segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Tudo posso. Nada quero. Pois sei que tudo devo.

A maior liberdade que há é aquela de obediência aos princípios superiores por livre convicção. 
A maior escravidão que há é aquela de livremente buscar a satisfação dos instintos. 

Assim afirma a vida ao longo dos milênios e eras, tecendo um mosaico cada vez mais cristalino sobre a finalidade da existência humana. Assim concluem aqueles que viveram a sofreram, compreenderam e caminharam, buscaram e encontraram. Cada qual recebendo sua dose particular, necessária, para chegar a tal estado. 

A questão do conhecimento substancial é diferente daquela do conhecimento superficial, da forma. Para atingi-lo de forma realmente eficaz, tornando nossa vida mais plena e orientada para uma meta sólida, - porém abstrata - deve-se viver com intensidade suficiente na interioridade. Os efeitos externos podem não dizer muita coisa das pessoas. Pois há muitos efeitos semelhantes que podem ter gênese em causas radicalmente distintas; ao passo que isso dificilmente se dá com causas semelhantes. Quanto mais centrado (profundo) um fundamento, um princípio que move alguém, maior será a identificação com outro alguém movido pelo mesmo conceito. Mesmo que a forma de atuação seja, na superfície, muito diferente. Porque se trata acima de tudo de um conceito de vida. Quem se firma na causa para gerar seus efeitos age de forma diametralmente oposta àqueles que se afincam nos efeitos para reproduzi-los. O primeiro possui mais riqueza por estar próxima à Fonte. O segundo necessita reproduzir efeitos através de repetições diversificadas no estilo, no tempo e no espaço para sustentar o que julga ser a finalidade da existência.

Quem tem poder nada quer. Pois já (sabe que) possui domínio sobre seus sentidos e sua mente. Possuir esse domínio sobre suas posses psíquicas e físicas é orientação suprema no longo prazo - apesar de prováveis dificuldades e sofrimentos no curto e médio prazo. É saber usar o disponível, o temporário, o perecível, o relativo. Transforma-se a substância em algo mais transparente. A forma se purifica. A mente fica leve de pensamentos vazios. Os sentidos se concentram nas atividades. Foco e intensidade.

Não querer. Princípio de desapego. Já se tem tudo. Basta desenvolvê-lo. Um princípio no campo da consciência, nutrido com suficiente esforço, impulsionado com vontade intensa, se propagará cedo ou tarde, gerando obras concretas que caminham por conta própria. Sementes que se espalham por todos os cantos do tempo, do espaço e do espírito. A eficiência atinge o vértice, englobando mais do que simplesmente um balanço do que se conhece. Plasma-se o organismo, com reações fortes, apontando para doenças e fraquezas. É o caso do Padre Pio de Pietrelcina, com saúde frágil desde tenra idade - mas com um ímpeto que o levou a realizar obras que nem o mais viril, saudável e rico homem do mundo conseguiria fazer. Trata-se evidentemente de forças que estejam em outras dimensões...A História nos mostra incontáveis exemplos.

Dever é o real trabalho. Não-alienado. Não-exaustivo. Aquele que consome o indivíduo mas não passa tal sensação. O espírito voa livremente em planos estratosféricos, puxando o pobre corpo aos limites. Após a viagem, a recaída. Ubaldi retrata esses exemplos, com rigor extremo, de forma sistematizada e ordenada, nos volumes Noúres e Ascese Mística.

Senso de dever é a orientação suprema que falta à humanidade. Não aquele dever de cumprir com obrigações supérfluas as quais nos prendemos a nível instintivo (checar emails, participar de reuniões, criar e reproduzir formalismos e cultos de todos tipos, buscar distrações, entretenimento, se socializar sem desenvolver a sensibilidade social, entre tantas outras divergências engessantes...). Trata-se de um dever que nasce do íntimo e nos conduz. Não sabemos explicá-lo. Mas sentimo-lo. Nossa atitude é moldada por ele. Nossas ações. Nosso silêncio. É a construção de pilares diversos, sustentados por terreno intangível, inexplorado, temido...

Tudo poder,
Nada querer, 
Por tudo dever.

O mundo nos passa uma visão distorcida desse princípio. Nos comerciais, na lógica econômica, no que se espalha,..tudo que se vê, ouve e lê indica que nossa potência (poder) é limitada e (des) orientada para alimentar os excessos - que geram carências, que levam a desequilíbrios. Logo, não se pode...

Sentindo que de fato não podemos (nos transformar) ansiamos por tudo querer, e assim corremos e agredimos, desesperados em tirar o nosso quinhão de qualquer situação, por qualquer motivo. A racionalidade despertou para cumprir essa função*. Essa incessante busca exterior, seja nas sensações, seja no eruditismo exacerbado, seja na busca pela visibilidade social (nos meios abastados e poderosos), seja no desespero do "ganho" de tempo ou nas posses,...tudo denota uma necessidade de preenchimento interior. Ela só será saciada com o conteúdo adequado. Imaterial. Profundo. Uma catarse. Experiência interior, cujo caso mais extremo, vértice da paixão divina, é o místico. Melhor ainda quando se une o misticismo intenso com a inteligência profunda, gerando a personalidade capaz de penetrar nos mistérios da vida sem medo.

Por fim, o dever...

Quantas vezes julgamos não dever nada (reparar uma injustiça, um xingo, uma violação de diretos,...) devido ao orgulho. Porque aceitar o dever implica necessariamente em estar livre do querer. E para estar liberto dessa chaga multimilenar (querer mais e mais e mais), nada melhor do que enriquecer...no espírito.


Comentários

* Falei sobre isso num ensaio anterior
 http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/10/racionalismo-em-cheque.html


domingo, 8 de outubro de 2017

A Grande Síntese - Um relato íntimo

"Ao finalizar a leitura de  A GRANDE SÍNTESE, temos a impressão de haver lido, ressurgido no século XX, um dos grandes profetas bíblicos. Igualá-la é difícil; superá-la, impossível; negá-la, absurdo; discuti-la, loucura. Mas aceitá-la e  senti-la é prova de que, em nós, há uma centelha da divindade. Merece, realmente, ser encadernada no mesmo volume que o Novo Testamento, como coroamento das obras dos grandes e primeiros apóstolos. A força e a segurança fazem desta Grande Síntese uma continuação natural das Epístolas e do Apocalipse, nada ficando a dever a elas."

Carlos Torres Pastorino — Escritor e Titular de Latim e Grego  da Universidade Federal de Brasília.

"A GRANDE SÍNTESE é a semente do carvalho para o abrigo do futuro. É o divino trigo lançado com “imensa antecipação” no campo do mundo, oferecendo à humanidade o alimento conceptual dos mais nobres e elevados princípios. É uma visão sublime de sabedoria e de amor, excelsa sinfonia dos séculos futuros. Bênção para a humanidade de hoje e código para a humanidade de amanhã. 

Clóvis Tavares — Escritor e Titular de Direito Internacional  Público da Faculdade de Direito de Campos."

Muito além do espaço-tempo...
Muito além do que julgamos além...
"Debalde vínhamos peregrinando através dos livros em busca de uma concepção do mundo que nos satisfizesse, pela universalidade de seus fundamentos, a natural ansiedade de síntese e unificação do conhecimento. Movido por esse desejo, perlustramos os grandes monumentos da sabedoria de todos os tempos, desde as velhas doutrinas consubstanciadas na metafísica chinesa do Y-King até as modernas aquisições do relativismo einsteiniano. Examinamos o hinduísmo, nas expressões luminosas de seus mais eminentes mestres; estudamos o idealismo de Platão, o peripatetismo de Aristóteles, o racionalismo de Descartes, o criticismo de Kant, o panteísmo de Spinosa, o monadismo de Leibniz, o ocasionalismo de Malebranche, o epifenomenismo de Hume, o voluntarismo de Schopenhauer, o solipsismo de Bekerley, o transformismo de Darwin, o evolucionismo de Spencer, o positivismo de Comte, o pragmatismo de James, o monismo de Haeckel, o intuicionismo de Bergson, o panpsiquismo de Farias Brito, para, ao fim, sentirmo-nos tão vazios como dantes. (...) Acabávamos de ler Carrel, quando surgiu nas livrarias a versão brasileira de A GRANDE SÍNTESE. Atraído pelo título, percorremos-lhe o índice e, imediatamente, sentimo-nos assaltados do desejo de lê-la. (...) Sem embargo de seu caráter estritamente lógico e rigorosamente científico, A GRANDE SÍNTESE não é uma obra resultante de lucubrações intelectuais, nem de dados experimentais. É uma revelação surpreendente, de origem supranormal, por isso que foi dada ao mundo exclusivamente pelas vias da intuição. Serviu-lhe de instrumento, no processo de sua elaboração, o iluminado místico da Úmbria, Prof. Pietro Ubaldi."

Rubens C. Romanelli — Escritor, doutor em Letras e Titular da Cadeira de Língua Latina da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais. 

"Para  quem conhece, como o Autor, pouco ou nada de química, A GRANDE SÍNTESE é verdadeiramente surpreendente, porque os conceitos nela emitidos são realmente científicos e, portanto, de um profundo conhecedor de química."

Prof. Stoppoloni — Titular de Anatomia Descritiva, Histologia e Embriologia, da Universidade de Camerino, Itália. 

[alguns relatos de quem leu, estudou e sentiu a Obra do professor da Umbria]
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

A Grande Síntese é indefinível se se desejar realmente defini-lá sem diminuir sua grandeza. Chega-se a um ponto em que é melhor ficar quieto, deixando definições em suspenso, no vazio. Nada pode fazer jus a algo que está muito além das capacidades do ser humano atual. Ser infantil, diminuto. Limitado pela sua crença na limitação - imposta pela razão. Depois de ler A Síntese pela 1ª vez, fui invadido pelo sentimento de pequenez diante de uma verdade indefinível, que arrastou meu espírito para vértices do pensamento e de paixão, queimando toda forma inútil para revelar a substância. "Isso não foi escrito por um ser deste mundo..." foi a primeiríssima sensação que permeou todo meu organismo físico, psique e espírito, ao terminar de ler o capítulo final, "Despedida", há cerca de cinco anos. Minha vida (interior) nunca mais foi a mesma - e jamais o será...

Á medida que começamos a observar os acontecimentos históricos pessoais com olhares mais profundos, tudo começa a se revelar. Mas antes desse retrospecto minucioso, uma dose de dor adequada para tirar a opacidade da forma que nos reveste é mister. 

Cheguei a Ubaldi e sua Obra após sofrer uma espécie de preparo - preparado ou não por mim, antes de iniciar minha vida terrestre. Talvez as marteladas tenham servido para despertar o que já estava consciente em existências passadas. Ou talvez elas tenham servido para que eu despertasse, pela primeira vez, para uma realidade mais profunda, de maior tensão (insuportável para a grande maioria), para que desta forma pudesse iniciar uma nova etapa em minha jornada evolutiva. A verdade é que não o sei e nem estou interessado em saber sobre isso. Simplesmente aconteceu, de forma impressionantemente ordenada, como se eu fosse uma ferramenta humana obedecendo a um plano pré-estabelecido.

Tudo que sempre me interessou na vida foram excertos de obras, sejam peças de teatro, filmes, livros, biografias, teorias científicas, sistemas filosóficos, atitudes, expressões, olhares,...Algumas coisas, por serem muito densas, poderosas, cheias de substância, me interessavam em sua (quase) integridade. Trechos que revelavam algo indescritivelmente poderoso, indefinível...E parecia haver algo a mais a ser dito aí. Minha vida sempre foi, de certa forma, buscar esse algo a mais em outros lugares, de diversas formas, por meio de várias experiências. De repente as palavras "evolução", "consciência", "despertar", entre outras, passaram a significar algo além do que as relativas e pobres definições formais humanas afirmavam categoricamente. Elas simplesmente paravam num ponto me que poderia iniciar-se algo realmente interessante. Mas o racionalismo não permitia um avanço além daquele ponto. Pelo menos não em termos efetivos. Um caminhar a mais, visando ir além das definições, além dos sistemas atuais, além da lógica do mundo, significava apenas andar em círculos, retrocedendo. Ou avançando apenas na forma, criando um outro ponto de vista, a partir de outro relativo - mas permanecendo igual em termos absolutos, isto é, na substância. Isso me dava uma sensação de vazio, de incompletude, o que pode ser muito perigoso. Imperioso é existir um sentido para a vida. 

