida como referência, de forma a mostrar o quão impactante está sendo essa nova visão. Visão mais vasta e poderosa do que qualquer outra. 

O Obra é regida por um transformismo profundo, que encanta por aquele que já sofreu bastante e cuja alma já atingiu suficiente grau de maturação evolutiva, estando com os poros intangíveis abertos para receber certos tipos de vibrações intangíveis. 

"É horrível repetir-se, permanecendo estagnado em determinado campo. Somente quem se renova, vive. A constante especialização no particular poderá ser materialmente útil, mas é paralisia do espírito." [3]

É exatamente o que eu venho percebendo ao longo da vida. A questão é: até que pontos essa especialização no particular pode ser materialmente útil? Sabemos que mesmo no reino da matéria existem limitações - e que superá-las no momento adequado é sinal de bom-senso, ou mesmo salvação, a depender do ponto em que nos encontremos. 

"Por isso, no presente trabalho, o protagonista, mesmo não sendo sempre vitorioso, apresenta-nos o modelo ideal de um homem que busca, num trágico esforço, elevar-se, em clara oposição ao tipo normal, que, possuindo qualidades bem diversas, está ligado estaticamente à Terra e deseja ele próprio, somente por força do número, tornar-se o modelo da vida." [3]

(grifos meus)

É de fato uma luta entre o número que faz barulho e até prova superficialmente, e o ponto que se silencia na superfície mas escava profundamente. Essa é a Grande Batalha entre o ideal encarnado e o mundo. 

A própria concepção de Estado, transmitida por pela "Voz", dá uma ideia de quão longe estamos de chegar a um estado orgânico:

"O novo Estado tem que possuir o monopólio da força, pois, embora ela seja uma necessidade de vossa vida involuída, a privação do seu emprego por parte do indivíduo já constituirá um progresso, porquanto o seu desuso enfraquecerá os instintos antissociais. Esse Estado, que não pode ser agnóstico, deve ter resolvido os maiores problemas do conhecimento, pois precisa ter uma concepção ampla da vida, para fazer o indivíduo compreendê-la e colocá-la em prática; deve saber compreender o homem, seus instintos e seu destino, penetrando o mistério de sua personalidade, a fim de poder colocá-lo em seu lugar e obter dele o máximo rendimento. No princípio, o centro realizará um mero enquadramento de massas, porém no futuro ocorrerá a fusão de almas. Nesse Estado, Deus é imprescindível, assim como o conhecimento de sua ordem divina, cujo funcionamento a ciência deve demonstrar, para que, nessa ordem, o Estado encontre suas bases racionais. Concepção imensa de uma fé social e científica, da qual participarão em paz todas as religiões. Este é o Estado da nova civilização do Terceiro Milênio."     
A Grande Sìntese - Cap. 98

(grifos meus)

O que ocorre é muito sutil. O Estado, corpo supra-humano nascido há menos de 8 séculos - está em evolução e muito longe de atingir sua forma ideal, que permita a evolução coletiva, combinando produção orientada e distribuição moderada. É aí que reside a arte de auxiliar o ser humano em sua jornada, nem tolhendo suas potencialidades criativas, nem garantindo liberdades degenerativas. O Estado do futuro - séculos e milênios à frente... - será um corpo que garanta aos indivíduos meios para manifestarem e desenvolverem suas potencialidades latentes, à seu ritmo, do melhor modo, com estímulos proporcionais às suas capacidades. 

Qual a função das classes sociais nesse caminhar que culminará nesse destino?

"A tarefa das classes não é eliminar uma à outra, mas sim compartilhar os frutos da mesma civilização, encaminhando-se para a compreensão recíproca. A tarefa da classe dirigente não é dominar, mas sim educar a plebe tumultuada – velho instrumento de vinganças, chamariz dos astutos e muitas vezes vítima das repressões, mas sempre massa ignara, amorfa e cega – para transformá-la num povo que saiba como conquistar uma consciência coletiva mais elevada."

Sobre o cálculo de responsabilidades, mais conceitos fuzilantes:

"A vida contém e pode produzir valores eternos. Sua finalidade é enriquecer-se deles cada vez mais. A vida tem um objetivo, e vós, depois de haverdes aprendido a produzir e entesourar nas formas caducas da Terra, tereis de aprender então a produzir e entesourar na substância, na eternidade. Para educar, é indispensável repetir, a fim de que certos conceitos superiores sejam assimilados e gravados no íntimo turbilhão do psiquismo."

Eis a necessidade da constante repetição. Sob formas variadas. Em tempos diversos. Por forças diversas, que mesmo agindo em escalas, camadas e domínios diferentes, obedecem à Lei de Deus.

Não temos gravados em nossa alma uma síntese da vida suficientemente forte para guiar-nos nesse mar de dualismos infernais que nos seduzem, perturbam e desgastam cotidianamente. Esse dualismo que dentro de nós está e deve ser combatido primeiramente nesse campo, minimamente, antes do início de qualquer trabalho externo - também necessário, mas consequência do Trabalho-Mor. 