Pietro Ubaldi na década de 30, passando para papel
o Evangelho da Ciência, durante suas férias em Gúbbio.
Passar por macerações no momento certo é o que as forças do imponderável preparam da melhor forma. No momento certo, pelo motivo certo, com intensidade e duração certa. Momento, motivo, intensidade e duração, todas alinhadas na medida. Para que o ser esteja preparado para compreender a Obra. Pois não basta ela ter sido escrita com reflexão, suor, sangue, amor e ímpeto ascensional. Aquele que recebeu a mensagem (Pietro Ubaldi) e traduziu-a numa linguagem minimamente compreensível pelo tipo biológico atual (nós) cumpriu o seu dever. Resta a nós o esforço de estarmos preparados para assimila-lá. Muitos, ao saberem do que realmente seria necessário para isso, ficarão apavorados e recuarão instintivamente. Por isso as grandes guinadas em nossas vidas são preparadas em planos superiores, além de nossa miserável razão - que se julga o ápice da evolução. Paulo de Tarso já sabia disso - e falou disso. "A letra mata, o espírito vivifica." A letra é o estudo puro, a análise solitária. Reinante num mundo sem (concepção) de Deus. O espírito é a intuição e além. É a consciência da verdade unitária, do amor, do telefinalismo, do significado profundo.

Vejamos as declarações iniciais de Sua Voz no capítulo Ciência e Razão (grifos meus):

"Não falo para ostentar sabedoria ou para satisfazer a curiosidade humana, vou direto ao objetivo: para melhorar-vos moralmente, pois venho para fazer-vos o bem. Não me vereis despender qualquer esforço para adaptar e enquadrar meu pensamento ao pensamento filosófico humano, ao qual me referirei o menos possível. Ao contrário, ver-me-eis permanecer continuamente em contato com a fenomenologia do universo. Importa escutar verdadeiramente essa voz, que contém o pensamento de Deus." A Grande Sìntese, Cap. 1

Não adianta ler A Síntese com os olhos da razão. O intelecto não irá permitir que o conteúdo adentre na alma. Da mesma forma, deixar-se simplesmente impressionar pela linguagem mística, com objetivo de formar um novo culto, calcado em automatismos atávicos, impede a assimilação do verdadeiro significado da obra. Nem Razão cega nem Fé manca. É preciso ter Intuição franca, orientando a Razão com o telefinalismo, e vestindo a Fé com os instrumentos do bom senso. Quantos seres humanos hoje são capazes de combinar esses dois (Religião e Ciência) de forma harmônica, fazendo-os avançar a pleno vapor? Trata-se de uma transição radical em termos de concepção de Deus, do Universo, da Vida. Do dualismo devemos passar para o monismo - pela primeira vez neste planeta. É de fato um passo enorme para quem compreende do que se trata. Enorme...

Nunca fui afeiçoado de cerimônias ou formalismos religiosos. Mas no íntimo sempre acreditei em Deus. Mas não nesse que as instituições me apresentavam. Da mesma forma, sempre acreditei num sistema econômico mais justo, eco-socialista, nos moldes delineados por Bertrand Russell e Noam Chomsky. Vejo os assuntos de forma alinhada, e o nosso caminhar como um contínuo processo de transformação, muito externa até o momento - mas a cada ano apontando para a necessidade da transformação interna, a verdadeira. 

"As vias da arte, da literatura, da ciência, da vida social estão fechadas, sem amanhã. Não tendes mais o alimento do espírito e remastigais coisas velhas que já são produtos de refugo e devem ser expelidos da vida. Falarei do espírito e vos reabrirei aquela estrada para o infinito, que a razão e a ciência vos fecharam."  A Grande Sìntese, idem

"coisas velhas que já são produto de refugo e deve, ser expelidos da vida" são todos excessos. Toneladas de informação, entretenimento (do pior tipo), participação em eventos sociais com intenções pífias (networking, apresentação de sua imagem social, difusão de uma ideia para benefício, bebidas e vícios diversos...). É uma busca incessante pela estagnação. Uma satisfação de instintos multimilenares, a serem superados definitivamente pela nova humanidade. São os formalismos inúteis, preocupados mais na forma do que no conteúdo. São os atordoantes "aprofundamentos na superfície", na forma de pesquisas circulares com vistas a incrementar a quantidade (publicações, citações) para preencher um vazio que não desejamos ver face a face. É a Ciência desorientada, sem Deus, do acaso, sem Justiça e portanto sem finalidade suprema. É o motivo que leva um homem com boa situação financeira, sem histórico criminal, sociável, a matar dezenas e ferir centenas*. Ausência de Deus - da consciência Dele. Sem isso não temos nada, no fundo. Os conceitos traduzidos por Ubaldi, durante toda sua vida missionária, podem nos tirar desse buraco. Ele simplesmente captou conceitos supra-humanos para que pudéssemos assimilá-los, pouco a pouco, e assim melhorarmos individualmente e como desdobramento elevar o mundo, criando uma humanidade mais consciente, sem misérias e com um mínimo de transparência em cada atitude e gesto.

"Para avançar ainda, é preciso despertar, educar, desenvolver uma faculdade mais profunda: a intuição. Aqui entram em função elementos complementares novos para vós. Algum cientista jamais pensou que, para compreender um fenômeno, fosse indispensável a própria purificação moral?A Grande Sìntese, idem

De fato. Apenas após essa diminuta catarse** sofrida pude eu ser tocado pela obra A Grande Síntese. É claro que o alto grau de estudo atingido ajudou***, pois trata-se de uma revelação por via da linguagem científica, que exige participação do lúcifer intelectivo. Mas o Logos é essencial. Sem a vivência interior, do espírito, nada será compreendido dessa obra reveladora.

Ir além me é difícil. Como explicar o inexplicável? Como provar aquilo além do campo experimental (ainda)? Como demonstrar algo que exige a maturação evolutiva do espírito? Deve-se apenas deixar o relato aqui, solto nesse mar de informações que é a rede (internet), para que alguém, quem sabe, algum dia, lendo esse paupérrimo relato, mal escrito, por um ser muito pequeno e com muito a melhorar, possa "perder tempo" lendo a Obra de Pietro Ubaldi em sua profundidade. Senti-la. Vivê-la...E esse alguém, tocado pelas pobres palavras desse relato, comece a se aventurar pelas página de A Grande Síntese com olhar minimamente maduro, lendo-a pelo espírito (não pela letra, que apenas a reveste), e sendo tocado a cada conceito apresentado. Conceito que perfura, queima e se funde a alma, tornando-a diferente para sempre. 

Esse relato não é uma recomendação de leitura. O autor antes perde do que ganha ao usar seu tempo, mente e energia para deixar esse excerto flutuando pelo mar virtual. Poderia estar lendo um artigo opara seus estudos de doutorado. Ou praticando atividade física. Ou algo reconhecido pelo mundo como útil. Nem sequer há interesse de ganhar acessos ou dinheiro com a difusão dos escritos. É justamente isso o que se quer superar. Por que ele o faz então? Senso de dever talvez. Vontade íntima. Inspiração. 

Esse é um relato para vagar pelo mar cronológico-espacial do relativo, em busca de uma alma sedenta de salvação, que o utilize como bote salva-vidas para chegar ao imenso transatlântico que se chama A Grande Síntese e toda obra de Ubaldi. E assim, pouco a pouco, um dia, chegaremos à ilha da nova civilização, que se encontrará com outras ilhas, até chegarmos ao imenso continente do espírito - abraçado pelo pensamento diretor do Todo: Deus.


Observações
* o autor se refere ao recente tiroteio nos EUA
** o autor se refere as experiências dolorosas de vários tipos sofridas entre os anos de 2011 a 2015, no campo financeiro, social, afetivo e familiar.
*** o autor viveu no exterior por 4 anos. fala inglês, francês e italiano. é estudioso de diversos autores da atualidade nas ciências humanas e naturais. se formou em Engenharia em universidade de ponta, realizando ainda curso de Especialização e Mestrado, além de gostar (mas não tocar) de música.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Racionalismo em Cheque

Desde que desenvolvemos a escrita (~4.000 a.C) começamos a desenvolver conceitos de forma orientada. Conceitos externos, a respeito de organização social, tecnologias elementares, criação de instituições, elaboração de teorias, surgimento de línguas, religiões, ciências e tudo característico daquilo que denominamos "ser humano". É a nossa História.

Assim que florescem as primeiras civilizações, observa-se um movimento paralelo, contemporâneo, alinhado com essa gênese humanitária, como que surgido para servir de guia, orientando o ser intelectual que nascera. São os grandes escritos Sagrados - vindos através de grandes inspirados, conhecidos ou não, naturais de outros planos. 

O Antigo Testamento se iniciou com Moisés, por volta de 1.400 a.C. A Bhagavad Gita (Canção de Deus ou Canção Sublime) data do século IV a.C. Lao Tsé (Tao Te Ching), Buda e Sócrates, cada um a seu modo, vieram nessa mesma época banhar o mundo com conceitos de vida e vivências que iam muito além do que o racional humano podia assimilar - quem diria vivenciar...E é natural que assim o seja, pois o intelecto está limitado à superfície [1].


Krishna orienta Arjuna em sua homérica
batalha interior. Lúcifer e Logos.
A razão, por excelência, é a dimensão do dualismo [2]. Ela eclodiu na espécie humana (homo sapiens-sapiens), que a utilizou para melhorar, em termos gerais (coletivamente dentro de um grupo, e amplamente, nas diversas áreas do saber), sua qualidade de vida. Mas essa melhora é apenas efeito de uma intenção que não visa, à priori, a melhora, e sim o predomínio de um grupo (ou indivíduo) sobre o outro. E essa sede de dominar nasce no subconsciente, zona dos instintos. A região dos instintos (natureza humana), cuja força é irrefreável até que surja uma outra força que a supere por completo*, por via da paz, domando ao invés de chocando-se contra. Estamos diante do Drama Multimilenar da Humanidade. E toda essa questão, base para nossa evolução daqui pra frente, vêm sendo descoberta aos poucos, passo-a-passo, pela razão humana [4]

Dois cientistas franceses, Hugo Mercier e Dan Sperber, autores do livro The Enigma of Reason, advogam que a cognição humana despertou e evoluiu para atender as demandas do meio social. Estas eram ditadas pelos sentimentos basilares do ser humano, ligado ao seu recente passado biológico, ainda predominante nos dias atuais, que visa a satisfação dos instintos da fome e do sexo. E as pessoas descobriram que a razão é muito útil para fazer o seu argumento predominar - e acabar com outros argumentos contrários. Percebe-se isso de forma cristalina quando estamos num debate envolvendo religião, política, visão de mundo, conceitos, sistemas econômicos ou qualquer outra área cultural. Defende-se um relativo com uso do intelecto, até os limites, e até esboça-se a imposição desse relativo sobre os outros, de forma a criar um domínio de um conceito sobre outros. Isso prova substancialmente a característica dual do racionalismo. "Dividir para conquistar" não é um slogan meramente de guerra ou que se dá entre famílias/grupos/clãs em disputa pelo poder. É fundamentalmente um princípio que norteia o modo de vida das pessoas, em variados graus de intensidade, com vistas a tranquilizar instintos profundos, enterrados no subconsciente, mas atuantes como nunca - por se apoiarem em fundamentos biológicos inquestionáveis. A questão é que esses instintos se saciam - como nos animais. Mas a razão, desenvolvida em função destes, é insaciável, criando assim novas necessidades - e assim fugindo da zona de segurança que garante o equilíbrio natural das espécies.

Pascal compreendeu a tríade dinâmica instinto-razão-intuição.
Pascal: Santo e Gênio. Combinação de outro mundo -
como de fato ele o era...ou melhor...é
Os animais e as plantas jamais ultrapassam limites da natureza. Podem não ser dotados de capacidades intelectivas. Podem não criar artes, ciências, ética, símbolos ou tecnologias. Porque eles estão circunscritos à zona dos instintos, com pequena faixa de plasticidade para desenvolver sua razão. O máximo que um animal pode desenvolver que seja comparável ao ser humano é o aprendizado de alguns movimentos simples, reconhecer seus donos, padrões, pedir comida, etc (domesticação). Além disso tudo lhes é estranho, indecifrável. São portanto indiferentes. Consequentemente, são incapazes de pecar. Pois quem peca tem a capacidade de discernimento. Notem: capacidade. Não significa que possui, mas é capaz de adquirir. Logo, tem responsabilidade - perante si mesmo e àqueles abaixo. Esse é o glorioso ser humano, nômade que atravessa um deserto interior infindável, regado de armadilhas, numa jornada multimilenar que está formando um banco de dados histórico formidável. Dados que se transformam em informações que, organizadas e trabalhadas, geram conhecimentos. Mas tudo ainda, em grande medida, usado para satisfazer nossos instintos, de formas cada vez mais sutis - com efeitos cada vez mais indecifráveis para a mente que os cria: a (mente) racional...