Quando li o capítulo final (Despedida), pela 1ª vez, me desmontei na minha pequenez. De fato...eu nem ninguém que escreve, que pensa, que faz,...ninguém realmente atinge o vértice das concepções se fica no plano do mundo. Poderá fazer coisas impressionantes e admiráveis. Mas nada incrível, que faça chorar e abale o espírito, incendiando cada momento de sua vida. Cada aspecto. De qualquer um.

Quando cheguei ao fim eu concluí com a mais férrea certeza de minha vida:

"não foi uma entidade deste mundo que emitiu esses conceitos...essas palavras..."

Um advogado muito singular, que para cumprir sua função deve estar sintonizado com o infinito, e passar a ideal para palavras e conceitos assimiláveis pela nossa restrita mentalidade hodierna.

E mesmo assim serão necessários milênios e milênios para absorvermos tudo, em sua integridade.

Milênios e milênios...


Referências:
[1] Queda e Salvação
[2] O Sistema: Gênese e Estrutura do Universo
[3] História de um Homem

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Reta Final

Temos ainda 3 aulas. 3 dias. 3 momentos. 3 oportunidades. 14, 21 e 28 de junho - data de apresentação do Trabalho Final. Após isso o curso terá cumprido sua função.

Duas alunas vieram ontem - mais meu colega ouvinte. Mas sentia-se que a sala era sondada pelos alunos dos cursos técnicos. Com certeza trata-se de curiosidade superficial. A fascinação pelas coisas deslocadas do horário normal - pelos eventos quase desertos, pelas coisas diferentes, feitas de maneira diferente, com objetivos diversos; feitas livremente, num espaço onde indivíduos se juntam por livre adesão - é muito grande. Mexe com o imaginário.

Nesta aula finalmente chegamos aos Pontos de Alavancagem. Baseado em todos conceitos e ideias apresentadas nas últimas aulas, iniciamos uma escalada ascensional dessa pirâmide, que parte das atitudes e ações de superfície, - mais triviais - subindo gradativamente, pouco a pouco, exemplo por exemplo, história por história, até chegarmos ao vértice virtuoso e voraz que vivifica a vida e varre a vileza como o vento. Ascensão conceitual.

À medida que se sobe na pirâmide as coisas se tornam mais interessantes. As ações e posturas são mais efetivas, significando que a mudança de algo no sistema - ou nele próprio - será mais poderosa, se propagando ao longo do tempo, e se difundindo, reproduzindo e elaborando nas mentes e corações dos seres.

A hierarquia de alavancagem de Meadows, do menos efetivo ao mais poderoso, é:

1. Números
2. Reservas
3. Estrutura de Estoques e Fluxos
4. Atrasos
5. Realimentação Negativa
6. Realimentação Positiva
7. Fluxos de Informação
8. Regras
9. Objetivos
10. Auto-Organização
11. Paradigmas
12. Transcendendo Paradigmas

É importante destacar que ações se superfície, com efeito imediato, - mas fraco e insustentável - não são completamente descartáveis. A questão é não basearmos todas nossas atitudes nelas, o que nos leva a cair num ciclo vicioso estagnante e sem sentido. Eis como a mente humana funciona, em larga medida.

Outro ponto a destacar é o seguinte: podemos fazer alterações a nível mais profundo (ex: mudança de regras) e no entanto com isso causar uma piora no rendimento geral do sistema - um exemplo disso é o que está ocorrendo em nosso país nos últimos meses. Alteração profunda de vários parágrafos e seções da Constituição de 1988 envolvendo Direitos Trabalhistas, A Previdência Social, os "gastos" (investimentos) em Saúde e Educação, a Terceirização - entre outras "reformas" de caráter escuso.

Por esses dois motivos é preciso tomar cuidado ao observarmos e compreendermos como, por quê, quando e de que modo podemos (e devemos) alterar sistemas.

Enquanto passava pelos pontos, fui puxando exemplos que me vinham à cabeça. Tive a oportunidade de comentar o momento político atual, e os paradigmas ao qual a corrente de pensamento que muitos economistas seguem - estes geralmente são convidados pelos grandes meios de comunicação para darem suas opiniões acerca da economia, pois são "sérios"..Passei novamente pela importância das reservas, explicando que ela foi uma das causas mais importantes (talvez a mais) para o surgimento das civilizações. Citei algumas referências - filmes que assisti, documentários, cafés filosóficos,... - para enriquecer e fazer as pessoas buscarem algo a mais.

O próximo passo é continuar essa subida. Na aula que vem chegaremos ao vértice (item 12), que irei exemplificar através da exibição de uma formidável cena de um grande filme - que mostra a transformação...o despertar...de um dos maiores revolucionários de nosso mundo: Francisco de Assis.