Eis que me deparo com um artigo que formalmente afirma o que o ser minimamente intuitivo já sente: as políticas de austeridade não são tão boas quanto os "especialistas" afirmavam [3]. A fé no mercado, nas "avançadas" teorias dos economistas, com seus modelos e jargões inacessíveis àqueles que necessitam dedicar toda sua energia e tempo em ocupações em grande parte precárias, (seus sentimentos a reconstruir seu estado psicológico, cada vez mais abalado) parece ser uma pseudo-fé. Um emborcamento da verdadeira fé, cuja exercitação foi iniciada após o advento de um espírito há dois mil anos.

Cristo lança as bases para a atualização dos ensinamentos de Moisés. E assim surge o Novo Testamento, cuja quintessência** são seus cinco (não quatro) Evangelhos ***. Os primeiros cristãos (séc. I a IV) aplicaram os princípios semeados sem corrupção. Por isso foram dilacerados e perseguidos. E igualmente, por isso o cristianismo se difundiu tão rapidamente, como chama apoiada pelo vento numa floresta seca repleta de matéria em busca de transforação. Consumo da forma para engrandecimento da substância. Assim a matéria se eleva, pouca a pouco, para um plano mais elevado, começando a vislumbrar a realidade do espírito, que sempre a coordenou. Trata-se da grande questão da humanidade. Os últimos problemas. Únicos capazes de gerar interesse total da parte das pessoas. Todo o resto - política, economia, filosofias, ciências, artes, afetos, sociedade, tecnologia, justiça,... - deve se subordinar a esse fim supremo, realização máxima do ser, no qual será superada de uma vez por todas a natureza que impede a razão de dar lugar à terceira e última dimensão dessa tríade conceptual: a intuição.

Após A Síntese, surge a necessidade de
sistematizar ao máximo possível como
se dá o fenômeno inspirativo. Não é um
processo (da razão). É um fenômeno
interior (comente alcançável pela
sinceridade ardente, misto de pensamento
e paixão extremas.
Outra notícia revela que os seis brasileiros mais ricos possuem mais patrimônio que os 100 milhões mais pobres [5]. Os desequilíbrios são cada vez mais injustificáveis. Aceitá-los não implica em ser fervoroso defensor de uma distribuição autoritária que vise equalização absoluta, mas simplesmente admitir princípios de equilíbrios basilares da vida, tão bem esboçados e vividos pelo príncipe Siddharta****. 

Domenico De Masi, no programa Roda Viva [6] de 1999 - quando a Roda era viva... - demonstra por via da lógica que acumular e ganhar milhares de vezes mais do que outros - mesmo que supostamente seja possível merecer - é contraproducente para a atividade econômica. Porque (Silvio) Berlusconi, ganhando 13 mil vezes o salário médio de um funcionário de um de seus canais de TV, não come 13 mil vezes mais, nem calça ou veste 13 mil vezes mais roupas, nem consome 13 mil vezes mais energia e água (em sua forma básica e útil pelo menos), nem 13 mil casas, e etc. Ou seja, os recursos monetários, concentrados nas mãos de pouquíssimos, acaba freando a atividade econômica. Aciona-se no máximo altas rodas. Isto é, atividades econômicas envolvendo bens e serviços de luxo, desnecessários, contrários à lei da eficiência e do espírito. Jatos, mansões, palácios, jantares exóticos, viagens surreais, tecidos surreais, aparições surreais, ilusões...E se contabilizarmos a atividade de especulação, vê-se o divórcio completo entre realidade biofísica e economia [7]

Tudo se incia com a Queda [8], cuja reação sanadora foi a cisão de parte do Sistema (S), gerando seu emborcamento, o Anti-Sistema (AS). O S está para a unidade ao passo que o AS está para a dualidade, que gera a multiplicidade fenomênica atordoante, que nossa Ciência racional-analítica está, passo-a-passo, vagarosamente, compreendendo. Iniciamos a Era da Unificação [9]. Atesta essa afirmativa imponente a emergência de novas áreas como a Ciência de Sistemas, a Engenharia de Sistemas, a valorização das faculdades intuitivas - pouquíssimo controladas pelo consciente - e a interconexão profunda entre os saberes mais distantes. A Ecologia simboliza esse despertar. Ela é por excelência um sistema complexo cujo funcionamento exige uma profunda reflexão aliado a uma vivência intensa, sem a qual jamais iremos compreender porque devemos colocar esta ciência como eixo central, subordinando a sociologia, a economia, a política, a justiça e as específicas ciências naturais e tecnologias como agentes subordinados. Estamos num momento de re-hierarquização de saberes cujo maior desafio não reside na mente, mas no espírito de dominá-la fazendo uso de seu Ser espiritual. Tudo se dará de dentro para fora.

Quando o evoluído desce ao plano do involuído, ele perderá.
Pior: a transformação que deseja fazer não se dará, pois
o método escolhido é contraproducente. Deixai as pedras em
paz, pois elas só obedecem a leis elementares do campo físico.
Nós seres humanos somos animais diferenciados dos outros. Atingimos a capacidade de estender a biologia através da economia. Isso se deu através de instrumentos exossomáticos. Esses instrumentos são uma extensão do nosso corpo. Ferramentas, máquinas, mecanismos autônomos e aparatos cada vez mais sofisticados são exemplos dessa capacidade de criar aparatos que diminuam a nossa necessidade de gastar energia para obter o mesmo produto final. Nossa espécie é a única que se mostrou capaz de criar "órgãos" externos - uma extensão de nossa força, velocidade, etc - para conseguir atingir seus objetivos fundamentais. Os animais possuem instrumentos endossomáticos - incluindo nós humanos - cuja função é sobrevivência e reprodução. Mas eles são limitados pela sua natureza. Lotka [10] enfatiza que a economia é uma extensão da biologia, em sentido lato. Pois aquela surgiu para satisfazer de forma mais eficiente esta. Trata-se de obter a mesma quantidade de baixa entropia usando uma menor quantidade de energia. Porque parte do metabolismo é transferido para fora do corpo. Esse princípio possibilitou à humanidade revelar suas verdadeiras potencialidades - tanto para a construção e bem-estar quanto para a destruição e sofrimento.

No século XVI esse racionalismo se torna eixo-diretor do processo civilizatório. Quero dizer com isso que a razão, a partir da Idade Moderna, passa a ser a "nova religião" do homem, permitindo o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia num grau nunca antes visto.

As ciências humanas vem com um delay em relação às ciências naturais, mas começam a se impor no campo científico. No entanto, devido à sua natureza diversa, enquadrar os comportamentos humanos num arcabouço lógico-matemático, com pressupostos muito eficientes para descrever fenômenos de ordem física e química, mas incapaz de lidar com processos de emergência da biologia, mina as potencialidades de se criar laboratórios de experiências humanas, como no caso recente da Islândia [14]. E paupérrimo para lidar com questões da psique e a coletividade humana, com suas instituições. A inserção do livre-arbítrio em nossos modelos - mesmo que mentais - exige um método completamente novo. Esse método não dialoga mais integralmente com o pensamento racional - ele exige mais...uma consciência volumétrica, não mais apenas de superfície. 

A Grande Síntese revela com linguagem científica esse fenômeno de dilatação de consciência (grifos meus):

"No sentido espacial, vosso universo estelar, considerado isoladamente, é um sistema finito; é imenso, mas pode ser medido, e tudo que se pode medir é finito. Vossa mente o domina por completo, porque, sendo ela de um plano superior, pode ultrapassar qualquer limite espacial. Se podeis, num corpo tão frágil e pequeno, voar assim conceptualmente, a ponto de poderdes compreender o universo físico, o qual jamais poderíeis percorrer todo materialmente, isso é devido ao fato de que existis numa fase evolutiva superior. Verificais, aqui, como a diferença de nível dá ao superior o poder de dominar e compreender o inferior, mas não o contrário."
Cap. 35 - Limites Espaciais e Limites Evolutivos do Universo

Temos ainda antecipações que a própria ciência começa a admitir como tal:

"Todo o vosso universo físico move-se em velocidade vertiginosa em relação a outros longínquos universos semelhantes, a fim de fazer parte, com eles, de sistemas ainda maiores. Que isto não vos surpreenda!"
Idem

Vejamos sob a luz das descrições formais da atualidade:

"O conceito de Multiverso tem suas raízes em extrapolações até o momento não científicas da moderna Cosmologia e na Teoria Quântica, e engloba também várias ideias oriundas da Teoria da Relatividade modo a configurar um cenário em que pode ser possível a existência de inúmeros Universos onde, em escala global, todas as probabilidades e combinações dessas ocorram em algum dos universos. Simplesmente há espaço suficiente para acoplar outros universos numa estrutura dimensional maior: o chamado Multiverso."
Fonte: [11]

Mais descrições podem começar a nos dar uma ideia do tamanho do desafio que a Ciência hodierna encontra com seus formalismos:


"Devido ao fato da conjectura de multiverso ser essencialmente ideológica, não havendo, atualmente, qualquer tipo de prova tecnicamente real, a "teoria dos universos paralelos" ou "multiverso" é em essência uma teoria não científica. Nesse ponto, aliada à completa ausência de evidência científica, há ainda a questão concernente à compatibilidade com as teorias científicas já estabelecidas e os rumos diretamente apontados por essas. No conceito de multiverso, imagina-se um esquema em que todas os universos (as bolhas de sabão) agregavam-se mutuamente por uma infinita vastidão. Tal conceito de Multiverso implica numa contradição em relação à atual busca pela Teoria do Campo Unificado ou pela Teoria do Tudo, uma vez que em cada Universo pode-se imaginar que haja diferentes Leis Físicas."
Fonte: [11]

As "diferentes leis físicas" é algo inadmissível pela Ciência justamente pelo fato desta não conceber que os universos se encontram em níveis evolutivos diversos. Por esse motivo não podemos aplicar as mesmas leis de nosso Universo conceptual, avançando no campo do psiquismo, mas igualmente (e ainda) regido por leis materiais, a outros universos, que podem ter superado por completo a materialidade - e portanto não mais obedecem leis físicas, e sim leis superiores, do campo espiritual [12].

Pedro Orlando, em um trabalho magistral, nos revela as classes de universos (figura abaixo) baseado nos princípios revelados por Sua Voz, através de Pietro Ubaldi. O diagrama (Figura 4) esboçado no ensaio sobre "Emborcamento do Rumo Natural" [13] é justamente a chave para compreender o fenômeno evolutivo da natureza (sim, não é apenas a cultura que se altera, apesar de sua dinâmica muito mais frequente). 

Conjunto de universos.
Fonte: ORLANDO, Pedro.
O nosso universo é de desenvolvimento conceptual. Repare que esse tipo de universo ainda está preso à dimensão espaço. O conjunto de universos de desenvolvimento espiritual já superou a dimensão espaço-tempo e neles percebemos que a superconsciência é regra (não exceção). Logo, leis físicas não se aplicam.

Querer reduzir o desconhecido a algo mensurável ao nosso grau de consciência é distorcer as possibilidades de evolução própria. Devemos ser humildes ao chegar na fronteira do concebível. Esse é o único modo de evoluir - e nos tornarmos felizes permanentemente.

Sair dessa posição de cheque implica em mudar completamente a forma de conceber o que é: "evolução". Deve-se assumir postura de humildade perante o infinito.

"Movendo-se sempre na mesma direção do mundo físico, encontrareis sempre o mesmo princípio, sem mudanças. Para ultrapassá-lo e sair dele, é indispensável mover-se em outra direção: a da evolução."
Cap. 35 - Limites Espaciais e Limites Evolutivos do Universo

Não dominaremos a superfície nos movendo infinitamente nela. Apenas superando-a com o mergulho volumétrico poderemos dominar a dimensão inferior que tanto nos atordoa. O próprio Einstein afirmou isso ao dizer que "nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou".

Por ora me limito a chegar aqui. Futuras maturações devem trazer à tona novos conceitos.


Referências
[1] A Grande Sìntese. Caps. 35 a 38. UBALDI, Pietro.
[2] Ver Filosofia da Antiguidade, de ROHDEN, Huberto e Ascese Mística, de UBALDI, Pietro.
[3] https://www.cartacapital.com.br/blogs/brasil-debate/as-reformas-neoliberais-ampliaram-os-lucros-das-grandes-empresas
[4] https://www.cartacapital.com.br/revista/948/cientistas-franceses-contradizem-descartes-o-pai-do-racionalismo
[5] https://www.cartacapital.com.br/economia/seis-brasileiros-tem-a-mesma-riqueza-que-os-100-milhoes-mais-pobres
[6] https://www.youtube.com/watch?v=njhAiVcl344
[7] ROEGEN, Nicolas-Georgescu. Energy and Economic Myths, New York: Pergamon Press, 1976.
[8] Para maior compreensão recomenda-se o estudo dos livros-base da Obra: A Grande Síntese, Deus e Universo, O Sistema e Queda e Salvação. UBALDI, Pietro.
[9] https://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2016/01/evolucao-e-complexidade.html
[10] Lotka, junto com Volterra, foi um dos responsáveis pela construção do modelo matemático predador-presa que estabelecia a relação entre duas espécies num habitat.
[11] https://pt.wikipedia.org/wiki/Multiverso_(ci%C3%AAncia)
[12] http://monismo.net/coment36.html
[13] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2017/08/emborcamento-do-rumo-natural.html
[14] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/08/democracia-diretautopia-hoje-vir-ser.html

Observações
* Trata-se da intuição, 3ª dimensão conceptual, que pouquíssimos seres humanos desenvolveram até o momento.
** Quintessência vem de 5ª essência, que seria a substância que os gregos acreditavam que permeava todo o espaço (o éter). Seriam os núcleos (prótons e nêutrons) sem elétrons, imperceptíveis aos nossos instrumentos. Mas o monismo diz que trata-se de algo muito maior do que isso. Maior em termos qualitativos.
*** O Evangelho de São Tomé é uma preciosidade. Para compreendê-lo na íntegra necessitamos ler o espírito do texto, que tudo revela, tudo diz - e não suas palavras, que pouco dizem.
**** Buda

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Mecânica do Milagre

"Quem é senhor de seu destino?"

Assim grita a voz silenciosa do cosmos, no íntimo de cada um. Pouquíssimos a escutam. Alguns, ao escutarem, se fazem perplexos e sentem-se desnudados diante de tal pergunta. Uma questão aparentemente insolúvel, porém fundamental.

A mão não se estende pedindo. Ela se estende buscando
iluminação. A intenção pura é o maior poder que existe.
O mundo não compreende...
A vida se apresenta diante de nós com suas leis férreas. Uma vez determinada nossa trajetória-mor,  por nós mesmos ou pelas forças do sistema que nos rege, parece-nos impossível alterar o curso dos acontecimentos sem que nos coloquemos numa região de altíssimo risco, cujo resultado fatalmente nos conduzirá a um estado de fragmentação material, colimando numa exclusão social e econômica, além de abalos psicológicos profundos. Eis os motivos centrais que levam a imensa maioria da humanidade a aceitar as condições que lhe são impostas pelas forças do mundo, sem ao menos se perguntar o porquê de tudo isso e se existe alguma possibilidade de escape - mesmo que em outro plano. Nos deparamos com a triste impossibilidade de alterarmos nossa rota e com isso moldamos nossa mente para nos habituarmos a tal destino. Muitas vezes contra nossa íntima natureza. Abortamos planos, murchamos expectativas, nulificamos possibilidades...

Somente quem vivenciou um fenômeno supra-normal à fundo pode tentar descrevê-lo. Quem nunca amou não pode escrever ou falar sobre o amor; quem não praticou não pode explicar como se faz no concreto; quem não sofreu não pode falar das vantagens de sofrer; quem não ousou não fica aberto a novas formas de vida. Dessa forma, os únicos relatos cujas palavras são carregadas de força transformadora, capazes de ressoar nos milênios e nos espaços, sendo absorvidos no íntimo de almas sedentas pela superação, são aqueles que são um transbordamento da vivência íntima e intensa de uma alma desesperada por compreensão dos porquês dos destinos. Nos encontramos diante dos últimos problemas do Ser. 

Abbé Pierre, Sacerdote francês. Criou o
Movimento Emaús, associação que salva
milhões de privações diversas. Seus
conceitos de Deus estavam acima das
formalidades humanas.
O Evangelho é por excelência um dos livros sacros da humanidade. Juntamente com o Bhagavad Gita e o Tao Te Ching, temos a quintessência dos ensinamentos morais, sempre atuais, com interpretações cada vez mais coerentes com a realidade material-racional que nos permeia. Cada conceito traduzido em palavras já constitui uma degradação. O processo de pensar num ideal requer que você o degrade, trazendo algo do plano intuitivo-sintético (3ª dimensão conceptual) para o plano racional-analítico (2ª dimensão conceptual); depois, ao passarmos para palavras, sistematizando-o, há ainda uma outra distorção que, por menor que seja, irá rebaixar o alto conceito. Apesar disso, não há outro modo de trazer e difundir os conceitos mais fantásticos. Conceitos que amparam a humanidade, servem de guia, inspiram e orientam nos momentos mais tenebrosos. A Ciência faz esforços tremendos em descobrir novas leis, ampliá-las, atualizar outras e criar novos métodos e ferramentas para experimentações e teorizações. No entanto, falta-lhe uma coisa, sem a qual ela jamais dará um passo substancial à frente: o método inspirativo

Descobrir por vias interiores será a nova forma de criar ideias mais elevadas. Nosso mundo clama por um jeito completamente diverso de se conceber a vida, as relações, de se trabalhar e pesquisar. No íntimo, o ser humano é incapaz de negar tal anseio. É um desespero existencial cada vez mais irrefreável. Qualquer um que sustente e incorpore em sua vida esse anelo estará criando uma terreno sólido pela frente. O mundo não o suportará por vontade própria. Mas outras forças, existentes mas ignoradas pela imensa maioria da humanidade, irão garantir que este mundo sirva de meio para lhe garantir todas as necessidades materiais - e afetivas. A partir daí engrenagens metafísicas são acionadas, cujo poder engloba todos os poderes do mundo, indo muito além. Não fazem uso da força nem do ruído; nem do número; nem do dinheiro. Apenas guiam pelo pensamento. Estamos diante das forças mais poderosas que alguém pode conceber. Colocar-se contra elas é uma violação da Lei que acarretará num destino penoso, em que toda dívida deverá ser saldada, até o último cêntimo. Por outro lado, colocar-se obediente a elas colocará a criatura sob o amparo da Lei - tanto maior será este amparo quanto maior obediência, vontade e sinceridade o Ser demonstrar. Estamos diante do fenômeno mais fascinante e intrigante da humanidade: a mecânica dos milagres.

Teilhard de Chardin. Padre paleontólogo
que percebeu no monismo a mais
profunda aproximação de Deus. Sofreu
por causa disso, sendo incompreendido
pelo mundo. 
Somente nos damos conta do fenômeno após ele ter se realizado. Olha-se para trás e começa a se ver o quão grande foi o abismo que superamos. Todas as leis conhecidas do mundo não explicam de forma convincente o que se deu. E o mundo, nu e impotente diante de tais mistérios, diz: "foi sorte!". Diz que as probabilidades eram baixíssimas, quase nulas, praticamente nulas, mas se aconteceu, foi sorte - se para benefício - ou azar - para malefício. O mundo não explica, apenas exclama, e assim permanece incapaz de avançar no conhecimento de novas leis, mais poderosas que todas as que se conhecem até o momento. Leis que superam aquelas da materialidade e da vida; leis que superam as pobres tentativas humanas de estabelecer um corpo jurídico eficaz; leis do campo moral. 

O Ser que reconhece a impossibilidade de ter realizado o feito sozinho dá o primeiro passo que um dia deverá ser dado em proporções massivas, de coletividade, para o efetivo progresso das civilizações. Abre-se a mente para a existência de forças vindas de regiões do imponderável. O Ser é invadido de espanto à princípio. Depois, preenchido de gratidão. Mais tarde poderá começar a conduzir sua vida de modo diverso, mais quieto, mais concentrado, mais orientado...É uma obrigação passar ao mundo as palavras sendo ditas há milênios pelo Gita, pelo Tao, pelo Evangelho e outras escrituras sagradas. O Evangelho não é um belo escrito irrealizável na vida cotidiana. Ele contém os preceitos que, se seguidos com toda a intensidade, sem nenhuma expectativa, irão acionar forças tão poderosas que o mundo, tão cego ao Alto, tão concentrado nas miudezas da eficiência material, monetária e seus afazeres alienantes (em sua maioria), irá classificá-las como conto-de-fadas. Como coisa inexistente. Sonho de utópicos. Sonhos perigosos. 

O homem moderno considera louco aquele que leva a sério os ensinamentos sagrados. Para a mentalidade hodierna, trata-se de escritos completamente desacoplados da vida concreta. Nem sequer se crê que a longa marcha da humanidade é caminhar para esse ideal. Mas o desdobrar da "realidade" inexoravelmente nos conduzirá a uma forma de vida muito mais próxima ao que todos veem como ideal. O mundo passa justamente por essa fase destrutiva para se purificar, eliminando todas imbecilidades que estão impedindo o trabalho do espírito. Deus imanente se manifesta cada vez mais concretamente. Através de espíritos iluminados da atualidade (Abbé Pierre, Gandhi, Ubaldi, Rohden, Madre Tereza, T. de Chardin,...) ele se faz mais compreensível pela ciência, mais aceito pelos sinceros, mais atraente para os céticos, menos temível para os negadores. É uma concepção tão fantástica que deverá abrir fendas que iluminarão caminhos desconhecidos de uma humanidade futura, renovada por um grande batismo de dor. Batismo que apenas estraçalha a forma - para revelar a substância. 

Mas voltemos à mecânica do fenômeno. O que é necessário para que se cumpra tal acontecimento? - fantástico para o mundo, natural para Deus e seu emissário-mor, Cristo. 
  1. O primeiro requisito é não agir esperando realizar um feito do tipo. É uma dupla violação, porque primeiro não somos nós que realizamos; e segundo porque a expectativa de fazê-lo demonstra que queremos executar algo, muitas vezes sem nenhuma finalidade;
  2. Deve-se atingir um nível de sofrimento tão profundo que o ser seja obrigado a voltar-se para si mesmo, aceitando humildemente o estado das coisas, mas ao mesmo tempo derrubando uma por uma, com a própria lógica do mundo, as regras que lhe foram impostas;
  3. Após os dois passos, deve-se ainda começar uma atuação guiada não pela mente, mas pelo sentimento elevado, que pode ir em completo desacordo com o modo de agir racional. A única maneira de manter a consciência limpa fazendo isso é a íntima e inexpugnável certeza de que você está fazendo isso pelo bem de seu espírito, que pode ser muito mais útil para seu ser e a coletividade de outras formas. Independentemente das reações e empecilhos do mundo, sua atitude se manterá;
  4. Após ser golpeado duramente, manter um estado de paz inabalável, sincero à sua consciência e aceitando o que ocorreu. Se era tão inaceitável aquela realidade, então qualquer destino se lhe apresentará como uma nova possibilidade, por mais pavoroso que possa parecer o vazio existencial e a exclusão;
  5. Continuar vivendo a vida dentro de suas possibilidades, fazendo uma reflexão profunda sobre o golpe, suas implicações. Dialogando com o interior continuamente, se desnudando diante da realidade do mundo, buscando compreender a finalidade do ocorrido e da sua vida.
Pietro Ubaldi. Indefinível. Portador do
mais elevado conceito de monismo até hoje
(muitos começam a falar de monismo ubaldiano).
Sua visão e vida começam a ser objeto de
interesse de muitos ansiosos por uma renovação.
É importante destacar que o Alto apenas age para aqueles que tem merecimento. Deve-se antes largar as garantias do mundo para que as engrenagens do imponderável comecem a ser acionadas. A atuação é lenta em nosso relativo - mas para Deus o tempo inexiste, pois Ele se encontra acima das barreiras de espaço-tempo, dominando-as por completo - como nós dominamos uma formiguinha com nossos dedos. De fato, foi assim que se deu para o autor. Força e Fé são imprescindíveis. Força inesgotável, Fé inabalável.

O processo de atuação durou 1 ano exato - outro fato interessante. Desde o golpe fatal até a salvação final. Nesse ínterim o autor vivenciou um período de profunda reflexão, trabalho mental contínuo, reposicionamento de conceitos, aprofundamento de ideias. Um misto de alívio e horror constituíam sua psique. Era o período de incertezas extremas. A transição. Nada foi pedido do Alto, jamais. Jamais, jamais, jamais. Apenas buscou-se compreender os fatos. Um colóquio com o Deus imanente. 

As maiores realizações nascem de uma vontade íntima de superação. Um desespero ardente por fazer de forma melhor, adequado às suas habilidades. Uma ousadia fora do comum, que não agride, que encanta, que abraça os fatos do mundo com elegância, mas ao mesmo tempo não os incorpora por completo, deixando uma fenda aberta para o infinito e eterno. É a sede de ser preenchido de forma diversa nesse "pequeno espaço", guardando-o, que faz toda a diferença - e pode levar as pessoas à salvação. Primeiramente uma pequena salvação - como a do autor. Futuramente como A Salvação.

Força e Fé.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Ensaio sobre Espaço, Tempo e Consciência - e seus desdobramentos

O tempo é percebido de forma distinta por cada um de nós. E mesmo para um mesmo indivíduo, o desdobrar dos momentos pode ser vivenciado conforme o tipo de experiência (atividade) que ele estiver realizando. E essa percepção, a meu ver, diz muito a respeito do grau de consciência em que cada um se encontra.

A percepção do tempo se altera à medida que somos capazes de pensá-lo. E também de senti-lo. É notório constatar que, quando estamos com imersão total numa atividade, todas percepções relacionadas a medições de tempo parecem desaparecer em nosso interior. Quando isso ocorre a mente fica livre de pensamentos relacionados ao tempo - quanto tempo tenho, qual o prazo, que horas é o almoço, o que farei amanhã, como pude fazer aquilo ontem, etc. A liberdade de pensamento não mais fica restrita ao tempo - apesar de nosso organismo físico estar obedecendo às suas leis. Isso amplia a atuação no mundo concreto.

Vejamos um exemplo que o Cinema nos traz.

No filme Gattaca (1997) a história se passa num futuro próximo, no qual é possível projetar geneticamente os descendentes. Nesse filme haviam dois irmãos, um deles geneticamente otimizado (projetado), outro não (natural). Ambos tinham o costume de realizar competições no mar: o que nadasse mais longe mar adentro venceria a competição. É claro que o irmão geneticamente selecionado sempre ganhava essas competições.

Gattaca (1997) - alguns esboços do monumental sistema
apresentado e sistematizado em A Grande Síntese.
No entanto, lá pelo fim do filme, quando ambos nadam, num dia chuvoso e trovejante, ocorre o inesperado: o irmão "inapto" vence por ampla margem. Nada muito além do esperado - pelo irmão e por ele mesmo. "O que ocorreu?", o outro pergunta. "Como você venceu? Qual foi o truque?" se indaga o irmão selecionado. E o outro simplesmente responde: "Eu nunca pensei na volta." Transcender paradigmas...

Era lógico que, nadando mar adentro até um ponto, alguém saiba que o tanto que se avançar para dentro deverá ser o mesmo tanto que deverá ser recuado para retornar à praia. Trata-se de um cálculo de segurança, natural a todo ser humano racional. No entanto, essa racionalidade - muito importante para nossa sobrevivência e desenvolvimento - se torna restrita a partir do ponto em que você se vê diante da necessidade de, num dado momento de sua vida, ir além das suas capacidades humanas. para captar um novo conceito, criar um novo sistema ou construir uma nova máquina. Para superar isso foi necessário esquecer a mente da segurança sistematizadora e abraçar o sentimento libertador da intuição. Intuição esta que não nega a mente, mas apenas supera-a em certos momentos críticos. 

A partir do momento em que a dimensão espaço-tempo deixa de dominar o campo psíquico por completo, as barreiras das restrições mentais esvanecem e os caminhos para a realização dos objetivos utópicos começam a se delinear. Eis que na materialidade do mundo avança-se um pouco mais, contra todas expectativas do cálculo, da genética, das projeções. E assim a razão se espanta e inicia a sondar o fenômeno. "O que ocorreu?", "Como?", "O que não considerei no meu modelo?". E assim se vê forçada a reconstruir seus métodos até ao ponto de refazer hipóteses e até mesmo questionar seus fundamentos. Os axiomas são abalados e adentra-se no imponderável. A Ciência chega às portas do Espírito. As Humanidades se incorporam de forma cada vez mais sólida na Ciência. A concepção de dilata. A Filosofia se renova, excluindo seus excessivos sistemas, teorias e formalismos. A Religião se desnuda e encontra um laboratório que a conecta à vida das pessoas. Força e fé.

Espaço e tempo, antes considerados dimensões desacopladas, se fundem com a Teoria da Relatividade (Einstein) no século XX. As implicações são muito mais metafísicas do que físicas. O mundo começa a perceber o que significa de fato a curvatura do espaço-tempo. A dimensão "tempo" deixa de ser absoluta, revelando ser apenas um aspecto de nosso universo decaído. Aspecto que dita o ritmo de transformismo da matéria e dos seres, no qual tudo que existe nasce e morre: lógica econômicas, sistemas políticos, ideias, idiomas, pessoas, animais, plantas, planetas, estrelas, galáxias,...

A partir do momento que se atinge a intuição plena, libertamo-nos das barreiras espaço-temporais. A síntese é realizada não na base da sequência, e sim na da simultaneidade. Tempo é a dimensão característica da substância na forma energia; assim como espaço é a dimensão característica da substância na forma matéria. A consciência é a dimensão psíquica da substância na forma espírito. Nessa dimensão inicia-se o processo de superar aquelas precedentes (espaço-tempo). Por exemplo: podemos conceber mentalmente passado, presente e futuro, prevendo e recordando ações no tempo. Ou seja, superamos o tempo com a mente. Podemos abraçar o universo conceptualmente - mas não materialmente. Estamos limitados apenas pelas barreiras das dimensões que julgamos existirem permanentemente e serem únicas. 

"Assim como são infinitas as fases evolutivas, também são infinitas as respectivas dimensões. Eis como nosso olhar pode superar o tempo e o espaço, que são apenas duas dimensões contíguas dentre as infinitas dimensões sucessivas."
A Grande Síntese - Cap. 36. Gênese do Espaço e do Tempo

É necessário destacar a existência de dois tempos: o do devenir fenomênico (absoluto) e o sequencial (relativo).

A Figura 4 do texto de 25/08 ("Emborcamento do Rumo Natural") mostra o desenvolvimento das dimensões numa forma simplificada. Nele, vemos a gênese e conclusão da dimensão "tempo". No entanto, o devenir vai do abismo no infinito negativo à plenitude do infinito positivo, sendo portanto algo diferente daquilo que estamos habituados a denominar como tempo. É imensurável para nossa concepção, mas permeia todas dimensões. Logo, o "tempo" no diagrama deve ser lido de forma diversa, mais ampla, não-mensurável. Como uma progressão.

O tempo sequencial do nosso universo relativo é capturável pelos nossos sentidos. O devenir fenomênico que engloba nosso universo - e vai muito aquém e além - não é capturável (ainda) pelos nossos sentidos. Também não é compreendido. Logo, a mente hodierna considera esses conceitos como tergiversações filosóficas divertidas sem nenhum implicação na vida cotidiana. No entanto, - e isso será constatado futuramente - será no momento em que todos nossos sistemas ruírem e nosso desespero beirar o abismo da inexistência que mais afoitamente nos voltaremos para esses conceitos, únicos que contém as chaves para as libertadoras dimensões superiores. Muitos sábios vêm trazendo esses conceitos, de forma cada vez mais elaborada (Baghavad Gita de Krishna, Tao Te Ching de Lao Tsé, Evangelho de Cristo, Pascal, Spinoza, Rohden, Bergson, T. de Chardin, Ubaldi,...), adaptada aos nossos tempos, necessidades e desafios.

"Nas fases inferiores, o tempo só existe em sentido mais amplo, entendido como ritmo do devenir, propriedade de todos os fenômenos, e não como consciência do transformismo, propriedade das forças. Facilmente compreendeis a revolução que trazem esses conceitos em vossa ordem habitual de ideias."
A Grande Síntese - Cap. 37. Consciência e Superconsciência. Sucessão dos Sistemas Tridimensionais.

Leia-se "fases inferiores" como aquelas precedentes à existência do tempo. É de fato muito difícil compreender isso, uma vez que antecedência nos remete diretamente à ideia de tempo - nosso tempo sequencial.

"Ao deslocar-se no tempo, o fenômeno adquire em β uma consciência própria, linear, a primeira dimensão conceptual."
A Grande Síntese - idem

O movimento é o que os nossos sentidos captam na dimensão tempo. O volume se desloca com o desdobramento da substância em sua forma β (energia) . 

"Em α, estamos na fase subumana e humana de consciência mais completa, onde temos a segunda dimensão conceptual, correspondente à superfície no sistema espacial. Assim como da linha se passa à superfície, com deslocamentos em novas direções extra-lineares, também a consciência humana, por deslocamentos semelhantes, invade o devenir de outros fenômenos, diferencia-se deles, aprende a dizer “eu” e a perceber a própria individualidade distinta das outras, dobra-se sobre o ambiente, projeta-se para fora (a nova dimensão), observa e julga. Essa projeção para fora, característica da segunda dimensão, é alcançada por meio dos sentidos, que, na primeira dimensão, eram desconhecidos."
A Grande Síntese - idem

No tempo a matéria é animada. Posteriormente a vida emerge. Uma forma de energia degradada (eletricidade) entra em contato com elementos químicos específicos (H,N,C,O). Condições atmosféricas especiais farão surgir os primeiros seres unicelulares. A partir daí a vida de desdobra cada vez mais - assim como a matéria e a energia o fizeram.

O tempo corroído pelo seu próprio desenvolvimento.
A racionalidade extinta pela sua própria expansão.
Mas conquistaremos novas dimensões.
A intuição nos levará ao monismo vivenciado.
Com a consciência o ser humano concebe o devenir dos outros fenômenos. Supera o tempo conceptualmente, no pensamento. Mas ainda não completamente, pois seu corpo físico está sujeito às leis da energia e matéria - ambas sujeitas ao tempo. É nesse nível que nós aprendemos a nos diferenciar e consequentemente observar a nós mesmos e aos outros (exteriormente). É a gênese do intelecto luciférico, cuja marcha solitária dá sinais de desgaste. Uma marcha colocada a todo vapor a partir do século XVI. Uma marcha restrita a sua própria lógica, solitária. Negadora de qualquer fenômeno acima, subjugadora de qualquer fenômeno abaixo. E assim o século XX nos brinda com o monismo ubaldiano, acompanhado de outras almas que plantaram as sementes da nova humanidade. Resta ao século XXI iniciar a assimilação e implementação dos conceitos...

"Em +x aparece a terceira manifestação da dimensão conceptual, que completa o sistema, correspondendo ao volume. A consciência, que não tem dimensão na matéria (o volume é a dimensão espacial completa, mas, diante do sistema sucessivo, é uma não-dimensão, o ponto), assume no campo das forças a dimensão linear; alcança no campo da vida a dimensão superfície; adquire no campo absolutamente abstrato do puro espírito a dimensão de volume. As limitações de vosso concebível me impedem de prosseguir até aos sistemas sucessivos, cada vez mais espirituais e rarefeitos, que se estendem ao infinito. Em vez disso, expliquemos as características da segunda dimensão (consciência) em relação às da terceira (superconsciência)."
A Grande Síntese 

Sua Voz (entidade do Alto captada por Ubaldi em sua mediunidade ultrafânica) faz uma analogia entre as três dimensões materiais (linha, superfície, volume) e as três sucessivas dimensões conceptuais (tempo, consciência, super-consciência). Quando afirma-se que o tempo é uma não-dimensão no sistema espacial (ponto) significa que a trindade espacial é incapaz de identificar o início da próxima. Trata-se de evolução de dimensões por tríades, formando um acorde [1]. 

Segue-se no livro a diferenciação entre consciência (razão) e super-consciência (intuição):
  
"Da mesma forma que a superfície absorve a linha, a consciência absorve o tempo e o domina; enquanto as forças precisam do tempo, o pensamento o supera. Na passagem da fase β à fase α, a dimensão tempo tende a se desvanecer, pois, embora subsistindo, é tanta a sua aceleração de ritmo (onda), que vos pareceria quase sumir na nova dimensão. Com efeito, quanto mais baixa e material, tanto mais lenta e semelhante a β é a consciência; quanto mais concreto o pensamento, mais denso é o ritmo e mais vagarosa a onda. O pensamento implica tempo somente enquanto e na medida em que ainda é energia. Quanto mais cerebral, racional e analítico, tanto menos abstrato, intuitivo e sintético é o pensamento. Neste segundo sistema tridimensional, assistis a uma aceleração contínua de ritmo. Nessa aceleração, o tempo é gradualmente absorvido. Por sua vez, a superconsciência domina e absorve a consciência, tal como o volume o fez com a superfície."
A Grande Síntese 

O ritmo se acelera significa que a intensidade com a qual eu me envolvo num processo de construção (conceptual, que pode envolver materialidade, mas conduzida pelo psiquismo) atinge um grau de abstração tão elevado que as faculdades da mente ligadas ao cerebralismo puro são incapazes de acompanhar os conceitos sendo absorvidos. Sendo assim o tempo não consegue acessar (influenciar) essa zona com o peso habitual. Zona em que a mente adentra-se em grande porcentagem. Essas inúmeras gradações num contínuo permeiam a região que é denominada pelos psicanalistas de consciente (razão) - relativa a cada ser humano. O início da travessia marca o início da consciência. O fim dela é sua superação completa, na super-consciência. Nesse (longo) intervalo - a Jornada Multimilenar da humanidade terrestre - vamos sempre aprendendo a subir na consciência, conseguindo fazer uso em pequeníssimas doses da fase seguinte (intuição). Essa travessia foi vislumbrada [2] e sistematizada-exemplificada [3] em ensaios anteriores.

Dessa forma, explica-se como é possível iniciar a conquista da eternidade (superação do tempo) com nossos recursos limitados. Recursos que contêm em germe as dimensões superiores. Basta para isso desdobrar aquilo já presente no íntimo.

No íntimo...

Observações
[1] na música, o acorde é um conjunto de três ou mais notas que se ouve como se estivessem soando simultaneamente. assim como o volume (espaço) contém simultaneamente as dimensões superfície e linha, além de si mesmo.
[2] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/11/um-ciclo-duas-fases-piramide-expansiva.html
[3] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2015/03/sistematizacao-do-processo-evolutivo.html
   





sexta-feira, 1 de setembro de 2017

É Chegado o Tempo das Ciências Humanas? (II)

Há mais de dois anos escrevi um ensaio intitulado "É chegado o tempo das ciências humanas?". Trata de um sentimento calcado no pressentimento. Um vislumbre do porvir. Porvir presente em estado latente. Indiferente às indiferenças daqueles que vivem no plano da superficialidade dos fatos e pressões das obrigações; Indiferente às afirmações limitadas e incertas. Afirmações que negam o inexplicável presente - que deseja ardentemente se fazer explicável, exemplificável e transparente futuro. Bastando para isso a nossa vontade ardente se casar com a nossa sinceridade carente, com a bênção de nossa consciência latente. Só isso, tudo isso.

O que quero dizer com "é chegado o tempo..."? Domínio? Predomínio? Culto? Quem acompanha essa jornada de 4 anos, já com 300 ensaios, nascida num período de explosão coletiva, sabe que a leitura literal das palavras não diz. O que diz é o sentimento comum, universal, acionado (ou não) pela disposição das palavras. Estas nada mais que um meio para despertar o Eu em cada um. Nada mais, nada menos.

Reparem o trajeto da humanidade - nossa História e Pré-História. O que impulsionou inconscientemente as descobertas, os inventos, os atos? As crenças. As filosofias. E conscientemente? A ciência e a técnica. Mas a Ciência nasce da Filosofia. E por muito tempo ela fica estacionada na superfície (Séc. V a XV), dando lugar ao império da Igreja. Após isso, deslancha a Revolução científica, seguida pela técnica que culmina na indústria. Até aí desenvolvem-se as ciências físicas e suas aplicações; a química e suas aplicações; a biologia; a medicina; os formalismos da lógica e da matemática. O Iluminismo prepara terreno para uma nova forma de economia, de sistema político e de utilização das tecnologias.

No final do Séc. XIX despontam a Sociologia e a Psicologia. É óbvio que o estudo do comportamento humano surja defasado do estudo do comportamento da natureza - apesar de nós também sermos naturais e estarmos imersos num mundo físico, dinâmico e orgânico. 

O livre-arbítrio de um átomo é tão reduzido que se traduz em férreo determinismo. Ele obedece com perfeição leis que desconhece. À medida que subimos na escala evolutiva, observamos relíquias do mundo físico (matéria), depois dinâmico (energia) até finalmente chegarmos à vida em sua forma mais elementar (vegetais). Elementar mas essencial, pois ela faz perfeitamente e inconscientemente o que um dia faremos de forma espontânea e consciente: captar energia diretamente da luz (em outro ensaio explicarei melhor). Subimos e vemos o movimento e instintos de fome e sexo (animal). Até mesmo um certo sentimento rudimentar, de identificação com o dono, de memorização, de aprendizagem. Mas um psiquismo baixíssimo, incapaz de refletir sua própria finalidade. Subindo mais fareja-se o biótipo em que a razão eclode desordenadamente: o homem.

Nós somos capazes de estudar tudo abaixo de nós e suas dimensões características: matéria (espaço), energia (tempo). E tudo que se manifesta exclusivamente em nós: vida (consciência). E além, nos planos da super-consciência, em que a intuição coordena o raciocínio, que domina os instintos, que se reduzem ao mínimo indispensável para manter o progresso numa marcha segura e crescente. Essa capacidade surge em nós. E iniciamos por sistematizar aquilo mais embaixo. De modo geral estamos subindo na assimilação consciente dos planos evolutivos, sendo cada vez mais evidente que a cada ascensão devemos não apenas assimilar aquilo que recém-conquistamos, como usá-lo para sutilizar todas as qualidades inferiores, tornando-as mais aptas. Espiritualização da matéria. 

Não são apenas as escalas de tempo que mudam. Nem de espaço. Entram elementos novos. A linguagem. O modo de descrever. O subjetivismo. A mudança frequente. Todos essas novidades são recentes, logo, de pouco uso até então. Estamos em fase de compreensão de fenômenos mais complexos, que se fazem mais visíveis devido aos últimos avanços da ciência e tecnologia, e à forma de organização social. Os ciclos descoberta-assimilação-experimentação-difusão das ciências naturais são muito mais breves do que aqueles das ciências humanas. Primeiro por entrarmos com entidades dotadas de amplo livre-arbítrio - ao menos em relação aos fenômenos físicos e químicos; segundo, como consequência, pelo aumento da complexidade das interações, tornando o desenvolvimento de uma ciência supra-natural, humana - mas que também engloba aspectos do natural, porém com menor peso - um processo lento e incerto em larga medida. Logo, não é razoável tratar experiências econômicas, políticas e culturais como coisas que tendem (devem) a se arranjarem tal qual minérios, bactérias, planetas, dispositivos.

A humanidade começa a aprofundar o conceito de democracia. Volta-se à questão da democracia direta, com todos seus desafios considerando as escalas atuais. O sistema econômico, com sua lógica, é expandido e tende a se transformar cada vez mais num apêndice de um sistema diretor, muito mais essencial à vida, intangível, poderoso, que atua silenciosamente através das pessoas, ao longo da história, moldando e orientando à seu modo, rumo a Deus. Eis que Georgescu-Roegen propõe a incorporação da economia à biologia (Bioeconomia), aplicando conceitos de entropia (2ª lei da termodinâmica) para explicar a insustentabilidade do crescimento indefinido, sem limites. A psicanálise após Carl Jung começa a trabalhar com a hipótese da existência (e preexistência) da alma para diagnosticar seus pacientes. O conceito de inconsciente, ao invés de se prender num subconsciente estático freudiano que comanda um consciente de aparências, - cuja única função é satisfazer de forma mais eficiente desejos desses instintos - se desdobra numa tríade dinâmica composta de subconsciente (instinto), consciente (razão) e superconsciente (intuição). Todas as sementes de um novo pensamento são lançadas no século XX - o último século do segundo milênio.

O conceito de monismo, trabalhado desde tempos imemoriais pelas maiores almas, é sintetizado de forma suprema por Ubaldi. Através de sua obra, Ciência e Religião se entrelaçam, co-orientam e auto-explicam. O panteísmo da imanência e o monoteísmo da  transcendência se fundem num monismo. O criacionismo que afirma a natureza de Deus se une ao evolucionismo que afirma e explica Sua lei. Plantam-se as bases para a Civilização do III Milênio.

Muitos acreditam que a filosofia já cumpriu seu papel. Dentre esses muitos se incluem filósofos dos mais variados tipos que, mesmo não demonstrando isso por afirmações, exemplificam por sua conduta individual engessada. No entanto, os verdadeiros filósofos - sejam eles de profissão, de essência ou ambos - sentem o porvir e asseguram que hoje, mais do que nunca, a Filosofia tem (e terá) um papel imprescindível para conduzir a humanidade rumo a uma transformação substancial como nunca se viu antes em nossos 6 milênios de civilização histórica. Não se trata aqui de inventar um novo sistema filosófico e alimentá-lo egoisticamente para que outros orbitem em torno dele. Trata-se de fundir o melhor de todos os sistemas filosóficos e trabalhar rumo à evolução suprema, sutilizando todas ideias, conceitos, debates, relações, análises e experiências coletivas. Uma filosofia cósmica que não se atêm a formalidades engessantes e percebe seu papel transformador. Uma filosofia não-dualística.

Com os progressos da tecnologia da informação, das redes sociais, das tecnologias múltiplas, do domínio da mídia e da falta de ideais supremos, a vida estagna e a humanidade corrói o alicerce que a sustenta: a Mãe Terra. Com todos seus recursos minerais; suas fontes de energia fósseis; suas espécies (fauna e flora), suas paisagens e climas e relevos e ciclos; com seu poder de atração gravitacional suficientemente forte e fraco para criar condições de vida. Saber o que fazer com o que se tem é imprescindível. A era da Fé cega terminou no século XV para dar lugar a era da Ciência e da Razão. O misticismo medieval, os santos que ardiam de paixão com sua visão, foram relegados ao esquecimento. A Teologia do tipo Igreja não fornece terreno fértil para a aquisição de novas habilidades. O antropocentrismo começa a se desdobrar e assim explode o materialismo. Renascimento; Iluminismo; Formação dos Estados Nacionais; Revolução Francesa; Revolução Industrial; Revolução Tecnológica. E eis que chegamos a um ponto nevrálgico. O sistema econômico que se considera vencedor eterno e absoluto começa a perder adeptos a cada dia. Só lhe resta o uso da astúcia (propaganda e distrações, seja em forma de consumo conspícuo ou trabalho alienado) e força (Estado de exceção, ameaças informais). Mas esse método tem prazo de validade.

O mal age de forma eficiente e rápida, vencendo no curto prazo. Ele tem pressa, pois está encerrado no espaço-tempo, sua dimensão característica, que tende a ser definitivamente superada pela super-consciência (intuição). O bem, por outro lado, age com paciência e aceita humilhações, pois sabe que a eternidade lhe pertence. Ele supera a dimensão espaço-tempo. Logo, engloba o mal, conduzindo-o para seus fins de forma imperceptível. Com Amor e Visão.

"Quem se humilhar será exaltado. Quem se exaltar será humilhado."
Jesus, o Cristo

Dois mil anos e apenas agora começamos a compreender as palavras proferidas pelo nazareno, nas longínquas terras palestinas. Palavras dos longínquos planos da hiper-consciência.

É chegado o tempo das ciências humanas; da educação ambiental; da cultura profunda e diversificada; da ciência orientada; da fé consciente e aberta às transformações internas e externas. É chegado o tempo da Nova Civilização do III Milênio.

Mas para parir essa Civilização teremos de suar, sangrar e até morrer - no mundo. Para que possamos viver num plano mais elevado - e portanto com maior liberdade. Liberdade consciente. 

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Emborcamento do Rumo Natural

Está em curso neste país de forma explícita e, em medida mais discreta - mas firme - na economia do planeta, um anti-projeto que consiste no desmonte de (quase) todas as estruturas, leis e mentalidades geradas ao longo do século XX. A humanidade, após 6 milênios de civilização, permeada de dores e empecilhos, finalmente conseguiu plantar as bases para um desenvolvimento futuro, que serviria de plataforma para a incorporação de outras esferas de vida e assim consolidaria essa base e criaria leis, sistemas e instituições mais em compasso com o trajeto da evolução. Tudo partiria de uma forma mental mais madura, que por livre convicção trabalharia para um bem-estar sustentável, plasmando uma mentalidade focada no necessário. Chegaria-se a um estado de estabilidade dinâmica, com valorização nunca antes vista de atividades, reconhecimento de atrocidades cometidas por governos, corporações, grupos contra povos, natureza e ideias. Serviria, partiria, trabalharia, chegaria,...

Infelizmente me parece que o caminho para renovarmos esse planeta deverá passar por uma dor de proporções incalculáveis, somente igualada pela nossa incapacidade de gerar uma reação proporcional ao maquiavelismo do desafio que se revela cada dia mais claramente. 

Contextualizemos o momento histórico atual do Brasil.

Durante o século passado foi sendo incorporado à nossa legislação uma série de direitos que garantiam uma relativa segurança para os trabalhadores (CLT). Essas leis não visavam abolir a exploração nem interferir com os ganhos - hoje escabrosos - dos grandes conglomerados econômicos, mas apenas garantir que estes não pudessem fazer tudo que bem entendessem para aumentar seus lucros indefinidamente - com uma finalidade cada vez mais inexplicável. Muito menos se objetivava alterar radicalmente o sistema econômico (transcender o capitalismo), para produzir de outra forma. E nem se imaginava a questão ecológica, que incorpora a litosfera, a hidrosfera, a atmosfera e a biosfera como sistemas imprescindíveis à vida - pilares dos ganhos reais econômicos. 

Figura 1 - Getúlio Vargas. Mesmo sendo autoritário, permitiu a
consolidação de direitos trabalhistas - e humanos. Algo que nenhum
dos liberais das empresas, bancos ou elites fez ou desejam fazer.
Aliado às leis trabalhistas, houve um homem que - independentemente de sua vida pessoal que, como a de todos nós, possui erros e defeitos - enxergou que a única maneira de melhorar os rumos do Brasil, tornando-o um país desenvolvido - uma economia capitalista desenvolvida e soberana, independente no real sentido da palavra - era realizando reformas de base. Essas reformas consistiam em remodelar a estrutura do país em setores-chave. Era eles [1]:
  • Reforma Agrária
  • Reforma Educacional
  • Reforma Fiscal 
  • Reforma Eleitoral
  • Reforma Urbana
  • Reforma Bancária

A Agrária visava democratizar o uso da terra por quem precisasse e desejasse produzir nela, além de garantir uma série de direitos a esse tipo especial de trabalhador de forma a reconhecê-los no mesmo patamar (mas não iguais em termos completos) do trabalhador urbano;

A Educacional visava a valorização do magistério (em geral) e do ensino público em todos os níveis (incluindo planos de carreira, salários, aumentos compatíveis, infra-estrutura, material, divulgação, voz aos docentes, etc). Também projetava-se reformar as universidades, acabando com a cátedra vitalícia;

A Fiscal pretendia promover a justiça na área e aumentar a arrecadação do Estado. Adicionalmente havia o objetivo de limitar a remessa de lucros ao exterior, especialmente das multinacionais (cujo poder é, hoje em dia, maior do que muitas economias nacionais). O decreto 53451/64 garantiu isso. Isso em nada se diferenciava da política de economias capitalistas desenvolvidas (EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Japão), que não podiam permitir que mega-empresas de outras nações tivessem ganhos exorbitantes em seus países sem oferecer nada em contrapartida - no entanto alguns acham que isso era "comunismo"...;

A Eleitoral visava extender os votos aos analfabetos e a legalização do PCB (Partido Comunista Brasileiro);

A Urbana visava uma justa utilização do solo urbano, incluindo possibilitar o fornecimento de habitação digna para todas as famílias;

E a Bancária, visando ampliar o acesso ao crédito pelos produtores. 

Essas eram as reformas taxadas (ou sugestionadas) pelos grandes veículos de comunicação, por grupos religiosos, por setores da classe média (e até baixa!) e por toda elite como "comunistas", que levariam o país a uma ditadura sem precedentes, com mortes, prisões e retrocessos. Não se trata aqui de impor um ponto de vista exaltando um presidente, um governo ou uma corrente de pensamento. Muito menos de distorcer a História. Trata-se apenas de expor os fatos, tais quais agora se sabe, e as consequências do rumo tomado ter sido diametralmente oposto ao planejado.

Figura 2 - João Goulart ("Jango"), o primeiro presidente a
vislumbrar a necessidade, falar e sistematizar as Reformas de Base.
As que hoje tentam fazer de forma emborcada...
Todos sabemos o resultado: um golpe militar que durou 21 anos, em que não foi feita nenhuma reforma, o crescimento fantástico foi bom até certo ponto (construção de Itaipu, da Embraer, Angra I e II, investimentos mínimos em ciência e tecnologia), mas insustentável e sem contrapartida social. No campo cultural oficial, pouco progresso também. Violação dos Direitos Humanos e nenhuma pluralidade. 

É importante lembrar que houve um governo - independentemente de nossa admiração ou repulsa ao mesmo - que sinalizou a necessidade de reformas de base para desenvolvermos esse país. E elaborou em linhas gerais o que seria feito, para que (crescimento) e para quem (todos).

Em 1988 iniciou-se um novo ciclo. A Constituição Cidadã foi um dos maiores marcos para a legislação mundial. Pela primeira vez um país com mais de 100 milhões de habitantes incluía em suas leis mais altas o compromisso de oferecer atendimento médico a todos (universal), independentemente de ser aposentado ou não, possuir renda ou não, raça, crença ou escolaridade. O SUS (Serviço Único de Saúde). Seu mau funcionamento não se deve à seus alicerces e premissas, e sim à falta de cumprimento das leis constitucionais desse país (ex: taxação de grandes fortunas) e falta de reformas (ex: tributária), que poderiam garantir sua melhora, que tornariam o Brasil um país com um sistema de saúde universal, gratuito e de qualidade - ao mesmo estilo do National Health Service, NHS, britânico [2]. Além disso, compromisso em garantir alimentação, educação, moradia, cultura, transporte e segurança a todos - em níveis mínimos para uma vida decente. 

Figura 3 - Ulysses Guimarães e a Constituição de 1988.
Início do novo ciclo (Nova República), cujo fim estava
marcado pela própria natureza limitante do mesmo em
implementar o que prometia.
Os governos que se sucederam, independentemente de sua falta de inciativa em alterar uma estrutura cada vez mais apodrecida, permitiram um avanço gradual na implementação dessas leis. Infelizmente a década de 90 viu alguns retrocessos em termos de perda de indústrias importantes (privatizadas) com a alegação oficial de que elas seriam melhor geridas (e trariam ganhos ao país, sua população) se fosse administrada por grupos privados. O resultado disso pode ser sentido no desastre de Mariana (MG). Somado a isso, o descompasso entre ações de venda e valor: A Vale do Rio Doce tinha um valor de mercado estimado em US$ 92 bilhões, mas vendida por US$ 3,3 bilhões. Se o valor de mercado é soberano - segundo a lógica neoliberal - e o país precisava arrecadar recursos para investimentos, porquê uma empresa estatal foi (praticamente) entregue ao setor privado? A partir desses números podemos nos perguntar a real natureza de diversas políticas da década de 1990.

Inicia-se um governo ao estilo Vargas no início do século XXI. A trajetória do protagonista desse novo movimento passou por diversas tentativas - e sempre fora rechaçado. Percebeu intuitivamente que o único meio de conseguir levar a esquerda a (uma parte pequena) do poder oficial era fazer alianças e mudar o discurso. Isso significava logicamente abrir mão de reformas essenciais, radicais - no sentido de transformação profunda e não mexer nos privilégios das elites, nem democratizar os meios de comunicação, nem alterar a política do parlamento. Isso determinava um prazo de validade para todas as políticas, incluindo as sociais (insuportáveis para alguns setores da classe média, habituados a se servirem de pobres - negros, pardos, mulheres e outras minorias frágeis economicamente, em geral - para terem certo nível de conforto). 

Em termos de política externa o país evoluiu em 10 anos mais do que em 5 séculos. Em termos de políticas de alívio ao sofrimentos (mas não redução de desigualdade!) houve progresso inegável: 40 milhões de pessoas passaram a se alimentar diariamente, pessoas miseráveis subiram na escada social, passaram a ter filhos frequentando escola - e por mais tempo - e tendo condições de comprar medicamentos essenciais. O discurso de "estímulo a vagabundagem" é facilmente desmontado com uma análise mais profunda, dotada de senso crítico, que pode ser estudada num estudo pormenorizado anterior [4]. É importante lembrar que o custo do Bolsa Família orbita em torno de 1% do PIB do país, e alivia a fome e doença de milhões. E também destacar que não se trata de uma medida final, mas essencial para inserir todos seres humanos do país nos processos participativos - que ainda existem.

Da mesma forma, a criação de universidades e a valorização das carreiras (todas categorias) foi - ao contrário do que a mídia dominante difunde - feita de modo sustentável [5]. Logo, o argumento de que a queda econômica se deve às irresponsabilidades dos gastos da esquerda institucional nos últimos 13 anos não tem fundamento. 

Nos últimos 13 anos o Brasil implementou, de forma tímida e retardatária, princípios do Estado de Bem-Estar Social da Europa dos anos 50, 60 e 70. Mas mesmo assim setores da alta classe média - que saíram às ruas em 2015 "contra a corrupção"...mas hoje não saem mais...- se sentiram profundamente incomodados com as regalias "anti-naturais" dadas a pessoas "nascidas para servi-las". E com isso foram usadas de instrumentos para servir a forças poderosíssimas e ocultas...

Agora aos erros e defeitos da esquerda institucional - parte deles perdoáveis, por ser impossível de fazer de forma diversa neste mundo atrasado.

É fato que as reformas são apresentadas ao país desde a década de 60. É fato também que sempre que se tentou implementá-las de forma aberta, com diálogo e de forma inclusiva, elas foram barradas por forças poderosas, que não são explicadas, explicitadas ou comentadas pelos meios de comunicação. Agora que estão sendo alteradas profundamente, de modo a não tocar nos reais problemas da nação - que são da humanidade também, em diversas escalas e natureza - são aprovadas a toque de caixa.

Alguns pontos devem ser esclarecidos antes das críticas:
  1. A única maneira de você ter algum poder neste mundo é fazendo concessões, o que implica permitir que suas políticas não causem evolução da consciência, e consequente transformação do sistema e da sociedade, que é regida por este;
  2. Os pactos envolvendo troca de favores (dinheiro) entre parlamentares foi uma característica de todos os governos, desde Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma (e especialmente o do ilegítimo e anti-visionário governo Temer, produto de nossa procrastinação). São os chamados mensalões. A diferença é que a mídia deu tratamento completamente diverso a cada um deles, conforme o grupo no poder estivesse mais ou menos alinhado à sua ideologia. Isso é factual - não opinião;
  3. Nenhum dos governos da Nova República fez uma reforma estrutural. O máximo foi atingido com Lula I e II, com sua política de conciliação;
  4. Nunca foi colocado em debate a lógica econômica a nível oficial, desperdiçando-se uma grande oportunidade;
  5. O fenômeno de Descida dos Ideais [6] é lentíssimo. Implementar mudanças para o melhor, de fato, sem causar reações das elites - especialmente num país que opera segundo a lógica feudal Casa Grande e Senzala - é impossível sem um povo consciente (que é mais que ter cultura e intelecto elevados). Logo, faz-se o que se pode - para evitar dores maiores.

O fenômeno conhecido como lulismo tinha prazo de validade. O Brasil - queles que o controlam - não admitem reformas para o melhor (ex: tributária progressiva, midiática, política, agrária, urbana, educacional), e sim para facilitar os mecanismos de extração de riquezas naturais e força de trabalho, mental ou físico, das pessoas, em diversas intensidades e contextos, por motivos diversificados - mas de mesma substância: remoção de liberdades, aumento de ilusões. A validade se fez com a Carta ao Povo Brasileiro [7], que estabelecia uma promessa de não mexer nos interesses das elites (ver pontos 1 e 5). Com isso o governo do PT, que já subira de forma limitada no Executivo, se torna refém da lógica financeira. 

É importante destacar que o PT e seus aliados nunca governaram de fato o país. As elites brasileiras e o mercado financeiro internacional permitiram à Esquerda brasileira uma pequena atuação (no executivo em larga medida) talvez para acalmar os ânimos da população. Como se estivessem mostrando "olha, eu deixo viu?". Mas de fato, o Legislativo continuou podre em sua maioria, o Judiciário, elitista e intocável pelas urnas (e forma mental elitista) e a Mídia (Globo, Veja, Istoé & Cia) intocáveis em sua liberdade de abuso da informação. Dessa forma, o sistema sempre permaneceu o mesmo. Exatamente igual ao que sempre fora...

Dito isso pode-se esboçar críticas maduras.

A falta de sinalização - apenas isso - para reformas de base acabou golpeando com toda força a esquerda brasileira. A tentativa de estabelecer alianças com entidades que servem aos piores interesses (segregadores, anti-produtivos, regressivos) revelou não ter valor algum. A Globo e Veja agradecem.

Da mesma forma, não abrir espaço para colocar em pauta questões mais fundamentais como a "lógica do crescimento econômico infinito", "a evolução da democracia" (direta x representativa) e até mesmo metafísicas (ex: telefinalismo) acabou por não formar nenhuma base sólida sob a qual se apoiar quando algum golpe viesse - como agora vemos, e em breve todos sentiremos...

Se apoiar no crescimento via consumo para gerar emprego e renda é bom até certo ponto, especialmente para certa parcela da população. Mas deve-se criar uma narrativa [8] para essas pessoas, de forma que elas percebam a importância do auxílio sendo fornecido, dos direitos garantidos, e da finalidade de tudo isso no plano geral. Porque quando o pobre deixa de sê-lo, ao menos num certo nível, é importante fazê-lo manter a memória do que era aquela realidade, e quais as finalidades do alívio. Sem as quais ele poderá atuar de forma consciente e ordenada contra eventuais golpes (como o de 2016).

O fenômeno iniciado em 2013 marcava o fim de um ciclo. Em Junho a população brasileira, simultaneamente se insurge contra o estado das coisas. Não contra um partido, uma personalidade, uma ideologia. E sim contra o sistema como um todo. O modo como as coisas são feitas. A falta de avanços grandes na vida das pessoas. Era o momento das esquerdas usarem para iniciarem uma escalada virtuosa, colocando pautas unificadoras para evitar a captura daquelas pessoas (ou parte delas) pelas forças ocultas (mídia, políticos arcaicos, mercado financeiro, mega-corporações, latifundiários, etc). Mas isso não foi feito. O governo institucional nada fez. Não deu uma resposta à altura do acontecimento.

O que se segui já sabemos. Uma escalada com fins de queda, em que os setores arraigados de ódio - e com influência e poder - saíram às ruas gritando por barbaridades, resumindo os problemas do país a questões tão superficiais que chega a assustar. A capacidade crítica chegara ao zero - e estava saindo do armário sem a menor vergonha. Seria usada por gente com certo intelecto, para implementar as reformas "realmente importantes"...

É preciso ter alguma noção antes de traçarmos alguma opinião da realidade presente. Por isso todo desenvolvimento anterior. Agora que isso foi feito - e lendo as referências - pode-se traçar o que representa as reformas atuais. Reformas andando a um passo nunca antes visto. A pessoa com senso crítico pode se perguntar porque antes elas eram barradas e agora, com um governo sem voto, composto por uma miríada de estadistas afogados até o pescoço em ilegalidades, e uma mídia pré-histórica em suas intenções, elas caminham de forma rápida - sendo a única resistência que impede o avanço total o povo, que tudo começa a perceber em linhas gerais. Lentamente...

O primeiro golpe (PEC 241 ou PEC 55) desvincula os gastos sociais do crescimento econômico. Logo, o crescimento econômico não implicará em "gasto" (investimento) social. Reserva-se uma fatia maior do PIB para pagar uma Dívida Pública não auditada [9], que serve à lógica econômica na moda: crescimento infinito apoiado pela especulação financeira. O vídeo do programa Viva Roda (o avesso da Roda Viva, hoje vendida aos interesses do poder) com Maria Lucia Fatorelli revela o que a mídia não apresenta:



Dos três golpes (Teto dos Gastos Públicos, Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência), a PEC 55 é o primeiro e menos mobilizador da população. Por esse motivo central ela passa tranquilamente em 2016. Isso apesar de inúmeras advertências de políticos sérios [10]. Independente do partido, eles representam o âmago que movimenta os atuais atos políticos no poder legislativo - uma mera marionete dos Bancos e Mega-Corporações. O discurso tem pouca capilaridade. Quantos assistem a TV Senado? Ou melhor: quantos tem tempo, energia e instrução para acompanhar os debates? Daí se conclui com firmeza férrea: tudo está estruturado para que as pessoas não tenham tempo, energia e meios intelectuais de participar dos processos políticos e econômicos deste país.

Figura 4 - Diagrama simplificado do movimento evolutivo. No
eixo das abcissas temos o tempo. Nas ordenadas a evolução.
A curva caracteriza a trajetória evolutiva.
Fonte: A Grande Síntese.
A PEC 55 representa um emborcamento do fenômeno dos movimentos vorticosos [11]. O que isso quer dizer? Significa que essa nova legislação, de acordo com projeções de especialistas, vai contra a lei natural de evolução - em seu sentido mais amplos. 

A Figura 4 revela de forma simplificada o fenômeno evolutivo. É cíclico, constituído de avanços e retrocessos, sendo que os avanços superam os retrocessos num fator de 3 para 2 (3:2) [12]. Se formos observar, em geral, o progresso da humanidade, veremos essa curva oscilante ascensional. Isso confirma que a evolução não se dá linearmente nem em sentido único. Ela é uma espiral que se expande e contrai ciclicamente, com contrações e expansões cada vez mais elevadas, complexas e elaboradas. Dessa forma podemos afirmar que os movimentos vorticosos (dos processos evolucionários da vida, em seu mais amplo sentido) são a soma de três naturezas conhecidas:

Movimentos Vorticosos  = Natureza Cíclica + Natureza Espiral + Natureza Oscilatória

OBS: É importante frisar que a natureza cíclica está contida na espiral. Somente destrinchamos em três para melhor compreensão dos atributos presentes no fenômeno evolutivo.

Ao compararmos o histórico dos gastos primários do Governo Federal (1997-2017), curva em azul, e ver as projeções para os próximos 20 anos (2017-2037), curva em vermelho (Figura 5), percebe-se mais do que um desmonte de uma política de cidadania: desmorona-se o curso natural das coisas. Ou seja, a lei da evolução. Um texto mais específico dá uma ideia das implicações da política (estranhamente) adotada sem participação da sociedade [13].

Figura 5 - Gasto primário do Governo Federal com
área Social (incluindo Saúde e Educação), em relação
às riquezas produzidas pelo país.
Fonte: Tesouro Nacional.
A curva pré-2017 revela que, independentemente do governo (PSDB ou PT), com todos seus vícios e engessamentos típicos, essa base - compromisso - vinha sendo cumprido. Houveram períodos de retrocesso que podem ser facilmente explicados pelo momento global, que se conjuga ao nacional. Em 1997-98 a crise asiática; em 2002-03 o medo do mercado com a chegada de Lula; em 2007-09 e 2011-12 com a crise econômica global em dois momentos - primeiro pelo impacto imediato, depois pelas incertezas se haveria ou não sucessão do programa do PT. A questão é que a cada recaída logo havia uma ascensão, que superava a anterior; e uma nova queda, que retrocedia mas jamais ao patamar da queda anterior. E no geral, a ascensão é evidente. Dessa forma podemos perceber a Lei de Deus sendo cumprida pelas políticas públicas, independente do partido no poder. 

Alguns podem se perguntar pela imperfeição das curvas da Figura 5 comparadas à da Figura 4. Basta nos lembrarmos que os fenômenos medidos por nós experimentalmente, apresentam uma série de erros que se traduzem em imperfeições gráficas. O importante é a natureza do comportamento geral que, como se vê claramente, se triparte: é cíclico (sempre se repete no comportamento geral), é espiral (aumenta sempre no longo prazo) e oscila entre as repetições (devido aos retrocessos sistêmicos).

É importante perceber que esse crescimento relativo não pode se dar indefinidamente - conclusão óbvia - o que é mostrado pelo gráfico: uma curva logarítmica média é traçada para nos dar uma ideia da assíntota e período de estabilização (em torno de 19~20% do PIB). 

Figura 6 - Representação em diagrama polar dos
motos fenomênicos.
Fonte: A Grande Síntese. 
Agora estamos sujeitos a uma nova lei nesse campo, que desacopla "gastos" - que chamo de investimentos - públicos do crescimento econômico. E as previsões são de diminuição relativa, até chegarmos a patamares inferiores aos de 1988. Em suma, prevê-se que estaremos nas mesmas condições de 1990 - uma regressão de 50 anos quando a PEC terminar. Mas sinto que ela não chegará a passar da maioridade e comemorar seus 20 anos: antes disso o país entrará em um estado de convulsão social que demandará a ascensão de um sistema ainda pior OU a renovação efetiva da nação. O desdobrar da História (ainda no futuro) irá confirmar (ou não) as previsões e sentimentos sinceros do autor. 

A Figura 6 dá a visão da lei dos motos fenomênicos de forma mais detalhada.

O gráfico passa a ser visualizado na forma de coordenadas polares (não mais retangulares). O tempo é cíclico, se repete, e portanto se desloca de forma angular; enquanto a evolução substancial (de verdade, que fica inscrita no âmago do Ser, do corpo coletivo, nos instintos) é radial, ou seja, sempre se expande no longo prazo, tendendo a englobar todo o finito - e assim se integrar ao infinito.

Estamos assim saindo do curso natural das coisas que, com todos seus defeitos e dores, ainda assim caminhava para o progresso. Esse descarrilhamento é um dos movimentos necessários à expansão da lógica neoliberal - que nada tem de nova nem de liberal - e pode ser vista como a última grande armadilha do Diabo para impedir o progresso das pessoas nesse planeta.

Quem deseja ter um diagnóstico um pouco mais imparcial, universal e bem intencionado do que está ocorrendo de fato - e como chegamos a essa situação - ofereço a última entrevista de Vladimir Safatle.

Compreenda quem o puder...


Referências
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Reformas_de_base#cite_note-Via_pol.C3.ADtica-1
[2] Assistir "O Espírito de 1945", de Ken Loach: https://www.youtube.com/watch?v=unqe5k7vNBw
[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_S.A. 
      http://nossapolitica.net/2015/12/de-como-fhc-vendeu-a-vale/
[4] http://leonardoleiteoliva.blogspot.com.br/2014/03/dar-opeixe-e-ensinar-pescar-ou-dar.html
[5] ver artigos de Ladislau Dowbor. https://www.carosamigos.com.br/index.php/artigos-e-debates/8497-ladislau-quem-quebrou-o-     
     estado-brasileiro
[6] http://www.pietroubaldi.org.br/a-descida-dos-ideais-3
[7] http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u33908.shtml
[8] para mais detalhes ver Jessé Souza. http://jornalggn.com.br/noticia/jesse-souza-o-desafio-de-desconstruir-os-interpretes-do-brasil
[9] https://www.youtube.com/watch?v=aoioCF2Z9h8
[10] https://www.youtube.com/watch?v=4pn8WmuFVtc  --> Roberto Requião
        https://www.youtube.com/watch?v=qqZEdCujW7Q&t=607s   --> Gleisi Hoffmann
[11] para mais detalhes estudar capítulos 21 a 25 de A Grande Sìntese
[12] para mais detalhes estudar A Grande Sìntese na íntegra
[13] https://www.cartacapital.com.br/blogs/brasil-debate/sem-democracia-austeridade-e-o-novo-2018pacto-social2019-brasileiro